A noite cai sobre o Recife
e as últimas vuvuzelas, estridentes,
ainda anunciam na Conde da Boa Vista:
a Seleção vem aí...
É Copa do Mundo de futebol
No alto da passarela,
meu coração dispara,
mas sou agora um estranho
no barulhento ninho verde e amarelo.
As cornetas me puxam na linha do tempo
e, aos meus olhos, enternecidos,
a avenida é a mesma, mas a festa
é outra - o carnaval de 1953.
Driblando zé-pereiras que tocam bumbos
e trompetes que turbinam frevos,
o atleta da bola, desamparado,
está em luta contra o tempo
na sua maior missão fora do gramado:
sequestrar um médico,
arrancá-lo da fuzarca, e salvar o sonho
de um jovem casal de amantes.
A algumas quadras dali
um bebê chora e delira.
Nos braços inexperientes da mãe,
uma vida frágil disputa espaço com a morte.
Na pradaria da memória, as vuvuzelas esmaecem
e agora, em mim, palpita o coração do atleta.
Angústia, medo, suor.
Coragem, fé, determinação.
Uma noite interminável em minutos,
um troféu duradouro pela vitória sobre o abismo.
E aqui estou eu, aos 73,
honrando a memória de meu herói,
ainda embalado
pelo carinho de minha mãe,
caminhando em êxtase sobre um chão de estrelas.
Papai, por que o amor nunca cobra
por seus frutos de dedicação e renúncia?
Por que, ao revelar-me sua epopeia longínqua,
você o fez com tanta leveza, sorrindo,
relevando sua dor e sua aflição?
Porque o amor se basta e se recompensa
no próprio ato de se dar,
ouço dos Céus neste anoitecer de fortes emoções.
Como as muralhas de Jericó ante as trombetas de Josué,
os muros de minha fortaleza sucumbem ao som das vuvuzelas.
Meus olhos encharcados te invocam, meu herói,
e te arrasto pelo túnel do mistério
para, diante Deus, agradecermos
pela honra de ser filho
e pela alegria de ser pai.
[ Escrito ao anoitecer de 19/06/2026, no alto da passarela da Avenida Conde da Boa Vista, em Recife, PE, ao reencontrar, no campo vasto do coração, meu pai, o grande Tidão do ABC, enfrentando o dragão da morte para salvar o seu bebê ]
Na noite chuvosa e fria,
a estrada é longa
e o ronco do motor é mantra
que desperta a alma
em meu corpo exausto de aventura.
No escurinho do ônibus,
no conforto da poltrona reclinada,
o relaxe que descamba em toque
e o toque que deságua em fala:
um assustado pedido de desculpa
e o inesperado desvio do diálogo.
Vozes mansas descrevem vidas
em traços de cenas simples,
o cotidiano de encontros e desencontros.
Paralelas de vivências subitamente
cruzadas no trivial que oculta e revela
os fundamentos de uma existência.
Quem escreveu este roteiro,
ordinário e sem clímax,
para entreter-me no caminho,
cancelando meu repouso
após um sábado de emoções?
Quem nos guia neste papo imprevisto,
almas aquecidas em trocas sem cálculo
- e o arremate de um convite corriqueiro
que descamba em insight
estimulante da mente e do coração?
Na trégua da chuva,
por entre gotas que escorrem na vidraça,
Maya, no minguante, pisca para mim
e, outra vez, decifro
seu código secreto: "Carpe diem!" (*)
O Primeiro sem Segundo (**) é brincante incansável
e eu adoro suas ternas surpresas,
nas encruzilhadas da vida,
na escuridão da noite.
[ Escrito no domingo 07/06/2026, após uma viagem de retorno à casa, na noite anterior, em que o acaso, esse outro nome de Deus, guiou-me em três etapas: na decisão de antecipar o retorno, o que me levou à troca da passagem adquirida, na cessão de minha poltrona a uma filha que queria viajar ao lado da mãe e no impulso de esperar que todos se acomodassem na cabine do ônibus para que eu, randomicamente, viesse a sentar no primeiro lugar disponível ]
(*) "Carpe Diem", frase cunhada pelo poeta romano Horácio (65a.c.-8a.c.) significa colha o dia, desfrute o dia.
(**) Primeiro sem Segundo é expressão da filosofia Advaita, uma das vertentes do Hinduísmo, usada para afirmar o monismo universal: Deus como a única realidade do ser e o universo e todas as suas manifestações como expressões diferenciadas da Consciência absoluta.
