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Índia, dez anos depois
SANTUÁRIO EM MUTAÇÃO
Uma rápida parada na Índia, no meu retorno do Nepal, foi o suficiente para avaliar o impacto da ascensão econômica e tecnológica daquele país no dia a dia do povo: a riqueza trouxe conforto, mas podou a paz
por JOMAR MORAIS

A NOVA ÍNDIA

10/12/2015
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CAMPANHA ELEITORAL EM DELHI: a Índia envolvida com temas que antes pareciam só preocupar a ocidentais: drogas, violência contra mulheres e uso livre do wifi. Na foto menor, JM junto ao ícone de Hanuman, em Rishikesh: ao contrário de 2006, poucos devotos nos santuários e um aumento do fervor consumista. 

ATENÇÃO: antes da leitura deste relato, clique e acesse AQUI a reportagem Índia, a deusa de mil faces sobre o primeiro mochilão de Jomar Morais na Índia, em 2006, tema de edição especial da revista Viagem, da Editora Abril. Foram 45 dias de périplo inesquecível por várias regiões do país.

Há quase uma década, após percorrer 10 mil quilômetros no multifacetado território da Índia, recorri ao roteirista francês Jean-Claude Carrière para resumir minhas impressões. “É difícil amar a Índia”, disse Carrière num livro em que expõe sua paixão por esse país fascinante. Mas, acrescentei na época, é também difícil, muito difícil, não se deixar seduzir pela Índia. E mais difícil ainda esquecê-la. Amando-a ou detestando-a, voltamos para casa com uma marca formatada por choques e êxtases que, de algum modo, nos faz refletir sobre o que jamais pensamos antes.

Foi a paixão, e o pedido de um amigo curioso sobre minhas aventuras mochileiras - o filósofo José Ramos Coelho -, que me trouxeram de volta ao palco de meu  maior mochilão, fonte de minha melhor matéria jornalística, chave de ouro com que encerrei meu ciclo de 40 anos em Redações. E, apesar da brevidade da passagem, aproveitando a sobra de tempo de um mochilão no Nepal, ter esse momento de intimidade com a amada trouxe de volta antigas emoções e a constatação de que, no passado, fui bastante modesto em minhas previsões sobre o futuro da Índia e de sua cultura milenar.

Ainda é possível ver aqui ocidentais atordoados com o choque entre suas idealizações e uma Índia real feita de barulho, poeira, multidões e temperos fortes. Mas a verdade é que a velha Índia, mais rica e poderosa, está cada vez mais parecida com o Ocidente.

Nova Delhi, a capital, e Mumbai, a São Paulo indiana, são os maiores espelhos dessa mudança. Delhi ganhou um aeroporto que se encontra entre os melhores e mais high-tech do mundo e tem agora um metrô expresso luxuoso e silencioso sem paridade no planeta. As vacas e os elefantes sumiram de sua área central, que se encheu de semáforos, a população tem sido encorajada a largar o hábito de cuspir nas calçadas e os turistas advertidos sobre a esperteza dos “touts”, os atravessadores.

As vias de acesso à cidade estão repletas de shopping centers gigantescos. Suas ruas, em tempo de eleição, exibem pautas sociais que surpreendem, mesmo quando se considera que há décadas a Índia é uma potência tecnológica, uma democracia vibrante e uma das maiores concentrações de PhD do planeta. Trabalhadores e estudantes conseguiram organizar um partido forte, o AAP (Partido do Homem Comum), que tem propostas audaciosas para a sociedade. Nas eleições municipais do último dia 7, o AAP disparou na conquista de cadeiras no Parlamento municipal de Delhi e de outras cidades, um fenômeno que a imprensa indiana rotulou de "tsumani AAP".

Há menos hindus rezando, nos fins de tarde, nos pequenos santuários de rua. Em compensação, os “kirtans” dos canais de TV religiosos estão cada vez mais parecidos com o padrão Igreja Universal. Até mesmo em Dharamsala, reduto tibetano na Índia, onde me encontro agora, ecoa mais forte nas ruas o som da música pop produzida em Mumbai do que os mantras que, no passado, constituiam uma espécie de trilha sonora do dia a dia.

Em 2006, sugeri aos interessados em conhecer a única cultura ancestral viva em pleno século 21 apressarem-se em pegar um avião para a Índia. Nove anos depois, ainda apaixonado por essa terra fantástica - mas agora perplexo com a velocidade das mudanças - temo que já não haja tempo.
    
