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Maio/2006

 

 

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Ser hetero ou ser gay
A orientação sexual é uma escolha?

A ciência tem uma nova - e surpreendente - resposta para 
esta questão que divide liberais e conservadores

por Jomar Morais

 

A orientação sexual é determinada pelos genes ou é uma escolha do indivíduo? É possível 
deixar de ser gay ou hétero em algum momento da vida? O bissexual existe ou é apenas um 
rótulo para disfarçar a homossexualidade?

Prepare-se. A ciência acaba de encontrar uma resposta desconcertante para todos os 
envolvidos em um conflito pra lá de controverso: aqueles que defendem que a homossexualidade é uma predisposição genética e imutável e os que acreditam que ela é resultado de hábitos adquiridos ou mesmo da influência de fatores paranormais, como a influência do diabo ou espíritos corrompidos. Em março passado, a Mind, edição especial da revista Scientific American dedicada aos estudos da mente e do comportamento, noticiou estudos recentes na Universidade de Columbia que constataram ser orientação sexual mais instável do que imaginamos, havendo mesmo a possibilidade de inversões e reversões ao longo dos anos sob a influência de fatores sócio-culturais.

O coordenador desses trabalhos, o psiquiatra americano Robert L. Spitzer, foi um dos pesquisadores que, na década de 70, propuseram a retirada da homossexualidade da lista de transtornos mentais da Associação Americana de Psiquiatria (APA), um passo importante para a afirmação dos direitos civis dos homossexuais nos Estados Unidos e em outros países.

Com o estudo atual,Sptizer trombou com a comunidade gay americana, temerosa de que suas pesquisas reforcem a idéia difundida por igrejas cristãs fundamentalistas de que a homossexualidade pode e deve ser revertida através de tratamentos psicológicos e espirituais de natureza e consequência duvidosas. Seu estudo, no entanto, está longe de ser um simples aval à intenção e ao método coercitivo dos religiosos.

Na raiz da controvérsia sobre a homossexualidade estão as proteínas que compõem os nossos genes, ponto de apoio para duas questões básicas. 

Primeiro: os genes desempenham uma função na orientação sexual?

Segundo: se eles determinam essa orientação, isso significa que geram dois tipos distintos de sexualidade - a hétero e a homo - ou criam um continuum de orientação? (Isto é, um conjunto contínuo, uma escala). 

Vários estudos anteriores sugerem que a genética tem algum papel no surgimento da homossexualidade. As pesquisas com gêmeos que cresceram juntos ou separados e o estudo de "árvores" familiares sinalizam nessa direção, apesar de todos os estudos nessa área não serem conclusivos. Essas pesquisas, porém, contrariam o senso comum de que hétero ou homo são características distintas e fortemente polarizadas. Elas revelaram uma tal multiplicidade de nuances na sexualidade dos indíviduos que os cientistas passaram a considerar a existência de um continuum sexual, com as pessoas distribuídas ao longo da escala.

Desde os estudos do biologista Alfred Kinsey sobre práticas sexuais nos Estados Unidos, na década de 1940, sabe-se que um percentual que varia entre 3% e 7% da população manifesta atração exclusiva por pessoas do mesmo sexo. Estes se localizariam em um dos pólos do continuum, que teria na outra extremidade um vasto percentual de pessoas, entre 80% a 90% da população, com preferência exclusiva pelo sexo oposto. Nas posições intermediárias da escala, os estudos - inclusive uma pesquisa recente da APA - situam pessoas que têm  predominantemente atração pelo sexo oposto, mas podem se relacionar com pessoas do mesmo sexo, ou que sentem forte atração por pessoas do mesmo sexo, mas podem se relacionar com as do sexo oposto.

