No
dia em que o Brasil ganhou a Copa... Bom, no dia em que a
Seleção conquistou o tri eu quase não vi os gols de Pelé,
Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto, mestres da bola que fizeram o país explodir de alegria numa
época em que havia pouco a comemorar. Natal, a cidade
dourada de minha infância e adolescência, apesar de
Capital era ainda um lugar acanhado, tão pobre que não
podia se dar ao luxo de ter uma emissora de televisão. As
imagens chegavam de Recife, através de um sistema precário
de retransmissão, e enchiam de chuviscos as telas de
jurássicos televisores preto-e-branco. Mesmo assim contava-se
nos dedos as famílias que, orgulhosas, exibiam no telhado
suas antenas espinha-de-peixe - e a minha não estava nesse
grupo. Tempos bicudos! Assisti aos jogos na casa do amigo
Armando Tomaz, torcedor fanático que, para conter a
tremendeira, enrolara-se todo em um cobertor de lã do qual
só se desfazia para ir ao banheiro, o que acontecia a cada 15
minutos. Eu tinha então 17 anos.
Com essa
idade e a cabeça flutuando em nuvens de sonhos, ousadia e
auto-suficiência juvenil, já havia passado pelas primeiras
Redações da vida, mas não descobrira ainda a beleza e o
significado das expressões coletivas de contentamento.
Naqueles dias de autoritarismo político, era comum a sombra
do maniqueísmo escurecer também o idealismo dos jovens. E
não fui exceção, apesar da moderação haurida em
convicções religiosas. Soube de gente que, nas trincheiras
esquerdistas da luta contra o regime, chegou a torcer pela
Itália. Quanto a mim, que jamais flertei com a esquerda, a
direita, qualquer grupo organizado ou seita política, mas
sempre amei a liberdade, arrependo-me de ter contido a
emoção e segurado o grito na ilusão de que adiar a
alegria do povo talvez pudesse apressar o fim de nosso
atraso. Santa e imberbe bobagem!
Por uma
dessas ironias do destino, eu, que nasci filho e sobrinho de
craques numa época em que o futebol era jogado apenas com
sangue e paixão, só pude entender a magia da bola na vida
da brava gente muito tempo depois. Foi em Sampa, durante
outra explosão plebéia.
Na noite de
13 de outubro de 1977, o Corínthians venceu por 1 a 0 a
Ponte Preta, na decisão do Campeonato Paulista, quebrando
finalmente um jejum de títulos de quase 23 anos. Que noite!
A paulicéia estremeceu madrugada a dentro como nunca se viu,
em meio ao delírio de uma nação libertada. Diante da TV
– ainda hoje não freqüento estádios -, torci e sofri
pelo Coringão, mesmo sem saber o por quê dos tais
impedimentos, coisa que, aliás, jamais consegui entender.
Ao ver a gente nas ruas, senti arrepios de emoção. Naquela
noite, sem me dar conta, tornara-me corintiano, rendera-me,
enfim, aos encantos da bola.
Se em 70 já
soubesse de tudo isso, como teria sido diferente a minha
tarde do tri. Ah, se eu soubesse...
Jomar Morais,
editor especial da Editora Abril, é filho de Tidão e
sobrinho de Jorginho, craques de bola do ABC de Natal nos
anos 50