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Colunista |
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MARLOS
ALVES (*) |
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Fenômenos Sociais e o
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Tratar fenômenos como a violência
com explicações meramente biológicas ou psicológicas pode ter conseqüências mais graves que apenas imprecisões conceituais
Já
imaginou o Daniel Goleman no Morro do Boréu, desenvolvendo um curso de
inteligência emocional, ou uma cirurgia no Hospital das Clínicas de
São Paulo para eliminar impulsos violentos? Impensável? Mas pode vir a
ser plenamente justificável em um futuro próximo se continuarmos a
aplicar o reducionismo em fenômenos como a violência.
A
violência é um fenômeno multifacetado e com tal não pode ser
abordado por um único campo do saber. Exige uma conjugação de
esforços transdisciplinares que permitam fornecer ferramentas para a
sua compreensão e enfrentamento. Outros fenômenos há que exigem o
mesmo exercício.
Particularmente
no campo da delinqüência juvenil, há um sem número de teorias a
respeito. Acredito, entretanto, que para além das divergências ou
convergências entre as mesmas, mais importante é questionar qual a
visão de mundo e de homem por detrás delas, e como desdobramento:
quais as políticas que podem ser formuladas a partir dessas noções.
Explico-me.
No
que tange ao assunto, colocam-se em perspectivas duas grandes
tendências que vez ou outra ganham fôlego nos noticiários, e nas
pesquisas acadêmicas. De um lado, reduz-se o fenômeno a um
determinismo social, obra do sistema em que estamos inseridos,
conseqüência do modelo econômico vigente (antes que você pense: não
eu não sou neoliberal!). De outro enquadra-se a delinquência em modelo
psicologizante, reduzindo-o ao funcionamento intrapsíquico de um
indivíduo e as instâncias que regem esse funcionamento. Isso quando
não se sintetiza o problema como ausência ou excesso de
neurotransmissores, lesões em uma determinada área do cérebro, ou
falha em determinada seqüência genética.
Mas,
ficando apenas com o discurso sociologizante e psicologizante, é
possível entrever alguns de seus pressupostos. Em relação ao primeiro,
advoga-se o sujeito como sendo uma vítima das estruturas sociais.
Quando nos remetemos ao segundo verificamos que cabe ao indivíduo, e
tão somente a este, a responsabilidade sobre os seus atos
transgressores. Facilmente cunha-se uma síndrome de desajustamento ou
inadequação social, e rapidamente a questão está resolvida.
Sugiro
aos jovens pesquisadores, que busquem empreender percursos em que
fenômenos como a delinqüência possam ser estudados a partir da
reflexão em torno de múltiplos campos do saber. Não é um exercício
fácil e é exatamente por ser um exercício que necessita ser praticado.
Em
minha experiência pessoal, abordei o delinqüente juvenil como um
sujeito ao mesmo tempo produtor e produto de sua realidade histórica.
Quero dizer com isso, que minha tentativa foi de conjugar as realidades
sociais e psíquicas.
O
itinerário percorrido por mim é a partir da noção de exclusão
social. Vivenciamos hoje, na contemporaneidade, um processo de busca
da excelência, na qual a luta de classes cede lugar na expressão de
Vicent De Gaulejac à "luta por lugares". Assim, para
muitos jovens das camadas mais populares, de bairros periféricos, de
favelas, a questão se desenha em torno da seguinte pergunta: Como me
inserir em uma sociedade que me rejeita?(Claro que eles não fazem essa
pergunta conscientemente). Rejeita porque esses jovens estigmatizados e
depositários das mazelas sociais são os perigosos, sujos, bandidos,
drogados. "eles olham para nós com desprezo.", contou-me
um. Outro me disse: "Eu não ia fazer nada, mas ela olhou pra
mim com medo e então eu a assaltei." Os significados
simbólicos negativos são introjetados e a saída para ressignificar
essa imagem negativa de si (auto-imagem negativa) é a transgressão.
Assume-se, a partir daí, não o papel da vítima, mas de ator social,
saindo do lugar da nadificação e adquirindo-se visibilidade.
Paradoxalmente, para esses jovens se constituirem enquanto sujeitos,
através da transgressão, reforçam o olhar social e, em conseqüência,
a imagem negativa de si próprios.
Como
conseqüência desse trabalho conclui, entre outras coisas, que os
jovens "meninos de rua" são sujeitos ativos na construção
de sua identidade. Mesmo que seja uma identidade negativa, do ponto de
vista da inserção social. As suas condutas desviantes não são
meras reações à violência social, mas uma tentativa de re-constituição
de um Eu (Ego) abalado pelo processo de estigmatização e de
relegação sociais a que estão submetidos. Portanto, quando a escolha
recai na adesão, à galeras, gangues, ou outros movimentos juvenis,
trata-se de uma tentativa de construção de um universo social no qual
os jovens se sentem valorizados e ancorados pela identidade grupal.
Configura-se como um ensaio à produção pró-ativa de suas
vidas pelo caminho da delinqüência, da transgressão, que se constitui,
paradoxalmente, a via mais esperançosa contra a nadificação
ou a morte social a que estão destinados enquanto "meninos ou
jovens de rua". Assim, políticas públicas envolvendo o jovem dito
"delinqüente", "transgressor", deveriam levar em
conta essas considerações.
Com
tudo isso, quero crer que mesmo trilhando caminhos em determinados
momentos labirínticos, é possível buscar formulações articuladas em
torno da complexidade do fenômeno que se estuda, sem a menor pretensão
de esgotá-lo. Todavia, sem com isso operar rebatimentos mutilantes. E
mais grave de tudo: desvincular-se dos contextos sociais que produzem
esses fenômenos.
(*)
Marlos Alves Bezerra é psicólogo
Email: marlosab@matrix.com.br
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