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Ano
XI
Nº 342
Texto
publicado na edição de janeiro de 2005 da revista Viagem e
Turismo
Outras reportagens
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O
Nordeste que poucos conhecem - III
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O
melhor do Velho Chico
Entre
Alagoas, Sergipe e Bahia, um espetáculo de águas
verdes, cânions, ilhas misteriosas e monumentos
históricos em pleno sertão
Por
Jomar Morais / Fotos Luis Morais
(O texto completo
e o serviço estão nas páginas da Viagem e Turismo) |

Luis
Morais e JM: roteiro no São Francisco
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Sol,
cores, ação... A escuna de 25 metros desliza sobre as águas
verdes, serpenteando entre paredões rochosos que canalizam a brisa
e ampliam o relax. Garças esparsas cortam o céu azul. Barquinhos
frágeis e coloridos desfilam serenos movido a músculos nativos.
Aqui e ali, o grito estridente de um macaco-prego rompe a harmonia
de gorjeios distantes. Incrível! Na escuna ocupada por 80 pessoas,
por alguns instantes faz a unanimidade: olhares fixos e bocas
entreabertas, a turistada barulhenta se aquieta e num silêncio
quase devocional contempla o cenário paradisíaco. Exagero? Você,
certamente, faria o mesmo. É difícil imaginar outro tipo de
reação num lugar tão especial como esse - o cânion do rio São
Francisco.
O
Velho Chico, como é carinhosamente chamado terceiro maior rio do
país, está na moda. A cada dia mais e mais brasileiros e
estrangeiros acorrem ao trecho final de sua extensa trajetória de
quase 2 897 quilômetros (o chamado baixo São Francisco, entre os
estados de Alagoas, Sergipe e Bahia), atraídos pela beleza e pela
história preservadas dentro e fora de suas águas. Se no passado, o
Velho Chico sustentou a unidade nacional, ao facilitar a
circulação de riquezas entre o centro-sul e o nordeste, hoje
desponta como um dos grandes programas de turismo ecológico e de
aventura no interior do país.
O
São Francisco é, literalmente, coisa de cinema. Nos últimos anos,
duas produções brasileiras – os filmes Deus é brasileiro
e Espelho d´água – levaram para as telas a opulência de
suas paisagens e mitos, aguçando ainda mais o desejo por
conhecê-los. O cânion na região da hidrelétrica de Xingó é só
o ponto culminante de uma seqüência de encantos que ocorrem entre
Paulo Afonso, na Bahia, e
o delta do rio, quase 300 quilômetros adiante. No rio das
carrancas, relicário de lendas e tradições, quase tudo deslumbra
num percurso em que passado e presente, realidade e fantasia
se fundem a favor da tranqüilidade e do prazer. Penedo, a
cidade imponente em seus casarões e igrejas setecentistas que lhe
valeram o apelido de a “Ouro Preto do Nordeste”... A pequena
Piranhas e seu casario colorido e tricentenário, repleto de
segredos dos últimos dias de Lampião... A abundância do delta e
suas ilhas misteriosas, abrigo de remanescentes de antigos
quilombos...
Saímos
de Maceió, enfrentamos estradas, barcos, catamarãs e escunas e
fomos ver, de perto, todos esses encantos do Velho Chico.
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Velas
quadradas ao vento
O
melhor é começar no lugar onde o rio acaba: a foz
salpicada de ilhas e canais, na verdade um delta. É também
um jeito de iniciar o roteiro com uma overdose de prazer. O
próprio trajeto entre a capital de Alagoas e a cidade de
Piaçabuçu, de onde zarpam barcos e catamarãs para o
passeio no delta, é uma atração à parte. A viagem é
pela AL-101, rodovia estadual bem conservada que, ao longo
de 138 quilômetros, margeia as mais lindas praias do
litoral sul alagoano. A estrada é, em sua maior parte, um
extenso mirante de onde se pode encher os olhos com a beleza
da Praia do Francês, da Barra de São Miguel e da enseada
do Gunga.
O
percurso é rápido, mas para essa etapa é bom levar
lanches e bebidas. Piaçabuçu é só um ancoradouro. A
cidadezinha não tem infra-estrutura turística. E não há
barcos com serviço de bordo. Essa comodidade é oferecida
nos catamarãs, que são contratados em hotéis de Penedo, a
30 quilômetros do local. O passeio no delta dura, em
média, 2 horas e meia, com uma parada para banhos no São
Francisco e na piscina natural formada entre dunas no exato
local onde o rio encontra o mar.
