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Ano VIII
 Nº 326

Texto publicado 
na revista Super, edição de fevereiro de 2003

 

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Viciados em remédios

A máquina de propaganda da indústria farmacêutica, a irresponsabilidade de muitos médicos e a ignorância dos usuários criaram um novo tipo de vício, tão perigoso quanto o das drogas ilegais: a farmacodependência

Por Jomar Morais


Um dia, sem querer, você abre uma das gavetas do seu filho adolescente e encontra um cigarro de maconha. A sensação é de decepção, medo, angústia, seguida de terrível constatação: "Meu filho é um drogado". Enquanto torce mentalmente para que ele não esteja viciado, você, sem perceber, se vê abrindo a gaveta de remédios para retirar o calmante que usa nos momentos de tensão, antevendo a inevitável e difícil conversa que precisará travar quando ele chegar. É nessa gaveta de medicamentos que você encontra o alívio para o corpo e a alma.São analgésicos para a dor, ansiolíticos para relaxar, antiinflamatórios e até mesmo comprimidos de anfetamina usados para conter o apetite que tantas vezes você não consegue controlar naturalmente.

Em meio ao nervosismo, você não se dá conta de que alguns desses remédios ingeridos diariamente podem causar mais danos e dependência que as substâncias que você conhece como "drogas ilícitas". Esteja certo: se um químico fizesse uma análise fria das substâncias encontradas na sua gaveta e na do seu filho, o garoto não seria o único a precisar de uma conversa séria sobre o perigo de se amparar em muletas psicoativas. "Do ponto de vista científico, não há diferença entre um dependente de cocaína e um viciado em remédios que contêm anfetamina", diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador  do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (Proad), da Universidade Federal de São Paulo. "Droga é droga, não importa se ela foi comprada num morro ou numa farmácia dentro de um shopping."  E o Brasil tem uma farmácia para cada 3 000 habitantes, mais que o dobro do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Há mais pontos de venda de medicamentos do que de pão – são 55 000 farmácias contra 50 000 padarias. Drogas químicas podem ser compradas até por telefone e pela internet, com ou sem receita médica. 

Mas, afinal, precisamos mesmo de tantos remédios?

Segundo a maioria dos especialistas, a resposta é não. Apesar da saúde precária dos pobres, que mal conseguem ter acesso a alimentos básicos, e dos distúrbios orgânicos da classe média e dos ricos, resultado de um estilo de vida descomedido e estressante, o quinto lugar ocupado pelo Brasil em consumo de medicamentos reflete principalmente um problema grave que hoje é alvo de debate nos países desenvolvidos: o uso abusivo de remédios e os interesses bilionários da indústria farmacêutica.

Numa sociedade que perdeu a noção de vida saudável, os medicamentos se tornaram a solução mágica para todas as complicações, inclusive aquelas de natureza essencialmente psicológica, relacionadas às pequenas frustrações do dia-a-dia. Uma inversão de valor cujas consequências  começam a preocupar. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, 30% das 80 000 mortes anuais por intoxicação no Brasil são causados pelo uso indevido de remédios. A situação é ainda mais grave nos Estados Unidos, onde anualmente 1 milhão pessoas são intoxicadas por medicamentos. As chamadas doenças iatrogênicas, aquelas provocadas por tratamentos médicos inadequados, compõem atualmente uma parcela ampla – e ainda não quantificada – dos atendimentos em hospitais e clínicas. Tudo isso é quase um escândalo quando se considera a advertência de um especialista na área, o professor Daniel Singulem, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "A natureza resolve sozinha 90% dos problemas de saúde do ser humano", diz Daniel. "Em geral, pede-se aos médicos apenas que não atrapalhem".

O uso abusivo de remédios no Brasil é uma ameaça à saúde pública, mas seria ingenuidade atribuir exclusivamente aos médicos a responsabilidade por essa situação. Mais da metade da população costuma consumir medicamentos por conta própria e boa parte dos que freqüentam consultórios não são portadores de doenças reais, mas imaginárias, que mesmo assim costumam ser tratadas erroneamente com drogas químicas. Na maioria das vezes, no entanto, médicos e pacientes surgem como vítimas de uma poderosa estratégia de marketing que sustenta, aqui e lá fora, o segundo negócio mais lucrativo do planeta – os laboratórios farmacêuticos –, só superado pelo das companhias de petróleo.

