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Ano VI // Nº 307

Texto especial para o Planeta Jota, escrito em 20-09-01 

 

Outras Reportagens

Lamentação ante a 

tragédia em Nova York 

Jomar Morais

Enquanto escrevo a televisão anuncia que a reação militar dos Estados Unidos aos atentados sangrentos contra o World Trade Center e o Pentágono é questão de horas. George W. Bush acaba de fazer um discurso triunfal no Congresso americano, foi aplaudido de pé repetidas vezes. O país vai à forra contra o terrorismo com ou sem aliados. A guerra será longa...

Não quero aqui advinhar o futuro das relações internacionais e da economia em meio à chuva de bombas. Há competentes analistas já ocupados com o assunto – e, como homem, só espero que o bom senso prevaleça, preservando o esforço pela paz no planeta. Prefiro voar nas asas do pensamento, permitindo-me lamentar sobre a cidade de Nova York numa breve viagem em três tempos.

Tempo I

Numa manhã de outubro de 1986, ao retornar da Hungria, na época um país comunista, experimentei no aeroporto John F. Kennedy uma das situações mais embaraçosas de minha vida. O oficial da Imigração encurralou-me com perguntas que me soaram descabidas e por pouco não me proibiu de entrar nos Estados Unidos – onde estivera dias antes - pelo simples fato de eu ter partido de um país do bloco soviético e, se não bastasse, ainda exibisse um passaporte com um minúsculo corte em uma de suas folhas, resultado do manuseio do documento por diferentes funcionários em vários países.

Não gostei, mas compreendi. O mundo então vivia sob a sombra da Guerra Fria, o Irã e o Oriente Médio pegavam fogo e, convenhamos, tenho mesmo cara de árabe, fato que no exterior leva muita gente a duvidar de minha nacionalidade brasileira. Além disso, eu acabara de ver outras demonstrações de paranóia imigratória em Budapeste. Estava, digamos, vacinado contra essas coisas.

Esqueceria tudo ao mergulhar na cosmopolita Nova York – a menos americana das cidades da América -, caminhar por suas ruas liberais, contemplar o mundo do topo do World Trade Center...

Nos anos seguintes, aqui e ali, ainda ouviria de amigos relatos semelhantes, embora as idiossincrasias fossem mudando com o tempo até que ultimamente nada mais me foi contado.

Tempo II

Nove dias antes que os dois aviões transformados em mísseis por terroristas  arrasassem o símbolo da prosperidade americana, ceifando a vida de milhares de inocentes, outra vez eu estava lá, numa Nova York ainda mais exuberante e rica, esquina do mundo onde se misturam todas as aspirações e contradições de uma época guiada pelo slogan da globalização.

Passei 12 dias na cidade, dessa vez indo além da atmosfera intelecto-boêmia do Greenwich Village e arredores e das cores fashion das avenidas e ruas da Midtown. Uma incursão pelos guetos do Uptown de Manhattan (Harlem e cercanias) e pelas paisagens do Brooklin, Bronx e Queens, fora da ilha glamurosa, ensinou-me a entender um pouco da cidade que não aparece nos cartões postais.

Entre tantos outros, dois detalhes supreenderam-me.

Primeiro: a latinidade cada vez maior da Big Apple. Por toda parte, gente falando espanhol. Tevês, rádios e outdoors anunciando para as comunidades latinas. Mulatos e caboclos em profusão fazendo a América, muito, muito mais do que há 15 anos.

Segundo: a cordialidade e a rapidez do pessoal da Imigração no aeroporto Kennedy. Não fosse a fila imensa de pessoas chegando a toda hora em aviões lotados, o desembaraço no desembarque se daria em poucos minutos. Afinal, em vez dos interrogatórios intermináveis do passado, presenciei funcionários fazendo poucas – e objetivas – perguntas aos visitantes. No meu caso, foram apenas duas: "Por que veio? Quanto tempo pretende ficar aqui?" Uma carimbada e nada mais.

Tanta facilidade, quem sabe, pode ter contribuído para que militantes do terror tenham se instalado sem problemas no país para executar seus projetos em ações fantásticas, humilhando os serviços de segurança da grande potência. Uma expressão de cordialidade que, com certeza, ruiu com as torres gêmeas. Há que se lamentar o que o mundo perdeu no dia 11 de setembro – além das vidas preciosas, do quase consenso pela paz, da certeza quanto a infalibilidade da economia global e a invulnerabilidade dos Estados Unidos.

Tempo III

Mesmo que as bombas da revanche não caiam dos céus por longo meses, é razoável admitir que tão cedo voltaremos – nós, os visitantes do resto do mundo – a ser recebidos em Nova York com tamanha espontaneidade, aquela que eu comprovei há uns poucos dias. Rigores impensáveis no avião, desconfiança na chegada, cautela nas ruas, em toda parte... até que a lembrança do horror se dissolva no tempo, talvez sob uma nova ordem mundial.

Como qualquer pessoa com o juízo e o coração em seus lugares, fiquei atônito e amargurado diante das cenas trágicas de 11 de setembro na tela da TV. Ainda hoje, elas me vêm à mente insistentemente e, então, eu me pergunto: por quê? Na ausência de qualquer explicação racional, resta-me dizer: meu Deus, que pena! Que pena!

JM na cobertura da torre norte do WTC, em 1986, tendo como cenário Nova York e o Empire State Building

JM navega o rio Hudson, em 27 de agosto de 2001. Ao fundo as silhuetas das torres gêmeas numa tarde nublada

      

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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