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MARLOS
ALVES (*) |
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22-11-03 |
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Ensaio
sobre o livre arbítrio - I
Uma
colega psicóloga de Fortaleza, olhos de criança que esquadrinha
o mundo em busca de entendimento, lançou-me o seguinte
questionamento: “O que faz com que optemos(individual e
coletivamente) pelos caminhos que trilhamos hoje, a partir do
potencial criativo que temos?”. Tentei ser simples, sem ser
simplório: “nosso livre-arbítrio”. Ao que ela rebateu:
“Somos livres?” Respondi: “Sim e não”. Mas como se trata
de alguém tão sensível, prometi-lhe algumas considerações
sobre a questão.
Não
tenho a menor pretensão de buscar a Verdade. Até porque sou discípulo
dos gregos: Aletheia, é a verdade enquanto um desvelamento.
Notemos
na pergunta um pressuposto que é sustentato na psicologia
transpessoal. Cada pessoa, cada ser possui um potencial interno,
um manancial criativo. Custoso é acreditar nisso quando vemos
tanta miséria social, e também tanta miséria psíquica,
sofrimento que só muda os matizes sócio-culturais mas que
subjazem a um imenso coletivo humano como
vemos hoje.
Na
psicologia transpessoal, acreditamos que a consciência de
realidade é função do estado de consciência. Há vários
desdobramentos nessa proposição que infelizmente não podem ser
tratados em um espaço tão curto sem as devidas articulações
que a mesma merece. Por ora, utilizemos uma metáfora, ainda que
imperfeita: a semente grávida da árvore, irrompe a terra e
cresce orientando-se para a luz, fenômeno denominado de
fototropismo (tropos= movimento, foto= luz). A consciência também
movimenta-se em direção a estados cada vez mais complexos e
amplos. O psiquiatra Tcheco Stanislav Grof cunhou para sinalizar o
que acabamos de dizer o termo holotrópico (holos= totalidade),
para indicar que a consciência se desenvolve rumo a cada vez mais
amplos níveis que
incorporam e ultrapassam os níveis anteriores, mais simples,
menos complexos. O
que em tese pressupõe um estado último “totalizante”. Mas
que na prática cotidiana implica, até o que ordinariamente
podemos alcançar, níveis de dualidade, de não saber. Portanto
de inconsciência. Guardemos esse ponto.
Necessariamente
a semente não vai desenvolver todo seu potencial arbóreo. Alguns
impedimentos podem tornar-se óbices nesse processo.
Defrontamo-nos diariamente com eventos, situações,
condicionantes que nos minam as forças, que nos testam para além
de nosso limite e que não raro, deixa em nossa boca o amargo
sabor do fracasso, da impossibilidade de sua resolução. É como
se fosse um muro intransponível. Sobre esse assunto ninguém
melhor que um poeta paraibano para falar:
“Tome. Doutor, esta tesoura, e... corte
minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!”
(Augusto
dos Anjos, Budismo Moderno)
Quantos
de nós juntamente com Augusto dos Anjos não nos queixamos alguma vez dá má
sorte?
Imaginemos
a seguinte situação: um menino educado dentro de um rígido sistema familiar
corre para abraçar o seu pai, e este lhe diz: ”Não! Homem não abraça.”
A criança “congela” diante do pai. Queria expressar o seu afeto, mas não
lhe foi permitido. Não é certo. Esse aprendizado se perpetua durante sua estória
de vida posterior. Já adulto vê-se diante de uma amigo em um momento de
entusiamo e alegria. Sente o impulso de abraçá-lo. Vem-lhe o freio
novamente: a respiração prende. Por um brevíssimo instante debate-se. Não
o abraça. Houve aí em uma fração mínima de instante a possibilidade da
escolha. Mesmo que a escolha fosse não romper com o padrão já fortemente
instalado. Aqui resgato um trecho da luta final entre o agente Smith e Neo nos
derradeiros instantes do filme Matrix Revolutions(caso você não tenha idéia
do que estou falando, recomendo ver este filme e os anteriores da trilogia) .
“Por
que você persiste Mr. Anderson?
Porque
é minha escolha.”