No ano passado, a indústria farmacêutica mundial teria faturado 406 bilhões de dólares, segundo previsão da revista inglesa Focus, e mais uma vez exibiu seu faro para perseguir o lucro. Apenas 1% dessa montanha de dinheiro veio da África, onde a maioria dos 800 milhões de habitantes padece de doenças endêmicas e não tem recursos para comprar medicamentos. Não há interesse dos laboratórios em fabricar os remédios baratos indicados para doenças de países pobres. Em compensação, 66% do resultado das vendas emergiram dos países da América do Norte e da Europa, cuja população de 730 milhões de pessoas ostenta a renda mais alta do mundo e gasta fortunas com medicamentos de última geração. Estima-se que, no período, a indústria farmacêutica brasileira faturou cerca de 7,5 bilhões de dólares, cifra que pode parecer nanica diante dos 170 bilhões de dólares das vendas nos Estados Unidos, mas bastante significativa na estatística mundial do setor e no quadro sócio-econômico nacional.

Há remédios demais nas prateleiras das farmácias do Brasil. Eles compõem uma relação de 32 000 rótulos, com variações de 12 000 substâncias – um exagero, considerando-se a lista de medicamentos essenciais ao bem-estar da Organização Mundial de Saúde (OMS), de apenas 300 itens, ou mesmo as 6 000 drogas disponíveis nas farmácias britânicas. Os brasileiros adoram tomar analgésicos e antiinflamatórios e estão entre os campeões de consumo de ansiolíticos, os conhecidos tranqüilizantes, adquiridos indiscriminadamente para acabar com insônia, inquietação ou o simples mau-humor de um dia aziago. A dependência de sedativos é um hábito que os jovens aprendem rápido com os pais e que pesquisas realizadas na última década relacionam à iniciação de adolescentes no uso de drogas ilegais. Nesse particular, contudo, as mulheres são imbatíveis: são elas que respondem por 75% do consumo de tranqüilizantes no país, talvez pelo fato de, segundo um estudo da Escola Paulista de Medicina na década passada, apresentarem o dobro dos casos de nervosismo e outros distúrbios psicológicos dos homens. No auge da fama, o antidepressivo Prozac chegou a ser usado até para acalmar cachorrinhos de socialites paulistanas e cariocas.

O desenvolvimento da quimioteapia ampliou as possibilidades da medicina salvar vidas e aliviar o sofrimento, mas o seu uso inadequado tem deixado um rastro de problemas tão sérios quanto as doenças que se pretende debelar. Remédios não são substâncias inócuas e, como demonstram as estatísticas, podem matar. Em princípio, todo medicamento é veneno, muitos deles concebidos como arma para eliminar agentes bacterianos. Só a dosagem e o modo de aplicação fazem a diferença entre a sua função letal e a de benefício ao usuário. Qualquer profissional da área da saúde sabe disso e os próprios fabricantes de remédios são obrigados a realçar esse aspecto nas embalagens com a advertência para que eles sejam mantidos fora do alcance das crianças e se evite tomá-los sem acompanhamento médico. Mas o que se questiona agora vai além dessa obviedade. Inclui a rotina de medicação em problemas de saúde corriqueiros, a responsabilidade dos médicos ao diagnosticar doenças e receitar remédios e a ética que deve reger a fabricação, venda e uso de medicamentos. "À medida que o médico tem menos tempo e disponibilidade para conversar e se dedicar aos seus pacientes, mais propenso fica a receitar medicamentos", diz o psiquiatra e psicanalista José Atílio Bombana, da Unifesp. "Ele abre mão de sua grande arma terapêutica, que é o contato com o paciente, e adota como única resposta às demandas a medicação, o que naturalmente estimula a utilização de remédios".

A fármacodependência é impulsionada por diferentes fatores e o primeiro deles é, talvez, a ignorância sobre a ação dos fármacos no organismo. Vejamos o caso das reposições hormonais. Um único miligrama de hormônio - substância que em sua forma natural é produzida por uma glândula - é o suficiente para alterar o funcionamento de sistemas vitais, as características morfológicas e o humor de uma pessoa. Bastam, por exemplo, 50 trilionésimos de grama de estrógeno por mililitro de sangue para garantir às mulheres as formas arredondas e os traços delicados que são a marca do sexo feminino. Como a produção natural de estrógeno decai na menopausa, tornou-se hábito suplementá-lo em mulheres nessa fase da vida com a adição de hormônio sintético, mas desde a década de 70 efeitos indesejáveis vêm sendo constatados, entre os quais o câncer de útero. Em julho passado, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos anunciou que mulheres submetidas a tratamento com o repositor hormonal Premelle estavam mais sujeitas a infarto, derrame e câncer de mama. Sabe-se também agora que o reforço de GH, hormônio produzido pela glândula hipófise, com o objetivo de tornar os músculos mais rijos, reduzir a gordura abdominal e aumentar a libido pode provocar falência cardíaca, diabetes e aumento no volume das mamas. E a reposição do hormônio masculino testosterona, feita por homens com mais de 40 anos com o objetivo de aumentar a massa muscular e melhorar a performance sexual pode resultar em infertilidade, aumento da ansiedade e da chance de câncer na próstata e no fígado. Em resumo: adicionar hormônios sintéticos ao organismo é sempre um risco alto para quem o faz.

