Defender o
retorno das Deusas Helênicas, soa em nossa cultura judaica cristã e na
alvorada do século XXI, como uma proposta anacrônica, mística e por que
não, ridícula? Uma tal proposta implica, entretanto, uma revisão nos
valores culturais de nossa sociedade patriarcal. Trata-se de uma proposta que
ganhou corpo no século XX através dos trabalhos de antropólogos,
sociólogos e mitólogos, mas principalmente através do movimento feminista e
das inúmeros conquistas amealhadas por este último. No seio desta discussão
encontra-se uma crítica contundente ao mal do patriarcado, ou seja, a
reverência exclusiva ao princípio masculino em detrimento e relegação ao
princípio feminino, provocando danos à nossa saúde social, psíquica e à
do próprio planeta Terra.
Apesar do
consenso crescente da inexistência de uma sociedade matriarcal no esteio da
civilização humana, é igualmente a concordância em torno do culto
matriarcal, ou seja, da existência desde a aurora dos tempos, de culturas
que reverenciavam a Deusa-mãe em uma ou mais de suas formas ,como
divindade suprema. Era, no dizer de Robert Graves, a Deusa-mãe de muitos
nomes: Seja Ísis, no Egito, Atana Potinja em Creta, Gaia na Grécia, Astarte
em Canaã, Inana na Suméria, ou Istar na Babilônia. Essas culturas eram
perfeitamente consentâneas com o politeísmo e a reverência a deuses menores.
Mais do que isso: os valores do feminino encontravam-se disseminados em seu modus
vivendi.
No caso
específico da Grécia, assistiu-se, conforme Jane Harrison, à uma departamentalização
da Deusa-Mãe em função da das invasões de tribos indo-européias que
traziam consigo seus deuses da caça e do céu. Foi assim que assistiu-se ao
casamento de Hera, cujo templo na ilha de Samos é um dos mais antigos
dedicados a uma divindade, com o Deus celeste deles, Zeus. Cada uma das deusas
passou a apresentar fragmentos da característica da Grande-Mãe. Ártemis,
tornou-se a jovem deusa da caça e Afrodite apenas uma deusa do amor, entre
outras. Não obstante, as práticas e ritos matriarcais não foram suprimidas.
Dito desta forma,
parece que se quer vender ao leitor a idéia de que as mulheres gregas viviam
em plenitude. Ora, sabe-se que eram parcas as opções das mulheres daquela
época: matrona, prostituta ou escrava. Todavia, a existência dos cultos
à deusas como Afrodite, Deméter, Ártemis, Atena, Perséfone e Hera, criavam,
do ponto de vista psíquico, inúmeras e ricas possibilidades para as mulheres
– bem mais que as oferecidas pelo Judaísmo e Cristianismo.
Nas pegadas de Carl
Jung, muitos estudiosos voltaram seus olhares para a dualidade masculino/feminino.
Para Jung, a masculinidade e a feminilidade transcendiam tanto a uma mera
divisão biológica macho-fêmea, quanto a uma construção de gênero
circunscrita e sócio-histórica. Tratam-se de arquétipos, formas em
si mesmas, atemporais, exteriores à consciência, caracteres subjetivos que
expressam um nível do inconsciente mais profundo de homens e mulheres
denominado inconsciente coletivo. Jung chamou de ânima à
projeção interna do feminino nos homens e de animus à projeção
interna de masculino nas mulheres. Por essa definição, Jung remete-nos a uma
compreensão do feminino enquanto uma potencialidade universal tanto para
homens quanto para mulheres. Ou seja, homens e mulheres são ao mesmo tempo
masculinos e femininos. Essa percepção já era compartilhada no Oriente
através dos conceitos de Yin e Yang, que presentes em mulheres e homens
aludem de um lado à intuição, simultaneidade, experiência, síntese e, de
outro, a intelectualidade, linearidade, argumentação, análise.
O que importa, em
nossa breve exposição é a ausência do ânima, dos elementos Yin, como
valores a serem cultuados em nossa sociedade. É o que argumentam muitos
estudiosos como o físico Fritjof Capra para quem os valores patriarcais
(animus, yang) racionalistas, materialistas e fragmentador produziram uma
grande crise global.
O retorno das
deusas, é em seu conjunto o retorno das características Yin ausentes não
só nas mulheres, mas em todo o conjunto social (portanto, nos homens e
mulheres). É essa a proposta, por exemplo, de Roger Woolger, em seu livro a
deusa interior. Ao retomar a mitologia grega, o autor retoma um dos
grandes modelos que moldam a cultura secular do Ocidente (o outro modelo é
fornecido pela tradição judaico-cristã): as tradições da civilização
greco-romana.
São apresentadas
as seis deusas principais do panteão Grego, a saber: Ártemis, Antena,
Afrodite, Deméter, Hera e Perséfone. Cada uma delas corresponde a um
arquétipo do feminino e uma expressão fragmentada do grande arquétipo da
Deusa-Mãe. Temos, grosso modo, para Hera, a encarnação do poder, a
guardiã dos costumes e a matriarca da família. Atena rege a cultura e
intelectualidade, o racionalismo, portanto inclina-se para a carreira
profissional. Deméter é o símbolo da maternidade, da gravidez, dos
frutos, cujo corpo é oreceptáculo sagrado da vida. Para Afrodite, o
corpo é a própria expressão do sagrado, através do qual a sexualidade, a
beleza e o prazer se exteriorizam. No caso de Ártemis, trata-se do
contato com a natureza e com os instintos como só os caçadores e os
aventureiros se permitem contatar . Quanto a Perséfone, preside o
mundo avernal, dirigindo os mistérios do inconsciente, o contato com a
espiritualidade numa atitude de pura instrospecção.