O
psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi associa o
estado de felicidade ao que denomina flow(fluxo ou fluir,
referindo-se ao substantivo ou verbo) que poderia ser definido
como um estado de harmonia e equilíbrio entre o indivíduo, a
vida e todos os seus afazeres. Trata-se de um estado que se
experiencia pela integração total entre sujeito e objeto.
Abstrato? Lembre-se de dois parceiros numa pista de dança como
Ginger Rogers e Fred Asters. Ou daquela última vez que em você
foi à gafieira com seu marido. Ou àquela apresentação da
orquestra sinfônica do estado em que os músicos e seus
instrumentos, e estes e todos os outros instrumentos pareciam
uma única e só coisa. Ou ainda, do momento mágico do segundo
gol do Ronaldinho que trouxe o caneco do penta para o Brasil.
A
felicidade seria uma experiência do cotidiano, e portanto, não
seria dissociada de nossa vida comum. É assim que vemos a
personagem principal de A festa de Babete, que questionada no
fim do filme de ter gastado todo o dinheiro que ganhara no
preparo de suas iguarias gastronômicas, argumenta que é a
vocação do artista é produzir o seu show.
De
acordo com o psicólogo esse fluir não seria um estado fortuito,
ao acaso. Mas poderia ser experienciado através da observação
de oito princípios norteadores dessa experiência.
-
Clareza
de objetivos: O que quero realizar?
-
Retornos
Imediatos: Este ato pode me aproximar dos meus objetivos ou
não?
-
Combinar
desafios da atividade com talentos da pessoa: O que tem que
ser feito está em equilíbrio com o que eu posso fazer?(
Quando está além = stress; e aquém = tédio)
-
Foco:
Minha atenção converge ou dispersa durante esta atividade?
-
Estar
aqui/agora: Consigo me desconectar dos problemas do
cotidiano, do apego ao passado e da ansiedade frente ao
futuro para estar inteiro nesta atividade?
-
Sentir
o controle da vida: Sinto-me constantemente aprendendo,
crescendo, enfim desenvolvendo todo o meu potencial?
-
Transcender
a si mesmo: Sinto-me parte integrante de um todo harmonioso
ou me sinto vulnerável e preocupado em demasia com o que as
pessoas pensam de mim?
-
Transcendendo
o tempo: Sinto prazer com o que faço ao ponto de perder a
noção de tempo?
Desde
a década de 60, no início do movimento Transpessoal, Abraham
Maslow já havia chamado a atenção para o estudo do que havia
denominado de Peak Experiencies, ou experiências de pico.
O êxtase nesses tipos de experiências apontariam para Maslow e
um grande número de psicólogos uma gama de necessidades que
seriam chamadas pelo próprio Maslow de metanecessidades.
Uma
vez que algumas das vertentes anteriores da psicologia tinha se
interessado pelos aspectos patológicos do indivíduo, os
psicólogos do movimento transpessoal nascente estariam
interessados pela saúde e bem estar ótimos, alguns dos quais a
consciência pode expandir-se para além dos limites de eu e
personalidade conhecidos (Walsh e Waughan, 1982).
Maslow
havia ficado muito conhecido como teórico da motivação
desenvolvendo sua teoria das necessidades básicas clássica
nos estudos de administração e psicologia organizacional.
Harrison
(1972), assim as reagrupa em termos de níveis de motivação:
Nível
1(manutenção ou existência material): Necessidades
fisiológicas ou de segurança, para a sobrevivência.
Nível
2( relacionamento): necessidade de mutualidade e compartilha,
englobando as necessidades sociais e de estima, cuja satisfaçã
oestá na interaçã ocom as outras pessoas.
Nível
3( Crescimento): Necessidades do Ego , de auto-estima,
autoconfiança, criatividade e auto-realização, enfrentando
desafios que exijam utilização plena de capacidades e
habilidades.
Entretanto
muitos estudiosos, analisando a motivação, reposicionam-na em
termos das necessidades de crescimento. Vejamos a opinião de
uma catedrática do assunto:
O
desafio maior da motivação consiste em liberar as energias das
potencialidades para a autorealização, o crescimento como
pessoa, a individualização, a integridade do ser. È um
processo incessante, cuja direção já é satisfatória e um
fim em si. (...) a própria atividade é agradável, sendo
apreciada aqui e agora, sem a sensação de meio para um fim ou
de mera preparação para o futuro. (Moscovic, 1995)
É
o próprio Maslow quem aponta mais tarde o que chama de
Metanecessidades, ou seja, necessidades que estariam igualmente
presentes como as básicas mas que não poderiam ser satisfeitas
enquanto aquelas não fossem preenchidas. Estas metanecessidades
seriam necessidades transindividuais, éticas, espirituais.
Alguns autores definem-na como a capacidade de perceber a
interconexão de entre tudo. A possibilidade de uma visão
ecocêntrica, humana e solidária.