Ali, no lado alagoano quanto no sergipano, povoados
foram engolidos pelo Atlântico nos últimos anos. De tudo o
que existia, só a torre tombada de um antigo farol ainda
está à vista.
A
foz do Velho Chico é um cenário de morros e mangues,
coqueirais e roças e de uma apoteose de barquinhos de velas
quadradas, típicas da região. Em suas 13 ilhas, muitas
usadas para o plantio, quase não se vê pessoas e pelo
menos uma delas guarda mistérios que os guias locais
costumam valorizar. Trata-se da ilha do Pixaim, habitada por
uma pequena comunidade de negros, semi-reclusa, que no
passado teria sido um dos quilombos de Alagoas. “Quando eu
era jovem, gostava de ir ao Pixaim para namorar e participar
dos batuques dos negros”, diz Milton Costa dos Santos, 73
anos, um
ex-pescador de Piaçabuçu que hoje ganha a vida
transportando e contando histórias para turistas em seu
barco a motor. A rotina no Pixaim ainda é preguiçosa sob
taperas de palha, mas a presença de estranhos nem sempre é
bem-vinda.
Em
Piaçabuçu, o forte é o artesanato em palha –
principalmente chapéus de aba larga, boa proteção contra
o sol tórrido – e as peixadas. Para beber, muita água de
côco. Uma simplicidade envolvente que se completa com o
jeito alegre de crianças e barqueiros oferecendo serviços.
“Nosso principal produto é a pureza e a autenticidade”,
afirma o belga Roeland Emiel Steylaerts, que há seis anos
decidiu morar na região, onde mantém a única agência de
turismo de Piaçabuçu, a Mercator. Ficar no delta é sempre
uma tentação, mas para nós os encantos do lugar são
apenas o começo de uma maravilhosa aventura.
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Barquinho
em Piaçabuçu: velas estilizadas

Quilombo
do Pixaim: sesta na foz do Velho Chico
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Penedo,
o esplendor do passado
Depois
de rodar apenas 20 minutos, chegamos a Penedo, a antiga vila
erguida por bandeirantes do século XVI sobre um rochedo
(daí o nome Penedo, que significa grande rocha), num trecho
caudaloso do Velho Chico. A Penedo histórica – hoje a
cidade tem 57 000 habitantes e muitos bairros – guarda a
suntuosidade de uma época de fausto com ares de profunda
nostalgia. Não existe mais a exuberância econômica do
tempo em que o lugar foi um importante entreposto comercial,
até a década de 1960. Mas, graças ao turismo, aos poucos
vai-se consolidando um novo ciclo de prosperidade. Aqui, ao
prazer de apreciar a paisagem do rio, suas curvas e suas ilhas de um lugar
especial, soma-se o privilégio de deliciar-se com o
conjunto arquitetônico barroco de ladeiras e pátios onde
ricas igrejas do século XVII, conventos, sobrados e outros
monumentos artístico-culturais evocam a presença
portuguesa, holandesa e das antigas missões religiosas.
Limpa
e tranqüila, Penedo costuma agitar-se nos finais de semana,
quando caravanas de jovens de capitais nordestinas lotam
hotéis e pousadas, em
passeios pedagógicos à foz do São Francisco. As ruas
centro histórico ganham um colorido e também um barulho
especial e os serviços nos hotéis às vezes são
prejudicados pela sobrecarga. Mas nada ao ponto de
inviabilizar o programa de quem quer curtir a cidade com
mais recato. É possível cumprir sem atropelos um roteiro
de visitas a
monumentos e museus e, no final, assistir em paz ao
espetáculo do pôr-do-sol dourando o rio, enquanto antigos
barcos-gaiolas transportam passageiros.
O
Paço Imperial, à beira-rio, abriga dois dos prédios
históricos mais importantes de Penedo: a igreja de Nossa
Senhora das Correntes e o sobrado onde o imperador D. Pedro
II hospedou-se em 1859,
hoje um museu de peças imperiais. A Igreja das Correntes,
construída em 1720 pela poderosa família Lemos, tem estilo
barroco, nave e altares folheados a ouro e uma bela pintura
ilusionista do Sagrado Coração de Jesus. Junto ao altar
há uma passagem secreta onde escravos fugitivos permaneciam
escondidos até serem beneficiados por cartas de alforria
falsificadas. Dois outros monumentos são a Igreja Santa
Maria dos Anjos, anexa ao Convento São Francisco, onde
abundam o ouro e o estilo rococó nos altares laterais, e o
Teatro Sete de Setembro, construído no século XIX. A
Igreja de São Gonçalo Garcia, com o seu altar neoclássico
e imagens em tamanho natural, está fechada para reforma.