Na noite fria da campina,
na treva da Lua Nova,
meu coração apaixonado,
dançando num corpo marcado pra morrer,
diz em silêncio "te amo"
e alimenta o mistério do triângulo inefável.
Por que te amo
e esse amor não doi?
Porque somos três.
Por que me amas
e esse amor não te aflige?
Porque somos três.
Na noite fria da campina,
o sagrado abraça o profano
e santifica o efêmero no eterno.
Entre eu e tu: Ele,
origem e ápice
desse fantástico triângulo de aparências.
Na lâmina do espelho d'água,
vejo-me e te enxergo
no reflexo onipresente.
Por que te amo?
Por que me amas?
Por que nos perdemos na abundância
do amor despojado,
que consagra
prazeres da carne e do espírito.
Sagrado profano!
Profano sagrado!
E assim, campina enevoada,
o Primeiro sem Segundo (*)
brinca de renovar a vida
e forjar relações
na deliciosa escuridão da Lua nova.
[ Escrito na tarde do domingo 17/05/2026, com corpo e alma flutuando na descida da serra da Borborema ]
(*) A expressão "Primeiro sem segundo" tem origem nos Upanishads, textos sagrados que compõem a parte final dos Vedas. Ela afirma o monismo absoluto e a não-dualidade, apresentando a Divindade (Brahman) como única realidade existente. Tudo mais é manifestação ou expansão dessa mesma Consciência Suprema. Essa visão é o pilar central do sistema filosófico Advaita Vedanta, um dos ramos do Hinduísmo, consolidado pelo filósofo hindu Adi Shankara no século 8.
Na noite fria da campina,
na treva da Lua Nova,
a memória dos lindos versos de Wescley Gama,
provoca meu coração apaixonado:
Wescley:
"Quem sou eu
sentado
sozinho
num canto
de olhos fechados
respirando?
"Quem é você
de olhos fechados
num canto
sozinho
sentado
respirando?"
E eu, em transe,
num corpo marcado pra morrer:
Quem sou eu,
de olhos fechados
na imensidão da campina,
sozinho e acompanhado,
meditando e uivando,
para a treva da Lua Nova?
Quem sabe... uma chama bruxuleante
comemorando
o brilho e as cores
da luz intensa e perene,
refratada no prisma
do Primeiro sem Segundo. (*)
[ Escrito na manhã do domingo 17/05/2026, em Campina Grande, ao término de um final de semana terno e inesquecível ]
(*) A expressão "Primeiro sem segundo" tem origem nos Upanishads, textos sagrados que compõem a parte final dos Vedas. Ela afirma o monismo absoluto e a não-dualidade, apresentando a Divindade (Brahman) como única realidade existente. Tudo mais é manifestação ou expansão dessa mesma Consciência Suprema. Essa visão é o pilar central do sistema filosófico Advaita Vedanta, um dos ramos do Hinduísmo, consolidado pelo filósofo hindu Adi Shankara no século 8.
Ó meu brother da savana longínqua,
os tambores me levam a você.
Os versos atravessaram o oceano
e agora dissolvem minha fortaleza.
Miss you!
Águas turbulentas
do sentimento que não se explica...
Mom, tuas lágrimas escuras
cruzaram o mar em ondas plácidas
e fizeram tsunami em mim.
Ó tambores de maracatu,
cessai todos os toques,
o coração de um velho vai explodir.
Recife Antigo é pequeno
para as emoções infladas.
Sombras cruéis do Transvaal
se estenderam no tempo.
Ó injustiças do ontem, porque
vos replicais no hoje?
Por que insistis em roubar dignidades?
Mom! Teus filhos perambulam no Ponto Zero.
Ó brother da savana urbana,
os tambores do Yalu me trouxeram a ti.
Teus olhos serenos, negro banto,
sequestram minha paz ilusória
com a rapidez com que sequestraste
a baqueta do percussionista
para teu show logo sequestrado pela intolerância.
Eu vi...
Teus olhos serenos, serenamente mantidos
como a pedir algo, em silêncio...
O vapor emergindo do gel alaranjado,
aspirado com calma, da garrafinha,
enquanto teu olhar continuava a falar,
em meio ao barulho de atabaques e maracas.
Até que a ordem te induzisse a retomar
teu rumo de zumbi, em paz...
Ó brother do Transvaal de hoje, nada mudou para ti.
Quanto pesa teu fardo de dores inomináveis?
Quanto te machuca ser invisível e apartado?
Quanto te desespera a fome diária?
Neste fim de tarde, em que tambores de maracatu
levaram-me de volta às savanas de mamãe África
e ao horror do Transvaal de ontem,
meus olhos choram com os teus
e, então, atrevo-me a questionar tua larica imposta.
