Ano VIII / Nº 319
Texto
publicado na revista Super Especial- Vida Simples de junho de
2002
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mais:
Isto
é Satyaprem
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O
anarquista de Bagé

Um gaúcho provoca furor e êxtase ao retomar o trabalho
do
polêmico Osho. Sua proposta: mostrar às pessoas que elas
estão completas
e só lhes resta seguir os seus impulsos. Aqui, o satsang com
JM
Por Jomar Morais
Os
olhos negros, penetrantes, concentram nos meus e parecem
disparar faíscas de um desejo misterioso. Hesito, mas logo
decido ir em frente, devolvendo àquele que me observa um
olhar igualmente destemido. Por alguns minutos permanecemos
assim, olho no olho, mudos e indiferentes ao significado
simbólico de nossas posições – ele e sua bata branca
acomodados na poltrona azul rechonchuda; eu, um nível abaixo,
pernas cruzadas, sentado no chão. Dezesseis pessoas,
esparramadas sobre colchonetes, nos observam. Apenas a brisa
do Atlântico rompe, de vez em quando, o silêncio e o calor
abafado. Então, a voz do guru explode:
-Quem
é você?
Quem
sou eu? Quem sou eu?, repito nas profundezas da mente para,
depois, responder:
-
Não sei.
Quem
é você? – torna a dizer o guru, incisivo, enquanto
justifico que nenhuma definição de mim mesmo poderia
retratar a essência do meu ser.
Leve
sorriso... sinto que eu e o mestre sintonizamos, mas a
harmonia é fugaz. Uma saraivada de perguntas que abalroam
conceitos basilares como individualidade, livre arbítrio e
evolução nos põe no centro do ringue, menos por minhas
discordância ou concordância a priori com suas idéias do
que pela insistência para que eu abjure minhas concepções e
me transforme ali mesmo. Experiência zero, este é o alvo:
atingir o ponto onde você está em lugar nenhum, onde é
ninguém, sem nome, identidade ou forma. Samadhi, a suprema
percepção, a iluminação além da mente!
Mais
perguntas. Uma crescente pressão por respostas. O guru,
finalmente, encerra:
-
Não há busca, não há caminho, não há método. A
iluminação é aqui e agora. Nada é tudo o que você tem a
fazer. Renda-se!
* * * * * * *
Surpreso
e curioso, caro leitor? Isto é um satsang com Swami Satyaprem.
Satsang
é um termo do sânscrito, a língua clássica da Índia, que
significa encontro com a verdade. É como se chama o ato
dialogar com um sábio. Swami, outra palavra sânscrita, quer
dizer mestre de si mesmo e satyaprem, amor pela verdade. Eis o
homem. À minha frente, em meio aos jardins de uma pousada em
Maracaípe, praia vizinha à famosa Porto de Galinhas, em
Pernambuco, está um iluminado. E por trás de seu nome
simbólico a figura de um gaúcho de Bagé, quarentão de
aparência juvenil, polêmico e iconoclasta, que há 20 anos
descartou a carreira jornalística para seguir os passos de um
guru para lá de controverso: Bhagwan Shree Rajneesh, ou
simplesmente Osho, um indiano morto por enfarte em 1990.
"Satsang
com Satyaprem é porrada", diz Maurício, um dos 17
interessados que pagaram 340 reais para conviver com o mestre
gaúcho durante três dias. Estavam lá profissionais liberais,
militares, comerciantes, militantes de esquerda e até
adolescentes de 15 e 17 anos. Um extrato da classe média
habituada a buscar um sentido para vida em vertentes
filosóficas ou no divã do psicanalista. Gente devota ou
perplexa diante de um guru de palavras e práticas demolidoras.
Em colóquios anteriores, confidencia Maurício, muitos
amarelaram diante de, digamos, alguns exercícios sensoriais
desinibidos. Dessa vez, o impacto ficou só na retórica.
"A priori, sou a favor de tudo", diz Satyaprem.
"A favor do aborto, da eutanásia, das drogas..." O
guru de Bagé, acreditam alguns de seus discípulos (sannyasins),
superou o mestre.
Nos
anos 70, Osho instalou o comando de seu movimento no Oregon,
Estados Unidos, e dali ajudou a sustentar a revolução de
crenças e costumes, iniciada pelos jovens. Sua pregação
envolvia sutilezas herdadas do Zen Budismo, mas, polêmico e
exibicionista, o indiano acabou rotulado como o guru do amor
livre, por sua ênfase em tradições esotéricas que
consideram a realização espiritual também por meio da
liberação do sexo. Milionário, adorava desfilar sua
coleção de automóveis Rolls Royce. Em 1985, Osho foi
expulso dos Estados Unidos, acusado de forjar casamentos para
garantir a permanência de estrangeiros em sua comuna. Ao
voltar para a Índia, não teve tempo de reorganizar seu
império. A morte prematura do guru provocou uma guerra de
poder entre discípulos e assessores, atiçada até hoje por
um patrimônio constituído de imóveis, 1 500 livros
publicados em 40 idiomas e, claro, a frota de Rolls Royce.