As ameaças se repetem para quem ingere regularmente outras drogas químicas, com ou sem prescrição médica. "Todo remédio tem efeitos colaterais", afirma Arnaldo Lichtenstein, clínico-geral do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O pior é que a intervenção para aliviar tais efeitos, com o uso de outros medicamentos, não raro fecha um circuito de complicações dos quais o paciente não consegue se libertar facilmente. Só para citarmos três exemplos: os antialérgicos causam sonolência e dificuldade de concentração; os antibióticos prejudicam rins e fígado e até podem causar surdez; a cortisona provoca pressão alta e úlcera. Até os popularíssimos suplementos vitamínicos, destinados a suprir a deficiência das 13 vitaminas – substâncias essenciais ao bom funcionamento do organismo – encontradas nos alimentos, podem ter consequências indesejáveis. O excesso de vitamina C pode levar à formação de pedras nos rins e o das vitimaninas A, D, E e K pode causar lesões no fígado. Muita vitamina A provoca também fadiga, insônia e agitação.

Se é assim, então por que tanta gente desconhece esse lado escuro dos medicamentos ou não leva a sério o que, muitas vezes, está escrito nas próprias bulas dos remédios? É aí que entra a participação do médico e o papel decisivo da máquina de propaganda da indústria farmacêutica. O modelo biomédico da medicina moderna encara a doença como uma entidade resultante de mudanças estruturais em nível celular, causadas por agentes específicos que devem ser combatidos com o uso de substâncias reguladoras – os remédios. Esse conceito, aliado aos procedimentos que visam maximizar a produtividade dos médicos e o lucro das empresas de saúde, tem levado a extravagâncias como o hábito de prescrever remédios para qualquer desconforto. Ocorre mesmo o absurdo de se receitar psicotrópicos ou drogas para hipertensão ao fim de uma consulta de apenas 10 minutos, tempo no qual é impossível o médico levantar o histórico do paciente. Só muito lentamente o conceito sistêmico (que encara a doença como um desequilíbrio gerado por fatores mentais, orgânicos e ambientais e prioriza a sua prevenção através do cultivo de hábitos saudáveis) vem sendo considerado pelos chamados médicos alopatas, formados no modelo biomédico e habituais receitistas de drogas químicas.

Quase todo o resto tem a ver com os procedimentos da indústria farmacêutica, aparentemente preocupada, em primeiro lugar, com a saúde de seus negócios. "O interesse do big business é manter as doenças sob controle medicamentoso", diz o médico paulistano Willem Kanzler. "Fazer prevenção cessaria a sua fonte de lucro". Os sinais dessa intenção, segundo os críticos, começam com a propaganda massiva (só permitida no Brasil para medicamentos de uso não controlado) que promete efeitos que os remédios não produzem e culminam em atitudes que ferem a ética médica e científica. Você sabia que o antialérgico Claritin chegou a anunciar mais que a Coca-Cola no início desta década? Foi assim que as vendas do medicamento cresceram 21% em apenas um ano, segundo a consultoria americana Scott-Levin. Só na divulgação de produtos entre médicos, a indústria farmacêutica dos Estados Unidos despende anualmente cerca de 14 bilhões de dólares; há um vendedor para cada 11 médicos americanos.

O representante que perambula pelos consultórios opera com uma munição que inclui amostras grátis, brindes diversos - como canetas, relógios e objetos portáteis que carregam a marca do remédio que se pretende seja lembrado na hora da receita – e até prêmios valiosos, como jantares em restaurantes de luxo e viagens internacionais. Esse tipo de cerco aos médicos tornou-se tão incômodo que algumas clínicas, como a Everett Clinic, de Washington, decidiram não mais receber propagandistas dos laboratórios, a fim de preservar a liberdade de prescrição de sua equipe. "Os médicos estão cada vez mais ocupados e sem tempo para ler sobre novas drogas", diz o pesquisador Stephen Soumerai, da Universidade Harvard. "Com isso torna-se quase incontrolável a influência da propaganda feita pelos representantes da indústria farmacêutica".

