Ao
constatar a ocorrência de elevada auto-estima em
integrantes de gangues de rua e concluir que pode estar aí
o motivo de conduta antisocial, os pesquisadores americanos
Roy Baumeister e Brad Bushman talvez tenham comprado gato
por lebre. Pelo menos segundo dois estudiosos brasileiros: a
doutora em psicologia Júnia Vilhena, da PUC do Rio de
Janeiro, que estuda o impacto da cultura hegemônica sobre a
construção da identidade em populações marginais, e o
psicólogo Marlos Alves Bezerra, que pesquisa e orienta
grupos de jovens carentes no Nordeste.
"Modelos
culturais e relações violentas tendem a ser reproduzidos,
ainda que não possamos dizer (exatamente porque cada
sujeito é único) que isso vá com certeza acontecer",
afirma Júnia. E esse é um movimento que independe do tipo
de auto-imagem das pessoas. Marlos também recorre à
noção de exclusão social para afirmar que a gangue é o
espaço onde jovens com auto-imagem negativa e um alto senso
de rejeição podem tentar a reconstituição do ego
destruído pela estigmatização, ancorados na identidade
grupal. Em vez de causa da conduta anti-social, como
acreditam os pesquisadores americanos, a auto-imagem
positiva exibida por membros de tais comunidades seria, sim,
uma conseqüência de sua inserção no grupo.
"A
violência é um fenômeno multifacetado e só pode ser
compreendido com um olhar transdisciplinar", diz Marlos.
Abordá-lo de modo reducionista, segundo o psicólogo,
atribuindo-o ora unicamente a mecanismos intrapsíquicos,
ora à ação de neurotransmissores ou somente a patologias
sociais é um itinerário que pode conduzir a análises
fantasiosas e estéreis.