
Ano
V // Nº 278
Texto
publicado na edição de 22 de setembro de 1999
da revista Exame
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O
Homem Que Finca
BANDEIRAS
Por JOMAR MORAIS, de Natal / Foto: Luis
Morais
O
segredo do dono da Sat para conquistar postos no
Nordeste: seu jeito sertanejo

Marcelo Henrique Ribeiro
Alecrim, o rapaz da foto ao lado, é um contador
de histórias impagáveis marcadas pela
inventividade de personagens simples do sertão
do Nordeste. Ao narrá-las, ele se delicia com um
sorriso largo. Quem o escuta, não consegue
conter as gargalhadas. Essa coletânea de casos
divertidos, no entanto, tem uma exceção - é
quando Marcelo relembra o episódio que mudou a
história de sua vida.
Foi
há 10 anos. Numa mesa de bar em Canguaretama,
cidade de 25 000 habitan-tes no interior do Rio
Grande do Norte, Marcelo, na época com 23 anos,
e seu pai, Jair, lamentavam a encruzilhada a que
chegara o negócio da família: um posto de
combustíveis, de bandeira Esso, à margem da
BR-101, há algum tempo por ele administrado.
Como no dia seguinte os preços dos combustíveis
iriam subir, Marcelo pediu 200 000 litros de
gasolina para a Esso. Mas a distribuidora
recusou-se a atendê-lo, o que impôs um rude
golpe em seu capital de giro. Entre goles de
cerveja, pai e filho buscavam aliviar a
indignação quando uma idéia arrancou o garoto
de seu desconsolo. "Meu pai, eu juro que
ainda vou ter a minha distribuidora", disse
Marcelo, esmurrando a madeira rústica.
"Vai, sim, meu filho. Você tem garra para
isso", respondeu o velho Jair.
(Pausa.
Emoção. Durante dois minutos, Marcelo chora.)
Marcelo
materializou sua promessa há três anos. Em
1996, ele fundou em Natal a Satélite
Distribuidora de Petróleo, Sat, primeira
distribuidora de combustíveis nordestina e,
desde então, já fincou sua logomarca em 220
postos do Ceará à Bahia, quase 7% do mercado em
seis estados do Nordeste. A meta é chegar a 500
postos nos próximos 36 meses. Na Paraíba e no
Rio Grande do Norte, o primeiro e o segundo
lugares em número de postos já pertencem à
nova rede. A Sat faturou 200 milhões de reais em
1998 e projeta crescer 25% neste ano.
Qual o segredo? Um bom olho
clínico para identificar oportunidades e muito,
muito marketing de relaciona-mento. "Cresci
por que dei atenção à cli-entela desprezada
pelas grandes distribui-doras", diz Marcelo.
Com a desregulamentação do mercado, a partir de
1990, as distribuidoras tradicionais decidiram
concentrar suas operações nos clientes mais
lucrativos e, principalmente no Nordeste,
despejaram de suas redes milhares de postos com
movimento mensal abaixo de 80 mil litros -
justamente o alvo visado pela Sat. Para essa
legião de deserdados, forçados a comprar
gasolina e álcool a retalhistas nem sempre
escrupulosos, o surgimento de uma distribuidora
que dá atenção a seus problemas, resolve-os
sem burocracia e ainda lhe concede o privilégio
de tratar direto com o dono foi como uma tábua
de salvação.
Três
dias por semana, Marcelo, casado e pai dois
filhos, percorre o sertão a bordo de um avião
Seneca, de seis lugares, a fim de ouvir clientes
e estabelecer novas parcerias. Em povoados
distantes, muitas vezes pode ser visto embalando
crianças em cerimônias de batizados ou
dançando forró em festas de casamento. São
atividades que podem soar estranhas para um
executivo paulistano. Mas, no Nordeste,
demonstrações de intimidade e afeto podem fazer
a diferença entre fechar ou perder um bom
negócio. Além disso, o contato estreito com
donos de postos mantém Marcelo informado sobre o
que ocorre na ponta final do processo de vendas,
a tempo de corrigir problemas no nascedouro e
promover inovações.
Na
Sat todos seguem uma regra: cada cliente é
único e merece ser atendido de forma única, por
mais bizarra que seja a solução encontrada.
Veja o caso de Quincola, proprietário de um
posto em Caiçara, no litoral do Rio Grande do
Nor-te. Convencido de que adesão à rede lhe
traria benefícios, Quincola concordou em mudar o
desenho de seu estabelecimento, mas não abriu
mão de um detalhe: queria preservar o empório e
a funerária que mantinha junto às bombas de
combustíveis, sua melhor fonte de renda. Que fez
a Sat? Construiu ao lado do posto uma exótica
loja de conveniência onde Quincola continua a
vender miudezas e caixões de defunto. Outro
caso: em Candeias, na Bahia, um dono de posto,
metido em dificuldades por causa de uma fábrica
de roupas íntimas de sua mulher, propôs à
distribuidora pagar uma dívida de 7 000 reais
com calcinhas de lingerie. Para surpresa geral,
Marcelo topou e, na semana se-guinte, repassou o
produto do escambo a um atacadista.
