OGM. Se
você ainda não se deu conta da importância dessas três
letras em sua vida, é bom acordar. Siglas como WWW e Wap,
que simbolizam as transformações radicais promovidas pela
computação e pelas telecomunicações em nosso dia-a-dia,
vieram para ficar. Mas acredite: OGM, as iniciais que abrem
esta reportagem, têm um poder de mexer com a sua vida muito
maior do que elas. Para o bem ou para o mal.
OGM quer dizer
organismo geneticamente modificado. Ou, simplesmente,
transgênico. Trocando em miúdos, trata-se de um ser vivo
cuja estrutura genética - a parte da célula onde está
armazenado o código da vida - foi alterada pela inserção
de genes de outro organismo, de modo a atribuir ao receptor
características não programadas pela natureza. Uma planta
que produz uma toxina antes só encontrada numa bactéria.
Um microorganismo capaz de processar insulina humana. Um
grão acrescido de vitaminas e sais minerais que sua
espécie não possuía. Tudo isso é OGM.
Ainda que timidamente,
os transgênicos já fazem parte de nosso cotidiano. Lembra
daquela caixa de cereais Shake Diet, que você comprou
pensando em perder alguns quilinhos? Pois é. Entre outros
ingredientes, havia lá dentro o farelo da soja Roundup
Ready, um cereal desenvolvido para tolerar altas doses de um
herbicida que tem o mesmo nome e era produzido pela mesma
empresa, a americana Monsanto. E aquela lata de Nestogeno
com soja que você comprou para o seu filho? Segundo um
exame realizado pelo laboratório suíço Interlabor Belp AG,
ali também havia um grão modificado pelos geneticistas.
Está em curso uma
celeuma mundial sobre os transgênicos, alimentada pelo que
já se sabe sobre a novidade e, principalmente, por seu lado
obscuro, sobre o qual ainda não existem respostas
científicas 100% confiáveis. Os ambientalistas,
contrários à alteração genética dos alimentos, já
criaram até um apelido para esse tipo de comida – Frankenfood,
uma mistura de Frankenstein e food (comida, em
inglês). O barulho é tanto que redes de lanchonetes
famosas, como o McDonald´s, decidiram riscar os
transgênicos de sua lista de ingredientes para não correr
riscos junto à clientela. Descontados as paixões e os
interesses bilionários que insuflam essa discussão, a
verdade é que estamos apenas no começo de uma revolução
como o mundo jamais viu – a biorrevolução. "Os
transgênicos transformarão o mundo no século XXI",
prevê Michio Kaku, doutor em Física Teórica da
Universidade de Nova York. "Eles livrarão bilhões de
pessoas do sofrimento, da fome e da doença".
Para a humanidade, o
fato de o homem poder transferir características
intrínsecas de um organismo para outro é um feito tão
extraordinário quanto, por exemplo, o nascimento de Dolly,
a ovelha clonada há três anos num laboratório da Escócia.
A cadeia de implicações econômicas, ecológicas e éticas
decorrente disso é simplesmente imensurável nos dias
atuais. Com o transplante de genes entre diferentes
espécies e gêneros, os cientistas almejam encontrar
soluções inéditas para alguns problemas crônicos da
humanidade, como a fome nos países pobres e a escassez de
áreas agricultáveis. Além disso, ao desenvolver vegetais
e animais com novas características, os pesquisadores abrem
um leque de alternativas que, nos próximos anos, vai
alterar de modo profundo nossos hábitos alimentares,
cuidados com a saúde e até nossos julgamentos morais.
Por enquanto, quase
tudo que se fala sobre transgênicos, seus benefícios e
seus perigos, diz respeito ao primeiro estágio das
pesquisas. Trata-se de uma etapa, consolidada na década
passada, em que os avanços da biotecnologia foram
utilizados basicamente para reduzir os custos de produção
na agricultura e ampliar os ganhos da agroindústria
mediante o desenvolvimento de vegetais resistentes a pragas
ou tolerantes a pesticidas. Não surpreende, por isso mesmo,
que tenha despertado mundo afora muita desconfiança. O caso
da soja Roundup Ready é exemplar: ninguém, ao consumir o
grão da Monsanto, se sentiu agraciado com o direito de
enriquecer a sua dieta com doses maiores do agrotóxico da
companhia. Seja como for, há uma enorme quizila opondo
cientistas e empresas de biotecnologia a militantes
ambientalistas e entidades de defesa do consumidor. Entre as
duas facções, um mar de desentendimento e desacatos.
