Ano
IX
Nº 334
Especial
Planeta Jota
Dezembro
2003
Outras
reportagens
|
|
Raízes
da violência
A
solução para a violência no mundo moderno passa,
obrigatoriamente, pela reavaliação e a mudança das
relações familiares
Entrevista
a Jomar Morais |

|
Nenhum
programa de combate à violência urbana terá sucesso
duradouro enquanto a sociedade não encarar a questão
familiar, especialmente a relação pais e filhos. Este é,
praticamente, um ponto consensual entre psicólogos,
sociólogos e propagadores da cultura de paz. Os estudos
mostram uma sintonia fina entre a desestruturação da
família, a qualidade das relações domésticas e a
violência pessoal e coletiva. Apesar disso, as dificuldades
para enfrentar o problema parecem maiores nesta do que em
outras áreas relacionadas à brutalidade nas relações
humanas hoje em dia. Por que isso acontece?
Ao
preparar uma grande reportagem sobre Ahimsa - o caminho da
paz, para a edição de janeiro da revista Vida Simples,
aproveitei a oportunidade do contato com Lia Diskin, diretora
da Associação Palas Athena, de São Paulo, e com o
psicólogo transpessoal Roberto Ziemer, para apresentar-lhes a
pergunta. O leitor do Planeta Jota conhece agora as
suas respostas. A abordagem completa sobre como enfrentar a
violência, não causar nem sofrer danos e alcançar a paz
está nas páginas da revista.
O
SAUDÁVEL E O DOENTIO NA RELAÇÃO PAIS-FILHOS,
por Roberto Ziemer
"De
forma geral, a sociedade trata com grande descaso a relação
pais-filhos. Já é grande o número de estudos mostrando que
esta é a origem mais importante para a questão da violência
externa e interna (depressão, suicídio, doenças psicossomáticas
como câncer ou problemas cardíacos, etc.). A qualidade desta
relação é fundamental, pois determina a maneira como a
criança irá pensar e sentir (ou seja, interpretar e se
relacionar com o mundo). Existem três tipos principais de
relacionamento entre pais-filhos:
-
Reversão
–
este é o modo mais primitivo e destrutivo. Neste tipo de
relação os pais vêem a criança/bebê como um
substituto dos seus próprios pais (avós da criança).
Estes avós podem ter sido ausentes física ou
emocionalmente, ou podem ter estabelecido uma relação
extremamente abandonadora ou cruel com a criança. De
qualquer maneira, a questão é que a criança é
obrigada, na mais tenra idade, a não apenas cuidar de
suas próprias necessidades, mas também as de seus pais
(o que causa sérios danos ao desenvolvimento da criança
e uma distorção de sua humanidade – estas pessoas se
tornam cruéis, violentas ou totalmente indiferentes à
dor alheia, pois foram obrigadas a congelar os seus próprios
sentimentos para sobreviver). Este padrão tende a gerar
comportamentos de compulsão repetitiva: a) veja o caso do
Michael Jackson – por não ter lidado emocionalmente com
os traumas de sua infância (que eu saiba, ele nunca fez
psicoterapia) – humilhação, abuso físico, emocional e
sexual, o seu subconsciente não encontra outra maneira de
lidar com este passado a não ser repetindo a mesma situação
(só que agora na situação inversa, de agressor); b) as
regiões do mundo em que existe mais violência (guerras,
conflitos) são aquelas em que existe uma predominância
de relações de reversão entre pais e filhos (pesquisa
feita pelo psicohistoriador Lloyd deMause – www.psychohistory.com);
-
Projeção
– este modo é menos destrutivo que o de reversão,
mas os pais ainda não conseguem ver a criança como um
outro ser. Eles tem expectativas/colocam sobre a criança
questões não resolvida de sua própria história pessoal
(“eu não pude fazer medicina, meu filho vai ser um
grande médico”) ou usam a criança como “lata de lixo
emocional” para não lidar com seus próprios conflitos
(por exemplo, o pai está chateado com a mãe, mas para não
encarar o conflito com ela, acredita que a criança/seus
comportamentos é que o faz ficar com raiva). Esta atitude
cria um “equilíbrio neurótico”, que adia a resolução
do conflito, mas sobrecarrega a criança de sentimentos
negativos que vão ter um impacto destrutivo sobre a sua
auto-estima e podem gerar, no futuro, comportamentos
destrutivos ou auto-destrutivos;
-
Empatia
– os pais percebem a criança como um outro ser.
Eles não exigem que a criança dê o afeto/amor/proteção
que não tiveram em suas infância, nem projetam eles seus
próprios sonhos ou expectativas não resolvidas (nem seus
sentimentos destrutivos não elaborados). Eles dão à
criança o que ela precisa, no tempo em que ela precisa,
na quantidade em que ela precisa. Eles estão simplesmente
disponíveis, ao mesmo tempo em que não se esquecem de
suas próprias necessidades. Eles são emocional
equilibrados.
Outros
elementos se sobrepõem aos considerados acima (como miséria
material, falta de educação ou senso de comunidade, guerras
e conflitos, etc.), mas eles parecem ser secundários. Por
exemplo, Victor Frankl foi um psiquiatra austríaco internado
num campo de concentração nazista. Depois de libertado
escreveu vários livros que falam sobre a liberdade e bondade
intrínseca à condição humana. Já George Bush teve tudo
que é possível ter materialmente, mas a relação com seus
pais foi fria e distante (foi fortemente rejeitado por sua mãe),
o que gerou sentimentos de frieza, arrogância e
descompromisso diante do sofrimento no mundo."
DIREITOS
E RESPONSABILIDADES,
por Lia Diskin
Nas
últimas décadas temos investido grandes esforços em
consolidar direitos, o que foi um imenso avanço. Entretanto,
temos descuidado da contrapartida: as responsabilidades. Toda
convivência implica em um pacto que livremente estabelecem as
partes para se beneficiar do afeto, conhecimento, diversão,
segurança e possibilidades de futuro. Esse
pacto, na maiora das vezes tácito, é constituído de
co-responsabilidades que, quando não se cumprem, inviabilizam
a convivência.
Para
evitar o acirramento de conflitos entre cônjuges, pais e
filhos, irmãos, podemos propor a via do diálogo e da negociação.
Há um provérbio africano que diz que "a palavra é o
mais eficaz dos atos humanos". É através dela que
tomamos conhecimento daquilo que se passa na mente e no coração
de outra pessoa. Se cultivarmos o recurso do diálogo
poderemos dispor no seio da família de um espaço comum, onde
todos podem se encontrar, não sendo necessário concordar ou
aceitar, mas onde é possível ter interlocutores que se
respeitem mutuamente, motivados pela busca do bem comum.
PARA
SABER MAIS, clique e leia Sementes de
Fúria
|