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Ano V // Nº 286

Texto publicado na edição de 22 de março de 2000 da revista Exame.

Forró Milionário
O homem dos 2,5 milhões de CDs por ano

Por JOMAR MORAIS, de Fortaleza / Foto: LUIS MORAIS

Olhe bem para a foto que ilustra esta reportagem e responda. Na sua opinião este cidadão é:

1 - Um hippie que ainda não voltou de Woodstock

2 - Um profeta do fim dos tempos.

3 - Um sanfoneiro que canta repentes na rua

Nada disso. Apesar da aparência exótica, Emanoel Gurgel de Queiroz, 46 anos, é um empresário inquieto e inovador, dono de um negócio que faturou 25 milhões de dólares em 1999.

Tudo começou em 1992, quando Queiroz, ex-árbitro de futebol profissional, vendeu sua fábrica de confecções em Fortaleza e arriscou tudo na indústria do forró. Sua idéia era tornar o ritmo ainda mais dançante, enriquecendo-o com sons gerados tecnologicamente - em samplers e mesas de som.

Em sua primeira aposta, criou a banda Mastruz com Leite, pioneira na utilização de instrumentos como saxofone, bateria, teclado e guitarra - além da zabumba, do triângulo e da sanfona, marcas registradas dos forrozeiros. Bola dentro. A agradou quem já curtia o gênero e acabou atraindo a classe média, que, até então, virava as costas para a música regional.

A Somzoom, empresa de Queiroz, é quase uma holding: detém os direitos de sete bandas de forró, controla um estúdio de gravação, uma editora musical e gera via satélite programação para 93 emissoras de rádio em 11 estados, inclusive São Paulo, onde o ritmo nordestino corresponde a um terço das músicas executadas.

O sucesso no showbusiness e na comunicação - a Somzoom já é dona de cinco emissoras de rádio - impulsiona agora outros negócios. Um deles é o Circuito Nacional de Vaquejadas, com faturamento previsto de 6 milhões de reais e cotas de patrocínio vendidas para empresas como a Ford, a Parmalat e a Kaiser. A experiência bem-sucedida de Queiroz prova que o manancial de oportunidades regionais de negócios no Brasil é imenso, a despeito de sua economia cada dia mais globalizada.

O primeiro CD produ\zido pela Somzoom, da Mastruz com Leite, chegou às lojas, em 1994. Desde então, a banda já gravou 26 CDs. Ao todo, a Somzoom vendeu no ano passado 2,5 milhões de CDs. Mais de um quarto em São Paulo. Um dos segredos de Queiroz é a rede Somzoom Sat, a programação via satélite que divulga dia e noite os produtos da gravadora. Afinal, apenas uma das atrações da rede, o "Programa do Mução", apresentado pelo radialista Rodrigo Emerenciano, de 23 anos, tem 4 milhões de ouvintes espalhados pelo país.

Outro pilar da operação da Somzoom são os baixos custos. Um CD da Mastruz chega ao lojista por 5,50 reais, enquanto um da banda Magnificus, da concorrente Sony, não sai por menos de 12 reais.
Uma placa pendurada na porta do escritório de Queiroz ajuda a entender o seu estilo:"Quem decide pode errar, quem não decide já errou". Queiroz é assim. Inquieto,quase elétrico, costuma decidir com rapidez, sempre guiado pela intuição.

Pai de seis filhos, egresso de quatro casamentos, Queiroz começa a trabalhar às 4 da manhã emsua fazenda,a 80 quilômetros de Fortaleza. É lá ouve dezenas de fitas num solitário processo de escolha do repertório dos próximos CDs. "Faço questão de selecionar as músicas porque conheço bem o gosto popular", diz.

Além disso, Queiroz é um devorador de estatísticas de vendas e de pedidos dos ouvintes. Elas, na maioria das vezes, apontam na na direção das letras simples - às vezes, simplórias -, românticas ou de duplo sentido, enfim, peças altamente descartáveis, substituídas a cada quatro meses por novos lançamentos da mesma banda ou cantor. "Meu maior dom é saber descobrir as pessoas certas, casar a música e o intérprete", diz.

Além da equipe administrativa, boa parte dos 200 funcionários da Somzoom foi escolhida a dedo por Queiroz, a começar pelos músicos. Contrariando a prática do mercado, seus artistas têm registro em carteira, plano de saúde e salário fixo, complementado com comissões sobre as vendas de CDs e participação em shows. A empresa instituiu o tratamento dentário, acabando com o estereótipo do forrozeiro maltrapilho e desdentado. Na Somzoom há um dentista de plantão só para atender os músicos.

No curto prazo, a meta é quebrar a resistência gaúcha e fincar a bandeira da Somzoom Sat no Sul. Se conseguir a façanha de conversar com a gauchada a trocar a milonga pelo forró, raciocina Queiroz com razão, não terá trabalho convencendo qualquer outra pessoa.

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