A segunda fase de
experimentos com transgênicos já começou e acena com
benefícios mais visíveis ao consumidor, porém, não menos
polêmicos. Alimentos enriquecidos de vitaminas na origem ou
programados para proporcionar ao homem pratos menos nocivos
ao coração estão deixando de ser mera futurologia.
Simultaneamente, uma terceira onda de pesquisas genéticas
promete transformar as plantas em biofábricas que
produzirão alimentos-vacinas. Isso mesmo: frutas, por
exemplo, que já sairão do pé munidas de antígenos
capazes de combater várias doenças.
Mas, afinal, na
prática, de que modo os cientistas estão transformando em
realidade algo que até há pouco só existia na ficção?
Uma história simples ajuda a entender.
A bactéria Bacillus
thuringiensis, um microorganismo encontrado no solo, há
milhares de anos produz uma toxina que atua como pesticida,
eliminando insetos e ervas daninhas. Nos anos 90, cientistas
da empresa suíça de biotecnologia Novartis debruçaram-se
sobre essa fábrica natural de defensivos agrícolas e
tiveram uma idéia surpreendente. Primeiro, eles
identificaram o seu genoma - como é chamada a sequência de
genes existentes no DNA, o ácido que guarda, no núcleo da
célula, as instruções do processo da vida. Em seguida,
capturaram o gene responsável pela produção da toxina e o
transferiram para o DNA do milho Guardian, uma espécie
duramente atacada pela chamada broca européia. O que
aconteceu? O milho preservou as suas aparência e funções
naturais, mas em suas entranhas passou a fabricar a toxina
da bactéria, tornando-se resistente à broca e a outros
tipos de praga. Surgiu assim o milho Bt, atualmente
cultivado em 12 milhões de hectares no mundo.
A construção de um
transgênico, seja ele uma soja que suporta overdoses de
agrotóxico ou uma planta que produz plástico degradável (sim,
os cientistas já trabalham com essa hipótese!), parte
sempre desse procedimento básico – a interferência nos
genes. Isso só foi tornado possível com a descoberta de
que o DNA de qualquer organismo, inclusive o do homem,
compõe-se das mesmas unidades ou "palavras", os
genes. A singularidade de cada ser decorre da maneira como
essas palavras se combinam, formando "sentenças"
usadas para produzir e regular as diferentes proteínas. É
essa característica fundamental que torna os genes de um
organismo potencialmente funcionais em outro, o que abriu
caminho para as conquistas da engenharia genética.
Seguindo essa trilha,
no ano passado, o professor Ingo Potrykus, do Instituto
Federal de Tecnologia da Suíça, e seu colaborador Peter
Beyer, da Universidade de Freiburg, Alemanha, chegaram ao
arroz dourado, o maior feito da biotecnologia agrícola
desde o surgimento da técnica de transferência de genes,
há 20 anos. Ao transplantarem para o genoma da Oryza
sativa, a mais popular espécie de arroz, genes emprestados
do narciso, uma erva nativa do Mediterrâneo, e da
bactéria erwinia, os pesquisadores obtiveram um tipo de
cereal muito mais rico em betacaroteno, o agente construtor
da vitamina A. E esse é um detalhe que faz diferença. A
vitamina A fortalece o organismo humano contra doenças
infecciosas e previne contra a cegueira noturna, mal que
aflige atualmente mais de 350 000 de crianças subnutridas
ao redor do mundo. Prover a vitamina A em abundância em
único cereal poderia ser o caminho mais curto para aliviar
o sofrimento de famílias carentes da África, Ásia e
América Latina a médio prazo.
Aos 66 anos, Potrykus,
um cientista discreto que se esconde atrás da barba
grisalha, emociona-se ao falar de seu grão transgênico. O
arroz dourado, ápice de uma saga de sete anos que custou
2,6 milhões de dólares, é também um sonho que evoca os
dias amargos de sua infância, na Alemanha arrasada pela
guerra. Para sobreviver, o menino Potrykus muitas vezes se
viu forçado a roubar comida e a experiência de criança
faminta jamais lhe saiu da mente.
A escolha do arroz
deveu-se a uma feliz coincidência: o cereal é consumido
como alimento básico por 60% da população mundial e,
entre todos os grãos comestíveis, é o que possui o
código genético mais curto. Seu genoma é 37 vezes menor
que o do trigo e seis vezes menor que o do milho –
portanto, bem mais fácil de ser estudado, entendido e...
modificado.
