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6 a 10 de setembro 2017
TURQUIA
O fascínio da terra que abrigou quatro impérios
por JOMAR MORAIS
Memórias de Constantinopla
Constantinopla! Não há como não recordar, ou
melhor, não há como não sentir o emblemático
nome da antiga capital do Império Romano do
Oriente quando se está em Istambul,
perambulando por suas ruas repletas de marcos
da história do mundo.

Cercada pelas comodidades e pela agitação
contemporâneas, a cidade mais cobiçada da
antiguidade e da Idade Média revela-se no que
restou de seus monumentos colossais e da
muralha tripla que a manteve incólume até 29 de
maio de 1453, data em que sucumbiu ante o poder
de fogo do sultão Maomé II, arrastando consigo os
ponteiros das eras.

A queda de Constantinopla, último bastião da
cultura imperial romana já na era bizantina, selou o
início da Idade Moderna, com um efeito notável
sobre os transportes, o comércio, a cultura e a
relação de poder entre o ocidente e o oriente.

Com o domínio otomano absoluto sobre o
Mediterrâneo, a partir dessa estratégica península
abraçada por dois mares, a Europa teve que
arriscar novas rotas nos oceanos e o resto do
mundo, enfim, pôde tomar conhecimento da
América e da zorra tupiniquim. Graças à diáspora
de gênios que sucedeu a operação militar e à troca
de comando na urbe outrora chamada de “a porta
da felicidade”, a ciência e as artes tomaram
enorme impulso no fenômeno da Renascença.

Constantinopla ou Bizâncio, rótulo que remonta à
lendária fundação da cidade pelo rei grego Bizas,
foi a única a ter o privilégio de ser a capital de
quatro impérios - o romano, o bizantino, o latino e o
otomano -, o que por si explica a força de sua saga
e de seu patrimônio.

Para mim, estar em Istambul, nome otomano
resgatado pela atual República da Turquia, é um
prazer especial. Percorrer suas igrejas e
mesquitas, seus palácios e torres, alia a nostalgia
das aulas de história e geografia no saudoso
Atheneu Norte-Riograndense à perplexidade diante
de estruturas colossais como o Palácio Topkapi,
residência e centro administrativo dos sultões; a
basílica de Santa Sofia (depois mesquita e hoje
museu) e seus afrescos medieviais; a cisterna da
basílica e suas 300 colunas romanas e cabeças de
medusas; a Mesquita Azul e sua abóbada
gigantesca; a Torre Gálata vigiando o estreito de
Bósforo e o Chifre de Ouro, caprichos da natureza
que fazem de Istambul a única cidade do mundo
dividida entre dois continentes: a Europa e a Ásia.

O passado da Turquia me encanta com a
singularidade da Capadócia, seus mosteiros
incrustrados na rocha e suas cidades subterrâneas
que abrigaram monges e cristãos perseguidos. E
ainda com o simbolismo de Éfeso, onde o fausto
romano, ainda visível em suas ruínas, não ofuscou
a construção cristã ali realizada por Paulo e João e
pela própria mãe de Jesus, Maria, que lá viveu seus
últimos dias.

Sentir-se assim, tocando as marcas da história e 
vislumbrando os ensinos do passado que os livros 
não contam é fascinante. Mas dizem pouco sobre a
nossa interação com uma sociedade tão
multifacetada e tão distante. O presente e o futuro
prometem colocar brasileiros e turcos no tabuleiro
dos interesses do mundo globalizado,
aproximando-nos como nunca antes na história.

               [ Publicado na edição do Novo Jornal de 04/02/14 ]

Para saber mais sobre a rica herança cultural da Turquia, a saga do povo turco e seus heróis, recomendamos acessar >>>  http://pt.wikipedia.org/wiki/Turquia

Uma real história de turco
Não há brasileiro de minha geração que não
conheça pelo menos uma história de “turco”. São
piadas gostosas sobre a esperteza para o
comércio de imigrantes procedentes do Oriente
Médio que, a partir dos anos 20, instalaram-se em
diferentes regiões do Brasil. Ágeis na venda porta
a porta, esses antigos caixeiros-viajantes logo
montariam pequenos negócios que, com o passar
do tempo, tornaram-se empresas de destaque no
comércio de várias cidades.

O “turco” mais famoso só existiu na ficção e se
deu bem na Ilhéus retratada por Jorge Amado: o
simpático Nacib, querido e respeitado por todos, foi
o único a conquistar o coração de Gabriela, a bela
caipira de irresistíveis dotes culinários e sensuais.

O detalhe curioso dessas histórias é que, na
realidade, nunca houve turco entre seus
personagens, mas libaneses, palestinos,
jordanianos... gente que emigrou de suas regiões
para fugir à opressão do Império Otomano - este,
sim, o verdadeiro turco -, que à época dominava
boa parte do Oriente Médio. Como os seus
passaportes eram emitidos pela autoridade
otomana, aqui passaram a ser rotulados
indistintamente de “turcos”.

Na verdade, sequer a Turquia existia nessa época.
A saga da etnia turca, anterior ao século 23 antes
de Cristo, abrange várias regiões da Ásia e dos
bálcãs e teve seus dias de glória no Império dos
turcomanos, surgido no ocaso da Idade Média e só
dissolvido após a primeira guerra mundial. A
República da Turquia aparece em 1923 como
resultado das lutas pela independência, após a
partilha dos territórios do antigo império entre os
vencedores da guerra.

