Colunista

MARLOS ALVES (*)

Borboletas e tufões: interconectividade,

ecologia e ordem mundial

No século XVII, Francis Bacon postulava a necessidade do homem subjugar a natureza submetendo-a aos seus ditames. Estava sendo estabelecida uma tradição puramente instrumental, algo que Martin Buber classificaria como sendo a relação EU-ISSO, uma relação com o mundo na base do utilitarismo. O pensamento de Bacon encontrava guarida na visão antropocêntrica de mundo: O homem é o epicentro do universo. Em Antropologia e nas Ciências Sociais, a visão antropocêntrica levou muitos pesquisadores a analisarem sociedades primitivas a partir de seus próprios valores e códigos culturais.

Um dos grandes gênios do Século XX, Sigmund Freud, colocaria que três grandes feridas ao narcisismo humano foram estabelecidas pelas pesquisas científicas. A primeira foi estabelecida por Copérnico: a Terra não é o centro do universo, nem mesmo o nosso Sol. A Segunda ferida teria sido criada por Charles Darwin ao postular que o homem não é o centro da criação, mas uma decorrência do processo da evolução natural. De fato, entre homens e chimpanzés há menos diferenças que entre os chimpanzés e outros primatas conforme atestam estudos dos etologistas. A terceira grande ferida teria sido aberta no ano de 1900 com a publicação de a Interpretação dos Sonhos pelo próprio Freud. O criador da psicanálise estabeleceria que o homem não era sequer senhor de si mesmo. A consciência, e consequentemente o racionalismo – valor tão caro à civilização industrial - não passava de uma ilhota num mar de inconsciência. As reflexões são inquietantes: somos um ponto em movimento na imensidão universal; o homem é uma espécie tão importante quanto todas as outras da natureza; e temos muito o que aprender acerca de nossas atitudes e emoções.

A ecologia é o estudo dos ecossistemas. Pode ser analisada a partir da relação entre o homem e o ambiente. A tradução literal de ecologia é o " estudo da casa". Um dos grandes problemas epistemológicos e filosóficos que podemos nos colocar é: qual a abrangência da noção de casa que nos utilizamos? Como se processa essa interconectividade e Qual a sua abrangência? Como perceber as relações entre o bater de asas de uma borboleta no Japão e um tufão na Califórnia?

Tomemos a própria Física como ponto de partida para as nossas reflexões: uma forte tendência da Física Clássica era o estudo dos elementos fundamentais da matéria perscrutando-lhes suas propriedades. Penetrar no interior do átomo, conhecer seus constituintes eram o caminho a seguir. A física Quântica. de seu lado, vem demonstrando que as partículas não são grãos de matéria isolados, e sim, modelos de interconexão numa teia cósmica inseparável que inclui o observador e sua consciência. A teoria Bootstrap por exemplo, sugere que ao invés de uma entidade fundamental, deve-se analisar as relações que as partículas estabelecem umas com as outras. Qualquer descrição individualizada sempre será parcial. Também as pesquisas de ponta desenvolvidas pela psicologia Transpessoal apontam a mesma coisa quando se referem aos estudos da Consciência.

Um dos grandes erros do governo Bush, foi ter virado às costas ao processo de paz no Oriente Médio. Este, entretanto não foi o único: o governo americano também deu de ombros com o protocolo de Kioto, sobre redução da emissão de poluentes tóxicos na atmosfera planetária. E ainda discute a criação de um faraônico projeto de escudos antimísseis enquanto o terceiro mundo é espoliado pelas conseqüências do modelo neoliberal.

Em 1982, Fritjof Capra já escrevia em seu livro Ponto de Mutação:

"A crise atual não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais; é uma transição de dimensões planetárias. (...) [Necessitamos] de um profundo reexame das principais premissas e valores de nossa cultura, de uma rejeição daqueles modelos conceituais que duraram mais do que sua utilidade justificava, e de um novo reconhecimento de alguns dos valores descartados em períodos anteriores de nossa história cultural. Uma tão profunda e completa mudança na mentalidade da cultura ocidental deve ser naturalmente acompanhada de uma igualmente profunda alteração nas relações sociais e formas de organização social – transformações que vão muito além das medidas superficiais de reajustamento econômico e político que estão sendo consideradas pelos líderes políticos de hoje." (Capra O Ponto de Mutação, 1982)

De fato, e isso o apontam diversos analistas internacionais como William Pfaff do Herald Tribune, há três grandes lições para a tragédia do dia 11 de Setembro: a)nenhum sistema de defesa é infalível; b)não se pode medir as conseqüências político-psicológicas da tragédia pelo número de mortos e c)a responsabilidade dos Estado Unidos assumindo um papel imparcial diante do conflito no Oriente Médio.

Tecerei breves comentários sobre possíveis desdobramentos da segunda conseqüência, visto que a primeira já está bastante evidenciada e a terceira mencionarei mais adiante. Dois inúteis e possíveis desdobramentos: a hostilização a uma etnia como sendo responsável pela tragédia (os muçulmanos); e uma paranóica busca de defesa e proteção através de medidas cada vez mais invasivas da tão proclamada liberdade individual naquele país. Entretanto, ações baseadas no revanchismo e nas redomas (ou trincheiras) de alta tecnologia não levarão a lugar algum. Urge uma mudança de perspectiva.

Os Estados Unidos devem assumir, enquanto única superpotência do planeta, seu papel histórico de articuladores de um processo mundial de paz; revendo, igualmente, os efeitos de sua política neoliberal. Devem ainda, desenvolver uma postura realmente ecocêntrica de mundo, pois os problemas que acontecem no quintal dos outros, e que "não são da minha conta", mais cedo ou mais tarde, retornam sobre nós mesmos. Ecologia é o estudo da casa e a Terra inteira, transcendendo as fronteiras geopolíticas, é nossa casa. Uma visão de inter-relação dos fenômenos globais é imprescindível para a resolução dos problemas locais. Teimamos em achar isso mais difícil de perceber e compreender do que a relação entre o bater de asas de uma borboleta no Japão e um tufão na Califórnia!

Quanto ao Brasil e sua atuação local nesse processo interdependente, aproveitemos a sensibilização e o poder de reflexão que o momento nos traz, e cuidemos das tragédias cotidianas que embrutecemos para enxergá-las: a miserabilidade de nosso povo; o caos da saúde e da educação; a questão da segurança pública envolvendo todas as suas facetas como seqüestro, delinqüência juvenil, roubos, violência no trânsito; o combate intenso e incessante à corrupção. Metaforicamente falando, quantos World Trade Centers não caem todos os meses em nosso país?

Assim sendo, façamos algumas reflexões finais apoiadas na perspectiva ecocêntrica através da lógica da inter-relação. Cada microação tem sua repercussão num contexto macro. É preciso, portanto, uma ação dos atores sociais nas esferas global e local. Global no sentido da criação de uma cultura de paz, e da reorientação da política econômica mundial assentada na especulação dos investidores e na exploração dos países pobres. Local, no esforço da construção de uma democracia nas bases de uma representatividade política ética, assim como na ação cidadã propondo alternativas para os nossos problemas internos urgentemente.

(*) Marlos Alves Bezerra é psicólogo
Email: marlosab@matrix.com.br

 

Consulte aqui
Banco
de Talentos

Inscreva-se já
Tira-dúvida
Psicologia

Direito de Família
Luis Morais

Clique Book & fotonews
Rede
de
Amigos
Abelardo, o alcoólico

Clique e peça o livro de Walter Medeiros em PDF. É grátis!

Paraíso Tropical
FALE COM A GENTE O Planeta Jota é um site sem fins lucrativos, produzido por voluntários