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Ano V // Nº 273

Texto publicado na edição 02 de junho de 1999 da revista Exame

Frevo arretado

Por JOMAR MORAIS, de Recife

As tubaínas vêm crescendo no mercado nacional de refrigerantes, tirando o sono da líder Coca-Cola. Em Recife, a pequena DGB já detém 25% das vendas

Em outubro de 1996, o pernambucano Sidney Wanderley Silva tinha um problema. Sua empresa, a Distribuidora Guararapes de Bebidas, DGB, sediada em Recife, era líder regional na distribuição de cervejas e refrigerantes. Apesar disso, corria o risco de uma morte súbita ou, na melhor das hipóteses, ser obrigada a andar em marcha-à-ré, rumo ao recomeço, pelo simples fato de não mais poder contar com o carro-chefe de suas vendas: as bebidas da Cervejaria Brahma. Fundada em 1963 por Estevão de Barros Silva, avô de Sidney, a DGB tinha o monopólio da distribuição Brahma nos 184 municípios de Pernambuco ecobria 18 000 pontos-de-venda, com seus 38 caminhões e 300 vendedores. A questão é que a Brahma resolvera assumir a comercialização de suas cervejas e refrigerantes no estado. E à Distribuidora Guararapes, então pressionada por uma drástica redução em suas comissões de venda, só restava cuidar sozinha de seu destino.

Que fazer? Ousar e encarar o dragão, decidiu Sidney.

A DGB largaria, sim, a distribuição da Brahma, mas passaria a abastecer a clientela com sua própria linha de refrigerantes. Passaria de intermediário a fabricante.

No início, nem mesmo a família Wanderley - o pai, Aurino, é formalmente o presidente da empresa, e o irmão Sérgio comanda o atendimento a auto-serviços - apostou no êxito da idéia, temerosa quanto ao fôlego da distribuidora´para levar adiante o empreendimento. Como a DGB conseguiria andar sozinha, se o faturamento da empresa, à época em torno de 14 milhões de reais, provinha quase que exclusivamente da venda dos produtos Brahma? Pior: como conseguiria colocar no mercado, da noite para o dia, uma bebida capaz de concorrer em preço e sabor com as grandes marcas? No final, porém, venceu a teimosia de Sidney e começou a ser escrita uma surpreendente história de sucesso: a dos refrigerantes Frevo, a marca própria da DGB.

Em apenas dois anos, os quatro sabores da Frevo - guaraná, laranja, soda e cola - conquistaram 25% do mercado de refrigerantes na região metropolitana de Recife, conforme estimativa da Associação Pernambucana de Supermercados, a Apes, e compraram uma briga de foice com os grandes fabricantes. A produção mensal subiu de 1,1 milhão para 12,4 milhões de litros. Uma nova fábrica foi instalada no distrito de Retirinho, na Bahia, e os negócios rapidamente se espalharam por sete dos nove estados do Nordeste. Só com os refrigerantes, a Distribuidora Guararapes faturou no ano passado 30 milhões de reais - outros 10 milhões vieram da distribuição de produtos Nestlé e Gessy Lever. A expectativa é de que neste ano chegue próximo a 50 milhões de reais.

O sucesso da DGB não é um caso isolado. Ele reflete um momento especial dos pequenos fabricantes de refrigerantes e suas marcas regionais, os maiores beneficiados pelo aumento do consumo desse tipo de bebida no Brasil, após o Plano Real. Em 1993, os brasileiros tomaram 5,6 bilhões de litros de refrigerante, dos quais apenas 13% saíram das indústrias regionais, algumas em operação há mais de meio século. No ano passado, o consumo praticamente dobrou, alcançando 11 bilhões de litros e a participação dos pequenos também. Agora eles têm 30% do mercado nacional, cujas vendas totais são estimadas em 7,4 bilhões de reais. Em algumas praças, como Recife, chegam a ter mais de 30%. É motivo mais do que suficiente para preocupar fabricantes poderosos como a Coca-Cola, Antarctica e Brahma. A Coca, líder de vendas no Brasil desde a década de 50, baixou seu preço em 30% na tentativa de neutralizar justamente a principal arma das marcas regionais na guerra por mercado: o preço baixo, que em alguns casos chega a ser um terço do da Coca-Cola antes da redução.

Chamados genericamente de tubaínas, expressão às vezes usada de modo pejorativo como sinônimo de bebida barata, os refrigerantes populares ganham espaço, na maioria dos casos, a partir de micros e pequenas empresas responsáveis por mais de 700 marcas em todo o país. Pode ser Pitchula em Goiânia, Ginga em Belo Horizonte, Fricote em Salvador ou a velha Itubaína, de Itu (SP), que deu origem ao apelido. No Maranhão, onde se apresenta como Guaraná Jesus, criado em 1920 por um farmacêutico que acrescentou à fórmula da cola o sabor de cravo, a marca popular é tão forte que até a Coca-Cola rendeu-se a uma composição estratégica, a fim de entrar no mercado local em 1966. Ali, é o próprio fabricante do Guaraná Jesus, a Companhia Maranhense de Refrigerantes, quem engarrafa a Coca-Cola e vem cuidando para manter estabilizada em 21% a participação de sua própria marca. É em Pernambuco, contudo, que o confronto entre as tubaínas e grandes fabricantes vem tomando jeito de guerra aberta.