Só recentemente o Brasil foi apresentado à
Turquia e, como acontece quase sempre lá fora,
em princípio graças à arte do futebol e as cores do
carnaval. De Istambul à Capadócia, por exemplo, o
turista brasileiro é saudado com o nome de Alex
Souza, o jogador que brilhou na equipe do
Fenerbache até 2012 e virou estátua em frente ao
estádio do time.

Em meio a essa simpatia, descobrimos um país
vibrante, um estado laico - apesar dos 98% de
muçulmanos entre a população turca - que já
nasceu com a garantia dos direitos da mulher,
com um sistema de educação baseado na
pedagogia de John Dewey e a proibição da
intolerância religiosa. E mais: uma economia
ascendente, com indústrias de ponta e boa
infraestrutura de transporte e telecomunicações,
que há nove anos se esforça por um lugar
permanente na comunidade européia, enquanto se
mexe para se destacar entre os países do
chamado G20.

Segundo o economista Jim O´Neill, que em 2001
cunhou o termo Brics - Brasil, Rússia, Índia e
China - para as potências emergentes na
economia mundial, os turcos podem ser a bola da
vez. Com a desaceleração dos Brics, a Turquia
ascenderia no tabuleiro global, ao lado do México,
Indonésia e Nigéria.

[ Publicado na edição do Novo Jornal de 11/02/14 ]
Isto é Istambul
Acima, JM junto à
Porta da  Felicidade
no 2° largo do
Palácio Topkapi,
residência e local
de trabalho dos
sultões durante o
Império Otomano.
À direita, o trono
do sultão e abaixo
a entrada do
famoso Harem.
Estreito de Bósforo,
que divide Istambul
e separa a Europa
da Ásia, visto do
alto da Torre
Gálata: no lado de
lá fica a Ásia.
À direita, a Torre
Gálata e seus mais
de 500 anos de
história num fim
de tarde de frio
e garoa.
JM toca numa das
cabeças de medusa
do período romano
colocadas sob
algumas das 300
colunas da
Cisterna Yerebatan
ou Cisterna da
Basílica, verdadeiro
palácio subterrâneo
e a maior entre as 
cisternas da cidade.
Interior da grande
mesquita de
Sultanahmet, mais
conhecida como
Mesquita Azul, em
razão da cor
predominante em
seus vitrais: acima
o salão de orações;
ao lado JM
acompanha as
orações dos fiéis
muçulmanos na
área restrita.
Mosaico milenar do Museu do Mosaico, acima, revela hábitos dos ancestrais que habitaram a região.
Ao lado, o Obelisco Egípcio do antigo Hipódromo. A peça construída em 1500 a. C., em honra do faraó Tutmosis III, foi trazida de Alexandria em 390 de nossa era.
Acima a Praça
Taksim, no centro
de Istambul, e o
monumento a
Atartuk, o "pai do
estado turco",
criado em 1923. A
praça foi palco de
grande protesto
político em 2012.
Ao lado, JM chega
à Taksim no bonde
que percorre o calçadão da rua Istiklal.
Nave da Hagia Sofia, hoje museu, que no no início do ano estava sendo restaurada.
VÍDEOS: cenas de Istambul, Capadócia e Éfeso
A PORTA DA FELICIDADE
O VALE DE JORGE
RECANTO DE MARIA
Éfeso foi um importante porto do Império Romano na Anatólia,  região então conhecida como Ásia Menor. A cidade, banhada pelo mar Egeu, chegou a ter mais de 200 mil habitantes no século 4. Seu corredor comercial, suas saunas, seu anfieteatro , seus templos e a sua Biblioteca de Celso impressionam ainda hoje, mesmo sendo apenas ruínas.

Maria, mãe de Jesus, transferiu-se para Éfeso, em companhia do evangelista João, após o episódio da crucificação. O apóstolo Paulo viveu dois anos na cidade e lá escreveu a sua primeira Carta aos Coríntios, que contém o seu poema sobre o amor (cap. 13). Depois, em Roma, escreveu a Carta aos Efésios, na qual exorta os cristãos à unidade.
Como cheguei, onde fiquei
Meu hotel em Istambul
Ares Hotel
Pousada simples, mas confortável. Bom restaurante e café da manhã digno. Wifi.
Reservada via Booking.com
Muito bem localizado, a 100m da Praça Sultanahmet (acima), em torno da qual estão a Mesquita Azul, a Hagia Sofia, o Hipódromo, a Cisterna da Basílica e o Museu do Mosaico. O Grande Bazar fica a 700 metros. Bonde elétrico para principais áreas da cidade.
Cheguei a Istambul no final de janeiro, no pico do inverno. Muito frio (até 4 graus negativos), mas escapei da neve e das tempestades comuns nessa época do ano. Aproveitei oferta da Lufthansa em voo a partir de Lisboa, com escala em Frankfurt e Munique (na volta). Apenas 500 reais, com direito a excelente serviço de bordo, com refeição completa incluindo vinhos. Não é preciso visto para brasileiros visitarem a Turquia. O custo de vida é equivalente ao das capitais brasileiras. Vale a pena comprar o passe para visitar monumentos e museus. Apesar do frio, Istambul ferve e há muita gente nas ruas. Viajei de ônibus para a Capadócia e Éfeso, passando por Pamukale e Kusadasi.
Meu hotel na Capadócia
Sunset Cave Hotel
Pousada muito simples, em Goreme, porém com o atrativo de apartamentos escavados na rocha. Café da manhã e wifi. Point de mochileiros.
Bem localizada, a apenas dois minutos, a pé, do centro da Vila de Goreme. O gerente é um jovem prestativo com bastante experiência como mochileiro e na recepção a viajantes.
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