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Vipassana, ferramenta da paz - II

Ver as coisas como elas são

Jornalista conta como foi a experiência de meditar
12 horas por dia e olhar tudo com imparcialidade

por Daniella Borges (*)


Eu morri. Aqui, nesta chácara no Lago Oeste, nos arredores de Brasília, as pessoas passam por mim e parecem não me ver; não me tocam; não me cumprimentam; não falam comigo. Eu também fui proibida de falar com elas e de tocá-las. Há 10 dias o mundo não sabe nada de mim e eu não sei nada do mundo. É a segunda vez que venho para esse curso de meditaçãa vipassana (pronuncia-se Vipáchana, na língua pali), técnica indiana milenar, cujos ensinamentos mais profundos são atribuídos a Sidharta Gautama, o Buda. Há cerca de 2,5 mil anos, o príncipe indiano abandonou a vida suntuosa do palácio para aprender a domar a mente e liberar-se do sofrimento. 

Confesso que estou ansiosa e com um pouco de medo. Na verdade, estou apavorada. No primeiro curso que fiz, no Rio de Janeiro, quis ir embora todos os dias. Sentia muitas dores no corpo por meditar sentada 12 horas diárias. A única ocupação, nos três primeiros dias, era observar minha respiração. É a técnica anapana, que antecede o ensino de Vipassana, cujo propósito, segundo o professor birmanês S.N. Goenka (foto à direita) — que ministrou o curso por meio de CDs e tapes, com a ajuda de um professor-assistente —, é afiar, refinar a mente para a experiência de Vipassana. Experimente fazer isso em casa sem que os pensamentos levem você a imaginar o cardápio do almoço do dia seguinte ou às lembranças de sua mais tenra infância. A mente não pára, não cala. 

TUDO PASSA 

A minha idéia de meditação era de contemplação do belo, de grassar por estados de paz nirvânica sem esforço, sem dores. Como o roteiro que imaginei não se cumpriu, aquele paraíso natural, na região serrana do Rio, transformou-se, para mim, na sucursal do inferno. Então veio o quarto dia, quando fui apresentada à técnica de meditaçãa vipassana. 

A idéia é observar o próprio fluxo da vida, “na moldura do corpo”, sem reagir. Dentro das 12 horas de meditação há três sessões diárias, de uma hora de duração cada uma, que são chamadas de adithanna (forte determinação). É quando o aluno medita, continuamente, na mesma posição, sem se mexer. O intuito é observar sem “cobiça” ou “aversão” sensações agradáveis ou desagradáveis. Para se obter resultados, ou seja, livrar-se dos sankharas (padrões reativos inconscientes) é preciso manter-se “eqüânime”, imparcial, e entender que, “bons” ou “ruins”, a característica de todos os fenômenos é surgir e desaparecer. A essa mudança constante dá-se o nome de anicca (impermanência). 

É difícil não classificar as coisas em “gosto” e “não gosto”, pois são justamente essas relações que me fazem pensar que sou única. Será que é por isso que decorei o número do meu CPF? Jurei jamais voltar a um curso desses, mas cá estou novamente em busca da serenidade e generosidade que adquiri no primeiro retiro. Já se transcorreram sete dias. Não tenho vontade de ir embora e sinto-me tão bem. Desopilada. 

TODOS OS PÚBLICOS 

Conversei com o publicitário César Baiocchi, 31 anos, no décimo dia, quando o chamado “nobre silêncio” dá lugar à “nobre tagarelice”. Neste momento, sabe-se que a maioria pensou em ir embora antes do término do curso. No segundo dia, César estava de malas prontas, mas não se arrepende de ter ficado. “Há cinco anos, trilho um ‘caminho’”. Procurava algo mais denso, porque achava que havia muita superficialidade na minha busca. O momento mais difícil foi, sem dúvida, admitir que aquele bicho que eu observava era eu.” 

Também constatei que quatro colegas, entre cerca de 50 alunos, deixaram o curso. A maioria no segundo dia. O momento de falar é também boa hora para conferir o perfil dos meditadores. Empresários, servidores públicos, advogados, engenheiros, estudantes, físicos atrás de uma experiência quântica. A idade variou de 14 a 70 anos. Brasileiros e estrangeiros. 