A
cidade abrigou gerações de grandes santeiros, dos quais
Claudeonor Higino é um dos últimos sobrevivente. Mas a
arte das carrancas, jarros, potes, moringas e panelas
continua exuberante nas barracas da praça São Cristóvão,
em frente ao porto. Vale a pena cruzar o rio numa “gaiola”
e conhecer ao vivo o trabalho dos artesãos de Santana do
São Francisco, antiga Carrapicho, onde é fabricada a
maioria das peças vendidas em Penedo. Oleiros como o jovem
Claudionor Catarino, de 23 anos,
e o experiente Lola, produzem em minutos peças que
são oferecidas a preço irrisórios, a maioria por
apenas 1 real.
À
noite, a melhor opção é a gastronomia penedense, com seus
pratos suculentos sempre desgustados à beira-rio. Há dois
endereços agradabilíssimos: o rústico Oratório, bar e
restaurante que é o point da praiainha junto ao porto, e o
exótico restaurante Forte da Rocheira, erguido sobre a
pedra que deu nome à cidade. No Oratório, a pituzada,
ensopado de um camarão gigante típico de água doce, é
apreciada com drinques cremosos, preferidos da galera jovem.
Tudo ao som de MPB. No Rocheira, o forte são os pratos
esquisitos, como saboroso jacaré ao molho de côco.
Penedo,
normalmente, é sossegada e dorme cedo. Assim, o melhor é
aproveitar esse ritmo pacato e descansar, pois a etapa
seguinte da aventura exigirá um pouco mais de bom-humor e
disposição.
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Paço
Imperial e Igreja N. S. das Correntes, em Penedo

O
oleiro Claudionor Catarino: artesanato e preço baixo

Paz
e fé no pátio do convento dos franciscanos |
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Todas
as cores do cânion
Canindé
do São Francisco é o nosso próximo destino. É lá que
estão o lago de Xingó, formado pela barragem da usina
hidrelétrica, e o cânion navegável do Velho Chico, um dos
maiores do mundo, com 60 quilômetros de extensão. Pode-se
chegar à região de barco, mas essa opção é cara e
lenta. O melhor é tomar a balsa em Penedo, curtir a
travessia para Neópolis, já no estado de Sergipe, e a
partir daí rodar 190 quilômetros por estradas nem sempre
bem conservadas e com pouca sinalização. A viagem é um
tanto desconfortável, mas essa desvantagem é logo
esquecida quando se chega à serra do Chapéu de Couro, onde
fica o único hotel turístico de Canindé, o Xingó Parque
Hotel, erguido junto a um dos vertedouros da hidrelétrica.
O barulho da cascata, o visual da mata e das águas correndo
sobre rochas graníticas e o conjunto de piscinas em meio a
jardins bem cuidados dissolvem qualquer resquício de
tensão ou ansiedade.
Vale
a pena iniciar o programa com uma visita guiada à
hidrelétrica de Xingó, uma das nove usinas do São
Francisco que abastecem o nordeste e considerada modelo de
alta tecnologia de geração elétrica. De seus mirantes,
descortina-se o lago artificial de rara beleza. Apreciar o
bailado das aves na ilha das Garças, em frente à estrutura
maior, que abriga as seis turbinas geradoras, é um
espetáculo imperdível. Pertinho está o museu de
Arqueologia, que guarda fósseis e objetos encontrados
durante a construção da usina, alguns datados de 8 000
anos. Junto do lago há pequenos restaurantes típicos, que
servem pescados, e o famoso Karranca´s, restaurante
flutuante onde se saboreia surubim ao molho de camarão e
bode guisado, com feijão verde, macaxeira e farofa.
Tudo
isso é aperitivo que antecede a atração maior do passeio
no cânion, seja em lanchas motorizadas, dois catamarãs ou
na escuna Maria Bonita, com capacidade para até 130
passageiros. O cânion liga a usina de Xingó à
hidrelétrica Paulo Afonso IV, no município baiano de Paulo
Afonso. Com o represamento, antigas corredeiras deram lugar
a águas de até 141 metros de profundidade que serpenteam
tranqüilas entre paredões rochosos de 60 milhões de anos,
alguns com altura de 95 metros.
