Depois
da faculdade, eu estava trabalhando na cidade de Nova York e olhei
para as pessoas de minha profissão que eram bem sucedidas - e eu
havia sido bem-sucedida em muitos aspectos de minha vida, por isso
tinha aquele sentimento de “eu vou chegar lá” – e percebi
que essas pessoas não eram felizes. E quando eu as conheci
melhor, descobri que elas haviam abandonado seus sonhos de
juventude. Conversei com médicos, por exemplo: eles tinham um
sonho de ajudar as pessoas e agora simplesmente empurravam pílulas
na goela dos outros abaixo. Eu estava na profissão teatral e
conheci muitos diretores e produtores, e na maioria dos casos eles
eram pessoas cínicas que tinham o sonho de criar algo bonito. E
eu pensei: “Não quero fazer de mim um produto à venda, porque
é para isso que estou caminhando”.
Eu
tinha algumas economias, e simplesmente tirei um tempo para mim.
Foi quando conheci meu co-autor [no livro Your Money and Your
Life], Joe Dominguez, que havia economizado dinheiro
sistematicamente, para que pudesse se aposentar cedo e continuar
com sua busca espiritual. Ele havia ido para Wall Street [centro
da bolsa de valores de Nova York], e começou a se fazer
algumas questões: o que é dinheiro? por que as pessoas são tão
loucas por ele? ele as torna felizes? Seu objetivo era descobrir o
quanto de dinheiro era suficiente para ele, de uma forma que
pudesse investir e ter uma renda que garantisse esse
“suficiente”. Eu o conheci pouco depois dele ter atingido seu
objetivo - então ele me forneceu um sistema para investir minha
vida nas coisas mais importantes para mim.
Claro
que eu estava sacrificando status, fama, o respeito de minha família
– tudo isso. Mas era como se eu tivesse conectado com algo muito
real, e eu queria permanecer com aquilo. E a ironia é que aqui
estou eu, 35 anos depois, e sou famosa. Mas tive de abandonar
todas as ilusões sobre o que faz com que a vida valha a pena ser
vivida, e não foi fácil - as recompensas, no entanto, estavam
sempre surgindo.
Eu
sentia que, de um certo modo, eu havia sido treinada para ser
muito bem-sucedida num nível profissional, mas não sabia nada
sobre a sobrevivência básica. Nada sobre de onde minha comida
vem, por exemplo. De repente, eu acordei e pensei: “Eu sou
deficiente! Eu sou um grande cérebro que tem que contratar tudo
que é necessário para minha sobrevivência”. E aí eu reverti
esse pensamento: “eu quero saber como viver nesse planeta. Quero
saber de onde minha água vem, como construir um prédio, como
fazer um jardim, criar animais, consertar meu carro – eu quero
saber!”. Eu tive o tempo necessário para aprender a ser uma
criatura na Terra, e hoje me sinto tão segura! É uma grande
segurança saber como as coisas funcionam.
Como
as pessoas fazem para que as teorias de seu livro não se tornem
apenas mais um “discurso bonito”, como acontece com muitos
livros de auto-ajuda?
Seu
dinheiro ou sua vida possui nove passos, que são muito práticos.
Eles pedem para que você investigue quanto dinheiro você
conseguiu em sua vida, quanto você ainda tem etc. Você realmente
precisa rastrear cada centavo que entra e sai de sua vida e
avaliar mensalmente seus gastos de acordo com o que te faz feliz e
com a direção que você quer seguir. O livro pede que você faça
um retrato claro, preciso e realista do que está acontecendo com
o dinheiro em sua vida.
Então,
não é um esquema do tipo “fique-rico-rápido”, mas um
sistema filosófico, apoiado em nove passos práticos. Você não
obtém uma transformação até que realmente faça o trabalho. E
não é algo que acontece de uma hora para a outra – é um
processo contínuo. Por exemplo, você pode perguntar: “esse
produto apóia meu propósito de vida?”, e aí se questionar:
“que propósito de vida?”. Então, o próprio processo de
ganhar e gastar dinheiro se torna uma meditação constante:
“qual o seu propósito de vida? quais são os seus valores? que
coisas fazem você feliz?”. É uma meditação constante sobre
sua relação com o mundo material e sobre o quanto desse mundo
material você precisa trazer para sua esfera para ser a pessoa
que você quer. É profundo e para a vida toda.
