Se
você acha que pelo fato de estar diante de uma reportagem
sobre a adolescência - a turbulenta faixa etária entre a
infância e a fase adulta - vai ter de engolir seis páginas
com a ladainha de sempre sobre iniciação sexual, mau
humor, ansiedade, drogas e rebeldia, está muito enganado.
Não é que tais itens deixarão de ser abordados nesta
matéria. Afinal, quem conseguiria escrever sobre meninos e
meninas de 10 a 20 anos sem se referir às questões que
fazem a alegria e o terror de pais e filhos em qualquer
lugar do mundo? Quando o assunto é comportamento, esses
garotos que quase nada têm a ver com a geração
iconoclasta de seus pais - aquela que revolucionou os
costumes nos anos 60 e 70 -, não páram de surpreender. Mas
o ponto agora é que nenhuma das novas atitudes juvenis
parece chamar tanto a atenção dos especialistas quanto a
mudança na duração da própria adolescência, cujo
início e fim começam a atropelar perigosamente a infância
e a maturidade.
É sério. A
puberdade, o conjunto de transformações fisiológicas que
anunciam o amadurecimento dos órgãos sexuais e o início
da adolescência, está chegando cada vez mais cedo para uma
enorme parcela das crianças. Muitas perdem a aparência
cândida da infância antes mesmo dos 8 anos de idade.
Exibem precocemente traços característicos de um corpo
mais velho e, como conseqüência, são submetidas a
estímulos e cobranças para que assumam posturas não
condizentes com o seu desenvolvimento psicológico. "Elas
parecem adultos. No entanto, são apenas crianças
adultizadas que não conseguem pensar e agir como gente
grande", diz a psicanalista e doutora em psicologia
Ruth Mattos de Cerqueria Leite, da Universidade de Campinas,
a Unicamp. O que essa precipitação cronológica pode
provocar no desenvolvimento físico e emocional do ser
humano ninguém, por enquanto, sabe dizer com precisão. Mas
a pergunta lançada por uma reportagem da revista americana Time
dá uma idéia da perplexidade ante o fenômeno: a
adolescência vai desaparecer? Ao perderem rapidamente os
traços infantis, garotos e garotas podem ser convidados a
dividir com os pais um número bem maior de
responsabilidades e problemas, submetendo-se a uma
sobrecarga de estresse desconhecida dos jovens nas últimas
gerações.
O crescimento
temporão das crianças é um fato mundial e afeta,
principalmente, as meninas. (Uma conclusão que, talvez,
apenas reflete a escassez de estudos sobre meninos, cujo
crescimento dos testículos, o primeiro sinal externo da
puberdade masculina, é mais difícil de ser notado) Na
Rússia, uma em cada sete garotas apresentam seios volumosos
e pelos pubianos por volta dos 8 anos de idade. Nos Estados
Unidos, a proporção é ainda mais chocante: nessa idade,
metade das meninas negras já exibem sinais exteriores de
desenvolvimento sexual e se tornam alvo do assédio de
jovens mais velhos e até adultos. No Brasil não existem
estatísticas sobre o problema, mas basta zapear a
televisão ou espiar uma festinha infanto-juvenil para
perceber que as coisas não são diferentes por aqui.
Garotinhas de olhar angelical empinando seios e bumbuns
salientes, dentro de roupas sensualmente sumárias, são um
sinal de que a infância também está passando
apressadamente para as crianças brasileiras.
A
antecipação da adolescência não é exatamente uma
novidade. O que chama a atenção é o ritmo em que isso
passou a ocorrer nos últimos anos. Desde o século XIX, a
melhoria da alimentação tem contribuído para um
amadurecimento físico mais veloz, o que resulta na chegada
mais cedo da puberdade. Além disso, principalmente a partir
do advento da televisão, as crianças passaram a dispor de
conhecimentos e a exercitar raciocínios que no passado só
aconteciam muito mais tarde, acelerando assim o seu
desenvolvimento intelectual. De 1850 a 1960, a idade média
em que acontece a menarca, a primeira menstruação, caiu de
17 para 13 anos. De lá para cá, essa marca desceu ainda
mais: tem oscilado entre 11 e 12 anos. Os números aferidos
nos Estados Unidos, a partir de uma pesquisa entre 17 000
meninas, coordenada pela pediatra Marcia Herman-Giddens, da
Universidade da Carolina do Norte, impressionam em todas as
direções. Para 15% das garotas americanas brancas a
puberdade está começando aos 8 anos. Outros 5% apresentam
sinais de incipiente maturidade sexual ainda mais cedo: aos
7, a mesma idade em que 15% das meninas negras ganham seios
e pelos púbicos.
