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Ano VIII / Nº 318

Texto publicado no livro Todos Juntos, Vamos - Memórias do Tri, de Alex Medeiros

Maio de 2002


 

Outras reportagens

Ah, se eu soubesse...

Memórias da tarde em que o Brasil tornou-se tricampeão mundial de futebol

Por Jomar Morais    

No dia em que o Brasil ganhou a Copa... Bom, no dia em que a Seleção conquistou o tri eu quase não vi os gols de Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto, mestres da bola que fizeram o país explodir de alegria numa época em que havia pouco a comemorar. Natal, a cidade dourada de minha infância e adolescência, apesar de Capital era ainda um lugar acanhado, tão pobre que não podia se dar ao luxo de ter uma emissora de televisão. As imagens chegavam de Recife, através de um sistema precário de retransmissão, e enchiam de chuviscos as telas de jurássicos televisores preto-e-branco. Mesmo assim contava-se nos dedos as famílias que, orgulhosas, exibiam no telhado suas antenas espinha-de-peixe - e a minha não estava nesse grupo. Tempos bicudos! Assisti aos jogos na casa do amigo Armando Tomaz, torcedor fanático que, para conter a tremendeira, enrolara-se todo em um cobertor de lã do qual só se desfazia para ir ao banheiro, o que acontecia a cada 15 minutos. Eu tinha então 17 anos.

Com essa idade e a cabeça flutuando em nuvens de sonhos, ousadia e auto-suficiência juvenil, já havia passado pelas primeiras Redações da vida, mas não descobrira ainda a beleza e o significado das expressões coletivas de contentamento. Naqueles dias de autoritarismo político, era comum a sombra do maniqueísmo escurecer também o idealismo dos jovens. E não fui exceção, apesar da moderação haurida em convicções religiosas. Soube de gente que, nas trincheiras esquerdistas da luta contra o regime, chegou a torcer pela Itália. Quanto a mim, que jamais flertei com a esquerda, a direita, qualquer grupo organizado ou seita política, mas sempre amei a liberdade, arrependo-me de ter contido a emoção e segurado o grito na ilusão de que adiar a alegria do povo talvez pudesse apressar o fim de nosso atraso. Santa e imberbe bobagem!

Por uma dessas ironias do destino, eu, que nasci filho e sobrinho de craques numa época em que o futebol era jogado apenas com sangue e paixão, só pude entender a magia da bola na vida da brava gente muito tempo depois. Foi em Sampa, durante outra explosão plebéia.

Na noite de 13 de outubro de 1977, o Corínthians venceu por 1 a 0 a Ponte Preta, na decisão do Campeonato Paulista, quebrando finalmente um jejum de títulos de quase 23 anos. Que noite! A paulicéia estremeceu madrugada a dentro como nunca se viu, em meio ao delírio de uma nação libertada. Diante da TV – ainda hoje não freqüento estádios -, torci e sofri pelo Coringão, mesmo sem saber o por quê dos tais impedimentos, coisa que, aliás, jamais consegui entender. Ao ver a gente nas ruas, senti arrepios de emoção. Naquela noite, sem me dar conta, tornara-me corintiano, rendera-me, enfim, aos encantos da bola.

Se em 70 já soubesse de tudo isso, como teria sido diferente a minha tarde do tri. Ah, se eu soubesse...

Jomar Morais, editor especial da Editora Abril, é filho de Tidão e sobrinho de Jorginho, craques de bola do ABC de Natal nos anos 50

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Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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