Ano 25                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens

25
anos

Destaque do dia | Planeta*Zap
Para receber via Whatsapp diga "Sim" e seu nome em mensagem para (84) 99983-4178
Sextech, revolução que
a tecnologia faz no sexo
Foto Silvia Izquierdo
Namoro do futuro já é possível com o uso de dispositivos que, acoplados ao computador, permitem carícias à distância
Publicado originalmente no jornal El Pais
O que é ‘sextech’ (o sexo que praticaremos no futuro)?

Robôs idênticos a seu ídolo favorito, ou a seu ex-amor, e aparelhos que fazem você sentir as carícias de uma forma cem por cento remota. A linha entre o sexo real e o virtual está condenada a desaparecer

A união entre tecnologia e sexo nos permitirá em apenas uma ou duas décadas explorar universos íntimos ainda difíceis de imaginar.

A união entre tecnologia e sexo nos permitirá em apenas uma ou duas décadas explorar universos íntimos ainda difíceis de imaginar.

Em 2045, um em cada cinco jovens fará sexo com um robô de forma habitual, dizem estudos.

Cientistas como o dr. Ian Pearson vão ainda mais longe e garantem que, a essa altura, serão mais frequentes as relações sexuais entre humano e androide (ou ginoide, quando têm a aparência de mulher) do que entre pessoas.

O sexo de amanhã será cada vez mais tecnológico, mas não só porque se popularizarão os bonecos com formato humanoide equipados com Inteligência Artificial e sistemas operacionais sofisticados.

Teremos também a possibilidade de acariciar nosso par mesmo que esteja a centenas de quilômetros de distância,

imprimir em 3D uma réplica exata dos órgãos genitais de outro ser humano e depois coordenar seus movimentos com um aplicativo móvel ou utilizar tecnologia que nos faz sentir em nosso próprio corpo o orgasmo de várias pessoas simultaneamente.

O sextech, a união entre tecnologia e sexo, nos permitirá em apenas uma ou duas décadas explorar universos íntimos ainda difíceis de imaginar. Se a década de 70 do século 20 trouxe uma nova sexualidade e desafiou tabus arraigados, estamos no alvorecer de uma revolução muito maior: uma que se impregnará em nossos lençóis, e mais uma vez com a tecnologia no comando.

Espera-se que daqui a 20 anos esse mercado seja três vezes maior do que é hoje e possa se multiplicar por sete até 2050. “Estamos prestes a testemunhar o crescimento dos digisexuais: pessoas que fazem sexo quase exclusivamente com máquinas”, segundo Neil McArthur, professor universitário canadense com livros dedicados ao assunto.

Nesse contexto, é provável que sintamos emoções opostas ao visualizar a ardente cena erótica entre Theodor (Joaquin Phoenix) e a robô Samantha do filme Ela: uma obra que nos mostra, com grandes doses de emoção, a relação amorosa entre uma pessoa e um sistema operacional. Com uma linguagem muito íntima e sensual, Theodor e Samantha se dizem coisas como: “Quero tocar seu rosto, os seios, a ponta dos seus dedos”, “Você vai me beijar?”, ou “Posso te saborear?”. Às vezes, achamos difícil esquecer que Samantha não tem sentimentos: ela é apenas uma máquina muito avançada. Não foi o único filme que retratou com eloquência o cenário mais provável de relacionamentos futuros entre pessoas e tecnologia. Ex Machina: Instinto Artificial (2015), Boneca Inflável (2009) ou algum capítulo da série Black Mirror são outros exemplos.

Embora pareça apenas ficção científica, já existem no mercado recriações que seguem esse caminho.

Assistimos ao nascimento de robôs concebidos para práticas sexuais, como o Harmony, a primeira máquina erótica com Inteligência Artificial, apresentada em 2018 pela empresa Real Doll. É uma boneca em tamanho real que custa cerca de 14.000 dólares (73.000 reais), capaz de falar, de memorizar as preferências de seu parceiro ou parceira e de realizar práticas sexuais como sexo a três ou surras com chicote, se for disso que gostamos. A mesma empresa lançou recentemente Henry, sua versão em androide. Outros exemplos são Emma, da empresa chinesa AI-AI, ou a completa boneca Samantha, nascida de uma mente espanhola: a do especialista em nanotecnologia Sergi Santos, que confessou ter criado esta invenção porque sua mulher não satisfazia seus desejos sexuais. Samantha também tem a peculiaridade de interromper suas funções se a outra parte se comporta de forma abusiva com ela. Embora esse tipo de invenção tenha muitos detratores e não poucas vozes opositoras, em muitos países não há uma legislação clara que permita sua proibição ou que estabeleça limites para esses produtos.

O relatório Futuro of Sex, produzido por vários especialistas da área, afirma que poder fazer sexo com um ex será uma realidade que não demorará muito a chegar às nossas vidas. Também será possível recriar pessoas do nosso entorno, como nosso próprio ex-marido ou mulher. E não só escolher o físico do nosso sexbot (robô sexual), mas também personalizar aspectos como seu grau de timidez, simpatia ou apetite sexual. Uma vez customizado, será possível manter conversas com ele, empreender atividades conjuntas como qualquer outro casal faria e, claro, realizar diferentes práticas sexuais.

