Enquanto
escrevo a televisão anuncia que a reação militar dos
Estados Unidos aos atentados sangrentos contra o World Trade
Center e o Pentágono é questão de horas. George W. Bush
acaba de fazer um discurso triunfal no Congresso americano,
foi aplaudido de pé repetidas vezes. O país vai à forra
contra o terrorismo com ou sem aliados. A guerra será longa...
Não quero
aqui advinhar o futuro das relações internacionais e da
economia em meio à chuva de bombas. Há competentes
analistas já ocupados com o assunto – e, como homem, só
espero que o bom senso prevaleça, preservando o esforço
pela paz no planeta. Prefiro voar nas asas do pensamento,
permitindo-me lamentar sobre a cidade de Nova York numa
breve viagem em três tempos.
Tempo I
Numa manhã
de outubro de 1986, ao retornar da Hungria, na época um
país comunista, experimentei no aeroporto John F. Kennedy
uma das situações mais embaraçosas de minha vida. O
oficial da Imigração encurralou-me com perguntas que me
soaram descabidas e por pouco não me proibiu de entrar nos
Estados Unidos – onde estivera dias antes - pelo
simples fato de eu ter partido de um país do
bloco soviético e, se não bastasse, ainda exibisse um
passaporte com um minúsculo corte em uma de suas folhas, resultado do manuseio do documento por diferentes
funcionários em vários países.
Não gostei,
mas compreendi. O mundo então vivia sob a sombra da Guerra Fria,
o Irã e o Oriente Médio pegavam fogo e,
convenhamos, tenho mesmo cara de árabe, fato que no
exterior leva muita gente a duvidar de minha nacionalidade
brasileira. Além disso, eu acabara de ver outras
demonstrações de paranóia imigratória em Budapeste. Estava,
digamos, vacinado contra essas coisas.
Esqueceria
tudo ao mergulhar na cosmopolita Nova York – a menos
americana das cidades da América -, caminhar por suas ruas
liberais, contemplar o mundo do topo do World Trade
Center...
Nos anos
seguintes, aqui e ali, ainda ouviria de amigos relatos
semelhantes, embora as idiossincrasias fossem mudando com o
tempo até que ultimamente nada mais me foi contado.
Tempo II
Nove dias
antes que os dois aviões transformados em mísseis por terroristas
arrasassem o símbolo da prosperidade
americana, ceifando a vida de milhares de inocentes, outra
vez eu estava lá, numa Nova York ainda mais exuberante e
rica, esquina do mundo onde se misturam todas as
aspirações e contradições de uma época guiada pelo
slogan da globalização.
Passei 12
dias na cidade, dessa vez indo além da atmosfera
intelecto-boêmia do Greenwich Village e arredores e das
cores fashion das avenidas e ruas da Midtown. Uma incursão
pelos guetos do Uptown de Manhattan (Harlem e cercanias) e
pelas paisagens do Brooklin, Bronx e Queens, fora da ilha
glamurosa, ensinou-me a entender um pouco da cidade que
não aparece nos cartões postais.
Entre tantos
outros, dois detalhes supreenderam-me.
Primeiro: a
latinidade cada vez maior da Big Apple. Por toda parte,
gente falando espanhol. Tevês, rádios e outdoors
anunciando para as comunidades latinas. Mulatos e caboclos
em profusão fazendo a América, muito, muito mais do que
há 15 anos.
Segundo: a
cordialidade e a rapidez do pessoal da Imigração no
aeroporto Kennedy. Não fosse a fila imensa de pessoas
chegando a toda hora em aviões lotados, o desembaraço no
desembarque se daria em poucos minutos. Afinal, em vez dos
interrogatórios intermináveis do passado, presenciei
funcionários fazendo poucas – e objetivas – perguntas
aos visitantes. No meu caso, foram apenas duas: "Por que veio?
Quanto tempo pretende ficar aqui?" Uma carimbada e nada mais.
Tanta
facilidade, quem sabe, pode ter contribuído para que
militantes do terror tenham se instalado sem problemas no
país para executar seus projetos em ações fantásticas,
humilhando os serviços de segurança da grande potência.
Uma expressão de cordialidade que, com certeza, ruiu com as
torres gêmeas. Há que se lamentar o que o mundo perdeu no
dia 11 de setembro – além das vidas preciosas, do quase
consenso pela paz, da certeza quanto a infalibilidade da
economia global e a invulnerabilidade dos Estados Unidos.
Tempo III
Mesmo que as
bombas da revanche não caiam dos céus por longo meses, é
razoável admitir que tão cedo voltaremos – nós, os
visitantes do resto do mundo – a ser recebidos em Nova York
com tamanha espontaneidade, aquela que eu comprovei há uns
poucos dias. Rigores impensáveis no avião, desconfiança
na chegada, cautela nas ruas, em toda parte... até que a
lembrança do horror se dissolva no tempo, talvez sob uma
nova ordem mundial.
Como qualquer pessoa com o
juízo e o coração em seus lugares, fiquei atônito e
amargurado diante das cenas trágicas de 11 de setembro
na tela da TV. Ainda hoje, elas me vêm à mente
insistentemente e, então, eu me pergunto: por quê?
Na ausência de qualquer explicação racional, resta-me
dizer: meu Deus, que pena! Que pena!
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JM na cobertura da torre norte do
WTC, em 1986, tendo como cenário Nova York e o Empire State Building |
JM navega o rio Hudson, em 27 de agosto
de 2001. Ao fundo as silhuetas das torres gêmeas numa tarde nublada |