No
vazio de liderança, discípulos de ontem tornaram-se gurus,
com idéias e estilos próprios – e nessa constelação
Satyaprem é uma estrela de brilho inquietante. "O
iluminado não recorre a ensinamentos do passado. Aliás, não
há nada a ser ensinado, mas apenas o compartilhar de algo
vivo, não aprendido", afirma. "O buda é quando a
mente pára de tentar provar que você não é o buda. Ela
reconhece o revelado e se aquieta". O instrumento
utilizado para despertar as pessoas para essa experiência
fundamental é uma técnica de auto-indagação criada pelo
guru Ramana Maharshi. Perguntas, muitas perguntas. Lembra do
nosso duelo no início desta reportagem? É isso.
A
resposta que encontrei para a indagação do guru é a mesma
que foi dada há mais de vinte séculos por Bodhidarma,
suposto fundador do Zen, ao imperador chinês Wu, então
enfurecido ante a recusa do monge em prestar-lhe homenagens.
"Quem é você para me dizer essas coisas?", indagou
o imperador. "Não tenho a menor idéia", replicou
Bodhidarma. Não sei é também a resposta a que Satyaprem
pretendia conduzir-me, a fim de me convencer da falsidade do
"eu" e da verdade da essência na unidade da
Consciência Cósmica.
O
trabalho de Satyaprem é solitário. Depois de, segundo ele
próprio, viver em comunas de Osho nos Estados Unidos, Índia,
Holanda e Alemanha e de fundar um centro de meditação na
Noruega, desde 1994 Satyaprem tem se dedicado a realizar
retiros e satsangs nos estados do sul e do nordeste (em 2002
pretende entrar em São Paulo), sempre à margem do movimento
organizado dos seguidores de Rajneesh. Militante anarquista na
juventude, o guru detesta estruturas e normas e se recusa a
informar o próprio nome civil, por não reconhecer nesse
detalhe qualquer importância. Sobre sua vida familiar, uma
única concessão: diz que é filho de comerciantes. "Como
disse Cristo, quem eu sou não tem mãe nem pai",
justifica.
Foram
os estudos de psicologia e semiologia que aproximaram
Satyaprem das idéias de Osho, mas a gota d´água nesse
processo, acredita, foi a hipocrisia social. Usuário de
maconha na juventude ("Usava-a como microscópio para me
ver melhor, em momentos de introspecção"), ele resolveu
transformar seu trabalho de final de curso, na PUC de Porto
Alegre, numa elegia à droga e acabou discriminado pelos
próprios amigos. Vem dessa época o rótulo de maldito, que
volta e meia atravessa o caminho do guru. Satyaprem não liga.
"Por que será que assassinaram Jesus, Sócrates e outros?",
diz. "O contato com o iluminado é sempre algo devastador."
Sua
proposta é radical. Primeiro, destruir os conceitos daquele
que busca; depois, mostrar que não há busca, que não há
para onde ir. É a "terapia da porrada, trabalho forte,
de catarse", afirma a jornalista Francisca Campagna, que
assina o prefácio de "Fragmentos de Transparência",
o livro em que Satyaprem resume sua filosofia. Para ele, a
vida é uma brincadeira divina, onde tudo pode e nada deve ser
levado a sério.
"Satyaprem
segue os seus impulsos. Não descarta nenhuma oportunidade de
ser carinhoso, assim como não a de se irritar, sem perder o
senso de quem ele é", revela Maria Karla Ferreira, a
sannyasin Sonika, de 22 anos. É namorador (e contra o
casamento), bom garfo, apreciador de noitadas em boates.
Costuma também passar horas quieto, lendo ou simplesmente
dormindo.
Estou
curioso para saber o que pensa do Dalai Lama, o líder do
budismo tibetano que, nos últimos anos, tem seduzido milhões
no ocidente. "Um político, o chefe de uma religião",
dispara. O Dalai propõe a transformação das emoções.
Satyaprem, vivenciá-las do jeito que brotam na brincadeira da
vida, sem nenhum julgamento. "Aceitação é a suprema
compaixão", diz, referindo-se à virtude pregada em
todos os livros do Dalai. E o que acha dos psicoterapeutas, de
cujos consultórios parte a maioria de seus ouvintes? "São
os novos padres que reforçam as ilusões criadas pela mente".
É porrada.
No
final, Satyaprem exibiu o filme "O Ponto de Mutação",
baseado no livro de mesmo nome do físico Fritjof Capra que
propõe um novo paradigma para a ciência e a filosofia,
apoiada nas descobertas da física quântica. A realidade
está na mente do observador. O universo é uma teia de
interconexões. "Não há o ‘eu’, nem livre arbítrio,
nem evolução. Não há passado nem futuro. Não há senão o
aqui e agora. Isso é científico, isso é qüântico",
diz Satyaprem. Isso é assim, se lhe parece.
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