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A virada que fez do TED um fenômeno mundial começa no slogan “idéias que merecem ser espalhadas”,
resumo de seu caráter aberto e eclético. São elas e não a imagem pública do
tedster, como se autodenominam os participantes da comunidade, que definem o lugar de cada um. Em Long Beach, o
brilho de celebridades se destaca na multidão de anônimos, mas muitos momentos marcantes da
conferência são protagonizados por pessoas comuns e desconhecidas – que, obviamente, depois disso se
tornam celebridades. Um exemplo clássico é o de William Kamkwamba, um menino semianalfabeto do
Malaui, na África, que construiu sozinho um gerador a vento para sua aldeia guiando-se apenas pelas
figuras de um livro emprestado de uma biblioteca. Sua palestra na conferência de 2007 arrancou mais
aplausos da platéia que a de Bill Clinton que, ali, também abriu o seu coração e admitiu nada ter
feito para evitar o massacre de Ruanda quando era presidente dos Estados Unidos.
Outro grande momento seria protagonizado, em 2008, pela neurocientista Jill Bolte Taylor. Ela sempre
foi uma mulher racional, mas numa manhã de 1998, aos 37 anos, uma veia do lado esquerdo de seu
cérebro – exatamente a banda relacionada ao pensamento racional e analítico – rompeu-se, dando
início a uma reviravolta em sua vida. Durante a longa recuperação, Jill teve que reaprender muitas
coisas, inclusive a escrever, mas na sua fala, dramática e emocionante, o derrame foi apresentado
como uma bênção. Pela primeira vez, disse, ela pôde se entregar ao domínio do lado direito de seu cérebro, aquele que gerencia as emoções, e descobrir novas nuances da vida. O resultado foi o equilíbrio da razão e da emoção e mais criatividade. Apenas dois meses depois do TED, Jill figurou na lista das 100
personalidades mais influentes do mundo da revista Time.
Com tamanha força para revelar pessoas que fazem a diferença e disseminar grandes idéias, o TED da
era Anderson também ficou mais robusto e atraente em sua versão real. A conferencia de Long Beach,
realizada na primavera do hemisfério norte, ganhou uma versão européia, o TED Global, realizado em
Oxford, Inglaterra, no verão. Outras conferências setoriais, voltadas aos desafios do milênio, às
questões das mulheres, dos jovens e até um TED Kids, destinado a crianças, entraram na pauta de
eventos da comunidade. Para estimular a criatividade de resultados sociais, foi criado o TED Prize, um prêmio anual de 100 mil dólares concedido a um pensador de destaque para que ele possa realizar
“um desejo que vai mudar o mundo”.
Nenhuma dessas inovações é comparável, em ousadia, ao TEDx, um programa de eventos locais
organizados ao estilo TED, porém de modo independente, lançado há pouco mais de ano. Qualquer grupo
ou pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode organizar um TEDx, sem pagar nada pelos direitos. A
contrapartida é que o projeto local seja aprovado pela Curadoria do TED internacional, o evento não
tenha fins lucrativos e, preferencialmente, não cobre ingressos. Há normas rígidas que limitam o
valor total de patrocínios, garantem a liberdade de organização e de conteúdo e excluem do rol de patrocinadores empresas cujas práticas sejam política e ecologicamente incorretas. Já foram
realizados mais de 500 TEDx em 70 países e 35 idiomas, vários deles no Brasil. Um dos mais simbólicos aconteceu em agosto passado na favela de Kibera, no Quênia, uma das maiores da África.
TEDx grandiosos foram realizados em Paris, Amsterdam, Tóquio e São Paulo. Outros, singelos, e têm lugar em bairros, ongs, escolas, empresas e órgãos públicos. O bairro de Vila Madalena, em São Paulo, promove mensalmente o seu TEDx Vila Madá.
“O TEDx é uma radicalização do conceito de espalhar idéias inventado com o ted.com”, diz o
jornalista Denis Russo Burgierman, ex-diretor de Redação da revista
Superinteressante, que ajudou a construir o TEDx São Paulo, em 2009, e foi curador do TEDx Amazônia, realizado em 2010 num hotel flutuante no rio Negro. “Um consultor de negócios certamente pediria alertaria para o risco de banalizar a marca”, admite o audacioso Chris Anderson. Mas ele acredita que o futuro pertence aos que têm espírito aberto e não usam o medo e a ignorância para estigmatizar os outros. Para essa nova ideologia em um mundo veloz não há razão para se guardar o conhecimento, pois ele é um bem que logo se deprecia.
A revolução do TED nasceu da busca de um sentido para a vida, o velho questionamento íntimo que todo
homem experimenta lá pelos 35 a 45 anos - quando geralmente já conseguiu estruturar família, carreira e patrimônio -, e que explodiu com força numa geração que conheceu mais cedo o sucesso. Quem assistiu no ano passado, em Long Beach, à palestra de William Gates III, o dono da Microsoft, pôde ter uma idéia do que se passa na consciência de um milionário engajado em causas sociais. Após dizer que há mais dinheiro investido na pesquisa da cura da calvície, uma doença de homens ricos, do que na cura da malária, um mal que mata pessoas carentes, o segundo homem mais rico do mundo abriu um pote de plástico cheio de Aedes aegypti, liberando-os sobre a platéia assustada. “Não há razão para que só pobres tenham malária” disse Bill Gates. Depois, informou que os mosquitos não estavam infectados. Como Gates, muitos vencedores acabam percebendo que só sucesso e fortuna não
são suficientes para alguém se sentir completo e realizado.