Os
catamarãs, cumprem dois roteiros distintos. O Pomonga, que
parte da marina do Xingó Parque Hotel, segue pela parte
baixa com destino ao povoado à cidade histórica cidade de
Piranhas e a região da Grota de Angicos, onde em 1938 o
cangaceiro Lampião foi emboscado e morto, junto com sua
mulher Maria Bonita e os principais integrantes de seu
bando. O Cotinguiba zarpa do restaurante Karranca´s, segue
na direção do Paraíso do Talhado, uma área que merece o
nome. Ali, há parada mergulho e nativos oferecem passeios
em botes pelo braço de rio que invade uma gruta.
A
boa é fazer o roteiro do Cotinguiba a bordo da escuna Maria
Bonita, que só opera nos fins de semana e feriados. O barco
desliza suave, em meio à brisa relaxante, permitindo a
observação de ninhais de aves aquáticas, de ilhas
solitárias e de formações rochosas como a Pedra do
Gavião, a Pedra do Japonês e o Morro dos Macacos – um
deslumbramento para americanos, canadenses, ingleses e
franceses que, por ocasião de nossa visita, dividiam o
espaço da escuna com turistas brasileiros. Quando a Maria
Bonita finalmente ancora junto à Gruta do Talhado, para
banhos nas águas translúcidas, tem-se um daqueles momentos
nos quais se pode usar o adjetivo fantástico, sem receio de
parecer exagerado.
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Navegando em barquinho na Gruta do Talhado

Banho
junto ao paredão: águas esmeraldas |
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Piranhas,
um relicário do sertão
O
ponto final desse itinerário inesquecível é Piranhas, a
cidadezinha colorida acomodada numa escarpa junto ao rio. De
Canindé até aqui, de carro, são apenas 21 quilômetros em
estrada asfaltada. Na entrada, no alto do penhasco, é
possível apreciar o vale verde por onde avança o Velho
Chico na confluência de três estados: Alagoas, Sergipe e
Bahia. Ao descer a avenida principal, rumo ao cáis, o
encanto são as vielas muito estreitas, esgueirando-se na
rocha, com suas casinhas do início do século passado,
enfeitadas com platibandas e paredes em tons verde, azul e
rosa.
A
antiga estação ferroviária, de onde partia o trem que
ligava o lugar a Jatobá, em Pernambuco, é agora o Museu do
Sertão, onde são preservados roupas e utensílios dos
antigos sertanejos e, principalmente, fotos e outras
relíquias do rei do cangaço, Lampião. Foi em Piranhas que
as “volantes” que perseguiam o cangaceiro sertão afora conseguiram armar o
bote final sobre o inimigo, ao desconfiarem de dois irmãos
“coiteiros” (nativos que, por temor, forneciam ajuda ao
cangaço) enquanto adquiriam grande quantidade de
mantimentos na cidade, em 25 de julho de 1938. Dois dias
depois, Lampião e seu bando seriam surpreendidos numa vala
na localidade de Angicos, hoje município de Poço Redondo,
sem tempo para reagir. Além dele e de Maria Bonita
(degolada viva na ocasião), morreram outros oito
cangaceiros.
Para
visitar o local, conhecido como a Grota de Lampião, é
preciso navegar o São Francisco durante 25 minutos em
pequenos barcos a motor e, depois, embrenhar-se numa trilha
de 600 metros, sob a orientação de Francisco Rodrigues,
sobrinho neto dos coiteiros. Ir à grota é também uma
oportunidade para se conhecer o trabalho singelo de
bordadeiras da região, como a veterana Maria Gilda Correia,
de 60 anos, que sentada
num banco rústico, à beira do rio, confecciona
passadeiras, panos para bandejas e outros utensílios. Ou
para provar as deliciosas cocadas feitas do cactus
cabeça-de-frade, típico do caatinga.
Como
eu, talvez você não resista à beleza da cena no cáis de
Piranhas numa noite de lua cheia e decida aventurar-se na
navegação nas águas
prateadas, em meio à sinfonia de animais noturnos.
Pode parecer esquisito – e um tanto perigoso -, mas esse
é talvez o jeito mais poético de dar adeus ao
surpreendente Velho Chico. |

Piranhas: casario colorido nas escarpas
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