A
vida espiritual se encaixa, segundo Maslow no reino da natureza
e não constitui um domínio distinto, oposto a ele. "Não
é propriedade de teólogos e artistas. Pode e deve ser
investigada por psicólogos, cientistas sociais e neurologistas
quando essas ciências desenvolverem métodos adequados".
Barret
e Brian Hall asseveram 7 estágios de desenvolvimento do físico
ao espiritual; 1)sobrevivência; 2)relacionamento e, 3)auto-estima
(ambos no nível emocional; 4)Transformação (nível mental);
5) Vocação, 6)Interdependência e, 7)Sabedoria (espirituais).
Os três últimos níveis se caracterizariam pela nossa
capacidade de direcionar nossos talentos para a auto-realização
e gerir conscientemente nossas vida emocional; pela
possibilidade da vivência comunitária levando em conta as
diferenças e interesse pela espiritualidade, pelo sagrado mais
do que por religiões instituídas; e a pela capacidade de
percepção da não-separatividade o que consiste em um esforço
de desenvolver uma visão de sabedoria. A sabedoria, estágio
último de consciência é assim sintetizada por Barrett e
adaptado por mim:
-
Responsabilização
pelo todo: convicção de uma unidade por trás de todas as
aparências.
-
Importância
do bem comum: desenvolver o sentido do compartilhar e
cooperar.
-
Igualdade:
calcada na liberdade de expressão e de direitos;
-
Respeito
pela vida: Incluindo-se aí o ambiente em que vivemos e o
ecossistema do qual fazemos parte;
-
Amor
incondicional: O Àgape grego, diferente de Eros, que se
origina de um estado de plenitude interior livre de
dependência, medo e expectativa.
Esse
tem sido o escopo da Psicologia Transpessoal. Ao definir seu
objeto como o estudo do desenvolvimento da Consciência, os
psicólogos transpessoais perscrutam a capacidade humana de
desenvolver-se alcançando níveis cada vez mais complexos de
compreensão de si e do mundo. Susan Andrews, PhD, esclarece que
no humano há um impulso intrínseco para a transcendência.
Esse impulso se revela nas diferentes culturas e tradições
religiosas como o Shamadi (hindu) ou a experiência do Satori no
Zen-Budismo.
Retornado
ao exposto no início deste texto sobre o estado de "Fluir",
percebe-se a semelhança entre os 8 pontos apontados pelas
pesquisas e treinamento em meditação nas várias tradições
espirituais. Para o psiquiatra Claudio Naranjo(1990:15) o
avanço nas comunicações e a abertura cultural entre o
Ocidente e Oriente coincidem com o despertar das necessidades
espirituais, seja por uma insatisfação com formas culturais
que respondem a necessidades humanas do passado, seja pela
desilusão com os resultados do progresso técnico-científico.
Daí decorreria um novo interesse pela meditação que a seu ver
traduz como um treinamento para desenvolver uma presença, ou
noutras palavras uma modalidade de como ser.
Em
um trabalho célebre intitulado o Mal Estar na Cultura Freud
proclama a impossibilidade de uma vez se constituindo como ser
de cultura o indivíduo fluir (na acepção original: ser feliz)
dentro da sociedade; uma vez as mesmas regras e interditos que
funda e viabilizam a vida social, também lhe impedem de
realizar seus desejos. Uma análise mais profunda das
considerações deste que foi um dos grandes gigantes da alma no
século XX, escaparia às pretensões deste texto. Entretanto, o
aprendizado legado pelo Oriente à luz da moderna psicologia
transpessoal apontam para novas estratégias de ser no mundo que
se descortinam a partir das pesquisas e conseqüências
extraídas dos estados holotrópicos de consciência (denominação
de Stanislav Grof para os estados mais desenvolvidos de
consciência).
Seria
possível vivenciar a felicidade como um estado permanente de
mudança. A grande dificuldade assenta-se na cristalização e
apego aos momentos fugidios experienciados. Epicuro, já referia-se
à responsabilidade quanto aos desejos e prazeres quando
asseverava a necessidade do "conhecimento seguro dos
desejos". Nesse sentido numa perspectiva sistêmica a
transpessoal retraça interconexidade eu/nós, indivíduo/sociedade/planeta.
Brian Hall, assim resume essa perspectiva: "o mundo que
antes era visto como um mistério sobre o qual eu não tenho
controle, passa ser encarado como um mistério de que cuidamos
numa escala global. O fluir, nos ensina o um clássico da
literatura Taoísta, O I Ching, está em tudo:
"Após
uma época de decadência vem o ponto de transição. A luz
poderosa que tinha sido banido retorna(...) a transformação do
antigo torna-se fácil. O velho é descartado e o novo
introduzido. Ambos os movimentos estão de acordo com as
exigências do tempo e , portanto, não causam prejuízos(...) O
movimento é cíclico e o caminho se completa em si mesmo(...)
Esse é o sentido do céu e da terra."