Às vezes isso acontece com um empurrãozinho da adversidade. É o caso do cara que deu o toque de
Midas no TED, Chris Anderson, 53 anos. Nascido no Paquistão, com passagem pela Índia e o Afeganistão, Anderson estudou física e filosofia na Universidade Oxford, na Inglaterra. Em seguida, descobriu o jornalismo. Nos
anos 80, já morando ns Estados Unidos, abriu uma pequena editora de revistas sobre computadores e viu
que tinha acertado na mosca. Com o boom da internet, o negócio transformou-se em pouco tempo num império editorial de 130 publicações. Na década
seguinte, a Future Publishing, sua empresa, já era avaliada pelo mercado em 2 bilhões de dólares. Foi nesse momento, segundo Anderson, ele caiu numa ilusão. “Acreditei que eu era um herói dos negócios”, disse pouco
antes de assumir a Curadoria do TED em 2002. Com a explosão da bolha das empresas pontocom,
ele passou a perder 1 milhão de dólares por dia e entrou em parafuso. A salvação veio quando, em
meio à crise, decidiu usar o dinheiro acumulado durante o boom para dar um novo significado à sua
vida: criou uma fundação sem fins lucrativos que adquiriu o direito de organizar a conferência de
Long Beach e passou a moldar, junto com milhões de parceiros, esse novo
jeito de espalhar idéias e mudar o mundo pelo conhecimento – o jeito TED.
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TED
à brasileira
Os brasileiros chegaram ao TED há menos de três anos e, apesar de formarem uma pequena parcela da
comunidade (estima-se em 16 000 o número de tedsters no país), destacam-se pela ousadia em algumas
ações. Em novembro passado, mais de 400 pensadores, especialistas de diversas áreas e pessoas
comprometidas com a diversidade ambiental estiveram reunidos no coração da floresta amazônica no primeiro TEDx Amazônia, cujo tema central foi “Qualidade de Vida para todas as espécies do planeta”.
O evento, realizado no auditório do hotel flutuante Amazon Jungle Palace, entre ilhotas do rio
Negro, seguiu o rastro de sucesso do TEDx São Paulo, promovido um ano antes pelo mesmo grupo de apaixonados pelo TED reunidos na empresa Webcitizen.
Vários brasileiros que estiveram em Long Beach voltaram com a disposição de espalhar a idéia do TED
no país. O consultor empresarial Antonio Carlos Vargas, 40 anos, que desenvolveu sua carreira no
setor de tecnologia de ponta de empresas dos Estados Unidos, Itália, Alemanha e Holanda, mobilizou
os funcionários de sua empresa, a Vargas Partners, e um jovem sonhador de 19 anos, Geraldo Milet,
para tornar realidade em setembro passado o TEDx Santos e Região.
Para Vargas, uma passagem pela TED
Conference é sempre um "tsumani intelectual”. “Cada palestra é capaz de responder em uma fração de
tempo o que vários consultores talvez não fossem capazes de responder em meses de pesquisa”. Milet, um aluno do curso de gestão de políticas públicas da USP que desde os 16 anos participa da criação
de comunidades entre jovens, nunca esteve em Long Beach, mas experimentou aqui seu tsumani, no TEDx
São Paulo. Em menos de um ano, participou de 13 eventos do gênero no Brasil, em vários deles como
membro da equipe organizadora.
Quem já subiu ao palco do TED ou de um TEDx para compartilhar idéias e experiências também se refere a um momento único, não raro seguido de mudanças na vida. As palestras nesse ambiente têm grande
carga emocional. Os palestrantes costumam mostrar não apenas a paixão pelo que fazem e os seus
sucessos, mas também expor suas fraquezas e dúvidas. Essa abertura do coração geralmente produz
empatia e choradeira na platéia, mas também marcas emocionais e consequências práticas na rotina dos expositores.
“O TED foi um divisor de águas na minha vida”, diz Guti Fraga, ator e idealizador do
projeto Nós do Morro e um dos mais aplaudidos no TEDx São Paulo. O jornalista Denis Russo, que
estreou como palestrante junto com Guti, também anotou mudanças em sua vida após o TEDx paulistano. “Hoje levo mais a sério as idéias e propostas que me são apresentadas”, afirma. “Eu diria que hoje
compreendo mais profundamente o conceito de rede.”
No ambiente despojado em que os TEDx acontecem, o grande atrativo é a diversidade em desfile no
palco. O TEDx Sudeste, realizado no Rio de Janeiro em maio passado, juntou num mesmo turno o
ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, o menino Pedro Franceschi, 13 anos, ex-hacker que virou
desenvolvedor de aplicativos para o iPhone, e Andrew Essex, diretor da Droga5, a agência de
publicidade "mais excitante do mundo", segundo o jornal The Guardian, de Londres. Já no evento
paulistano, a experiência da atriz Regina Casé com as periferias de metrópoles do Brasil e do mundo
foi exibida ao lado das ideias sobre sustentabilidade nos negócios do presidente da Federação
Brasileira de Bancos (Febraban) e do Santander, Fábio Colletti Barbosa.
O tema da qualidade de vida para todas as espécies inspirou tons ainda mais fortes no TEDx Amazônia.
A platéia ouviu gente como o respeitado biólogo Joan Roughgarden, da Universidade Stanford, autor da
tese de que existem não só dois sexos na natureza, mas uma faixa com inúmeras variações. Em 1998,
numa mesa de cirurgia, Jonathan virou Joan, a cientista que agora tenta provar que a
homossexualidade está presente em centenas de espécies. |