Com a resposta positiva do mercado à marca Frevo, Sidney Wanderley diz que quer expandir o negócio através do sistema de franquias, com a DGB responsabilizando-se pelos concentrados das fórmulas, a supervisão de qualidade e por 50% das despesas de marketing. O primeiro contrato do gênero acaba de ser assinado com uma empresa cearense. Outro estaria em negociação com um grupo de São Paulo.

A Distribuidora Guararapes seguiu nos últimos 30 meses um roteiro pontilhado de táticas de guerrilha comercial, que incluem ataques e recuos. Em 1996, diante do anúncio do fim da parceria de três décadas, Sidney correu para São Paulo e conseguiu da Cervejaria Brahma prazo de mais alguns meses como seu representante, sob a justificativa de que precisava de tempo para realinhar seus negócios. Evitou, assim, um desequilíbrio talvez desastroso nas reservas da empresa e ganhou tempo para duas ações de fôlego: batalhar um financiamento da Finame para a compra de suas primeiras máquinas e rastrear, dentro da própria Brahma, a mão-de-obra qualificada que poria em funcionamento a sua indústria. "Os 20 funcionários que iniciaram a produção foram todos tirados da Brahma", diz, ainda saboreando a conquista. Meses depois, a cervejaria tentou dar o troco, acenando para os melhores vendedores da DGB, mas Sidney diz que conseguiu segurá-los "na base da amizade" - e com algumas promoções.

Os vínculos afetivos têm sido uma boa arma da DGB na disputa com os grandes. Num estado onde as tradições locais são fortemente cultuadas, uma mensagem como a que vem sendo veiculada no comercial da Frevo na TV - "prove que o nosso é melhor" - desperta simpatias das classes A a E e, em alguns segmentos, chega a provocar um sabor de guerra santa. Sidney, no entanto, põe esse aspecto em segundo plano. "Vendemos porque temos qualidade", diz ele. Pode ser, mas isso não explica tudo. O presidente da Apes, José Geraldo Silva, também acha que os refrigerantes Frevo caíram no gosto dos nordestinos com o seu sabor mais adocicado - uma característica geral das tubaínas -, mas entende que é o preço, e não a qualidade, o diferencial que está por trás do sucesso das marcas emergentes.

A decisão da DGB de cutucar leão com vara curta chegou ao ápice com o lançamento da Frevo Cola, a senha que, em dezembro passado. Foi quando a Coca-Cola, engarrafada em Pernambuco pela Refrescos Guararapes, partiu para a briga. "O que ela (a Coca) tem de diferente?", interroga Sidney Wanderley. "Nossa cola possui o mesmo sabor (mais adocicado, sim, lembrando um pouco o da Pepsi) e é feita com xarope importado de Atlanta. A diferença é que eles têm um preço irreal". Na verdade, tinham. O próprio diretor da Refrescos Guararapes, Ricardo Franco, confirma que a Coca sentiu a espetada da Frevo Cola, mas o gigante decidiu reagir, jogando o jogo do adversário. Reduziu de 1,80 para 1,25 real o preço de seu refrigerante e, pela primeira vez, fez tremer a DGB. Em apenas 20 dias, segundo o presidente da Apes, as vendas da Coca subiram 20% nos supermercados pernambucanos, o suficiente para inverter os papéis na guerra de acusações.

Sidney diz que a Coca-Cola pratica dumping, já que, na sua opinião, não há como uma empresa com o custo de produção da Refrescos Guararapes, obrigada a pagar altos royalties à Coca-Cola Company, praticar preço semelhante ao da DGB sem ter prejuízo. De fato, a Refrescos Guararapes tem o triplo dos 400 empregados da DGB - 110 na produção - e somente com geladeiras gastou recentemente 5 milhões de reais, 1 milhão a mais do que foi investido na primeira fábrica de refrigerantes Frevo. Ricardo Franco, no entanto, nega que haja dumping e repete a suspeita corrente entre os grandes de que os tubaineiros só conseguem ter preço baixo porque sonegariam impostos. Ele diz ainda que a situação vai piorar para a DGB depois que sua empresa inaugurar, no município de Suape, a mais moderna fábrica de Coca-Cola do mundo, 100% automatizada, ao custo de 50 milhões de dólares.

Sidney sabe que a parada que vem por aí é das mais duras e, para enfrentá-la, tenta fortalecer a DGB com uma reforma administrativa e o estabelecimento de alianças. A consultoria JCR & Calado, de Recife, foi contratada para reorganizar a empresa, substituindo a velha estrutura familiar por centros de resultados, profissionalizados e com mais autonomia. Com a Alcoa, que já detém 50% da filial baiana da Frevo, foi firmado um acordo de comodato que lhe permite produzir nas instalações da própria DGB 5 milhões de embalagens pet por mês. Por fim, foi decidida a ampliação do mix de produtos, com a fabricação de vinhos e aguardente a partir de dezembro.

Até onde irá o confronto com a Coca-Cola e as outras marcas? É difícil prever. Para Sidney, na guerra das tubaínas a Coca-Cola só havia enfrentado microempresas frágeis, sem estrutura de distribuição e sem estratégia de marketing. Agora é diferente. "Conheço o meu mercado", diz o diretor, ele próprio ex-vendedor da DGB, formado em marketing. Por enquanto, a DGB avança. Só tempo, porém, dirá se o pernambucano Sidney Wanderley Silva continuará contabilizando ganhos ou se terá pela frente um novo problema.


Os números da DGB

Faturamento em 1998: - R$ 30 milhões

Dívidas: R$ 3 milhões (longo prazo)

Produção mensal: 12,4 milhões de litros

Empregados: 400


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