Não
há descompasso entre o padrão de qualidade da
Sat e o das grandes distribuidoras. É oque
afirma o presidente do Sindicato do Comércio
Varejista de Combustíveis do Rio Grande do
Norte, Ronaldo Azeve-do. A diferença é que a
distribuidora potiguar entende e resolve mais
rapidamente as dificuldades dos pequenos postos.
Por exemplo: a Sat aceita cheques de terceiros e
dá prazo de 15 dias para pagamentos, o dobro do
da concorrência. Muitas vezes, tais gentilezas
são retribuídas pelos donos de postos com o
envio de bodes, queijos e outros agrados para
Marcelo - um jeito sertanejo de mostrar
gratidão.
Para chegar aonde chegou,
Marcelo percorreu uma estrada nem sempre reta e
plana. A expansão dos negócios começou em
1990, quando ele se transformou em transportador
revendedor retalhista (TRR) e, beneficiado por
uma liminar da Justiça que lhe isentava do
pagamento de ICMS, passou a entregar gasolina e
diesel em usinas de açúcar e fazendas a preços
inferiores aos do mercado. Na época tinha um
único caminhão-tanque. Quando resolveu criar a
Sat, seis anos mais tarde, já comercializava 6
milhões de litros por mês com uma frota de 46
caminhões. A musculatura financeira foi obtida
também com uma rede de 15 postos em Natal,
cidade onde um cartel de revendedores garante
margens de lucros de 30% à custa de preços ao
consumidor até 40% mais caros que os de outras
capitais. Mesmo assim, foi necessária raça para
abrir a Sat.
Para
pagar à vista o primeiro embarque de gasolina e
álcool, Marcelo precisava de 600 000 reais. Não
havia gerente de banco que apostasse em seu
projeto. O empréstimo, obtido depois no Banco do
Brasil, só seria liberado horas antes do
fe-chamento do contrato com a Petrobrás, cuja
distribuidora BR, empresa para a qual a
transportadora de Marcelo presta servi-ços até
hoje, concordou em alugar áreas de armazenagem
para a Sat. Foi uma fase de muitas
desconfianças. "Como todas as pequenas
distribuidoras, no começo a Sat beneficiou-se de
liminares que concediam isenções fiscais e
vendia a retalhistas que repassavam seu produto a
postos de outras redes", afirma Paulo
Edilson Matheus Dutra, gerente de vendas da
Ipiranga no Norte e Nordeste. "Mas isso
mudou. Ela profissionalizou-se, concorre dentro
das regras do mercado e é exemplo para mui-tas
companhias". Na Shell há quem jure que a
velha prática citada por Dutra continua. Motivo:
o volume comercializado pela Sat - 40 milhões de
litros por mês - é incompatível com o tamanho
da rede. Como a maioria dos pequenos postos
movimentam em torno de 80 mil litros sobrariam,
no mínimo, 15 milhões de litros sem destino
identificado. "Não é verdade", diz
Jucelino Oliveira Souza, superintendente da Sat.
"Ocorre que também vendemos para postos
bandeira branca, sem filiação a redes, e para
grandes consumidores, como indústrias e
prefeituras".
Em
passado recente, a distribuição de
combustíveis era feita por apenas seis grandes
distribuidoras. Hoje existem no país 170
distribuidoras regionais - 25 no Nordeste - que
respondem por 15% de um mercado cuja
rentabilidade média de 2,5% só compensa se
houver escala. Há lugar para toda essa gente?
Marcelo acha que não. Muitas dessas empresas
não investem na formação de cadeia nem
otimizam custos. Sua competitividade decorre
unicamente dos preços baixos, graças à
isenção temporária de ICMS obtida por meio de
liminares. "Quando o mercado se rea-justar,
elas irão à lona", diz Marcelo.
Para
não ser apenas um fenômeno sazonal, a Sat
aposta em agilidade e profissionalismo. Seus
executivos vieram das áreas de marketing e
atendimento da Esso, Petrobrás e Shell e de
corporações como a Brahma e a Xerox.
Investimento pesado em informatização permite
hoje o controle de custos em tempo real em todas
as bases da distribuidora. O treinamento de
funcionários com foco no cliente é permanente e
abrange até os motoristas entregadores. Marcelo
lhes atribui tamanha importância que, uma vez
por mês, os reúne em sua granja para, em meio a
uma churrascada, ouvir-lhes as críticas e
sugestões.
Boa
parte do estilo Sat se deve à infor-malidade de
seu presidente, um ex-surfista que detesta
burocracia. "Aponto o rumo e deixo meus
executivos encontrarem o jeito de chegar lá, mas
nunca peço que escrevam documentos", diz
Marcelo. "Gosto de soluções claras, que
possam ser explicadas em cinco minutos de
conversa". Foi assim que, seis meses atrás,
ele decidiu lançar no mercado o primeiro produto
com a marca Sat, o lubrificante Sat Lub. E foi
assim que acabou o dilema entre ceder ao canto de
sereia de compradores inetressados na
distribuidora e associar-se a um grupo forte para
continuar crescendo. À Sat, agora, só interessa
parceria.
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