- Fome de quê, meu irmãozinho, meu lindo filho do mangue?
E meu coração, empático, responde: Fome de amor!
[ Escrito na noite de 26 de abril de 2026, ao som da canção "Umoya Wendlela" (O Espírito do Caminho), interpretada em zulu e inglês por um coro de adultos e crianças africanas, e uma semana após minha tarde de emoções no Ponto Zero, no Recife, durante o ensaio de rua do maracatu Yalu, evento que me transportou às minhas experiências na África do Sul ]
Pela fresta da Passagem,
teu raio argênteo, certeiro,
alcança o âmago de meu êxtase
neste corpo marcado pra morrer.
Ó Maya, outra vez me enfeitiçaste!
O suor escorrendo entre meus pelos
revela a incomparável mistura.
O suco doce da ascese
gerado nas entranhas da carne.
Sagrado profano!
Profano sagrado!
Ó Maya, poderei um dia escapar a teus sortilégios?
Sussurros lânguidos, gemidos consentidos.
A mão aveludada domina a face e o coração.
Sim, tens o controle da sedução e do prazer.
Dos prazeres de fato, do corpo trêmulo ao espírito sereno.
Ó Maya, por que me arrastas pelo túnel do tempo?
Puxar os fios da memória, trazer à luz as alegrias ocultadas.
Revisitar a campina e rolar nos pastos.
Enlamear-se no sumo das entregas
e vislumbrar Deus no mistério dos encontros fortuitos.
Sagrado profano!
Profano sagrado!
Que mais queres de mim, adorável feiticeira das noites surpreendentes?
Pela fresta da Passagem, flagraste-me fazendo tua vontade
e ofertaste-me o presente desse saboroso flashback.
Vem! Há séculos meus braços se abrem para ti.
Há décadas, separei-te do pecado.
No teu reflexo, o Divino me espreita.
No teu feitiço, manifesta-se em mim.
Ó Maya, existirá fascínio maior?
Neste corpo marcado pra morrer,
o suor escorre
e o amor se revela em trajes de fugidias paixões.
Sagrado profano!
Profano sagrado!
Aqui, também, Deus É e transborda - e a Ele ofereço
a taça cheia de meus prazeres.
[ Escrito às 3h da madrugada, sob a Lua cheia de 04/04/2026 - Sábado de Aleluia -, após uma semana de suaves emoções ]
Um dia, no mundo das formas,
inevitavelmente, só restarão,
na parede ou na tela,
algumas imagens, como esta,
e a manifesta beleza do amor.
- Painho, desvendarei, um dia, os Teus mistérios?
- Nunca, filho meu! O que seria da vida sem o encanto?
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(Escrito com o coração, grato e em paz, na penumbra do minguante desta madrugada de 11 de janeiro de 2026, após uma noite de alegrias e afeto em família e um dia iluminado pela verdade de uma ressonância magnética)
Quando eu era uma criança pequena, muito pequena,
meu pai era grande, muito grande.
Aos meus olhos infantis, ele era enorme!
Sua mão forte segurando a minha,
deixava-me seguro. Absolutamente seguro.
Sua voz grave era terna quando lia o jornal em voz alta
e me explicava as notícias do dia.
E eu desconfio que começou aí
a minha paixão incontrolável pelo jornalismo.
Na hora da bronca, sua voz era áspera,
mas isso quase não acontecia comigo.
Tempos depois eu iria perceber:
ele adorava ensinar-me como o mundo é.
Meu pai sabia tudo.
Tinha respostas para todas as minhas infantis perguntas.
Aí veio a adolescência, a juventude,
estudo, muito estudo, trabalho, status...
Ó meu Deus, parecia-me agora que meu pai era menor.
Pude dispensar a mão forte que me protegia.
E as perguntas?
As respostas estavam nos livros, nos mestres, no mercado...
Depois casei, vieram os filhos e a maturidade.
Ó meu Deus, que mestra fantástica é a vida,
que cuida de nossa miopia e nos devolve a clareza perdida.
Aos meus olhos experientes,
outra vez a figura de meu pai foi crescendo, crescendo, agigantando-se.
Ficou bem maior que aquela que encantava a criança que um dia eu fui.
Hoje, 9 de novembro de 2024,
dia em que ele completa 99 anos de uma vida digna e amorosa,
o corpo de meu pai, esparramado na poltrona, é grande.
Tão grande que só com o coração consigo abraçar.
Minha criança salta e rejubila-se em gratidão,
ao reencontrar sua verdade.
Meu pai é forte, segura a minha mão.
