Lembra
de Patrick Bateman, o protagonista de Psicopata Americano,
uma extraordinária mistura de sátira, drama e terror
exibida em fevereiro passado nos cinemas brasileiros? Pois
bem, qualquer semelhança com a vida real, não é mera
coincidência.
Patrick,
representado pelo ator Christian Bale, é um jovem executivo
de Wall Street, vaidoso e obstinado, cuja rotina diária de
cuidados com a aparência incluem 1 000 abdominais,
esfoliante de amêndoas no corpo, creme calmante de menta
para o rosto. No início da manhã, Patrick se delicia com a
própria imagem, diante do espelho. No resto do dia, disputa
com os colegas a primazia de ostentar os símbolos de status
mais cobiçados - dos sapatos e ternos de grife a mesas em
restaurantes chiques. Que ninguém ouse superá-lo. Este
homem de voz modulada e gestos estudados transforma-se em um
monstro sanguinário cada vez que algum de seus intentos é
ameaçado. Nessas ocasiões, a carnificina não tem limites.
A machadadas ele esquarteja um amigo, a golpes de serra
elétrica destrói namoradas, com uma faca afiada assassina
o mendigo que o incomoda com sua indigência. O sangue jorra
da tela a cada metamorfose deste cavalheiro bem sucedido que
é o estado da arte do egocentrismo, da ambição e do
narcisismo. A diferença é que, no final do filme, fica-se
sabendo que a fúria destruidora do psicopata resumiu-se a
delírios que ele confunde com a realidade, detalhe nem
sempre repetido fora da ficção.
Freud explica
Patrick? Não exatamente. Aliás, nem a psicanálise nem
qualquer outra vertente da psicologia conseguiu até hoje
esclarecer todo o mistério que faz de uma pessoa
aparentemente normal e bem sucedida uma bomba de efeito
retardado cuja violência inesperada fere e, às vezes, pode
matar. O executivo de Psicopata Americano – um personagem
a cada dia mais presente na vida real –, no entanto,
parece talhado para justificar a mais recente teoria sobre a
agressividade humana, resultado de estudos realizados por
Roy Baumeister, doutor em psicologia social pela
Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e seu
parceiro Brad Bushman, da Universidade Estadual de Iowa.
Segundo os dois pesquisadores, a causa dessas explosões de
violência está – pasme! – justamente na elevada auto-estima,
no senso de amor próprio que, supõe-se, move as pessoas em
direção ao sucesso e à auto-realização. Esse
raciocínio levou Baumeister a escrever o livro Relation
of threatened egotism to violence and agression: the dark
side of high self-esteem (Conexão entre o egoísmo
ameaçado e violência e agressão: o lado escuro da alta
auto-estima), ainda inédito no Brasil.
Trata-se de
um balaço que atinge em cheio tudo o que se pensou e
escreveu até agora sobre as raízes da violência. Afinal,
os estudos sobre comportamento humano são praticamente
unânimes em afirmar que indivíduos altamente agressivos
agem assim movidos, entre outros fatores, por uma auto-imagem
negativa, um nível baixíssimo de auto-estima que os coloca
permanentemente em situação de inferioridade diante de
outras pessoas. A crença de que isso é uma verdade
irrefutável é tão forte que, nos últimos anos, tornou-se
moda em muitas escolas americanas a prática de uma
divertida dinâmica grupal. Alunos são convidados a listar
os motivos que os fazem sentirem-se pessoas especiais e
admiráveis e em seguida entoam músicas de autocelebração.
O objetivo do exercício é massagear o ego da garotada,
fortalecer a auto-estima de crianças e adolescentes e, com
isso, ajudá-los a controlar a agressividade e a integrarem-se
socialmente. Com a nova teoria de Baumeister e Bushman, essa
prática deixa de ter sentido.
"Inflar
o ego de alguém pode ampliar substancialmente as chances de
que ele cometa agressões", diz Baumeister. Ao estudar
indivíduos antisociais - como membros de gangues de rua e
criminosos cumprindo pena -, e aplicar testes para medir a
agressividade de gente comum, o pesquisador observou que
pessoas com imagem negativa de si mesmas são confusas e
costumam fugir de situações de riscos. Por causa disso,
deduziu, quase sempre elas se preservam de atitudes
violentas contra o próximo. Entenda-se: ataques agressivos
são genuinamente ações de risco para a integridade do
agressor e pessoas com baixa auto-estima procurariam poupar-se
de ameaças do gênero. Quando tais indivíduos falham, eles
culpam a si mesmos, não os outros, exatamente o oposto do
que acontece com pessoas dotadas de auto-estima exagerada,
com toques de narcisismo. Assassinos, estupradores e outros
marginais violentos geralmente descrevem a si mesmos como
seres superiores e especiais, merecedores de tratamento
privilegiado. Membros de gangues de rua, por sua vez,
costumam se apresentar como os melhores, os imbatíveis, e
reagem agressivamente quando se sentem ameaçados em suas
posições.
