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Eduardo Farah, doutor em administração pela Fundação Getúlio Vargas, é um dos diretores da Chama Azul Business Care,  consultoria que foca o auto-conhecimento, os valores humanos e as relações interpessoais. Entre seus clientes estão empresas como  Eurofarma, Johnson & Johnson e Natura

 

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ESPECIAL

 

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Dezembro/2006

 

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Outras Reportagens

Zidane e a nossa 
Auto-sabotagem

O que a reação de Zidane na Copa nos ensina 
sobre a
destruição de nossas carreiras?

por  Eduardo Farah




Zidane e a cabeçada
que lhe custou a imagem e a carreira


Desde o final da Copa do Mundo de futebol, milhões de pessoas ao redor do planeta devem estar se perguntando: “Por que, Zidane?”. Mais que uma especulação supérflua, a pergunta nos traz informações interessantes sobre os desafios pessoais e profissionais do ser humano. Por que, afinal, esse indivíduo admirável foi cabecear seu colega italiano, minutos antes de encerrar o torneio como o jogador mais elogiado do mundo, pela sua atuação dentro e fora de campo?

Tentar achar uma resposta em possíveis ofensas que o atleta tenha ouvido é perder tempo com o superficial. Ele sabia das regras do jogo, e tinha maturidade o suficiente para respeitá-las, mesmo que estivesse tremendo de raiva. Quaisquer outros fatores, como tensão, estresse e problemas pessoais, talvez ajudem a compreender o contexto, mas também não explicam o porquê central da questão. A resposta está em outra seara, muito comum em nossas vidas, mas pouco admitida por nossas consciências: a auto-sabotagem.

Há quem trate a auto-sabotagem como papo de psicólogo, superstição ou mero “achismo”. A verdade, entretanto, é que ela é um aspecto real e freqüente na psique humana, uma corrente negativa da mente, que pode nos “possuir” nos momentos mais inoportunos. Quando as coisas estão realmente bem – ou quando podem ficar ótimas – nós de repente ficamos desestimulados, começamos a questionar a situação ou nós mesmos, ou cometemos um erro fatal, como fez o jogador francês. E o motivo? Embora passemos muito tempo sonhando com o “bom”, temos dificuldade em sustentar esse estado, pois ele nos parece tão grande e assustador que a sensação é que seríamos esmagados.

Parece estranho? Então pergunte para um colega de trabalho como ele se sentiu algum tempo depois que recebeu “aquela” promoção. Por quanto tempo ele permaneceu contente? Ou tente se lembrar se, às vésperas de conseguir algo importante, você teve pensamentos negativos ou simplesmente deixou de fazer uma tarefa, como não chegar no horário, ou “esqueceu” algum dado fundamental, entre outras coisas que o impediram de conseguir o que “queria”. Imagine, então, o que aconteceria se, de repente, todos os seus sonhos fossem realizados e já não existissem fatores externos que explicassem seus momentos de mal-estar – ou seja, se você tivesse a “obrigação” de realmente ser feliz o tempo todo, ou a maior parte dele. Não se impressione se descobrir que sentimentos de medo, angústia e até raiva estão associados a essas situações. Sim, nós temos (muito) medo de “chegar lá”.

Imagine agora o ambiente dos negócios. Quantas empresas e profissionais sabotam um projeto genial ainda no berço, ou uma negociação bem no seu final, ou serviços e produtos ao longo de seu desenvolvimento? Justificativas não faltam: o projeto de repente parece difícil ou inviável; uma das partes da negociação começa a desconfiar ou se irritar com a outra; dados, informações e materiais importantes para produtos e serviços não são solicitados, ou não chegam até as mãos de quem precisa deles; e muito mais. Pode ser difícil de admitir, mas boa parte de nossos fracassos profissionais desnecessários (pois há os necessários e produtivos, claro) acontecem porque, em algum nível de nossa psique, estamos implorando que as pessoas nos digam “não”. Afinal, já pensou se desse certo?

Por trás desse desejo de não crescer, residem muitos aspectos psíquicos reprimidos, como falta de auto-confiança, raiva, desejo de vingança, um programação pessoal negativa herdada da infância etc. Trazer esses conteúdos à consciência é passo fundamental para interromper o ciclo da auto-sabotagem. Só o que não conhecemos nos domina. Por isso, não faria mal se nós praticássemos – e disseminássemos – algumas das diversas técnicas de auto-observação que o ocidente e o oriente desenvolveram ao longo de séculos, como a meditação (estática e dinâmica), o relaxamento profundo e a simples consciência dos próprios pensamentos e emoções durante as atividades do dia-a-dia. Essas técnicas nos devolvem a habilidade de responder consciente, livre e apropriadamente às situações, e não a apenas reagir impulsivamente.

Não há dúvida de que Zidane, jogador para ficar na história, teria escolhido outra atitude se estivesse absolutamente ciente do que estava sentindo e de quais as prováveis conseqüências de agredir seu colega italiano. É absurdo pensar que ele teria agido da mesma forma se estivesse conectado com sua humanidade e com a do outro, ou mesmo se tivesse a percepção pragmática de que “fazer feio” na Copa do Mundo significa perder a credibilidade e, portanto, a publicidade, fonte de renda fundamental para seu futuro como atleta aposentado. Se as empresas e profissionais brasileiros também assumissem que precisam ficar mais conscientes de seus valores, crenças e emoções, imagine quantos projetos, contratos, produtos e serviços não seriam salvos do limbo da auto-sabotagem?

Quer falar com o autor? >>> edu@chamaazul.com.br
www.chamaazul.com.br

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