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O jornalista Gustavo Prudente entrevistou a ativista Vicki Robin

 

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ESPECIAL

 

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Abril/2006

 

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O que fazer para ele não possuir você

Uma receita para viver com simplicidade, realizar-se 
e ainda conseguir a aposentadoria mais cedo

Por GUSTAVO PRUDENTE

 

 

Eu havia sido treinada para o sucesso  profissional, mas não sabia nada sobre a sobrevivência básica 
                       - Vicki Robin


A americana Vicki Robin acredita que a sociedade capitalista estimula deliberadamente a quebra dos vínculos humanos. “Dessa forma, as pessoas se isolam e buscam satisfação interna no consumismo e na mídia, em vez de procurar nas relações humanas”, diz. Decidida a romper com esse e com outros paradigmas do mundo atual, especialmente com os representados pelo american way of life, Vicki trabalha há mais de 30 anos para ajudar os outros (e a si mesma) a viver com o que ela chama de “o suficiente”. Seu best-seller Your Money or Your Life (Seu dinheiro ou sua vida) ensina como ter uma visão mais realista do dinheiro, de modo que ele seja fonte de felicidade e responsabilidade social e um reflexo direto de nossos valores, e não sinônimo de consumismo desenfreado. Seguindo as teorias do livro, afirma Vicki, algumas pessoas são capazes de economizar o suficiente para, depois de dez anos, conseguirem se aposentar.

Nos últimos anos, a escritora e ativista social abriu mais duas frentes de trabalho: os Conversation Cafés (Cafés de Conversa), que reúnem pessoas em espaços públicos para discutir questões relevantes, e os Simplicity Foruns (Fóruns da Simplicidade), uma rede de profissionais unidos por um mesmo ideal – viver com simplicidade. Na entrevista a seguir, Vicki fala sobre seu trabalho e seu encanto pelo Brasil, onde esteve durante fevereiro e março, dando uma série de palestras, em parceria com o Instituto Visão Futuro (www.visaofuturo.org.br).

Como você despertou para todas as questões com que trabalha hoje?

Depois da faculdade, eu estava trabalhando na cidade de Nova York e olhei para as pessoas de minha profissão que eram bem sucedidas - e eu havia sido bem-sucedida em muitos aspectos de minha vida, por isso tinha aquele sentimento de “eu vou chegar lá” – e percebi que essas pessoas não eram felizes. E quando eu as conheci melhor, descobri que elas haviam abandonado seus sonhos de juventude. Conversei com médicos, por exemplo: eles tinham um sonho de ajudar as pessoas e agora simplesmente empurravam pílulas na goela dos outros abaixo. Eu estava na profissão teatral e conheci muitos diretores e produtores, e na maioria dos casos eles eram pessoas cínicas que tinham o sonho de criar algo bonito. E eu pensei: “Não quero fazer de mim um produto à venda, porque é para isso que estou caminhando”.

Eu tinha algumas economias, e simplesmente tirei um tempo para mim. Foi quando conheci meu co-autor [no livro Your Money and Your Life], Joe Dominguez, que havia economizado dinheiro sistematicamente, para que pudesse se aposentar cedo e continuar com sua busca espiritual. Ele havia ido para Wall Street [centro da bolsa de valores de Nova York], e começou a se fazer algumas questões: o que é dinheiro? por que as pessoas são tão loucas por ele? ele as torna felizes? Seu objetivo era descobrir o quanto de dinheiro era suficiente para ele, de uma forma que pudesse investir e ter uma renda que garantisse esse “suficiente”. Eu o conheci pouco depois dele ter atingido seu objetivo - então ele me forneceu um sistema para investir minha vida nas coisas mais importantes para mim.

Claro que eu estava sacrificando status, fama, o respeito de minha família – tudo isso. Mas era como se eu tivesse conectado com algo muito real, e eu queria permanecer com aquilo. E a ironia é que aqui estou eu, 35 anos depois, e sou famosa. Mas tive de abandonar todas as ilusões sobre o que faz com que a vida valha a pena ser vivida, e não foi fácil - as recompensas, no entanto, estavam sempre surgindo.

Eu sentia que, de um certo modo, eu havia sido treinada para ser muito bem-sucedida num nível profissional, mas não sabia nada sobre a sobrevivência básica. Nada sobre de onde minha comida vem, por exemplo. De repente, eu acordei e pensei: “Eu sou deficiente! Eu sou um grande cérebro que tem que contratar tudo que é necessário para minha sobrevivência”. E aí eu reverti esse pensamento: “eu quero saber como viver nesse planeta. Quero saber de onde minha água vem, como construir um prédio, como fazer um jardim, criar animais, consertar meu carro – eu quero saber!”. Eu tive o tempo necessário para aprender a ser uma criatura na Terra, e hoje me sinto tão segura! É uma grande segurança saber como as coisas funcionam.

Como as pessoas fazem para que as teorias de seu livro não se tornem apenas mais um “discurso bonito”, como acontece com muitos livros de auto-ajuda?

