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Desde
o final da Copa do Mundo de futebol, milhões de pessoas ao redor
do planeta devem estar se perguntando: “Por que, Zidane?”.
Mais que uma especulação supérflua, a pergunta nos traz informações
interessantes sobre os desafios pessoais e profissionais do ser
humano. Por que, afinal, esse indivíduo admirável foi cabecear
seu colega italiano, minutos antes de encerrar o torneio como o
jogador mais elogiado do mundo, pela sua atuação dentro e fora
de campo?
Tentar
achar uma resposta em possíveis ofensas que o atleta tenha ouvido
é perder tempo com o superficial. Ele sabia das regras do jogo, e
tinha maturidade o suficiente para respeitá-las, mesmo que
estivesse tremendo de raiva. Quaisquer outros fatores, como tensão,
estresse e problemas pessoais, talvez ajudem a compreender o
contexto, mas também não explicam o porquê central da questão.
A resposta está em outra seara, muito comum em nossas vidas, mas
pouco admitida por nossas consciências: a auto-sabotagem.
Há
quem trate a auto-sabotagem como papo de psicólogo, superstição
ou mero “achismo”. A verdade, entretanto, é que ela é um
aspecto real e freqüente na psique humana, uma corrente negativa
da mente, que pode nos “possuir” nos momentos mais
inoportunos. Quando as coisas estão realmente bem – ou quando
podem ficar ótimas – nós de repente ficamos desestimulados,
começamos a questionar a situação ou nós mesmos, ou cometemos
um erro fatal, como fez o jogador francês. E o motivo? Embora
passemos muito tempo sonhando com o “bom”, temos dificuldade
em sustentar esse estado, pois ele nos parece tão grande e
assustador que a sensação é que seríamos esmagados.
Parece
estranho? Então pergunte para um colega de trabalho como ele se
sentiu algum tempo depois que recebeu “aquela” promoção. Por
quanto tempo ele permaneceu contente? Ou tente se lembrar se, às
vésperas de conseguir algo importante, você teve pensamentos
negativos ou simplesmente deixou de fazer uma tarefa, como não
chegar no horário, ou “esqueceu” algum dado fundamental,
entre outras coisas que o impediram de conseguir o que
“queria”. Imagine, então, o que aconteceria se, de repente,
todos os seus sonhos fossem realizados e já não existissem
fatores externos que explicassem seus momentos de mal-estar – ou
seja, se você tivesse a “obrigação” de realmente ser feliz
o tempo todo, ou a maior parte dele. Não se impressione se
descobrir que sentimentos de medo, angústia e até raiva estão
associados a essas situações. Sim, nós temos (muito) medo de
“chegar lá”.
Imagine
agora o ambiente dos negócios. Quantas empresas e profissionais
sabotam um projeto genial ainda no berço, ou uma negociação bem
no seu final, ou serviços e produtos ao longo de seu
desenvolvimento? Justificativas não faltam: o projeto de repente
parece difícil ou inviável; uma das partes da negociação começa
a desconfiar ou se irritar com a outra; dados, informações e
materiais importantes para produtos e serviços não são
solicitados, ou não chegam até as mãos de quem precisa deles; e
muito mais. Pode ser difícil de admitir, mas boa parte de nossos
fracassos profissionais desnecessários (pois há os necessários
e produtivos, claro) acontecem porque, em algum nível de nossa
psique, estamos implorando que as pessoas nos digam “não”.
Afinal, já pensou se desse certo?
Por
trás desse desejo de não crescer, residem muitos aspectos psíquicos
reprimidos, como falta de auto-confiança, raiva, desejo de vingança,
um programação pessoal negativa herdada da infância etc. Trazer
esses conteúdos à consciência é passo fundamental para
interromper o ciclo da auto-sabotagem. Só o que não conhecemos
nos domina. Por isso, não faria mal se nós praticássemos – e
disseminássemos – algumas das diversas técnicas de
auto-observação que o ocidente e o oriente desenvolveram ao
longo de séculos, como a meditação (estática e dinâmica), o
relaxamento profundo e a simples consciência dos próprios
pensamentos e emoções durante as atividades do dia-a-dia. Essas
técnicas nos devolvem a habilidade de responder consciente, livre
e apropriadamente às situações, e não a apenas reagir
impulsivamente.
Não
há dúvida de que Zidane, jogador para ficar na história, teria
escolhido outra atitude se estivesse absolutamente ciente do que
estava sentindo e de quais as prováveis conseqüências de agredir
seu colega italiano. É absurdo pensar que ele teria agido da
mesma forma se estivesse conectado com sua humanidade e com a do
outro, ou mesmo se tivesse a percepção pragmática de que
“fazer feio” na Copa do Mundo significa perder a credibilidade
e, portanto, a publicidade, fonte de renda fundamental para seu
futuro como atleta aposentado. Se as empresas e profissionais
brasileiros também assumissem que precisam ficar mais conscientes
de seus valores, crenças e emoções, imagine quantos projetos,
contratos, produtos e serviços não seriam salvos do limbo da
auto-sabotagem?
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falar com o autor? >>> edu@chamaazul.com.br
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