Geralmente são feitos de silicone, mas a ciência explora diferentes materiais que são cada vez mais semelhantes ao toque da pele humana.

As bonecas projetadas por Santos são feitas com elastômero termoplástico: um componente que dá a sensação de se tocar uma mulher real.

Esses produtos possuem sensores térmicos capazes de reagir ao toque, enquanto a Inteligência Artificial cuida de lembrar das preferências sexuais do usuário e se adaptar a elas.

No Japão, por exemplo, é cada vez maior o número de pessoas com parceiros virtuais, o que nos faz lembrar de Akihiko Kondo, que ficou famoso em todo o mundo por ter se casado com um holograma. Existe uma relação entre o avanço dessa tecnologia e o perigo de perder a conexão natural com outras pessoas? Coincidência ou não, o Japão é um dos países que estão na vanguarda da digitalização sexual e costuma lotar a capacidade de seus eventos pornográficos virtuais, mas é também uma das nações onde a idade da primeira relação sexual é mais tardia: quase dois em cada quatro japoneses de 30 anos ainda são virgens.

Os robôs não são os únicos brinquedos sexuais inteligentes que transformarão a vida sexual num futuro próximo. Em 2035, na maioria dos quartos dos países desenvolvidos haverá brinquedos sexuais, geralmente para serem usados em ambientes de realidade virtual.

O cientista Ian Pearson, um dos futurologistas líderes neste campo, distingue três tecnologias importantes que irão ter impacto no segmento: Inteligência Artificial, robótica e tecnologia active skin. Esta última “fará com que dispositivos microscópicos sejam inseridos na pele humana, muito perto dos vasos sanguíneos e dos nervos, o que permitirá a uma Inteligência Artificial externa receber informações sobre as respostas sexuais da pessoa, podendo registrar e reproduzir sensações”, conta este especialista ao EL PAÍS.

No caso dos robôs ou androides, “eles podem usar essa tecnologia para estimular diretamente o sistema nervoso, ajustar suas atividades às técnicas ou fantasias de que a pessoa mais gosta, com informações baseadas em uma reação muito precisa em tempo real, que será muito mais eficaz do que a intuição que as pessoas agora usam para tentar perceber o que agrada ao parceiro durante a relação sexual”, acrescenta. O especialista está convencido de que “depois de algumas sessões em que a máquina tiver aprendido e criado uma biblioteca de sensações sobre o usuário,

fazer sexo com um robô equipado com Inteligência Artificial será muito mais gratificante do que com qualquer ser humano”.

Em contraposição a essa afirmação, a sexóloga e psicóloga Laura Morán diz por que considera que essas invenções não serão capazes de substituir os humanos no médio prazo: “É improvável que um robô saiba atender às demandas eróticas e afetivas tão próprias das pessoas”.

Um dos campos em que haverá maior progresso é o do sexo remoto. Pessoas que mantêm relacionamentos a distância hoje têm muito mais facilidade para esse envolvimento do que os casais de uma ou duas décadas atrás. Agora podemos ver e ouvir a outra pessoa em tempo real, até mesmo fazer sexo graças aos produtos da teledildônica, como vibradores inteligentes interativos ou masturbadores masculinos que permitem sincronizar sobre o pênis os movimentos exatos de um vídeo. Também existem almofadas aptas a reproduzir os batimentos cardíacos do parceiro ou aparelhos como o Le Kissenger, capaz de aproximar dos nossos lábios, através de sensores de força, o beijo do nosso amado ou amada, mesmo que esteja do outro lado do mundo.

No entanto, em breve, moldar-nos a isso será algo quase antiquado: já estão em desenvolvimento aparelhos sexuais tão avançados que nos farão sentir as carícias de nosso parceiro de forma cem por cento remota e impressoras que nos permitirão reproduzir, de nossa casa, suas partes íntimas em 3D para senti-las conosco o tempo todo. E ainda haverá os trajes hápticos que nos farão sentir todos os tipos de impulsos eróticos em qualquer zona erógena do corpo. O sexting também dará uma guinada de 360 graus: os aplicativos e redes sociais não servirão apenas para compartilhar conteúdo ou conhecer pessoas, mas também será possível manter 100% da relação sexual dentro do próprio software. Isso será feito porque os aparelhos não só vão transmitir imagens e sons como agora, mas também reproduzirão no cérebro a ilusão de compartilhar aromas e carícias, variações de temperatura ou diferentes níveis de força, contando com a contribuição de disciplinas como a neurociência.