Os
defensores arraigados do determinismo diriam, a partir de seus campos específicos,
que não podemos escapar aos ditames da cultura, da história, da economia, da genética. Dentro de uma certa vivência de
realidade, eles estão totalmente certos. Há um modo de produção injusto,
estruturador de uma sociedade cindida, fraturada e agenciador de
subjetividades, nos moldes de um individualismo massificador. Há a ideologia
enquanto idéias da dominação que mascaram as diferenças e as apresenta
como “naturais”(nesse sentido a idéia de indivíduo como sujeito livre,
autofundante, à parte do social). Há um certo determinismo psíquico, pois já
nascemos em uma casa, com um lugar que devemos ocupar, recebemos um nome antes
mesmo de nascer e temos um código cultural a introjetar e com ele papéis e
regras. Há um determinismo genético que se mostra nos circuitos neurais, nas
organelas celulares, nas hélices helicoidais de DNA, enfim nas predisposições
que trago na organização biológica. Todos, enfim, estão certos de acordo
com o nível da realidade com que a consciência pode abarcar. Como também o
estavam os berlinenses que nunca imaginariam que sua Alemanha pudesse ser
reintegrada e, muito menos, que o muro não era tão sólido quanto parecia.
Lembro-me
de uma amiga querida que se queixava do distanciamento de suas irmãs. Pai
falecido ainda menina. Mãe a demonstrar maior apreço pelas outras duas, em
algumas situações imputando-lhe injustas penas por erros de julgamento.
Havia entre elas uma mágoa profunda de uma situação do passado a
separar duas irmãs para um lado e minha amiga para o outro. Todos os aniversários
das irmãs de minha amiga eram as
mesmas coisas: convites atropelados e de última hora de um lado e um curso,
um treinamento, uma atividade inadiável de outro. Um dia, eu estava em sua casa, voltando com ela de um curso
que fizéramos juntos. Estava chorosa. Uma irmã havia ligado sobre o aniversário
de outra e novamente as informações truncadas e atropeladas. Parecia que sua
presença era realmente indesejada. A festa seria na casa de uma amiga de infância.
Manifestou o desejo que gostaria de deixar lá um buquê de flores, mas talvez
a festa tivesse acabado, ou a floricultura estivesse fechada, ou... Foi quando
perguntei se queria que eu fosse junto para procurarmos as tais flores e irmos
entregá-las. Veio, então a fração do segundo da escolha... E ela decidiu
ir. Compramos as flores e fomos ao endereço. Grande desapontamento! A festa
havia acabado. Ninguém a não ser a dona da casa estava lá. Mas... a dona da
casa, perguntou-lhe se não queria ir à casa da aniversariante. Poderia
fazer-lhe o mapa. Novamente o instante da escolha. Voltaria para casa vitimada
pelas circunstâncias? Seria novamente a irmã escanteada? Poderia romper
aquele padrão? Eternamente o urubu pousaria em sua sorte?
Durante
muito tempo, no início da mecânica quântica os físicos debateram-se em uma
polêmica. A luz comportava-se como onda ou partícula? A questão era polêmica
pois havia indícios de ambos os comportamentos, o que deu origem a muitas
rusgas entre os pesquisadores. Até que finalmente percebeu-se o paradoxo: a
luz comportava-se ora como onda, ora como partícula. Não se tratava de onda ou
partícula. Era, isto sim, onda e
partícula. Existe um ponto como
no nível subatômico que algumas questões perdem o sentido e é possível
experienciar outras possibilidades.
A
realidade percebida depende da atividade da consciência. A questão da
escolha versus determinismo depende
do nível da realidade em que se opera. Sair da fragmentação é sair do
dualismo. O que isto quer dizer?
Em
tese, significa que haverá um nível de realidade em que não haverá mais
escolha. Lembro de um teólogo que questionado se Jesus foi obrigado a sofrer,
ele simplesmente respondeu que se tratava de um ser tão evoluído que já não
havia o que escolher. Escolha implica ainda em dualismo, dialética, conflito,
oposição.
Na
prática, significa em cada situação buscar o mais além dos automatismos
condicionantes. Exorcizar os fantasmas do inconsciente. Romper os padrões
familiares e ancestrais que começam na minha bisavô que já não acreditava
em casamento feliz. Manobrar em meio as condições objetivas de vida, fazendo
o melhor possível (claro que nem todo mundo precisa chegar a presidente da
república!). E a minha amiga?
Foi até a casa da irmã naquela
mesma noite. Conversaram longamente, voltou ao carro, rosto banhado em lágrimas.
Há marcas ainda do passado, mas uma nova e mais saudável relação está em
andamento.
(*)
Marlos Alves Bezerra é psicólogo
Email: marlosab@matrix.com.br
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