Nós
fizemos uma pesquisa com as pessoas que seguem o livro,
questionando-as depois de seis meses do início do programa, e
descobrimos que elas passam a gastar 20% menos. Quase todos
disseram que elas estavam mais felizes, porque sentiam que possuíam
mais poder. É como quando você não faz exercício e aí passa a
fazer – você se sente com mais controle sobre sua vida. Claro
que a barreira do programa é que se torna chato fazer todo o
rastreamento e a avaliação de seu dinheiro, então muitas
pessoas começam e seguem os passos durante três meses, têm
alguns insights e depois param de seguir. Exatamente como
as pessoas que vão para a academia, fazem musculação por três
meses e depois pensam: “estou muito ocupado e tenho outras
coisas para fazer”. E isso não é ruim – talvez após três
meses você tenha o insight mais importante da sua vida e
depois não queira mais fazer o programa. Tudo bem!
O
que observei é que todos que leram o livro tiveram algum insight
sobre sua relação com o dinheiro que os acordou. Eu diria
que apenas 1% fazem todos os nove passos, e se você segue
praticando, eventualmente pode se aposentar cedo – a média de
tempo é dez anos.
Alguns
amigos e eu, no verão de 2001, cada um por suas próprias razões,
decidimos que queríamos fazer um experimento – aumentar o nível
de conversa na cultura. Fazer as pessoas falarem. Então, cada um
de nós se colocou numa cafeteria diferente de Seattle [no
Estado americano de Washington] toda semana, e convidamos as
pessoas que administravam o lugar e amigos nossos para conversar.
Se
nós não pudermos pensar juntos sobre a direção que estamos
tomando, então vamos seguir cegamente qualquer direção que
nossos líderes ou as empresas nos digam para tomar. Se não temos
uma capacidade para pensar criticamente, não temos uma
democracia.
Imagine
se nós tivéssemos uma cultura em que as pessoas pudessem
aprender como mudar do “papo furado” para o “papo firme”.
Se houvesse cafés de conversa por todo o Brasil, discutindo o que
as pessoas amam no país e não querem que mudem e o que odeiam e
desejam mudar, você não poderia ter um governo e um bando de
pessoas ricas tomando todas as decisões sobre o que acontece
aqui.
E
como funcionam essas rodas de conversa?
Fazemos
duas rodadas em que cada pessoa fala, uma por vez, e depois nós
respondemos. Elas falam sobre o que quer que desejem – mas cada
um por apenas um minuto. Elas seguram um objeto, que representa
sua vez de falar. Depois que algumas pessoas já falaram, você
estabelece uma atmosfera de respeito e reflexão, porque quando
você está falando e sabe que ninguém vai te interromper, pode
relaxar e pensar. E depois nós abrimos a roda para o bate-papo.
Com
isso, nós estabelecemos uma escuta e um respeito profundos e
simplesmente deixamos a coisa fluir para ver onde vai chegar.
Acontece muita troca e é tudo muito vivo, e há uma espécie de
acordo sobre escutar com respeito e falar com sinceridade e não
ficar discursando. Há sempre um anfitrião, que presta atenção
especial para a qualidade da conversa. Se as pessoas estão
entrando em discussões ou se alguém está dominando, o anfitrião
vai segurar o objeto de conversa e lembra-los de que há outras
pessoas querendo falar.
E
esses Cafés estão acontecendo em quantas cidades?
A
última vez que olhei, havia provavelmente 20 ou 30 cidades, mas
houve um que aconteceu em Porto Alegre [RS], e eles estão
se espalhando pela Inglaterra. Qualquer um que deseje promover um
café de conversa pode ir ao website [www.conversationcafe.org],
baixar o manual e organizar o encontro. Você não tem de se
filiar a um clube ou pagar taxas – é tudo gratuito.
E
quanto aos Simplicity Foruns? Como eles funcionam?
Os
Fóruns da Simplicidade [www.simplicityforum.org] são uma aliança de líderes
que, de alguma forma, fizeram da simplicidade uma parte
significativa de suas vidas profissionais ou voluntárias. São
pessoas que dão palestras, escrevem livros, fazem filmes,
pesquisas acadêmicas... Nós vamos promover nosso 6o
congresso anual este ano, com pessoas do Canadá e da Europa. E eu
acho que seria ótimo ter pessoas do Brasil conectadas ao fórum
da simplicidade.
Meu
livro foi muito bem-sucedido, mas esse é apenas um livro. O que
precisamos é de todo um movimento. Muitos estudos dizem que 25%
das pessoas nos Estados Unidos estão fazendo algum esforço para
simplificar suas vidas – mas isso não é um movimento, é
apenas um bando de pessoas. Todos eles se sentem sozinhos. Todos
sentem que estão perdendo status, poder, sucesso, porque
eles querem desacelerar suas vidas. Vida simples significa
refletir sobre sua vida e definir o que é essencial, o que vale a
pena. E os cafés de conversa dizem respeito a pessoas unidas
refletindo sobre o que é importante para nós todos.
