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Ano V // Nº 285

Texto publicado na edição de fevereiro de 2000 da revista Você s.a.

Os primeiros passos de Cláudia e Welson

O projeto do casal é uma pousada no litoral. Para isso, já tem o capital inicial. Falta, agora, planejar o resto

Por JOMAR MORAIS, de Goiânia, e DALEN JACOMINO, de São Paulo

Há alguns meses, a eletrotécnica Cláudia Neiva de Araújo, 26 anos, e Welson Frederico de Freitas Melo, 27 anos, de Goiänia, têm dois grandes projetos que os levam a oscilar entre a euforia e a preocupação. Um deles é a chegada do primeiro filho do casal, a menina Júlia, que deve nascer em abril. O outro é um antigo desejo de Cláudia, que ela agora decidiu transformar em objetivo concreto para os próximos quatro anos: deixar o emprego na área de faturamento de grandes clientes numa prestadora de serviços da Companhia Energética de Goiás e virar dona de uma pousada no litoral do Nordeste, provavelmente em Porto Seguro. "Sempre pensei em ter meu próprio negócio no setor turístico", diz ela. A idéia de Cláudia faz todo sentido. Ter uma pousada no litoral é o sonho de um número cada vez maior de brasileiros, ansiosos em encontrar um meio de vida que lhes permita cair fora da pressão das grandes cidades e do escritório. A questão é que o casal está passando por um momento delicado em suas finanças. Eles já não sabem direito nem mesmo como vão cobrir todos os gastos que surgirão com o nascimento de Júlia. E, naturalmente, sabem menos ainda como reunir o capital para levar em frente o empreendimento.

Cláudia tem um modesto patrimônio, fruto de herança deixada por seu pai, o agropecuarista Leovando Araújo. São 53,4 hectares numa pequena fazenda da família no interior de Goiás, avaliados em 77 000 reais, um sobrado em construção num condomínio fechado (o dinheiro veio da venda de um apartamento) e um Fiat Uno, ano 1994, no valor de 6 000 reais (confira a tabela da página 120). Mas tudo isso é um capital que exige um tempo razoável para ser transformado em dinheiro vivo. A renda líquida do casal, por outro lado, foi duramente golpeada pelo desemprego de Welson, que trabalhava como guia de uma agência de turismo e colaborador de uma revista de ecoturismo. Restou, portanto, o salário de Cláudia - 800 reais por mês, administrados de modo espartano.

Quando conheceu Welson, ao entrar há dois anos para o curso de administração de empresas da Universidade Católica de Goiás, Cláudia tinha saído há pouco de seu primeiro casamento e de uma aventura de cinco meses em Miami. Lá, ela se manteve fazendo "bicos", que incluíam a lavagem de pratos em restaurantes, conhecida de muitos jovens que vão tentar a vida nos Estados Unidos. Foram morar juntos, no apartamento de Cláudia, até que o plano de comprar um sobrado num bairro de classe média os mandou, provisoriamente, de volta à casa de seus pais, em agosto do ano passado. Em janeiro, voltaram a se unir, dessa vez numa casa menor no Setor Sul de Goiânia, uma área nobre. Mas o aluguel, de 30 reais, e a iminente despesa com o enxoval de Júlia obrigaram o casal a promover cortes drásticos no orçamento. Neste semestre, os dois vão ficar fora da faculdade, que no caso de Welson já vinha sendo bancada por seu pai. A economia com a mensalidade escolar de 300 reais deve compensar o aumento de gastos após o nascimento da filha.