Meu pai é sábio e tem resposta para todas as minhas perguntas.
Meu pai me ensina com a sua vida!
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Escrito na madrugada de 10 de novembro de 2024, horas depois de visitar meu pai, João Tavares de Morais, o Tidão, no dia de seu aniversário. Veja também o vídeo "A Bênção Papai", uma homenagem póstuma a Tidão - https://www.youtube.com/watch?v=2EY5HUVHahw )
Com o estilete da verdade
feriste-me a alma.
E com a tinta escura de meu sangue
relembraste em mim ensinamentos
que se perderam no tempo.
Vi Tua misericórdia
jorrando da fonte, límpida.
Senti cada gota cristalina da compaixão
banhando minha fragilidade...
Painho, agora sei!
No olhar compassivo de anônimos estranhos
que não pediram meu nome, encontrei-a
em uma manhã cinzenta e gélida, no outro lado do mundo.
O rosto tranquilo da faxineira que me olhou sem medo.
A atenção do jovem que me ouviu sem pressa.
A generosidade do chefe que se fez meu servo.
Painho, agora sei!
Tive sede e fui saciado.
Tive fome e me deram de comer.
Estava doente e pensaram-me a fragilidade do corpo e da alma.
Não invocaram Teu nome.
Não citaram outros deuses.
Não indagaram sobre minha origem nem minha fé.
Sim, Painho, agora sei!
Eu vi Tua misericórdia
jorrando da fonte,
senti suas gotas cristalinas,
e agora sei o que sente o coração do pobre
agraciado por gotas de amor e solidariedade.
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[Escrito ao despertar em 10/08/2024 relembrando o amor que recebi de desconhecidos chineses em Xangai ao lhes pedir, solitário, febril e faminto, uma simples orientação na manhã de 29 de janeiro de 2024. Inspirado na cena mostrada no vídeo "China - Uma Viagem Dramática em Um País Surpreendente", postado em https://www.youtube.com/sapiensnatal)
Por tua misericórdia, eu canto. E cantarei sempre.
Sob o Sol ofuscante no zênite. Na treva da meia-noite sem estrelas.
Nunca falhas comigo!
Eu sei, não sou especial (E quem seria?)
Não me dispensas privilégios (E quem os possui?).
Jorrar amor e misericórdia é da natureza de Tua fonte.
Nas noites mais escuras da jornada,
Perdido no labirinto de minhas certezas inúteis,
A voz de uma criança sussura o meu erro
E suavemente seu bisturi tira-me da alma a catarata.
Na escuridão Tua luz é esplendorosa,
Vejo minha pequenez e entro em êxtase de clareza.
Na noite mais densa, ninguém mais perto de mim: Tu!
Moves corações e vozes para resgatar-me outra vez.
Por que Tua bondade sempre corre atrás de mim?
Sei, não sou especial. É da natureza da fonte!
Quero deleitar-me em Teu misterioso jogo de contentamento e dor.
Quero amar como Tu amas, sentir como Tu sentes.
Quero ver através de Teus olhos.
Quero nomear-Te, minha iluminada pobreza assim exige.
Painho! Painho!
Tu és! Tu bastas!
Não desistirei.
[ Escrito na manhã de 20/07/2023, horas depois de ser salvo pela voz suave e determinada de uma adolescente e o coração generoso de uma mulher ]
Por que teu amor nunca cessa de tecer disfarces com os quais mendigas minha atenção, quando és tu que me acolhes?
Senhor, meus pés têm marcas da longa peregrinação e eu julgava-me repleto de tuas máscaras ternas, exibidas na diversidade dos templos e monumentos, na fé multicolorida de meu povo, nos repetidos êxtases em orações e recolhimento.
Não eras tu que, invisível, tocavas-me o coração e dissolvia minha concretude?
Sim, eu percebi que estavas por perto. Bem a teu gosto, puxavas-me o tapete de minhas referências, deixando-me nu e criança nos recantos de teus amados.
Não fostes tu que me inspirastes as ousadias nas casas de Francisco e de Dulce, no berço de Bezerra, nos túmulos de Damião e Chico, no horto de Cícero, na caatinga do Conselheiro, no terreiro de Meninha, na montanha da Senhora Aparecida?
Eu estava pleno e grato, transbordando alegrias e insights. E, no entanto, tu, Senhor da arte do imprevisto, guardavas na manga a carta final desse sublime jogo de devoção e entrega.
Por que aqui?
Por que agora, que a peregrinação acabou, e me comprazo em saciar minha fome no restaurante avarandado, o som alto do forró pernambucano cortando a noite cálida deste domingo?