Seu dinheiro ou sua vida possui nove passos, que são muito práticos. Eles pedem para que você investigue quanto dinheiro você conseguiu em sua vida, quanto você ainda tem etc. Você realmente precisa rastrear cada centavo que entra e sai de sua vida e avaliar mensalmente seus gastos de acordo com o que te faz feliz e com a direção que você quer seguir. O livro pede que você faça um retrato claro, preciso e realista do que está acontecendo com o dinheiro em sua vida.

Então, não é um esquema do tipo “fique-rico-rápido”, mas um sistema filosófico, apoiado em nove passos práticos. Você não obtém uma transformação até que realmente faça o trabalho. E não é algo que acontece de uma hora para a outra – é um processo contínuo. Por exemplo, você pode perguntar: “esse produto apóia meu propósito de vida?”, e aí se questionar: “que propósito de vida?”. Então, o próprio processo de ganhar e gastar dinheiro se torna uma meditação constante: “qual o seu propósito de vida? quais são os seus valores? que coisas fazem você feliz?”. É uma meditação constante sobre sua relação com o mundo material e sobre o quanto desse mundo material você precisa trazer para sua esfera para ser a pessoa que você quer. É profundo e para a vida toda.

Nós fizemos uma pesquisa com as pessoas que seguem o livro, questionando-as depois de seis meses do início do programa, e descobrimos que elas passam a gastar 20% menos. Quase todos disseram que elas estavam mais felizes, porque sentiam que possuíam mais poder. É como quando você não faz exercício e aí passa a fazer – você se sente com mais controle sobre sua vida. Claro que a barreira do programa é que se torna chato fazer todo o rastreamento e a avaliação de seu dinheiro, então muitas pessoas começam e seguem os passos durante três meses, têm alguns insights e depois param de seguir. Exatamente como as pessoas que vão para a academia, fazem musculação por três meses e depois pensam: “estou muito ocupado e tenho outras coisas para fazer”. E isso não é ruim – talvez após três meses você tenha o insight mais importante da sua vida e depois não queira mais fazer o programa. Tudo bem!

O que observei é que todos que leram o livro tiveram algum insight sobre sua relação com o dinheiro que os acordou. Eu diria que apenas 1% fazem todos os nove passos, e se você segue praticando, eventualmente pode se aposentar cedo – a média de tempo é dez anos.

Fale um pouco sobre os Cafés de Conversa

Alguns amigos e eu, no verão de 2001, cada um por suas próprias razões, decidimos que queríamos fazer um experimento – aumentar o nível de conversa na cultura. Fazer as pessoas falarem. Então, cada um de nós se colocou numa cafeteria diferente de Seattle [no Estado americano de Washington] toda semana, e convidamos as pessoas que administravam o lugar e amigos nossos para conversar.

Se nós não pudermos pensar juntos sobre a direção que estamos tomando, então vamos seguir cegamente qualquer direção que nossos líderes ou as empresas nos digam para tomar. Se não temos uma capacidade para pensar criticamente, não temos uma democracia.

Imagine se nós tivéssemos uma cultura em que as pessoas pudessem aprender como mudar do “papo furado” para o “papo firme”. Se houvesse cafés de conversa por todo o Brasil, discutindo o que as pessoas amam no país e não querem que mudem e o que odeiam e desejam mudar, você não poderia ter um governo e um bando de pessoas ricas tomando todas as decisões sobre o que acontece aqui.

E como funcionam essas rodas de conversa?

Fazemos duas rodadas em que cada pessoa fala, uma por vez, e depois nós respondemos. Elas falam sobre o que quer que desejem – mas cada um por apenas um minuto. Elas seguram um objeto, que representa sua vez de falar. Depois que algumas pessoas já falaram, você estabelece uma atmosfera de respeito e reflexão, porque quando você está falando e sabe que ninguém vai te interromper, pode relaxar e pensar. E depois nós abrimos a roda para o bate-papo.

Com isso, nós estabelecemos uma escuta e um respeito profundos e simplesmente deixamos a coisa fluir para ver onde vai chegar. Acontece muita troca e é tudo muito vivo, e há uma espécie de acordo sobre escutar com respeito e falar com sinceridade e não ficar discursando. Há sempre um anfitrião, que presta atenção especial para a qualidade da conversa. Se as pessoas estão entrando em discussões ou se alguém está dominando, o anfitrião vai segurar o objeto de conversa e lembra-los de que há outras pessoas querendo falar.

E esses Cafés estão acontecendo em quantas cidades?

A última vez que olhei, havia provavelmente 20 ou 30 cidades, mas houve um que aconteceu em Porto Alegre [RS], e eles estão se espalhando pela Inglaterra. Qualquer um que deseje promover um café de conversa pode ir ao website [www.conversationcafe.org], baixar o manual e organizar o encontro. Você não tem de se filiar a um clube ou pagar taxas – é tudo gratuito.

E quanto aos Simplicity Foruns? Como eles funcionam?

Os Fóruns da Simplicidade [www.simplicityforum.org] são uma aliança de líderes que, de alguma forma, fizeram da simplicidade uma parte significativa de suas vidas profissionais ou voluntárias. São pessoas que dão palestras, escrevem livros, fazem filmes, pesquisas acadêmicas... Nós vamos promover nosso 6o congresso anual este ano, com pessoas do Canadá e da Europa. E eu acho que seria ótimo ter pessoas do Brasil conectadas ao fórum da simplicidade.