"Os transgênicos
vão aumentar em 25% a produção de alimentos no mundo nos
próximos anos", diz Elíbio Rech, doutor em Genética
Celular e coordenador de projetos para a produção de
transgênicos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia,
empresa estatal baseada em Brasília. "Mas são os
produtos com novas características nutricionais que darão
o tom das pesquisas". A Monsanto, por exemplo, que até
outubro estava impedida por liminar da Justiça brasileira
de comercializar a sua soja Roundup Ready, há pouco
desenvolveu uma canola enriquecida com betacaroteno e agora
pesquisa um tipo de milho com mais proteína. Na própria
Embrapa, que há alguns anos pesquisa mamão, soja, milho e
algodão resistentes a pragas, está no forno outra a
novidade: o leite dietético. Ele tem 30% a menos de gordura
e 10% a mais de proteína, qualidades proporcionadas pela
inclusão, na ração das vacas, de moléculas modificadas
de ácido linoléico conjugado (CLA), composto graxo que
atua na formação de lipídios (gorduras). A molécula
transgênica acaba alterando a síntese de gordura na
glândula mamária dos animais. A Embrapa também tem um pé
na terceira onda das pesquisas, da qual devem resultar os
chamados nutracêuticos, alimentos provedores de hormônios
e vacinas. Em parceria com a Universidade Federal de Minas
Gerais, a estatal toca o projeto da alface adicionada da
proteína Lack 1, que dará à verdura a propriedade de
imunizar contra a leishmaniose, doença conhecida de 200
milhões de pessoas no mundo. A soja igualmente está sendo
alterada para produzir insulina e o hormônio do crescimento
humano.
Outra pesquisa que
interessa aos brasileiros está em curso na Universidade de
Illinois, nos Estados Unidos. Ali, o professor Schuyler
Korban quer dar ao tomate do tipo cereja a propriedade de
produzir antígenos do vírus respiratório sincicial,
agente de uma infecção fatal em crianças e idosos. A
doença é causa da maioria das 2 000 mortes que ocorrem
anualmente no estado de São Paulo entre crianças com menos
de 5 anos de idade, segundo o pesquisador Edson Luiz Durigon,
da USP. Agora, Korban inseriu no genoma de seu tomate uma
proteína encontrada na membrana do vírus e espera com isso
obter a vacina para o mal. "Vacinas em vegetais
oferecem vantagens como possibilidade de múltipla
vacinação em uma só planta, aplicação indolor e baixo
custo de produção", diz Maria Lúcia Rácz, doutora
em Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da
USP.
De fato, há promessas
otimistas no horizonte pintado pela biotecnologia, mas isso
não elimina a nuvem de apreensão. O problema é a escassez
de dados convincentes sobre o uso seguro dos organismos
modificados. De um lado, nem mesmo Doug Parr, o
cientista-chefe do Greenpeace, a organização ambientalista
que lidera mundialmente as brigadas anti-OGM, admite que é
possível deter a biorrevolução. De outro, o que fragiliza
a idéia dos transgênicos são discussões como o tempo de
maturação dos experimentos antes que os OGMs sejam postos
à venda e a necessidade de uma legislação mais rigorosa
sobre o assunto. Teme-se que grãos modificados possam
causar danos à saúde. E os ecologistas arrepiam-se ante a
possibilidade de culturas transgênicas virem a contaminar
espécies silvestres, desencadeando um desequilíbrio
ecológico de proporções e conseqüências imprevisíveis.
"Não sabemos os riscos de juntar organismos que jamais
se cruzariam na natureza", afirma Mariana Paoli,
coordenadora da campanha do Greenpeace no Brasil.
Os argumentos
contrários se multiplicam aqui e lá fora. O consultor
técnico do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), de
São Paulo, Sezifredo Paz, afirma nos derivados de soja
transgênica há excesso de resíduos de glifosato, o
agrotóxico que, em razão da resistência da planta, agora
é usado em maior quantidade nas lavoura. Outra suspeita é
a de que os antibióticos usados como marcadores nos
experimentos transgênicos promovem a resistência de
microorganismos causadores de doenças no homem ou destroem
bactérias benignas da flora intestinal. Num OGM, o gene
transplantado interage com os genes naturais do organismo e
com o ambiente, mas o que acontece lá dentro é um enigma.
"Os geneticistas gostam de dizer que 90% do genoma é
massa que não serve para nada, é lixo, mas isso é apenas
uma forma de justificar o que eles ainda não conhecem",
afirmam os cientistas Amory e Hunter Lovins, dirigentes do
Instituto Rocky Moutain, uma das organizações americanas
anti-transgênicos. Os Lovins, aliás, formam no grupo dos
que acham que só o interesse econômico justifica a
velocidade com que os transgênicos estão chegando à mesa.
