Ano VIII
Nº 326
Texto
publicado
na revista Super, edição de fevereiro de 2003
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mora o perigo
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Continuação
da reportagem "Viciados em remédios"
Tá
na cabeça
As
dores do hipocondríaco são reais, mas a origem de seus
problemas
está na mente tumultuada e na carência afetiva
Por
Jomar Morais
Hipocondria
– mania de doença? Atire a primeira pedra quem nunca sentiu
essa ou aquela dorzinha e logo se imaginou acometido de uma
complicação muito mais séria. Não existe homem ou mulher
que, pelo menos algumas vezes na vida, não se viu tomado por
temores infundados acerca da própria saúde. Mas há gente
que exagera e é aí que está o problema. Mancha na pele? Só
pode ser vitiligo. Dor de cabeça? É sinal de um aneurisma.
Azia? Meu Deus, e se for um câncer no estômago?
Hipocondríaco
é assim. Está sempre contraindo uma doença terrível. Em
geral, visita a farmácia como quem vai a uma loja. Adora
novidades da indústria farmacêutica. Sabe de cor todas as
bulas e está sempre fazendo perguntas ao balconista. Não
dispensa o roteiro pelos consultórios e se irrita – ou se
magoa – quando algum médico lhe diz que não tem nada. Ele
acha que estou fingindo, pensa nesse momento. E, de fato, não
está. O hipocondríaco sente a dor de que se queixa e sofre.
Mas o seu mal está na mente e no complicado mecanismo que
rege as emoções e as relações do ser humano com o mundo
exterior. Antes que você pense que isso é uma exceção
remota, é bom lembrar que 5% dos casos atendidos em clínicas
e hospitais se enquadram nessa classificação, sem falar que
mais de 80% dos diagnósticos se resumem à sigla DNV (distúrbio
neurovegetativo), a síndrome hipocondríaca que atinge as
pessoas "normais" na agitação da vida moderna.
"A
hipocondria é um dos recursos do homem para lidar com as
dores do drama de sua existência", diz o psicólogo
Rubens Volich em seu livro Hipocondria: impasses da alma,
desafios do corpo. "É provável que fatores
culturais influenciem no aparecimento da hipocondria",
acrescenta o psiquiatra José Atílio Bombana, da Unifesp.
"Uma cultura que valoriza excessivamente o corpo, como se
observa atualmente, tende a propiciar esse quadro." No
fundo, o hipocondríaco é uma pessoa carente que busca na
assistência médica alguém que lhe dê atenção. Ela
insiste e, muitas vezes, acaba conseguindo que o médico
solicite exames e prescreva remédios. Sente-se aliviada por
alguns dias e, depois, encontra outro motivo para voltar ao
consultório ou ao hospital. A pior notícia para o hipocondríaco
é ouvir o doutor dizer que o seu problema é psíquico.
Há
casos em que a hipocondria é deflagrada por uma situação
traumática, como a perda do emprego ou morte na família.
Metade dos hipocondríacos sofre de depressão. Angústia e
ansiedade são dois componentes marcantes na psicologia de
quem vive se imaginando doente. O risco maior, no entanto, está
na automedicação contumaz e na fixação da mente em
sentimentos e pensamentos mórbidos - o que, ao longo do
tempo, pode afetar o equilíbrio orgânico e possibilitar o
surgimento de doenças reais. Estudos de psiconeuroimunologia
demonstram que o sistema imunológico, que protege o corpo
contra ameaças externas e a instabilidade interna, pode ser
afetado fortemente pelas emoções, o estresse e a depressão,
abrindo caminho para complicações diversas, inclusive o
câncer.
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