Apesar das dificuldades, o casal está decidido a levar adiante a idéia da pousada. Cláudia e Welson têm muitos pontos em comum - para o bem e para o mal -, e isso contribui para afinar a parceria também nos negócios familiares. Até hoje, por exemplo, se sentem desconfortáveis na carreira e anseiam por mudanças. Welson já iniciou e abandonou os cursos de geografia e agronomia, e Cláudia sente-se um peixe fora d'água no universo masculino da eletrotécnica. A opção por administração de empresas veio consolidar nos dois a tendência empreendedora. "Aprendi isso com meu pai, que deixou um emprego bem remunerado na Celg para montar seu próprio negócio, mesmo sob protesto dos amigos", diz Cláudia. 'Não me sinto realizada sendo apenas uma funcionária". Ambos são econômicos, administram isoladamente suas contas pessoais no BCN e na Caixa Econômica Federal, mas quase sempre falta salário no final do mês. A saída, então, é pedir socorro aos pais. Nesse caso, garantem que os reembolsam pouco tempo depois, transformando a ajuda num empréstimo sem juros. Eles não têm outras dívidas e imaginam uma aposentadoria que lhes permita viver com tranquilidade numa casa confortável na praia ou no interior, com renda por volta dos 5 000 reais por mês - uma soma confortável, em Goiás - e algumas viagens pelo mundo. Só Cláudia tem plano de saúde, o da Golden Cross, que cobre custos médicos e hospitalares e garante a saúde do bebê nos primeiros 30 dias após o parto.
Cláudia e Welson não parecem assustados com os recursos financeiros modestos, mas não escondem as dívidas sobre o que fazer para não queimar os cartuchos que hoje têm em mãos. No início, pensaram em criar uma agência de viagem, o que exigiria um investimento menor se comparado com a pousada. No entanto, acabaram desistindo da idéia diante da multiplicação dos sites de operadoras turisticas na Internet. A escolha de Porto Seguro, na Bahia, foi influenciada por um tio, que lhes falou sobre o bom fluxo de visitantes na região o ano inteiro, principalmente de jovens e famílias de classe média. O grande dilema é optar por vender os imóveis em Goiás e mergulhar de cabeça no empreendimento, alugar um casarão ou arrendar uma pousada já montada. Seja como for, será um teste de fogo para o desempenho da dupla no novo ramo.

Cláudia quer definir isso já. Com a morte do pai, em 1988, e os problemas familiares consequentes, aprendeu que é preciso planejar continuamente o futuro. "Estou sempre pensando a minha vida nos próximos cinco anos", afirma. Ela teme perder o emprego em 2003, quando a estatal goiana deverá ser privatizada. Por isso, fixou 2004 como o ano da implantação da pousada. Nas horas de folga, já fez e refez desenhos, projetando um conjunto de seis chalés, caso venha a optar pela construção do imóvel. Esse amor ao detalhe é, certamente, um dos fatores que a ajudam a equilibrar o orçamento apertado. É também o que não deixa margem para hesitacões nos planos de mudar de vida: mesmo com sacrifícios, o sonho da pousada, segundo o casal, tem de ser concretizado.

O que fazer

Cláudia e Welson têm uma renda mensal pequena, o que, certamente, diminui as chances de realizarem todos os seus planos. No entanto, têm imóveis e bens que, se bem aproveitados, poderão dar uma bela melhorada no seu padrão de vida nos próximos anos. "Por isso, todo o planejamento da pousada precisará ser feito com muito cuidado e com o máximo de segurança possível", afirma Renata Lopes Kotscho, gerente de investimento do banco Chase Manhattan. VOCÊ s.a. levou o caso de Cláudia e Welson para a especialista analisar. Além disso, reuniu as orientações da consultora Sônia de Almeida, do Sebrae, pequenas e médias empresas. Confira, a seguir, as estratégias fundamentais para que o casal tenha sucesso nessa nova empreitada.

Desmobilizar o Patrimônio

A primeira medida que o casal tem de tomar é vender imediatamente a fazenda. Esse dinheiro, que poderia estar rendendo no mercado de investimentos, está parado. Além disso, a liquidez do imóvel é baixa. Caso precisem de um dinheiro de emergência, não poderiam contar com esse recurso. Para ter os 77 000 reais em mãos, eles precisarão de tempo. Terão de buscar os compradores, avaliar as ofertas e, então, fechar o negócio.
Supondo que consigam 70 00 reais ao vender a fazenda (levando em consideração uma queda de uns 10% no preço), e que coloquem esse dinheiro num fundo de investimento conservador, Cláudia e Welson acrescentarão imediatamente à sua renda 840 reais por mês. Esse valor é o que pagaria um fundo DI (que tem seu desempenho ligado ao CDI, a taxa de juro do mercado interbancário), indicado por Renata. O casal deve também aproveitar a mudança dos investimentos para transferir os 500 reais da caderneta de poupança para o mesmo fundo.

