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Ano VI // Nº 308

Texto publicado na edição de Outubro de 2001 da revista SUPER

 

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Adolescência sem fim - complemento

Exclusivo Planeta Jota

"A imaturidade é um flagelo"   

O psicólogo transpessoal Roberto Ziemer, de São Paulo,  foi uma das fontes ouvidas pelo editor Jomar Morais durante a preparação da reportagem Adolescência sem fim. A seguir as respostas de Ziemer 

Como nossos pais 

Sob uma perspectiva transpessoal ou espiritual, o adolescente encarna em si um conflito agudo que pode se estender por toda a vida. Ou seja, o conflito entre o ego (condicionamentos familiares e sociais) e a alma (verdadeira identidade). A necessidade que o adolescente tem de se distanciar e negar os pais e os valores sociais tem justamente este objetivo. Tentar encontrar valores e uma identidade própria que ajudem o adolescente a dar significado a seu mundo. Infelizmente em nossa sociedade não existem rituais de passagem que ajudem o adolescente a fazer esta transição, nem velhos sábios que possam transmitir a sua sabedoria. Eles vão buscar apoio de seu próprio grupo e dos heróis de sua geração (roqueiros, artistas e escritores), mas com pouco resultado, pois estes não estão preparados para este papel. Conseqüentemente, passado este período de revolta, o adolescente volta para a sociedade e procura um papel pré-estabelecido através do qual possa ser aceito e valorizado. A separação/rebeldia sem uma iniciação não tem poder de transformação, e dá ao adolescente a sensação de que não há outro caminho do que repetir os passos de seus pais.

Narcisismo materno e adolescência sem fim 

Em relação ao prolongamento da juventude, este é um fenômeno muito recente que ocorre especificamente em nossa sociedade pós-industrial. Em épocas anteriores as crianças eram obrigadas a participar da luta pela sobrevivência da família – a idéia dos nossos antepassados de ter muitos filhos vem da necessidade de ter mais mão de obra disponível para o cultivo da terra. O excedente econômico da classe média e alta gerou a possibilidade das crianças terem tempo para serem crianças e adolescentes (muito em reação aos seus pais, que se sentiram mutilados por terem de trabalhar/e se tornarem adultos precocemente). Se por um lado, poder ter tempo para ser criança e adolescente representa um aspecto positivo da evolução social, por outro ele está apoiado em forças regressivas. 

A primeira delas esta na necessidade narcisista dos pais (e principalmente das mães) de impedir ou dificultar o crescimento emocional dos seus filhos (principalmente o menino). A frustração de grande parte das mulheres com os seus casamentos faz com que estas projetem as suas necessidades afetivas sobre seus filhos (que se tornam seus maridos substitutos), esperando que estes nunca as abandonem (perigo que elas correm com um homem adulto). Para não frustrar a mãe (e ser alvo de sua raiva) e se sentirem culpados, este meninos congelam emocionalmente, comportando-se de forma imatura por muitos anos. O distanciamento emocional e físico do pai apenas reforça este padrão (o menino não pode contar com o pai para se separar da mãe e se tornar um homem). É preciso lembrar – apenas um homem mais velho (maduro emocionalmente) pode iniciar um homem mais jovem (nunca uma mulher). Para as mulheres acontece o contrário – o modelo ruim de mulher que elas tem em casa faz com que elas naturalmente queiram se tornar independentes, se emancipar (apoiado pelo desenvolvimento de seus hormônios, que funcionam como uma iniciação biológica e simbólica natural). 

Este contraste está criando um grande conflito atualmente entre rapazes e moças – a lacuna no desenvolvimento emocional. Não é por acaso que existem tantas moças namorando e casando com homens mais velhos (eu mesmo tenho 44 anos e estou casado com uma mulher de 26). Isto gera, principalmente nos rapazes, uma grande frustração. Os seus hormônios os impelem para o encontro afetivo e sexual com as moças, mas eles não estão prontos para ter um relacionamento. Somado com as frustrações e repressões da infância, mais a falta de perspectivas de futuro, e está criado um caldeirão que desemboca, na maior parte das vezes, em violência, dependência química (álcool, drogas), compulsão (alimentar, consumismo, etc.) ou alienação (desinteresse político, social ou ecológico). 