No Brasil, a situação não é muito diferente. O cerco propagandístico é maior junto às farmácias, com a distribuição de prêmios aos donos e balconistas que atingirem metas de vendas através da conhecida "empurroterapia", a sugestão feita ao cliente que aparece na farmácia sem receita mas disposto a se livrar a qualquer preço de algum complicação de saúde ou a algum hipocondríaco ávido por novidades em medicamentos. Trata-se de um estratagema quase inevitável num país que consome 400 milhões de caixas de remédio por ano, apesar de só um terço desse volume ser prescrito por profissionais da área médica. Mas boa parte do arsenal de marketing dos laboratórios é mesmo destinado ao convencimento dos médicos brasileiros com a ajuda de mimos semelhantes aos distribuídos aos americanos, o popular jabá.

A banalização dessa prática levou o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) a bater forte na indústria farmacêutica e a exigir um comportamento ético dos profissionais ante o cortejo de vendedores. Há três anos, o então presidente do Cremesp, Pedro Paulo Monteleone, acusou os laboratórios de intervirem de forma abusiva no setor médico, chegando a definir até pautas de congressos científicos. O patrocínio de eventos e o pagamento de passagens para médicos teria criado uma situação de dependência que, em alguns casos, praticamente transforma congressos em encontros propagandísticos dos laboratórios, segundo Pedro Paulo. Na época, José Eduardo Bandeira de Melo, representante da então Abifarma, hoje Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma), chegou a dizer que os médicos e entidades do setor é que exigiam favores da indústria, alguns até ameaçando não mais receitarem seus produtos caso não fossem agraciados com passagens ou pagamento da inscrição nos encontros. Atualmente, a Febrafarma prefere reagir de forma mais suave a esse tipo de acusação. Segundo o biólogo Ciro Mortella, presidente da entidade, os membros de órgãos classistas que acusam a indústria farmacêutica não são médicos, mas políticos em busca de promoção pessoal. "É ridículo imaginar que, após sete anos de estudo, um médico se comporte como um mentecapto e se deixe manipular como uma criança", afirma Ciro. Para ele, os representantes que visitam consultórios levam informação científica aos profissionais e não podem ser vistos como simples propagandistas.

O ponto é que até a informação produzida por universidades e centros de pesquisa tem sido questionada por pesquisadores e entidades médicas em vários países, inclusive a Associação Americana de Medicina. No ano 2000, a indústria farmacêutica financiou 70% dos testes de drogas clínicas realizados por instituições de pesquisa independentes dos Estados Unidos, o que custou aos cofres dos laboratórios 60 bilhões de dólares. Em princípio, isso poderia ser visto apenas como uma boa notícia, mas há quem afirme que o preço pago pelos centros de pesquisa por esse tipo de parceria pode ter sido alto demais. "Os patrocinadores decidem quem vai trabalhar no estudo e excluem quem tem pontos de vista conflitantes com os seus interesses", denuncia Steven Cummings, diretor do programa de pesquisa clínica da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Eles também costumam impor cláusulas de confidencialidade que impedem a divulgação de resultados e o intercâmbio de dados entre cientistas, duas restrições quase fatais para a produção de conhecimento científico. "A ciência depende de um fluxo aberto e livre de informação", diz Steven Rosenberg, do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos. "No entanto, quanto mais a pesquisa é sustentada por companhias privadas, mais a ética dos negócios atropela a ética da ciência."

O conflito de interesse entre cientistas e a indústria farmacêutica marcaram alguns estudos importantes nos últimos quatro anos. Um dos mais rumorosos aconteceu no Canadá, onde a hematologista Nancy Olivieri, da Universidade de Toronto, conduziu pesquisa sobre uma droga desenvolvida pelo laboratório Apotex para tratamento da talassemia, um tipo de anemia que ocorre principalmente entre populações da área do mar Mediterrâneo. Ela constatou que o remédio expunha os pacientes a danos no fígado e no coração, mas foi impedida de compartilhar os dados com outros colegas e advertir o público os riscos porque a Apotex evocou a cláusula de confidencialidade do contrato. Como a comunidade dos pesquisadores formou ao lado da hematalogista, a Universidade de Toronto acabou alterando depois sua política de parceria com os laboratórios, mas a Apotex manteve o sigilo das informações sobre os efeitos colaterais de seu produto. Em Winston-Salem, na Carolina do Norte (EUA), uma equipe de cinco pesquisadores da Universidade Wake Forest, chefiada por Curt Furberg, passou cinco anos pesquisando e produzindo relatórios comparativos entre um novo bloqueador de cálcio do laboratório Sandoz, atual Novartis, e um diurético, mas o patrocinador recusou a conclusão. A equipe constatara que o novo remédio, destinado a regular a pressão sanguínea e reduzir a calcificação de artérias, era menos eficaz que o diurético e foi convidada a refazer seu relatório sucessivamente. Após retomarem o estudo 10 vezes e chegarem à mesma conclusão, os cientistas desistiram da pesquisa. "Não conseguimos nada, mas é preciso ter princípios", afirma Furberg. Outro caso famoso envolveu o laboratório Knoll Pharmaceutical e a pesquisadora Betty Dong, da Universidade da Califórnia. Betty publicara um levantamento parcial que sugeria que o remédio Synthroid, contra distúrbios da glândula tireoide, era mais eficaz que os seus concorrentes. Foi então contratada pelo Knoll, por 250 mil dólares, para realizar um estudo mais profundo que, no entanto, revelou que o Synthroid não tinha nada de especial. Resultado: Betty foi impedida de divulgar os seus dados, apesar de outros pesquisadores terem chegado à mesma conclusão.