Ajustar o orçamento

Com parte desses 840 reais, o casal poderá, em primeiro lugar, ajustar seu orçamento do mês, que já está estourando em mais de 160 reais. Além disso, com o nascimento de Júlia, em abril, as despesas do casal vão aumentar ainda mais. Renata calcula que serão, pelo menos, 500 reais a mais por mês - com comida, fraldas, remédio e com o seguro de saúde do bebê, que também deverá ser feito logo após o nascimento. Portanto, os 840 reais do fundo de investimento poderão cobrir os gastos básicos da família até que o empreendimento turístico comece a se tornar uma realidade - e, mais importante ainda, permitirão que o casal não comece a cair em dividas. Por outro lado, se Welson conseguir um trabalho até abril, o casal não precisará mexer nos juros dos fundos de investimento. Seu salário, então, poderá cobrir todas as novas despesas da família.

Terminar a construção do sobrado

Ao contrário da fazenda, Renata sugere que o casal espere para vender o sobrado somente após terminada a construção, em julho de 2001. "O imóvel totalmente construído tende a ser muito mais valorizado do que com a construção pela metade", diz. Enquanto isso, o casal já pode começar a desenvolver melhor os detalhes do empreendimento.

Iniciar o negócio

"Welson deve aproveitar o tempo livre que tem, enquanto não encontra um novo trabalho, para iniciar a pesquisa sobre o negócio", afirma Renata. Ele deve passar horas na Internet buscando sites de turismo, de pousadas e de agências. Deve procurar informações nos órgãos dessa área, visitar pousadas no litoral, conversar com pequenos empreendedores para saber como anda o setor, levantar uma bibliografia sobre o assunto. Deve começar a olhar mais de perto quais são as praias que têm um real potencial de crescimento. "Porto Seguro, por exemplo, é um lugar que já foi bastante explorado", afirma Renata. "Talvez existam ótimas oportunidades no Ceará, por exemplo, um dos estados que mais crescem no Brasil hoje". O casal não deve sequer pensar em usar o dinheiro antes de ter tudo, mas tudo mesmo, absolutamente definido, no papel, item por item, custo por custo.

Aliás, dois fatores podem contribuir bastante para os planos do casal. Um deles é o fato de Welson já ter experiência na área de turismo. Na prática, isso pode fazer muita diferença, afinal, nem tudo vai ser uma novidade. O outro fator: os dois cursam a faculdade de administração de empresas. Têm interesse pelos negócios. No momento, estão com as matrículas trancadas, mas Renata acredita que é fundamental que pelo menos um dos dois volte à universidade o mais rápido possível - já que com a filha vai ser quase impossível que voltem os dois."A faculdade vai ajudar muito na administração do negócio". Enquanto um deles estiver na universidade, o outro poderá fazer cursos de final de semana, por correspondência, ligados à área de turismo e hotelaria. "É fundamental que os dois se mantenham atualizados", afirma Renata.

Montar o projeto

Assim que já estiverem um pouco mais familiarizados com o setor, Cláudia e Welson já poderão sentar na frente do computador e começar a escrever o plano de negócios. Ë isso mesmo. Ë preciso fazer um plano antes de decolar. "Ao colocar as informações no papel, o casal terá uma percepção melhor sobre o negócio e sobre os riscos que irão correr", afirma a consultora Sônia de Almeida, do Sebrae. O plano de negócios da pousada deve reunir todos os detalhes sobre o empreendimento (confira o quadro da página ao lado).

"Deve haver a descrição completa do negócio, destacando qual será o seu diferencial em relação ao mercado", diz Sônia. O projeto deve conter uma descrição dos produtos e serviços que serão oferecidos. Ë preciso desenvolver uma análise do mercado já existente: quem serão seus clientes, seus concorrentes, preços. Deve entrar também uma avaliação da forma como o casal pretende divulgar seu negócio e as estratégias de marketing mais adequadas. Cláudia e Welson terão de definir o local e o tamanho ideal da pousada para começar. A partir dessa etapa, poderão levantar qual será o investimento inicial e quais serão as despesas fixas e as variáveis.