Evitastes minha mesa e buscastes a outro irmão. E outra vez fostes expulso pelos guardas.
Vi teus passos lentos, teus ombros curvados, tua resignação silenciosa e a inabalável esperança em teus pés plantados na calçada, à espera do óbulo.
Incomodado, ofertei-te a moeda, expressão de minha avareza (não serias digno de meu convite?). E, emocionado, vi o irmão, que eu julgara indiferente, repartir contigo seu alimento.
E vi, com uma clareza jamais acontecida antes, tua face real no terno olhar do mendigo, que até então eu não reconhecera. Teu Evangelho inteiro na expressão grata de um faminto!
O jovem negro e esguio afasta-se e sua silhueta se confunde com a noite. Minha alma está perplexa.
As fichas caem e, em meio ao som estridente e profano, tenho, afinal, a epifania que marcará esse mochilão em que te busquei em templos e celebrações.
Por que fizestes isto comigo, Jesus de Nazaré?
As lágrimas vêm, indiferentes ao meu entorno, e a consciência agora desperta me dá um choque de realidade. Outra vez fracassei, negando abrigo ao meu mestre! Outra vez mostraste-me o meu real tamanho na messe imensa da vida.
Tenta de novo, Senhor do imprevisto! Sou teu amado, és meu amado! Não desistirei!
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Fato ocorrido na noite do domingo 6 de fevereiro de 2022, no centro do Recife, um dia após o encerramento de meu mochilão "A Fé do Brasil", em Aparecida do Norte, SP.
Texto escrito em 08/02/2022, após a minha meditação matinal do Círculo de Silêncio e Paz. | Jomar Morais
É para ti e por tua causa que uivo.
Ergo-me para a vastidão escura,
Rolo na grama úmida,
Esmurro a rocha,
Caio no lodaçal.
Em êxtase.
Êxtase sagrado,
Êxtase profano.
Delírio de prazeres,
Delírio de dores.
E o solitário lobo, embriagado de teus feitiços.
Na luz e na sombra te escondes,
Espreitas-me com tuas quatro faces.
E quando eu, e não tu, mudar o rosto e partir
Contarás o meu breve enredo
A algum outro enfeitiçado pelos teus dotes.
Na tua ausência, perplexidade e ousadia.
De onde me espreitavas quando uivei
Junto às muralhas do poder?
Quando apenas metade de tua face
Deslizou, sóbria, para fora da cortina
Corri nas pradarias e estradas em buscas
Infindas e sem alvo.
Ainda assim operastes teus truques.
E, de novo, temi e ousei, chorei e sorri,
Uivei aquém e além do horizonte dos homens.
Enfim, na tua presença plena, despida e luminosa,
Perdi o senso e entreguei-me ao mistério.
E tudo pôde acontecer
Em indizíveis êxtases da carne e do espírito.
Ó Maya, por que me deténs em tua sedução?
Enquanto brilhas, na treva desta noite
Uivo de dor e de esperança.
Êxtase superlativo de luz e sombras
Na poeira das memórias.
Submissão.
Ó Cruzeiro, testemunha silenciosa!
Naquele longínquo 8 de maio
Meus olhos te perderam de vista,
Separados que fomos pela bruma espessa
E o clarão dela além das nuvens.
Ó Cruzeiro, que me vistes chorar no planalto e na planície,
No cerrado e junto ao mar!
Nesta noite de Maya plena e brilhante
Não deixarei que a sua luz argêntea me prive
De teu brilho discreto a chamar-me de volta
À realidade: Deus É, Deus basta!
[ Escrito ao despertar de um sonho, no meio de minha noite, ao meio dia de 01 de agosto 2020 ]
Que importam as palavras?
Que importam os conceitos?
Que podem as palavras dizer sobre a florzinha singela
Da erva invasora de meu quintal,
Que agora me encanta, transporta-me aos confins do universo?
Que podem as palavras dizer sobre os buracos negros do cosmo
E os buracos insondáveis de minha solidão?
Que podem os conceitos dizer sobre o brilho inefável
De meu êxtase enquanto me encantas, florzinha anônima desprezada?
Que podem as palavras ante o mistério da vida e do ser?
Que podem os conceitos ante o sem forma incognoscível?
Ó doce segredo no qual existo, o fundo mais profundo
Do fenômeno que sou.
Que importam as palavras?
Na alvorada deste meio-dia, silencio
E, então, vejo, reluzente, o que as palavras escondem.
Na florzinha vulgar Tu te mostras a mim.
És meu Tudo
E isso basta!