Foram 10 dias de rigorosa ascese. Despertar às 4h; dormir por volta das 21h30 e alimentar-me espartanamente. Como aluna antiga do curso, tive direito a café-da-manhã e almoço. Fiz o voto de não comer nada após o meio-dia. Só poderia beber água com limão às 5h da tarde. Nesse horário, os alunos novos se alimentam de frutas, leite e chá. Depois disso, mais nada. 

VIDA DE MONJA 

Confesso que o que me motivou a seguir a dieta foi a possibilidade de caber novamente naquele “pretinho básico”. “Quando sair daqui farei as pazes com a balança. Emagrecerei uns 4 kg.” Que decepção! Ao voltar para casa, a verdade: apenas 800 gramas a menos. 

Senti-me em um curso intensivo para ser santa, com segregação completa entre homens e mulheres, onde não poderia fazer anotações, ouvir música, ler... Em minha curta vida de monja (que os monges sejam libertos dos pensamentos impublicáveis que tive enquanto meditava), comprometi-me a não falar por nove dias, não matar, não roubar, não praticar sexo, não mentir, não me intoxicar. Circulava em espaço restrito e impliquei com uma faixa antipática, daquelas que delimitam o “local do crime”, que me separava da piscina convidativa em dias de sol. 

As regras do curso podem assustar, tanto que a servidora pública Carla Balduíno, 38 anos, preparou-se desde o ano passado para a empreitada. Conversou com o marido e o filho Rafael, de 13 anos, sobre sua ausência. Meditava todos os dias em casa; reuniu o maior número de informações possíveis sobre a técnica, sobretudo com o irmão, diplomata que mora na Índia, adepto da meditação. Mas Carla considera que houve menos rigidez do que ela esperava e jura que saiu mais descansada do que se tivesse passado 10 dias na praia. “Toda meditação é capaz de transformar a mente, há outras técnicas também da linha budista que ajudam.” Ela completa emocionada: “Chorei ao sentir, de fato, no meu corpo a Lei da Impermanência. É diferente de apenas pensar que tudo simplesmente passa. Em teoria. A experiência muda tudo.” Anicca. 


O que é meditação vipassana?

Vipassana, que significa ver as coisas como realmente são, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Teria sido redescoberta por Sidharta Gautama, o Buda, há mais de 2,5 mil anos. A técnica foca a interconexão entre mente e corpo, experimentada a partir da atenção disciplinada às sensações físicas, da observação — imparcial — do que acontece na “moldura do corpo”, seja uma sensação agradável ou desagradável. 

O professor mais famoso talvez seja o birmanês S.N.Goenka. Ele avoca para si a transmissão da “técnica pura” de Vipassana, que difundiu no Oriente e Ocidente. Para não haver dúvidas de que o seu trabalho será o mesmo em qualquer lugar do mundo, Goenka ministra o curso em CDs, DVDs e tapes — com a sua própria imagem ou locução — com tradução do inglês para a língua natal do país onde o curso está sendo ministrado. Na Índia, por exemplo, a tradução é do pali para o inglês. 

Um professor-assistente, presente fisicamente, designado por Goenka, tira as dúvidas dos alunos sobre a técnica. Funciona como se fosse uma franquia em mais de 80 países no Ocidente e no Oriente. A técnica é também ensinada em presídios da Índia, Mongólia, Nova Zelândia, Taiwan, Tailândia, Estados Unidos e Reino Unido. 

Nada é cobrado pelo curso. Eles são sustentados por doações — de acordo com “a condição financeira de cada um” — de estudantes que completaram um curso de 10 dias e alunos antigos. 
A comida servida no curso é vegetariana. 


Saiba mais em  www.portuguese.dhamma.org 

(*) Texto transcrito da Revista do Correio / jornal Correio Braziliense - Brasília - DF

Clique Aqui e conheça também a experiência de Jomar Morais 
no curso de vipassana em Miguel Pereira (RJ).

  
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