"Abrir uma empresa é diferente de desenvolver uma oportunidade de negócios", afirma Sônia. "Muita gente quebra a cara porque acredita que basta ter o capital inicial, registrar o nome da empresa e começar a trabalhar que o sucesso é garantido". Não é bem assim. Antes de colocar dinheiro em qualquer coisa que seja, é preciso descobrir a oportunidade do negócio, desenvolvê-la e, então, partir para a ação.

Entrar em ação

A data para o casal entrar com o projeto em ação é julho de 2001, assim que estiverem com o sobrado pronto, vendido e com os 65 000 reais aplicados num fundo de investimento. Nesse mesmo período, o montante referente à venda da fazenda, com os descontos dos juros que foram retirados para cobrir o orçamento, deve estar em cerca de 73 000 reais. O casal deve, então, com esses 73 000 reais, montar o negócio: comprar um terreno e construir a pousada. Vale ressaltar que existem recursos como casas pré-fabricadas, que são mais baratas e ficam prontas rapidamente. Enquanto isso, os 65 000 reais (da venda do sobrado) devem ficar no fundo de investimento. Eles serão usados pelo casal como capital de giro (pagamento de funcionários, divulgação da pousada, gastos com manutenção etc.) para os primeiros meses de funcionamento da pousada. "O fato é que eles vão ter de começar com um negócio pequeno e ir aos poucos avaliando o que acontece", diz Renata. "Por isso mesmo, não devem colocar 65 000 reais logo de cara". Se algo der errado, podem vender a pousada, pegar os 65 000 reais _ ou parte desse valor -, voltar para Goiânia e refazer a vida por lá. Renata alerta que dois anos deve ser o prazo de experimento do negócio. Esse período será mais do que suficiente para Cláudia e Welson sentirem se vão conseguir chegar lá ou não.

Tocar o negócio

Com a pousada em pé, eles terão de dar todo o gás possível, pôr a criatividade para funcionar e aproveitar o máximo de todos os recursos que tiverem. Uma sugestão de Renata é que eles, por exemplo, vendam o Fiat Uno e comprem um automóvel mais útil - um buggy, por exemplo, para levar os turistas para passear, ou então uma van para transportar grupos maiores de clientes da pousada.

Outro ponto importante: é preciso definir desde o início qual será o pró-labore de Cláudia e Welson. "Muitos proprietários acham que, por comandarem os negócios, podem tirar do caixa da empresa quanto dinheiro quiserem, na hora que quiserem, e aí a situação fica complicada", afirma Sônia. É presico definir o valor das retiradas de acordo com as despesas do negócio".

Garantir a segurança da família

Com o nascimento de Júlia e o início do projeto da pousada no litoral, não dá mais para protelar. Cláudia e Welson terão de fazer um seguro de vida. Caso aconteça algum acidente com um dos dois, Júlia não pode ficar desamparada. A idéia é que o seguro de vida seja em conjunto, porque oferece a cobertura para a criança e mais um beneficiário, o pai ou a mãe. Renata sugere uma cobertura de 100 000 reais, no Unibanco, o valor do seguro é de 163,42 reais mensais (esse produto pressupõe uma cobertura de 200 000 reais para morte acidental). No BankBoston, a mensalidade é de 62,07 reais (e o cônjuge só terá direito a 50% do valor da cobertura). No Citibank, é de 28 reais. Além disso, assim que começarem a obter um retorno do investimento, devem fazer um plano de previdência privada. O produto mais adequado nesse caso é o Plano Geral de Beneficio Livre (PGBL). O valor do dinheiro a ser investido no plano deve equivaler a 12% da renda bruta anual de cada um. Isso porque, de acordo com a legislação, a pessoa que investir até 12% da sua renda bruta anual num plano de previdência tem esse valor abatido do imposto de renda, o que é uma bela vantagem.

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