Ano
IX
Nº 337
Texto
publicado
na revista Super, edição de março de 2004
Leia
também:
A
tribo dos brancos do Xingu
Outras
reportagens
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Os
novos índios
No
coração da selva do Xingu, o conflito de gerações
altera costumes, põe em xeque a estrutura tribal e
enche de incertezas o futuro da cultura indígena
Por Jomar Morais |

JM na aldeia iaualapiti
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Quando
a porta do bimotor Navajo foi aberta, uma pequena multidão
cercou o avião e, do meio do grupo, uma voz inquiriu o
primeiro passageiro a descer:
–
Trouxe mini-pizza? Trouxe chocolate? – perguntou o índio
Cocoró, da tribo dos iaualapitis.
É
sempre assim toda vez que um avião trazendo gente da cidade
pousa em alguma pista de terra batida do Parque Indígena do
Xingu, uma área de 28 mil quilômetros quadrados, do
tamanho da Bélgica, situada no norte do Mato Grosso. Dessa
vez, no entanto, não havia pizza nem doces a distribuir.
–
Trouxe óculos – respondeu o oftalmologista Rubens Belfort
Júnior, diretor do Instituto da Visão da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), que realiza ações
preventivas e terapêuticas no parque.
Acostumado
a freqüentar a área desde a década de 60, Rubens chegou
acompanhado por um grupo de oftalmologistas, empresários e
representantes de instituições brasileiras e americanas
que apóiam as iniciativas do Instituto, e logo deu início
ao trabalho. Sob o calor de quase 40 graus, os médicos
avaliavam a acuidade visual dos nativos, servindo-se de
instrumental simples como lupas e cartões de leitura,
enquanto o empresário Álvaro Ferrioli, do Centro Ótico
Miguel Giannini, de São Paulo, esvaziava uma mala repleta
de óculos corretivos para a alegria de índios com
dificuldade para enxergar pequenos objetos, trabalhar com
artesanato e, sobretudo, acertar tucunarés e robalos com
flechadas certeiras durante as pescarias, principal fonte de
proteínas nas aldeias.
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A
equipe permaneceu na selva por dois dias e, mais do que
complicações visuais, constatou sinais de uma agitada
transição na cultura indígena, talvez a mais profunda de
que se tem notícia desde que os índios brasileiros foram
abordados pelos portugueses no século 16.
Aliás, uma mudança
que abala os próprios fundamentos conservacionistas do
Parque do Xingu, idéia de antigos sertanistas liderados
pelos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Boas,
concretizada em 1961 pelo presidente Jânio Quadros.
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Ayumã,
Canawayuri e Matariná: parabólica e rap
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O Xingu
já foi palco de combates sangrentos contra invasores que
tentavam (e ainda tentam) ampliar sobre o quadrilátero de
mata cerrada da reserva a devastação realizada por
madeireiras, mineradoras e fazendas de soja e gado no seu
entorno. Aqui também, vez ou outra, agentes da Fundação
Nacional do Índio (Funai) enfrentam apuros quando índigenas
decidem reagir com truculência ao que supõem ser um
desrespeito aos seus direitos. Nos últimos tempos, porém,
a maior preocupação de caciques e pajés não é mais a
ambição do homem branco ou o descaso do governo, mas uma
questão doméstica que está alterando radicalmente o
panorama xinguano: a nova geração de índios, alfabetizada
e razoavelmente informada, que sonha com uma vida diferente
da de seus ancestrais.
Kuarup
X rock
O
caráter explosivo dessa questão foi testemunhado pela
Super, no segundo dia da missão médica, por ocasião de um
encontro de líderes de 14 etnias indígenas. A reunião,
convocada por Douglas Rodrigues, médico sanitarista que
coordena os serviços de saúde prestados pela Unifesp há
quase 40 anos e mora na reserva, tinha por objetivo discutir
assuntos como a melhoria dos serviços e a escassez de
verbas, mas a agenda acabou sendo descartada no calor das
emoções e das diferenças entre caciques, pajés e os
jovens índios. No auge do bate-boca, o cacique Ayupu, dos
camaiurás, acusou os garotos que hoje exercem funções nos
serviços de saúde e educação do parque, se vestem com
roupas de grife e curtem rock e reggae. “Eles dizem na
nossa cara que não sabemos nada, não mandamos nada”,
afirmou o cacique. Foi rebatido por Pablo Ayumã, camaiurá
que atua como auxiliar de enfermagem e é um dos líderes da
força jovem do Xingu, com uma crítica mordaz ao estilo das
lideranças. “Nossos pais precisam aprender a nos
respeitar e a usar melhor os recursos da comunidade”,
disse Ayumã, causando tumulto na platéia. Muitos desses
novos índios viraram funcionários do governo, formando uma
casta de assalariados com ambições de consumo que agora
ensaiam os primeiros passos na direção do poder tribal. E
é justo aí, nesse ponto nevrálgico, que o conflito de
gerações extrapola a intimidade das malocas.