O que está
por trás desse exagero? O endocrinologista e pesquisador
Paul Kaplowitz, da Universidade Popular da Virgínia, nos
Estados Unidos, diz que é a alimentação moderna, que
privilegia alimentos industrializados ricos em hormônios e
gorduras. (Alguns cientistas admitem mesmo a relação entre
a alimentação e alguns distúrbios de comportamento dos
jovens) "Células ricas em gordura produzem mais
lecitina, proteína necessária ao desenvolvimento
verificado na puberdade", diz Kaplowitz. Outra pista,
encontrada pelo doutor Michael Freemark, da Universidade de
Duke, é a presença de muito mais insulina no sangue de
meninas com excesso de peso. Altos níveis de insulina
estimulam a produção de hormônios sexuais pela glândula
supra-renal e ovário, o que contribuiria para o crescimento
precoce dos seios e dos pelos pubianos.
Outras
conexões, menos consensuais, têm sido estabelecidas por
diversos estudos. Um deles, coordenado pelo epidemiologista
Walter Rogan, do Instituto Nacional de Ciências da Saúde e
Ambiente, da Carolina do Norte, sugere que a sexualidade
prematura das meninas pode ser causada por poluentes
presentes em pesticidas, como o DDT. Sabe-se agora que, no
organismo humano, tais substâncias imitam hormônios
relacionados ao desenvolvimento do sistema reprodutivo. Até
hipóteses que parecem extravagantes, por lhe faltarem ainda
comprovação científica, devem ser levadas em conta na
busca de uma explicação para o fenômeno, segundo Marcia
Herman-Giddens. Por exemplo, a do médico Drew Pinsky, um
dos apresentadores do programa Loveline, que a MTV americana
apresentou no ano passado. Pinsky acredita que o bombardeio
de mensagens sensuais sobre as crianças – inclusive
através da publicidade - está contribuindo para
alterações nos cérebros e corpos infantis. "A MTV é
uma das causas da puberdade precoce", afirma. Exagero
à parte, sua hipótese é endossada, não apenas por
moralistas de plantão, mas também por cientistas como o
doutor em psiquiatria e pesquisador Mauricio Knobel,
fundador do Serviço de Adolescentes da Unicamp. "O
estímulo psicológico e social resulta num estímulo
biológico. A psicologia e a biologia não estão
dissociadas", diz Maurício. Nesse sentido, até a mãe
que incentiva a filha de tenra idade a imitar os gestos
lânguidos de Carla Perez ou outra dançarina da televisão
– quase uma obsessão em famílias pobres – pode estar
disparando na menina mecanismos que só mais tarde seriam
acionados pela natureza.
Qualquer que
seja a causa da adolescência prematura, a verdade é que as
mudanças físicas inesperadas produzem um impacto
psicológico de conseqüências ainda imprevisíveis e
adicionam novos riscos ao cotidiano de filhos e pais.
Primeiro porque o rápido crescimento do corpo
infanto-juvenil não é acompanhado pelo amadurecimento
psicológico e, sequer, pelo desenvolvimento do cérebro. A
cabeça de um adolescente é literalmente diferente da de um
adulto, fato constatado, no ano passado, por cientistas do
Instituto Nacional de Saúde Mental de Betesda, nos Estados
Unidos. Conforme o estudo, a explosão do hormônio
testosterona na adolescência aumenta temporariamente o
tamanho da amígdala, um componente do sistema límbico, a
zona do cérebro responsável relacionada aos sentimentos de
ira e medo. Daí a enorme instabilidade emocional dos
adolescentes, que só começa a ceder por volta dos 20 anos.
Da puberdade até os primeiros anos da fase adulta também
ocorre a renovação de quase todas as células dos lobos
frontais, responsáveis pelas funções "executivas"
de autocontrole, julgamento, organização, planejamento e
ajuste emocional. É natural, portanto, que uma menina ou
menino com ares de gente grande possa até apresentar
comportamentos próprios de um adulto, o que não significa
que estão aptos a entender todas as implicações de tais
comportamentos.
A pressão ou
estímulo para que crianças e adolescentes atuem como
adultos pode ser a causa de transtornos como estresse,
depressão e até distúrbios de comportamento. Meninas com
corpo de mulher sentem-se constrangidas e são causa de
constrangimento em seu grupo de amigas. Além disso,
contribuem para a formação de uma barreira entre elas e os
garotos de sua faixa etária, em geral bem menos encorpados.
"Por volta dos nove anos, os meninos ainda vêem as
garotas quase como membros de uma outra espécie", diz
Glenn Elliott, psiquiatra infantil da Universidade da
Califórnia em São Francisco. "Eles, realmente, não
têm ainda uma noção de sexo". Muitos expressam o
desconforto diante das supermeninas, ironizando seus dotes
físicos. Deslocadas de seu mundo, sobram para elas, não
raro, a violência do assédio sexual de jovens mais velhos
e adultos.