O
que você achou do Brasil?
Há
todas essas culturas diferentes no Brasil, e isso nos torna mais
criativos e mais vivos. Então, há um senso de apreciação por
diferentes culturas nesse país, enquanto nos Estados Unidos as
diferentes culturas estão mais em competição umas com as
outras.
Há
um sentimento de criatividade e há recursos naturais. O Brasil é
ainda incrivelmente rico em termos de recursos naturais, e os
Estados Unidos estão ficando exauridos. Na verdade, para manter
seu estilo de vida, as pessoas nos Estados Unidos estão cada vez
mais drenando recursos do resto do mundo – e isso é bastante óbvio.
E há cada vez mais um sentimento de propriedade sobre os recursos
do resto do mundo. “Esse é nosso petróleo em nosso país. Não
é da Venezuela. É o nosso açúcar”. Os Estados Unidos não é
mais o mesmo país que era sete ou cinco anos atrás, quando era
muito mais auto-suficiente em termos de recursos.
Além
disso, há uma sensação de felicidade nas pessoas do Brasil.
Elas se tocam, e talvez seja apenas porque estou aqui durante o
carnaval, mas parece que estão contentes em seus corpos. Nos
Estados Unidos, nós comemos demais e muitos de nós são
realmente gordos. E elas também não se tocam. Então, há uma
qualidade de vida aqui, de alegria, felicidade e vitalidade.
Por
falar nisso, outro ponto em que a cultura do consumo opera é na
inveja e na vergonha. Uma vez ouvi um africano, que disse: “em
meu povoado nós éramos perfeitamente felizes, até que chegou a
televisão. Depois, nos sentimos envergonhados. Porque as pessoas
na TV tinham tantas coisas e eram tão bonitas...”. E eles
olharam em torno de seu povoado e nada mais parecia bom. Essa
inveja é uma pena, porque significa que as pessoas no Brasil, por
exemplo, vão sacrificar a felicidade vêem pela que não vêem.
Me
parece que não podemos idealizar a cultura dos países menos
desenvolvidos, tentando protegê-las da troca com outras culturas,
mas também não podemos fazer como os Estados Unidos,
canibalizando essas culturas. Qual é o meio-termo?
Trata-se
de ter uma capacidade refletir sobre o fluxo do dinheiro. Refletir
sobre o que está acontecendo em sua vida, com um sentimento
interno de quais são seus valores, seus objetivos e o que
realmente faz você feliz, e escolher entre o que está na sua
frente e aquilo que realmente traz felicidade. E você não deve
desacreditar a felicidade familiar – a que existe nesse país -
e idealizar a felicidade não-familiar. Se você fizer isso, vai
fazer exatamente o que nós fizemos: exaurir seus recursos em nome
de obter carros novos, casas novas e todas essas coisas.
E
a questão é que até que você chega ao ponto em que as pessoas
estão com dívidas de 8 mil dólares, os divórcios acontecem em
50% dos casos e as crianças estão cometendo suicídio [dados
sobre a população americana, que Vicki cita em suas palestras],
ninguém tem tempo.
Nós
passamos muito da curva da satisfação. A tarefa hoje diz
respeito a se livrar das coisas que não importam. Então,
trata-se de passar menos tempo no trabalho, vender seu carro,
viver numa casa menor, livrar-se de seus compromissos e de seus
e-mails. Você precisa se livrar das coisas para retornar a algo
que possa sentir como real e que pareça proporcional. Essa é
atividade de quem está acordando do pesadelo.
No
Brasil, há uma busca frenética de alguns cidadãos urbanos para
entrar em contato com culturas tradicionais, e alguns antropólogos
dizem que isso é fruto de uma busca por autenticidade.
Sim,
e nós estamos perdendo essa autenticidade. As cidades são assim
– desenhadas para que as percamos. Você passa uma hora e meia
no seu carro tentando ir do ponto A ao ponto B. É exaustivo, sujo
e venenoso. Por que o Brasil não está exportando esse sentimento
básico de felicidade? Por que não está enviando missionários
para os Estados Unidos para nos ajudar? É porque as empresas e a
mídia são donas do governo e, noite e dia, nos enchem com sua
propaganda para que acreditemos que um produto é uma fonte de
felicidade, e a verdade é que não é, depois de um certo ponto.
Mas eles estão fazendo um trabalho público massivo para que
prefiramos coisas em vez de pessoas.