Já
comentei da aventura de ser tio. E reafirmo, amigo leitor: é uma
jornada instigante, sempre. E por isso a renovação das impressões
em novo texto. É como desbravar caminhos para conhecer cada vez
mais uma estrada ainda misteriosa. Ora, e o que são estas mentes
tão cheias de deslumbramentos senão uma caixola cheia de vida e
descobertas a cada vista?
Guardo a certeza de que, se cronistas fossem, as crianças seriam
as melhores do ofício. Os olhares são os mais atentos a qualquer
banalidade. E deslumbram-se com qualquer bobagem de vida. E é
disso que vive a filosofia: de deslumbramentos. Partem das
superficialidades da vida as novas teorias acerca dos mistérios
da alma.
E talvez as crianças sejam lá mestres inocentes do jogo da vida.
É o que vejo na minha sobrinha Ana Beatriz, com um ano e dois
meses. Mesmo pequenina, há três ou quatro palmos do chão, sabe
fazer amigos sem sequer conhecê-los. Se está em um shopping logo
procura os da mesma idade e procura conversar, mesmo sem repertório
de palavras.
“Bia”, como toda criança, é lição para os mais sábios.
Faz-se feliz com qualquer coisa. Esnoba presentes caros e se
diverte com uma tampa de xampu. E se tentar tomar o objeto da mão
fechadíssima, ela briga. E perdoa logo depois. Coisa de criança,
mesmo. Mania de perdoar por impulso e fazer a gente: adulto-bicho,
acreditar na essência humana.
Ser criança é acreditar no impossível e viver sem medos. É
andar sorrindo pelo simples fato de estar andando – mania
recente e empolgante, Anda como se corresse, sem olhar para trás
ou para os obstáculos à frente. E corre de braços abertos, para
abraçar a vida e todas aquelas surpresas do dia.
Se em cada esquina cai um pouco minha vida, como lembrou Cartola
à sua filha que desejou sair de casa, quando estou com Bia renovo
minha esperança na existência. Reabasteço as energias perdidas
no contato com os bípedes-adultos e com o perfume hipócrita do
mundo. E viro criança novamente, longe das vontades perturbadoras
da vida e perto da magia inocente e sã dos impulsos irracionais.