A novidade acrescentada pela pesquisa de Spitzer é a provável possibilidade de mudança na orientação sexual daqueles que estariam em pontos próximos às extremidades do continuum, sob o estímulo de fatores sócio-culturais. Em outras palavras, pessoas com traços de bissexualidade poderiam, em determinados momentos da vida, inclinarem-se para a homossexualidade ou a  heterossexualidade, influenciados pela aprovação social (e os ganhos psicológicos resultantes dessa aprovação) a uma determinada postura. Neste caso, o papel dos genes na orientação sexual se mostraria tão reduzido quanto na ocorrência de destros e canhotos na população.  A genética responde por um índice de apenas 0.32 na determinação do uso predominante da mão direita ou da esquerda, enquanto o índice para a determinação da altura de um indivíduo é de 0.84. 

E por que, então, mais de 90% da população é constituída de destros? Por que a cultura as empurra nessa direção. Na reportagem da Mind há relatos de casos de "ex-gays" que se dizem confortáveis em sua nova condição de héteros. Em alguns a mudança ocorreu após pequenos traumas, como a separação de um antigo parceiro. Faltaram relatos de casos de héteros que tenham se tornado gays, o que é compreensível em razão do foco da matéria na questão polêmica da homossexualidade. 

A revista conclui que, devido à enorme pressão social que ainda hoje nos empurra para a polaridade dos héteros, desde a infância, é razoável admitir que a maioria das pessoas que vivem como homossexuais está, provavelmente, sob forte influência genética e dificilmente seria protagonista de uma inversão da orientação sexual. O assunto, porém, ainda apresenta mais dúvidas do que respostas e deverá gerar outros surpreendentes estudos no futuro.


 Um outro olhar
O espírito e o sexo

A questão da orientação sexual de um indivíduo praticamente desaparece quando é encarada do ponto-de-vista espiritual. 

O espírito, a essência autoconsciente, transcende à dualidade e integra em si as polaridades. Não há macho ou fêmea, não há hétero ou gay no nível espiritual. Há energia que se  manifesta em diferentes estados e por diferentes  canais na diversidade da  criação. 

Certa vez perguntaram ao Dalai Lama, nos Estados Unidos, o que ele achava 
da homossexualidade. O Dalai riu. A questão não fazia parte de suas preocupações. Não era relevante para um homem acostumado a meditar sobre a impermanência de todas as coisas. 

Isso não signfica que a polarização da energia primordial, quando adensada no nível da matéria, não tem importância. Ela é fundamental, inclusive, para que a "realidade" se estabeleça, para que 
possamos perceber o mundo. E, no caso específico da orientação sexual, é fundamental para a continuidade da vida e da complementaridade entre os seres. 
Significa que a diversidade de manifestação da energia existe e que precisamos aprender a lidar com essaevidência da forma mais harmônica, proveitosa e agradável para todos os humanos.

No ocidente, a questão tornou-se problemática em razão dos tabus religiosos da tradição judaico-cristã. Mas, aos poucos, vem se estabelecendo uma compreensão nova e mais profunda do tema, apoiada na ciência e em doutrinas religiosas modernas, como é o caso do Espiritismo e da Teosofia, surgidos no século XIX. 

O Espiritismo, por exemplo, afirma que espíritos (individualizações do princípio espiritual cósmico) não têm sexo, mas se beneficiam da experiência dual através das encarnações em corpos masculinos e femininos. Isso é gradativo, mas podem ocorrer inversões repentinas que realçam aparentes oposições entre a psiquê e o corpo - o fenômeno da homossexualidade. 

Livros escritos por religiosos sobre o tema da orientação sexual nem sempre exibem o equilíbrio indispensável à credibilidade de um estudo. Teorias são elaboradas, muitas vezes, apenas para apoiar visões pessoais viciadas por antigos conceitos e até preconceitos, direcionados à questão moral subjacente ao tema da sexualidade. 

Na homossexualidade, como na heterossexualidade, o bom senso sugere "balance", equilíbrio e ética (o que que quer dizer pensar no bem do outro) seja na abordagem do assunto ou no exercício da própria orientação sexual. Rotular (ou rotular-nos), atribuir sinais de + ou - ou discriminar o que não está de acordo com caminho individual estabelecido por nossa consciência não contribui para o entendimento das pulsões no campo da sexualidade.

 

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