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Colunista |
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MARLOS
ALVES (*) |
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O
Mapa não é o Território
" Até
onde as leis da matemática se refiram à realidade, elas estão longe
de constituir algo certo, e na medida em que constituam algo certo, não
se referem à realidade."
(Albert
Einstein)
Em
o Tao da Física, Fritjof Capra desenvolve um trabalho ao mesmo
tempo arrojado e pioneiro: estabelecer pontos de encontro entre a
moderna física quântico-relativística e as tradições do misticismo
oriental. Não se trata de tarefa fácil, reveste-se de muita coragem ao
traçar paralelos entre o pensamento científico ocidental (cujo ícone
sem sombra de dúvidas é a Física) , orientado principalmente pela
influência inconteste do pensamento Cartesiano e Newtoniano, e as
tradições orientais, em especial o Hinduísmo, o Taoísmo e o Budismo.
Nós
não conhecemos a realidade. O que conhecemos são representações que
fazemos da realidade. O trabalho do homem de ciência é criar modelos
explicativos, modelos esses que nos forneçam uma compreensão dos
fenômenos da natureza. Desse modo, elaboramos quadros explicativos, que
nos permitem compreender como os fenômenos se processam. O método
experimental baseia-se na observação do que acontece para estabelecer
pressupostos que deverão novamente ser observados. Por sua vez, o
misticismo oriental baseia-se na percepção direta da natureza da
realidade.
Entretanto,
o trabalho racional é complementado pelas intuições que chegam dos
" comos" e "porquês". São os insights, é
precisamente aí que a Física, vai ficando mais mística. A introvisão
é a porta de acesso por excelência das tradições orientais. Torna-se
uma questão de abordagem da realidade. O pensamento Ocidental imprimiu
uma cisão entre a coisa extensa (res extensa) e a coisa pensante
(res cogita), ou melhor entre espírito e matéria, observador e
observado. No oriente, a via de abordar a natureza é integralizada,
portanto, holística: A individualidade (Self) e a coletividade fazem
parte integrante e indissolúvel de um mesmo processo.
Fundamentalmente
a maneira de observarmos o mundo faz-nos estabelecer cosmovisões. Para
os místicos, interessa a experiência da realidade, enquanto os
físicos preocupam-se com a descrição dessa experiência. Ambos,
elaboram interpretações compartilhadas através de palavras. Esbarram,
inevitavelmente na limitação da linguagem. O autor insiste, aliás, em
colocar que quando a natureza essencial das coisas passa pelo crivo
analítico, ela se afigura como sendo absurda, paradoxal. Nas palavras
de Capra: "Tanto o físico quanto o místico desejam comunicar o
seu conhecimento e, quando o fazem com o auxílio de palavras, suas
afirmações são paradoxais e cheias de contradições lógicas".(p.
43). Uns procuram descrever a realidade a partir de intricadas
equações matemáticas, outros utilizam-se de mitos, símbolos e
imagens. De um modo ou de outro, terão que sempre que lidar com a
barreira da linguagem e do pensamento linear. Novamente Capra:
"A
física moderna, toma hoje a mesma atitude em relação aos seus modelos
e teorias verbais. Estes, são também aproximados e necessariamente
imprecisos. Constituem a contrapartida do mito, dos símbolos e das
imagens poéticas orientais. E é precisamente neste nível que
estabeleço os paralelos. A mesma idéia acerca da matéria é
transmitida, por exemplo ao hindu através da dança cósmica do Deus
Shiva, e para o físico por certos aspectos da teoria quântica dos
campos. O Deus que dança e a teoria física são criações da mente,
modelos que buscam descrever a intuição que seus autores possuem
acerca da realidade." ( O
Tao da física, p.41)
A
cosmovisão vigente até o final do século XIX, no ocidente, era a
assentada no modelo Newtoniano desdobrando todos os fenômenos físicos
dentro do espaço tridimensional da geometria euclidiana, cujos
elementos eram formados por unidades (partículas) sólidas e
indestrutíveis e preso à noção linear de tempo. As descobertas da
nova física apontaram para questões no mínimo surpreendente e
paradoxais: espaço e tempo não são entidades isoladas mas constituem
um continuum quadridimensional; a massa é uma forma de energia e mesmo
em estado inercial, sua energia encontra-se armazenada; a matéria é
formada de unidades subatômicas extremamente abstratas e de
comportamento dual: ora apresenta-se como partícula, ora como onda,
sujeito e objeto fazem parte de um esmo processo influenciando-se
mutuamente. São tantas as implicações destas descobertas que fugiriam
à pretensão deste resumo. O que se deseja salientar, no entanto, é:
a)Evidentemente o estabelecimento de um novo modelo não necessariamente
significa a anulação de outro, o modelo anterior (como na física)
continua sendo válido para explicar uma certa gama de fenômenos. o que
novamente. b)Não conhecemos à realidade e precisamos formular novos
modelos que possam dela aproximar-se um pouco mais, explicando uma nova
variedade de fenômenos.
A
análise é mais grave quando transposta para o campo da prática "psi".
Nós não conhecemos o psiquismo humano, por mais que as cartografias da
consciência possam abarcar um número grande de posturas e
comportamentos. Que seria a consciência? A consciência ao mesmo tempo
tem a atribuição de pensar e acessar o mesmo oceano subjacente de onde
saiu. De acumular informações e individualizar-se como uma entidade
própria. É causa e efeito de si mesma.
Em
Psicologia, muitos são os modelos formulados sobre a consciência,
nenhum detêm a verdade independentemente. Talvez, todos sejam
complementares, se entendermos que se aplicam a uma certa variedade de
experiências dentro de um contexto determinado. Essa também é a
posição de Ken Wilber ao propor uma cartografia da consciência
baseada em no modelo do espectro de ondas eletromagnéticas. Dentro do
espectro, as ondas apresentam-se em diferentes frequências: sonoras,
luminosas, radioativas, de audio e de rádio-frequências, etc. Em cada
faixa do espectro a onda apresenta características singulares.
Do
mesmo modo, cada modelo do psiquismo pode atingir uma ou muitas faixas
do espectro da consciência, pode enunciar modelos bem aproximados da
realidade de acordo com a perspectiva que se queira enfocar. Não
obstante, a totalidade do espectro, ou a realidade última poderá
permanecer inatingível. Tal raciocínio outra vez mais nos leva a
pensar que estamos diante de um mapa que pode nos ajudar a entender
particularidades e nos guiar muito bem dentro de um espaço geográfico.
Pode nos ajudar a entender melhor a complexidade da mente humana,
colocando esses entendimentos em prol da humanidade em geral. A
humildade nos indica, por sua vez, que o modelo explicativo não deve
ser confundido com a própria realidade. "Tudo acontece como
se..." Não nos esqueçamos disso. O mapa por mais aproximado, não
é o território.
É
possível portanto, a partir das considerações feitas ao longo do
texto, que tanto a Física quanto a Psicologia em particular possam
trilhar um caminho com coração. Para além do utilitarismo, dos
processos de coerção e dominação sócio-econômica. Um caminho que
seja voltado para o bem estar público, a saúde coletiva que nos
conduza a auto-realização e ao progresso, através de um senso de
responsabilidade e cooperação comunitária para com a vida em todas as
suas expressões.
(*)
Marlos Alves Bezerra é psicólogo
Email: marlosab@matrix.com.br
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