A imaturidade emocional é hoje um grande flagelo, desagregando a família (por falta de maturidade os pais se separam, e ao mesmo tempo, não são capazes de suprir as necessidades emocionais de seus filhos), gerando profissionais socialmente irresponsáveis (executivos que se preocupam apenas com o resultado financeiros de suas empresas) e impedindo o aprofundamento no relacionamento afetivo (é necessário apenas perceber as estatísticas de divórcio e de insatisfação no casamento). A imaturidade faz com que o indivíduo procure no outro aquilo que ele mesmo não tem (auto-estima, amor próprio), o que apenas gera frustração e desapontamento, e a necessidade de procurar novamente (o que os imaturos chamam de "caçar").

Desintoxicar o corpo e o espírito 

O trabalho com o corpo, a respiração e o uso de estados não usais de consciência (através de rituais) é extremamente importante no trabalho com adolescentes pois: a) o corpo deles está intoxicado de experiências dolorosas do passado, e sobrecarregado de emoções não expressas (raiva, frustração, tristeza, mágoa, ou seu oposto, alegria, êxtase) que precisam ser liberadas para que a cura ou transformação aconteça; b) eles estão cansados de abordagens terapêuticas verbais, já que este é o canal que seus pais e a própria escola utilizam (canal este já sobrecarregado e poluído); c) eles tem um interesse natural por estados não usuais de consciência, que possibilitam uma outra perspectiva sobre si mesmos e sobre o mundo (infelizmente, é este mesmo interesse que os leva para o mundo do álcool e das drogas).

Sexo, consumo e medo 

O que interessa perguntar é porque a sociedade atual (dominada pelos pais destes adolescentes) coloca tanta ênfase no sexo e na competição. Primeiramente, aquilo que se chama de sexo na sociedade de consumo é na verdade apenas coito, ou trepar. Sexo, para mim, integra o ato físico com o sentimento de amor. É o encontro sublime consigo mesmo e com o companheiro(a) através da energia sexual. Esta maneira de encarar o sexo você não encontrará em nenhum veículo da mídia (nem TV, nem cinema, nem revistas, etc.). O que existe é o consumo rápido de outro ser humano para liberar a pressão de energias instintivas. A idéia central da sociedade de consumo chegou ao sexo (e a compulsão pela beleza física e a juventude eterna). Não é a toa que as academias e as clínicas de cirurgia plásticas estão ganhando tanto dinheiro. 

Em relação à competição é preciso vê-la como uma expressão do medo, especificamente o medo de inferioridade. As pessoas se tornam competitivas pois acreditam que precisam provar que são melhores que as outras para serem reconhecidas e amadas. Elas tem uma auto-estima muito baixa, e estão sempre se comparando com as outras (no meu último livro existe um capítulo inteiro sobre esta questão – Capítulo 4 – "Do Medo á Confiança – como realizar seu projeto de vida", Editora Gente). A idéia de competição está sempre baseada na crença na escassez – "vai faltar" – "preciso fazer inglês, cursar as melhores escolas, fazer um MBA, senão vou ficar para trás".

Curador interno 

Meu trabalho está fundamentalmente baseado na idéia de que todas as pessoas tem um curador interior, e que sob certas circunstâncias [apoio terapêutico adequado, uso de técnicas experiências (trabalho de corpo, respiração, rituais induzidos, trabalho com sonhos)] este curador é capaz de eliminar as fontes de limitação ou bloqueio interno e possibilitar o processo de cura e transformação. A minha metodologia de trabalho está exposta no meu último livro (como lidar com os 3 tipos de medo – sobrevivência, relacionamento e auto-estima) e como trilhar o caminho da transformação (nível 4), para atingir uma consciência baseada na confiança (entrando em contato com a vocação/nível 5, com a unidade/nível 6 e a sabedoria/nível 7).

 

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