O que pensa a indústria farmacêutica da reação dos cientistas? "Quando realiza uma pesquisa, a indústria investe alto e não é justo que a divulgação dos dados beneficie os concorrentes", diz Ciro Mortella. "Os laboratórios são empresas que precisam apresentar resultados a seus acionistas. Não somos monges, mas somos éticos". Na verdade, nas últimas duas décadas os acionistas da indústria farmacêutica não têm motivos para queixas, em parte graças à pesquisa permanente de novos medicamentos, algo que consome 21% do faturamento do setor. Cada novo remédio custa entre 300 e 500 milhões de dólares em estudos, mas os lucros vêm rápido e superam em muito o investimento. O Viagra está aí para provar. Uma das minas de ouro da Pfizer, o remédio rendeu 1,3 bilhão de dólares apenas em 2001. No mesmo período, os novos ansiolíticos e drogas para doenças cardiovasculares faturaram 90 bilhões de dólares.

Os laboratórios não perdem uma só oportunidade de ganhar dinheiro e muitas delas são apresentadas pelos próprios efeitos adversos dos medicamentos em uso. Isso mesmo. A complicação provocada por um remédio pode ser a chave para uma nova droga, destinada a outra doença. No final, a marca será direcionada para o efeito farmacológico mais lucrativo. Quando foi lançado, há cerca de dez anos, o Proscar, do laboratório Merck, era apenas um supressor hormonal indicado para doenças da próstata. Com o tempo, percebeu-se que a droga fazia o cabelo crescer, o que levou o laboratório a relançá-lo como remédio para calvície. Fenômeno similar aconteceu com o Wellbutrin, antidepressivo produzido nos anos 80 pela Glaxo, à base de cloridrato de bupropiona. Como muitos usuários da droga perdiam a vontade de fumar, a Glaxo registrou de novo o produto, sob a marca Zyban, agora indicado para quem tenta se livrar do tabagismo.

No ano passado, a indústria farmacêutica colocou no mercado global 69 super-remédios, drogas biotecnológicas de última geração, em geral caras -- 17 vezes mais do que há 10 anos, quando apenas 4 super-remédios foram produzidos. A febre de lançamentos amplia o número de títulos nas prateleiras das farmácias a cada ano em escala geométrica, apesar de estudiosos advertirem que, em se tratando de medicina, nem sempre o novo e mais caro é o melhor. É o que diz, por exemplo, especialistas do Centro Cochrane, organização que procura mapear e avaliar o conhecimento médico em 15 países. Muitos médicos têm consciência disso e tentam esclarecer os pacientes, na maioria das vezes em vão. O bombardeio da propaganda da indústria e a crença moderna no poder da quimioterapia levam a clientela a exigir dos médicos cada vez mais a prescrição de novidades para enfrentar suas doenças reais ou imaginárias. O que precisa ficar claro é que a ausência de remédios na vida de uma pessoa é uma garantia e quase sempre um sinal maior de saúde do que a presença maciça deles. Uma conclusão que, com certeza, você não vai encontrar na bula de nenhum medicamento.

 

PARA SABER MAIS:

Na Livraria:

Hipocondria - Impasses da Alma, Desafios do Corpo, Rubens Marcelo Volich, Casa do Psicólogo, São Paulo, 2002

Medicamentos e suas interações, Seizi Oga, Atheneu, São Paulo, 2001

A doença como caminho, Thorwald Dethlefsen e Rudiger Dahlke, Cultrix, São Paulo, 1997

Na Internet:

www.pne.com.au/~cafmr/online/medical/drug1a.html

www.febrafarma.org.br

 

 

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Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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