As inovações no campo da realidade virtual permitirão recriar cenários eróticos interativos, participar de jogos sexuais online com vários participantes ou criar avatares sexuais. Será possível fazer sexo totalmente à la carte: escolher o local onde queremos que o encontro aconteça, as características físicas, a voz, as roupas, até mesmo a personalidade ou posições sexuais que queremos que nossos parceiros adotem. Prevê-se que os hologramas melhorem drasticamente nos próximos anos. Em outras palavras, a linha entre sexo real e virtual está condenada a desaparecer.

“Faltam apenas alguns anos para que se possa pagar a uma estrela pornô ou outra pessoa para que nos ofereça uma sessão de sexo oral virtual que, graças a um dispositivo especialmente projetado para esse fim, proporcione a mesma sensação física que se teria se o ato estivesse sendo praticado na realidade “, diz a terapeuta sexual Bryony Cole.

O sexo do futuro, segundo o mesmo relatório, passará por tecnologias que meçam com precisão nosso grau de satisfação, descobrindo padrões em nosso desejo sexual. Uma combinação de Inteligência Artificial e tecnologia sexual poderia ter a capacidade de melhorar muito a qualidade de nossos orgasmos. A estimulação mecânica poderia nos dar maior controle sobre o prazer do que a humana. Será possível pré-configurar facilmente cada clímax: determinar o tempo que queremos dedicar ao prazer, a intensidade, até cruzar esses dados com os do nosso parceiro ou parceiros para ter como resultado um encontro sexual muito mais agradável.

“O futuro do setor de sextech está ligado à Inteligência Artificial, mas também ao Big Data”,


explica Patricia López, especialista em bem-estar sexual masculino e CEO da Myhixel. “As duas tecnologias serão utilizadas para prever comportamentos, gostos e padrões, e não só para obter mais prazer, mas para nos garantir práticas sexuais mais saudáveis e de mais qualidade, por meio de dispositivos como acelerômetros, que já estamos desenvolvendo”. Em outras palavras, a tecnologia no futuro nos ajudará a controlar problemas como a ejaculação precoce, a aprender mais sobre nosso corpo e a obter clímax personalizados.

A realidade aumentada e o entretenimento imersivo também contribuirão para mudar as relações sexuais. Cenários virtuais em que cada parte pode escolher a temperatura, o aroma do ambiente, a música que o ajuda a se conectar e uma série de fatores sob medida para ter como resultado uma experiência sexual à la carte e altamente criativa. Embora já existam vaginas e pênis criados em laboratórios e wearables capazes de medir a velocidade e o número de repetições durante a relação sexual, a força do impulso e algumas métricas relacionadas à satisfação, teremos, em não mais de duas décadas, aparelhos que fazem medições muito mais confiáveis e que poderão desafiar os limites atuais de prazer.

“O sexo do futuro será altamente gamificado e isso nos posiciona diante do risco de criar cada vez mais padrões em torno de como deve ser a satisfação íntima e nos perguntarmos até que ponto a tecnologia pode desumanizar a sexualidade”, diz Laura Morán.

O relatório Future of Sex também prevê a evolução de um tipo de software que, com a ajuda de aparelhos auditivos neurais, será capaz de nos equiparar a pessoas com padrões cerebrais semelhantes.

Desta forma, a tecnologia ficará encarregada de localizar uma espécie de “parceiro sexual ideal”,

como garantia de relações íntimas de qualidade (já existem projetos biotecnológicos que propõem algo semelhante, como o uBiome). Fala-se até de uma camada especializada da Internet das Coisas: a Sexnet of Things, em que tudo estará conectado, inclusive a nossa forma de fazer amor.

O que parece fora de questão é que o negócio do sextech ganhará em volume e popularidade, e cada vez mais pessoas estão dispostas a fazer a tecnologia entrar em seu quarto como um a mais. No final das contas, argumentam os defensores, esse tipo de encontro evita a gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, aumenta a segurança pessoal e permite relacionamentos sem a necessidade de contato físico (ideal em tempos de pandemia). Também se destina a fins terapêuticos e é uma ótima solução para pessoas isoladas por motivos diversos ou que decidem não ter um par.

Mas essa mudança na forma de se relacionar também traz consigo novos debates éticos, morais e jurídicos,

que nos levam a nos perguntar onde estão os limites da intimidade e da privacidade das pessoas, bem como conter perigos como um possível aumento do vício em sexo ou a diminuição da conexão emocional com outras pessoas. Zoltan Istvan, um transumanista que foi candidato à sucessão de Donald Trump na Casa Branca, já alertou: “Se os cientistas conseguirem reproduzir no cérebro orgasmos e carícias em pontos erógenos, usando apenas capacetes ou chips, poderíamos estar diante do princípio do fim do sexo como o conhecemos hoje”.

O sexo de amanhã realmente mudará tanto? Devemos ficar alarmados quando constatamos que os millennials, a geração digital, também são os que fazem menos sexo com outras pessoas do que seus antecessores? Se há uma coisa em que todos os especialistas concordam, porém, é o seguinte: a civilização pós-Satisfyer não conceberá o sexo sem ter as máquinas presentes, de uma forma ou de outra.