Nem
era preciso que adultos e jovens mergulhassem em discussão
para que se pudesse perceber as divergências entre eles.
Bastava olhar para aqueles homens, reunidos na beira do rio,
sob um galpão sem paredes. Caciques e pajés compareceram
seminus e descalços. Pelo menos um deles, o velho pajé
Tacumã, marcaria posição apresentando-se em traje de gala
indígena: nu, com o corpo tingido pelo vermelho do urucum e
a cintura ornamentada com o kuarrap, um cinto de
palhas coloridas. Contrastando com o naturalismo da cena,
garotões como Pablo Ayumã, Marcelo Canawayuri e Maurício
Matariná (eles fazem questão de seus prenomes brancos),
exibiam-se em seus vistosos tênis, calças jeans e
camisetas de marca. No brilho de seus olhos, vislumbrava-se
um mundo ainda estranho e incompreensível para seus pais.
Segundo
o cacique Aritana, dos iaualapitis, cuja saga na cidade
grande inspirou a novela Aritana, que passou em 1978
na TV Tupi, todo esse descompasso é conseqüência da educação
baseada em valores da civilização branca a que os meninos
do Xingu foram submetidos. Tatap, o índio que traduz Tacumã,
é ainda mais amargo: “Por causa disso, nossos jovens não
querem mais pintar o corpo para festas como o Kuarup
(a grande evocação dos antepassados). Dizem que preferem
coisas limpas e muitos sonham em viver na cidade”. É como
se, de repente, um movimento hippie ao avesso tivesse
emergido no meio da floresta. Rituais como a reclusão
pubertária das meninas e o pedido de permissão para
casamento estão sendo atropelados por adolescentes índios
com um ímpeto comparável aos dos jovens que nos anos 60
fizeram a revolução dos costumes na sociedade dos brancos.
Em tribos com mais de 300 índios, segundo Tatap, a
tradicional reunião de fim de tarde no centro da aldeia –
um momento cerimonial que, ao longo de séculos, serviu para
os mais velhos relatarem feitos heróicos e repassarem
ensinamentos à juventude – agora não consegue atrair
mais que 10 jovens.
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O
problema afeta não apenas a organização e o comando das
tribos do Xingu, mas a própria sobrevivência de nações
ameaçadas de extinção. Somando todas as etnias, estão
instalados na reserva somente 4 175 índios. Algumas nações,
como a dos trumáis, não têm mais que 90 membros, o que
coloca em risco de extinção a língua, os hábitos e as
crenças ancestrais do grupo. Mas, para os jovens, não há
motivo para celeuma.
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Na
aldeia ykpeng
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“Não é verdade que desprezamos
nossa cultura”, diz o ousado Canawayuri, auxiliar de
enfermagem com pinta de rapper que adora o som do Jota Quest
e dos Raimundos e cujo sonho de consumo é uma câmera
digital. “É possível desfrutar das coisas modernas sem
esquecer a tradição. Além disso, o que importa é saber
usar a tecnologia para melhorar a vida na aldeia”, afirma.
No plano político, o que garotos como Ayumã e Canawayuri
desejam não difere em essência dos objetivos de outros
milhões de jovens das cidades. Eles clamam por renovação
de nomes, novas idéias e métodos mais transparentes na
gestão de suas sociedades.
O
choque de gerações é certamente o aspecto mais visível
de um processo acelerado de mudanças impulsionado por dois
fatores não mencionados na guerra verbal dos índios: a
chegada da TV ao território das malocas e a multiplicação
de cidades junto às fronteiras da reserva indígena. Em
cada um dos postos de serviço do Xingu – Leonardo (onde
meu avião pousou), Pavuru e Diauarum –, há um gerador elétrico,
uma antena parabólica e pelo menos cinco televisores. Os
aparelhos permanecem desligados durante o dia, devido ao
racionamento de energia, mas à noite atraem principalmente
uma platéia de jovens ávida para saber o que se passa no
resto do mundo e curiosa ante o modo de viver dos
“civilizados”, exposto em filmes e novelas. Quando vão
às cidades vizinhas para comprar mantimentos, varando rios
em barcos motorizados, muitos desses índios acabam cedendo
ao impulso de provar bebidas, freqüentar boates e levar
para a aldeia produtos que substituem hábitos do passado.
“O
contato com as cidades próximas trouxe para as aldeias o
alcoolismo, a disseminação da gripe e até moléstias
sexualmente transmissíveis”, diz o sanitarista Douglas.