Meu livro foi muito bem-sucedido, mas esse é apenas um livro. O que precisamos é de todo um movimento. Muitos estudos dizem que 25% das pessoas nos Estados Unidos estão fazendo algum esforço para simplificar suas vidas – mas isso não é um movimento, é apenas um bando de pessoas. Todos eles se sentem sozinhos. Todos sentem que estão perdendo status, poder, sucesso, porque eles querem desacelerar suas vidas. Vida simples significa refletir sobre sua vida e definir o que é essencial, o que vale a pena. E os cafés de conversa dizem respeito a pessoas unidas refletindo sobre o que é importante para nós todos.

O que você achou do Brasil?

Há todas essas culturas diferentes no Brasil, e isso nos torna mais criativos e mais vivos. Então, há um senso de apreciação por diferentes culturas nesse país, enquanto nos Estados Unidos as diferentes culturas estão mais em competição umas com as outras.

 Há um sentimento de criatividade e há recursos naturais. O Brasil é ainda incrivelmente rico em termos de recursos naturais, e os Estados Unidos estão ficando exauridos. Na verdade, para manter seu estilo de vida, as pessoas nos Estados Unidos estão cada vez mais drenando recursos do resto do mundo – e isso é bastante óbvio. E há cada vez mais um sentimento de propriedade sobre os recursos do resto do mundo. “Esse é nosso petróleo em nosso país. Não é da Venezuela. É o nosso açúcar”. Os Estados Unidos não é mais o mesmo país que era sete ou cinco anos atrás, quando era muito mais auto-suficiente em termos de recursos.

Além disso, há uma sensação de felicidade nas pessoas do Brasil. Elas se tocam, e talvez seja apenas porque estou aqui durante o carnaval, mas parece que estão contentes em seus corpos. Nos Estados Unidos, nós comemos demais e muitos de nós são realmente gordos. E elas também não se tocam. Então, há uma qualidade de vida aqui, de alegria, felicidade e vitalidade.

Por falar nisso, outro ponto em que a cultura do consumo opera é na inveja e na vergonha. Uma vez ouvi um africano, que disse: “em meu povoado nós éramos perfeitamente felizes, até que chegou a televisão. Depois, nos sentimos envergonhados. Porque as pessoas na TV tinham tantas coisas e eram tão bonitas...”. E eles olharam em torno de seu povoado e nada mais parecia bom. Essa inveja é uma pena, porque significa que as pessoas no Brasil, por exemplo, vão sacrificar a felicidade vêem pela que não vêem.

Me parece que não podemos idealizar a cultura dos países menos desenvolvidos, tentando protegê-las da troca com outras culturas, mas também não podemos fazer como os Estados Unidos, canibalizando essas culturas. Qual é o meio-termo?

Trata-se de ter uma capacidade refletir sobre o fluxo do dinheiro. Refletir sobre o que está acontecendo em sua vida, com um sentimento interno de quais são seus valores, seus objetivos e o que realmente faz você feliz, e escolher entre o que está na sua frente e aquilo que realmente traz felicidade. E você não deve desacreditar a felicidade familiar – a que existe nesse país - e idealizar a felicidade não-familiar. Se você fizer isso, vai fazer exatamente o que nós fizemos: exaurir seus recursos em nome de obter carros novos, casas novas e todas essas coisas.

E a questão é que até que você chega ao ponto em que as pessoas estão com dívidas de 8 mil dólares, os divórcios acontecem em 50% dos casos e as crianças estão cometendo suicídio [dados sobre a população americana, que Vicki cita em suas palestras], ninguém tem tempo.

Nós passamos muito da curva da satisfação. A tarefa hoje diz respeito a se livrar das coisas que não importam. Então, trata-se de passar menos tempo no trabalho, vender seu carro, viver numa casa menor, livrar-se de seus compromissos e de seus e-mails. Você precisa se livrar das coisas para retornar a algo que possa sentir como real e que pareça proporcional. Essa é atividade de quem está acordando do pesadelo.

No Brasil, há uma busca frenética de alguns cidadãos urbanos para entrar em contato com culturas tradicionais, e alguns antropólogos dizem que isso é fruto de uma busca por autenticidade.

Sim, e nós estamos perdendo essa autenticidade. As cidades são assim – desenhadas para que as percamos. Você passa uma hora e meia no seu carro tentando ir do ponto A ao ponto B. É exaustivo, sujo e venenoso. Por que o Brasil não está exportando esse sentimento básico de felicidade? Por que não está enviando missionários para os Estados Unidos para nos ajudar? É porque as empresas e a mídia são donas do governo e, noite e dia, nos enchem com sua propaganda para que acreditemos que um produto é uma fonte de felicidade, e a verdade é que não é, depois de um certo ponto. Mas eles estão fazendo um trabalho público massivo para que prefiramos coisas em vez de pessoas.

Quer falar com o autor? >>> gustavoprudente@superig.com.br

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