[ Publicado na edição do Novo Jornal de 10/02/15 ]
SINAL DOS TEMPOS - Preste atenção ao detalhe da oferenda aos pés do Buda Sidarta, no altar do principal templo budista de Dharamsala: o Tsug Lakang, também conhecido como o "templo do Dalai" por situar-se na área da residência do Dalai Lama e ser o local onde ele costuma aparecer em púbico. Em vez dos tradicionais bolinhos de arroz, frutas e flores, ali estão biscoitos finos "low fat, 0% colesterol" e mel industrializado. Buda em dieta... É tudo tão arrumadinho (há uma réplica do pacote junto a outra perna do ídolo), que chego a imaginar que se trata de merchandising de alguma indústria solidária com a comunidade tibetana no exílio.
FRUTOS DO DINHEIRO - na foto acima, a área da Imigração no novo aeroporto de Delhi, um dos melhores do mundo. Embaixo, o metrô expresso high-tech que liga o aeroporto ao centro da cidade.
TEMPLO DA RIQUEZA - colossal e luxuoso, o Lakshmi Narayan Mandir, templo construído na área central de Delhi, é deslumbrante e moderno. Lakshimi, esposa do deus Vishnu, é a "deusa da fortuna". Seu super templo também é conhecido como Birla Mandir, por ter sido construído pela família Birla, uma das mais ricas da Índia.
BRINCANDO DE SER INDIANO - JM no Connaught Place entre cabos eleitorais do AAP (Aam Aadmi Party, ou Partido do Homem Comum), a novíssima força política da Índia, que surgiu da luta contra a corrupção endêmica no país. O AAP propõe reduzir os salários dos políticos, restringir o trabalho militante a voluntários e acabar com os consultores que fazem o jogo dos interesses privados na administração pública.
FORÇA MUÇULMANA - em Old Delhi, a mesquita Jama Masjid, a maior da Índia, simboliza a força do Islamismo no passado e no presente do país.
DEVOÇÃO NO GANGES - Jomar Morais e José Ramos Coelho em Rishikesh, a capital do Yoga na Índia, revelada ao mundo pelos Beatles, que lá aprenderam meditação com o Guru Maharishi nos anos 1960.
O TIBETE INDIANO
NA MECA DO BUDISMO - Jomar Morais (à direita) e o filósofo José Ramos Coelho chegam a Dharamsala, a cidade acomodada entre florestas em colinas e picos cobertos de gelo durante o inverno que, em 1959, acolheu o Dalai Lama Tenzin Gyatso e milhares de tibetanos que fugiram de seu país, invadido pela China.
Um minuto para o Tibete

A questão do Tibete, o país mais alto do mundo, situado no norte da cordilheira do Himalaia, invadido e anexado à China pelo governo de Mao Tsé-tung, parece mais complexa do que sugerem argumentos e emoções em torno dessa pendenga internacional.

O Tibete tem 2 100 anos de história e, em sua origem, foi uma monarquia belicista até que, no século 7, sob a influência do imperador erudito Songtsen Gampo e do Budismo, tornou-se o povo pacífico que conhecemos. Vem dessa época a ambição chinesa por seu pequeno território, invadido e dominado pela primeira vez no século 18. A independência, reconquistada em 1913, jamais seria aceita pelos chineses que, excitados pela revolução comunista de Mao, retomariam o controle da região em 1950, sem que a ONU se opusesse a esse ato.

A questão tibetana só sensibilizaria o ocidente depois da fuga do 14º Dalai Lama para a Índia, já no contexto global da “guerra fria” e da polarização entre capitalismo e comunismo. Mas ela é maior que interesses políticos e econômicos, embora relegada a terceiro plano no atual tabuleiro diplomático, subjugado à economia. Trata-se de uma questão humana e ética que merece não ser esquecida.

Há 15 dias, em Dharamsala, na Índia - reduto de refugiados e sede do governo tibetano no exílio -, tive a minha indiferença ante o Tibete provocada pelas imagens fortes do Monumento dos Mártires do Tibete e do Museu do Tibete, ambos situados junto à casa do Dalai Lama Tenzin Gyatso. Claro, é uma visão parcial, mas que nos desperta para a real dimensão do problema.

Como não se indignar diante da imagem do menino Gedhun Choekyi Nyima, sequestrado em 1995 junto com a sua família, e, desde então, prisioneiro político do governo chinês pelo simples fato de ter sido proclamado, pelo Dalai Lama, como a reencarnação do Panchen Lama, o segundo na hierarquia religiosa tibetana? Na época, Nyima tinha apenas 6 anos de idade. O governo chinês determinou que outro menino, Gyaincain Norbu, filho de um membro do Partido Comunista, é a verdadeira reencarnação do Panchen Lama.

Atentados aos direitos humanos, como esse, compõem com a lavagem cultural que vem sendo feita no Tibete uma espécie de genocídio moderno no qual a alma de uma nação, a sua identidade, é dizimada. A chamada Região Autônoma do Tibete viu sua economia tornar-se robusta na esteira da explosão econômica da China e, certamente, sua população desfruta hoje de uma qualidade de vida que seus antepassados jamais tiveram. Mas...

A história nos dá exemplos de nações e etnias que resistiram, durante séculos e até milênios, ao furor de  dominadores, conseguindo preservar sua identidade cultural mesmo sob diáspora. Os judeus constituem, talvez, o caso mais emblemático desse tipo de resiliência. Só o tempo, porém, nos dirá se os tibetanos sobreviverão ao furacão chinês num mundo indiferente ao seu clamor.
                                                                                                                 [ Publicado na edição do Novo Jornal de 24/02/15 ]
A CASA DO DALAI - uma selfie de JM em frente à casa do Dalai Lama, situada no lado oposto do largo onde se encontra o templo Tsug Lakang.
HONRA AOS MÁRTIRES TIBETANOS - monumento na entrada do complexo que reúne o templo Tsug Lakang, um mosteiro e a casa do Dalai Lama.
VIDA E CORES DE DHARAMSALA - com suas vestes típicas cor de vinho, a comunidade tibetana em Dharamsala dá um colorido especial à cidade que até poderia ser rotulada de "Vaticano budista"
A segunda visita de JM à Índia é parte de um mochilão que teve início no Nepal, três meses antes do terremoto que abalou o país em abril de 2015. Assim, também recomendamos a leitura do relato de JM sobre a rica cultura nepalesa na reportagem O Nepal Que Eu Vi Antes da Terra Tremer