“A mudança no padrão alimentar gerou desnutrição e um
leque de novas doenças”. Os brancos introduziram na selva
o sal marinho (os índios usavam sal vegetal, extraído de
raízes) e, com ele, a hipertensão. O açúcar e o macarrão,
agora consumidos em larga escala nas aldeias, ajudaram a
espalhar o diabetes. O tradicional beiju de mandioca,
alimento básico junto com peixes e caças, progressivamente
vai cedendo lugar ao arroz, bem menos nutritivo, o que
dificulta o combate à tuberculose, doença cuja incidência
é 50 vezes maior entre os índios que entre os demais
brasileiros.
Isso
é tudo o que Orlando Villas-Boas – o sertanista morto há
um ano que é venerado em todo o Xingu – não queria.
Orlando acreditava que os povos indígenas só sobreviveriam
na sua própria cultura. Assim, caberia ao Estado organizar
espaços como o Parque do Xingu, que servissem de proteção
à estrutura social desses povos. Graças à habilidade dos
irmãos Villas-Boas e à sabedoria das lideranças indígenas,
foi possível, naquela época, costurar o entendimento entre
diferentes etnias e retirá-las da rota de extermínio,
reunindo-as no território seguro do parque. Nos últimos
anos, a segurança aparente começou a ruir, com a explosão
dos valores brancos no interior das ocas.
“A
situação atual era inevitável. O mundo mudou e não há
mais como manter os índios numa redoma”, diz a médica
sanitarista Sofia Mendonça, da Unifesp, que atua no Parque
do Xingu há mais de 20 anos. “A história está
acontecendo e eles fazem parte dela”. Muita gente concorda
com Sofia, inclusive a Funai, executora da política
indigenista do governo. Como qualquer sociedade humana, as
dos índios passam por constantes mudanças e reelaboram a
sua cultura com o passar do tempo, haja ou não contato com
os civilizados. A questão é que o choque com a cultura dos
brancos em situação desvantajosa, num ambiente de dominação
política, econômica e religiosa, dizimou nações indígenas
e deixou as sobreviventes em grande fragilidade. Estima-se
que na época do descobrimento houvesse 10 milhões de índios
no país. De lá para cá, enquanto a população branca
aumentou do zero até os 170 milhões atuais, as centenas de
etnias de índios tiveram seus números reduzidos a menos de
358 mil almas.
O
foco agora é preparar os grupos que vivem no Xingu para um
confronto cultural com os brancos em circunstâncias ainda
mais complexas. As vilas fronteiriças logo se transformarão
em cidades de porte médio, com atrativos bem maiores aos
vizinhos índios. Como evitar que os índios não almejem
adquirir eletrodomésticos e roupas de grifes, depois de se
exporem à publicidade desses produtos, ou que comparem a
aridez das aldeias ao conforto dos bairros elegantes das
cidades?
Por
enquanto, o ponto que une antigas e novas lideranças é a
formação de professores índios que, além das disciplinas
curriculares, possam ensinar nas escolas a língua e as
tradições de seus povos. Pomenkepô, um ykpeng de 22 anos,
por exemplo, tomou para si essa tarefa no posto Pavuru.
Jovens de outras tribos aceitaram desafios semelhantes. Os
brancos também acham que chegou a hora de os índios
assumirem o comando total dos serviços de educação, saúde...
enfim, de toda a infra-estrutura da reserva. No Distrito
Sanitário, administrado pela Unifesp, já 60% dos 98
funcionários são índios e a previsão é chegar a 100% em
cinco anos, com a implantação do curso de formação de
gestores.
A
transferência de obrigações, que exige dos índios competência
administrativa e a habilidade de dialogar de igual para
igual com os brancos, entusiasma os jovens escolarizados,
mas, de certo modo, deixa perplexa toda uma geração de
grandes líderes que cresceu habituada à tutela total do
Estado, assegurada pela Constituição. O consenso entre
essas duas bandas dos povos da selva ainda pode demorar, mas
é inevitável que eles venham a assumir o controle total de
seus interesses no mundo complexo e globalizado. Um desafio
desse porte o índio brasileiro jamais conheceu antes.
Trajetória
descendente
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Os
índios das Américas descendem de povos originários da
Ásia e chegaram ao continente há cerca de 12 000 anos.
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Estima-se
que havia 10 milhões de índios no Brasil na época do
descobrimento. Eles utilizariam cerca de 1 300 línguas e
dialetos.
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Existem
hoje cerca de 358 000 índios no Brasil (0,2% da população
do país), distribuídos em 215 sociedades. Estima-se que
há mais de 100 000 índios fora de suas comunidades,
aculturados, e pouco mais de 50 grupos ainda não
contatados.
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Muitas
nações indígenas desapareceram vitimadas por doenças
como gripe, sarampo, coqueluche, tuberculose e varíola,
contraídas pela aproximação do branco. Os índios não
possuíam anticorpos contra vírus e bactérias causadores
desses males.
PARA
SABER MAIS:
Na
livraria:
Xingu
– Os índios e seus mitos,
Orlando Villas-Boas e Cláudio Villas-Boas, Kuarup, 1990
Na
Internet: www.funai.gov.br
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