O segundo
complicador da adolescência nos dias atuais é o seu
prolongamento: ela está avançando sobre a faixa etária na
qual, tradicionalmente, os jovens se separam dos pais e
assumem suas próprias vidas. A cada dia aumenta o número
de adultos juvenis, às vezes até infantilizados, que não
conseguem sobreviver sem a proteção do guarda-chuva
familiar, incluindo-se aí muitos dos jovens que hoje estão
casados, têm filhos e continuam a depender de seus pais em
tudo. O detalhe é que, nesse caso, são os homens, que
antigamente costumavam desgrudar mais cedo do ninho
doméstico, as maiores vítimas da anomalia.
O problema
pode ter relação com a supressão dos ritos de passagem da
infância para a adolescência. Afinal, crianças encorpadas,
como as meninas com seios, costumam ser estimuladas a largar
mais cedo as formas de lazer infantil - uma medida que seria
prejudicial ao amadurecimento psicológico. "Quando uma
criança pára de brincar, algo está errado", diz Marc
Bekoff, da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, que
há anos pesquisa os efeitos da atividade lúdica em animais
e humanos. Brincar seria importante para a socialização de
meninos e meninas, seu desenvolvimento cognitivo e emocional
e a criatividade. A questão é que não se sabe que danos
efetivos decorrem da privação da atividade lúdica
infância. Por enquanto, isso é só hipótese. Mas há
evidências mais fortes em outras direções.
O fenômeno
do prolongamento da adolescência é recente e específico
da sociedade pós-industrial. No passado, as crianças eram
obrigadas a participar da luta pela sobrevivência da
família, o que, aliás, explica as proles numerosas de
antigamente: era preciso gerar muitos filhos para dispor de
mão-de-obra para o cultivo da terra e o artesanato. Foi o
excedente econômico das classes média e alta que gerou a
possibilidade de meninos e meninas terem tempo para ser
crianças e adolescentes. E, mais recentemente, proporcionou
o surgimento da geração das roupas de grifes, da
parafernália eletrônica, das mesadas generosas e da vida
quase sem limites. Segundo o psicólogo transpessoal Roberto
Ziemer, de São Paulo, se por um lado isso representa um
aspecto positivo da evolução social, por outro trata-se de
uma mudança apoiada em forças regressivas.
"A
primeira delas é o desejo narcisista dos pais (e
principalmente das mães) de impedir ou dificultar o
crescimento emocional de seus filhos, por temerem perdê-los
para o mundo", diz Roberto. "A frustração de
grande parte das mulheres com o casamento faz com que elas
projetem suas necessidades afetivas sobre os filhos (que se
tornam seus maridos substitutos), esperando que estes nunca
as abandonem". O resto da história é previsível:
superprotegidos e sem um modelo forte de pai em suas vidas,
tais meninos, para não frustrar a mãe e se sentirem
culpados, congelam emocionalmente, comportando-se de forma
imatura por muitos anos.
Com as jovens,
conforme Ziemer, felizmente muitas vezes acontece o
contrário: o modelo ruim de mulher que eventualmente têm
em casa as impulsionam a buscar a emancipação mas, como
não encontram contrapartida emocional nos rapazes, elas
acabam namorando e casando com homens mais velhos. É uma
enorme decepção para os garotos. Seus hormônios os
impelem para o encontro afetivo e sexual com as moças, mas
eles não estão prontos para ter um relacionamento. A
imaturidade emocional impede o aprofundamento nas relações
afetivas, gerando sucessivos desapontamentos.
Seria,
obviamente, absurdo achar que qualquer pessoa com 25 anos
deve ser considerada adolescente só porque mora com os pais.
Numa época em que a competição no mercado exige
profissionais mais bem preparados, até que um jovem conclua
o seu doutorado, ou mesmo o pós-doutorado, existe a
possibilidade de que continue ligado aos pais ainda por
volta dos 30 anos. Mas aqui o diferencial de maturidade é
dado pelo seu engajamento nas responsabilidades da casa,
inclusive financeiras. "O adulto apresenta três
características básicas", afirma a educadora Tania
Zagury, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Sabe
que o mundo não gira em torno dele e tem consciência de
que precisa dar sua contribuição, seja em casa ou na
sociedade. Tem independência financeira. É afetivamente
pleno, capaz de manter um relacionamento amoroso estável".
Quem não atende a tais requisitos é por que ainda não
amadureceu.
Que fique claro: a maioria
dos jovens consegue atingir essa meta. Ao contrário do que
parece, eles também não estão acomodados e sem ideais,
como se pode constatar na leitura dos quadros das páginas
XXXX e XXXX. Os jovens estão mais conservadores? Pode ser,
mas é vale lembrar que a geração atual já não precisa
combater por liberdades que seus pais conquistaram no
passado. Na verdade, problemas como a precocidade e o
prolongamento da adolescência, como, aliás, toda a
temática envolvendo sexo, drogas e violência, trazem mais
questionamentos aos adultos que a garotada. "Os pais
estão cada vez menos preparados para assumirem o seu papel",
afirma Maurício Knobel. Verdade? Talvez. Mas esta já é
uma outra história.