"Eles não foram criados porque são mais produtivos,
mas porque podem ser patenteados", imaginam.
Até o príncipe
Charles, da Inglaterra, entrou na polêmica. Em artigo na
revista The Ecologist, ele deixou de lado a fleuma
real e manifestou sua crença de que a conservação dos
recursos naturais pode ser um meio melhor e mais seguro de
resolver o problema da produção de alimentos e da fome nos
países pobres. "Mesmo porque a fome é menos uma
questão de comida do que de dinheiro para comprá-la",
disse o príncipe.
Nos últimos meses,
alguns dados objetivos - mas não definitivos - deram mais
força aos protestos contra os OGMs. É o caso do estudo
comandado pelo cientista John Losey na Universidade Cornell,
nos Estados Unidos, sobre a mortalidade de borboletas
Monarch após serem alimentadas com o pólen do milho Bt.
Losey diria, depois, que houve falhas de controle em sua
experiência. Mas era tarde. A história, desde então, é
contada mundo afora. Cresceu também o número de empresas
que, temendo problemas futuros, se recusam a comercializar
transgênicos ou a utilizá-los como ingredientes em seus
produtos. No final de setembro, milhões de caixas de
"taco", uma comida mexicana à base de milho, foram
recolhidas nos Estados Unidos porque se descobriu que no
farelo do cereal havia milho Bt produzido pela Aventis.
Paranóia? A maioria
dos cientistas acha que sim. "A engenharia genética
permite que se faça alterações pontuais nos genomas,
utilizando-se genes cuja ação é estudada antes e depois
de serem inseridos na planta", diz Manoel Teixeira
Souza Junior, doutor em Genética e pesquisador da Embrapa.
"Elas são mais seguras que o melhoramento convencional".
A obtenção de híbridos por cruzamento envolve um conjunto
de genes que sequer são conhecidos. É como abater um alvo
no escuro. O tiroteio pára quando o objetivo é atingido,
mas em torno pode-se fazer um bruta estrago. A questão é
que há pelo menos 8 000 anos o homem intervém, de algum
modo, nas culturas agrícolas, a ponto de nenhuma das
plantas que alimentam a humanidade encontrar-se hoje em seu
estado original. Se isso trouxe mais prejuízos que
benefícios, é outra controvérsia.
Gente como Doug Parr,
o guru do Greenpeace, preferia que nada disso existisse. Nem
mesmo nos casos em que a justificativa é salvar colheitas
de pragas, como as dizimam na África metade das
plantações. "Há alternativas naturais viáveis, como
ficou provado no Quênia", lembra o cientista. Ali, a
broca do milho foi eliminada em muitos campos com a
introdução de um capim que, plantado entre os pés de
milho, repele o inseto e, ao final da colheita, ainda serve
de alimento para animais.
A grande resistência
aos transgênicos ocorre entre os europeus. Nos Estados
Unidos, mais da metade de todos os alimentos processados
apresentam modificações genéticas. Na Argentina, 90% da
soja produzida no país tem origem em sementes alteradas. No
mundo inteiro, porém, apenas em 12 países a liberação
dos produtos transgênicos é um caso encerrado – e o
Brasil está fora desse grupo.
Recentemente, a
Academia Brasileira de Ciências endossou um documento de 20
páginas em defesa dos OGM, preparado em conjunto com outras
seis entidades científicas nacionais, entre as quais as
academias de ciências dos Estados Unidos, da China e a
Sociedade Real de Londres. A argumentação girou em torno
da impossibilidade de prover alimentos para uma população
mundial que, em 30 anos, pode ser de 12 bilhões de pessoas
– o dobro de hoje. E girou em torno também da
importância da transgenia para a Medicina.
Há dois anos, a Comissão Nacional de
Biossegurança (CTNBio), órgão que disciplina as
atividades de biotecnologia no Brasil, autorizou a
comercialização da soja Roundup Ready no país. A decisão
nunca teve valor por determinação da Justiça, que
concedeu liminar à ação civil impetrada pelo Idec).
Plantas transgênicas, por enquanto, só nas áreas
experimentais liberadas para 120 instituições. A batalha
nas ruas e nos tribunais tende a levar cientistas, a
indústria e os governos a caminhar com mais cautela na
trilha dos OGM. Mas não dá para deixar de admitir:
qualquer que venha ser o acordo futuro sobre a questão,
nossa vida jamais será a mesma depois do surgimento
daquelas três letrinhas.
(*)
Com a colaboração de Mariana Mello