Tais
ilações não significam que basta uma auto-imagem positiva
para alguém tornar-se necessariamente um agressor em
potencial. Baumeister cruzou os dados de sua pesquisa com os
de um estudo parecido realizado há 20 anos por Michael
Kernis, da Universidade da Georgia, e encontrou evidências
de que a relação entre amor próprio e violência é
influenciada por um outro fator: a estabilidade do padrão
de auto-estima. Em geral, a auto-imagem de uma pessoa quase
não muda ao longo de uma vida normal. As oscilações no
dia-a-dia não têm maior significado e, mesmo que o sujeito
enfrente um infortúnio, a alteração costuma durar pouco
tempo. Só em casos de transição profunda no estilo de
vida e situações traumáticas, o padrão de auto-estima
tende a mudar efetivamente. Ocorre que este modelo não
funciona para certas pessoas, cujas flutuações no nível
de amor próprio são freqüentes e amplas – e é
exatamente nesse grupo que se encontram os casos que
supostamente validam a hipótese de Baumeister e Bushman. No
universo pesquisado, as pessoas com auto-estima elevada,
porém instável, eram as mais hostis. Já indivíduos com
auto-estima elevada e estável ou mesmo baixa auto-estima
estavam entre os menos agressivos. Em outras palavras, seria
uma forma de egoísmo ameaçado o que move a fúria de quem,
fora das telas, de algum modo imita a trajetória de Patrick
Bateman, o personagem de Psicopata Americano.
Com base
nessa suposição, Baumeister chega a afirmar que é um erro
encorajar pessoas depressivas a reconhecerem em si mesmas
méritos que não possuem. Fortalecer assim a auto-estima de
alguém poderia transformar um indivíduo dócil em uma
criatura agressiva e imprevisível quando esta se sentisse
ameaçada em sua condição imaginária. Em vez de tentar
mudar o perfil das pessoas portadoras de baixa auto-estima,
diz o psicólogo, é preferível atuar para conter a
megalomania daquelas que se sentem superiores às demais e
necessitam de que essa crença seja freqüentemente
confirmada pelos outros.
Há
controvérsias. "Nem sempre uma baixa auto-estima
equivale a depressão ou à falta de iniciativa", diz
Júnia Vilhena, doutora em psicologia e pesquisadora da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. "Nestes
casos, ao contrário, o movimento de agressão contra o
próximo pode ser maior, uma vez que o outro costuma
representar tudo o que o portador de baixa auto-estima não
é ou não tem." Além disso, lembra Júnia, mesmo nos
casos de depressão existe um nível alto de violência
oculta que, muitas vezes, é direcionada contra o próprio
sujeito, sob a forma de suicídio e outros tipos de
autopunição.
Numa época
em que a violência urbana ganha ares de doença contagiosa,
também não faltam pesquisas que tentam explicar o
fenômeno sob o ponto de vista fisiológico, como é o caso
das pesquisas que relacionam mediadores químicos, os
chamados neurotransmissores, às explosões de agressividade,
à depressão e ao prazer. Um dos mediadores mais influentes
seria a serotonina, substância presente no cérebro e no
líquido da medula espinal. Diversos estudos constataram
deficiências na produção dessa substância em homens
impulsivos e violentos e em suicidas. Já a aplicação de
drogas que controlam a produção de serotonina em animais
demonstrou que aquelas que inibem a produção da
substância provocam aumento da agressividade dos bichos
enquanto as que ampliam a concentração de serotonina os
tornam mais dóceis.
Ultimamente
pesquisas centradas na genética procuram a causa da
agressividade em defeitos nos genes, mas quase não há
progresso nessa área. Há sete anos, por exemplo, um estudo
com uma família holandesa, cujos membros do sexo masculino
envolveram-se em crimes violentos, mostrou que todos eles
apresentavam uma anomalia no gene que codifica a produção
da enzima MAOA, responsável pela quebra das moléculas de
vários neurotransmissores. É uma temeridade, no entanto,
deduzir-se daí que comportamentos complexos, como a
violência, decorrem de um único gene ou mesmo que são
resultado apenas de padrões cromossômicos. O mais
provável é que a agressividade seja fruto da interação
entre fatores genéticos e ambientais, como sugerem algumas
observações.
"As
raízes da violência freqüentemente começam no útero e
se fixam na idade pré-escolar", afirma Robin Karr-Morse,
terapeuta familiar em Portland, nos Estados Unidos, e co-autora
com Meredith Wiley do livro Ghosts in the nursery:
tracing the roots of violence (Fantasmas na creche:
investigando as raízes da violência), ainda inédito no
Brasil. "Os hormônios do estresse produzidos pela mãe
em explosões de medo ou raiva podem influenciar
profundamente o desenvolvimento cerebral do feto", diz
a terapeuta. Como a formação do cérebro humano só se
completa muito após o nascimento, Karr-Morse entende que a
experiência emocional da criança até os três anos é
decisiva para o estabelecimento de seu padrão
comportamental na fase adulta. Meninos submetidos nessa fase
a abusos ou negligência têm boas chances de desenvolverem
anomalias cerebrais, como resultado das respostas do
organismo a estímulos externos.
A influência
do estado emocional da mãe durante a gravidez e o tipo de
atenção e tratamento que a criança recebe na infância
seriam também a explicação plausível para uma velha
questão que intriga o senso comum e a ciência: por que
crianças nascidas dos mesmos pais e criadas na mesma casa
costumam exibir comportamentos tão diversos, ao ponto de
uma ser extremamente agressiva e outra não? "O
investimento emocional dos pais nunca é o mesmo para todos
os filhos", diz Júnia. "É um mito achar que eles
amam seus filhos da mesma maneira." A diversidade na
relação com os rebentos, que na vida real pode oscilar
entre demonstrações do mais puro afeto à indiferença e
à crueldade, acabaria por contribuir para a formação de
perfis psicológicos tão díspares dentro de um mesmo lar.
Qualquer que
seja o ângulo do qual se observe o fenômeno ou a teoria
que explique suas causas, o xis do problema da violência
parece ser a adoção de medidas preventivas no âmbito da
família e, em especial, durante os primeiros anos da
infância. A velha fórmula da relação saudável com a
garotada, com base em afeto e atenção, continua a ser o
caminho mais prático para se evitar que marcas traumáticas
ajudem a transformar a criança de hoje no psicopata de
amanhã.