Ano VIII
Nº 327
Texto
publicado
na revista Super / Vida Simples, edição de março de 2003
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A
terapia transpessoal usa estados alterados de
consciência e regressões a "vidas passadas"
para curar traumas e neuroses. Acompanhe o trabalho do
especialista inglês Roger Woolger (foto) e conheça as
idéias em que se baseia esse novo tipo de tratamento
psicológico
Por Jomar Morais |
 |
Sigmund
Freud, talvez, sentiria arrepios - ou sacaria logo uma
explicação baseada em algum desvio da libido. Um psiquiatra
fisiologista, daqueles que adoram prescrever Prozac para
qualquer paciente, certamente reagiria com um riso zombeteiro.
Como jornalista, estou curioso e um tanto perplexo ante a cena
insólita, mas devo admitir: se em meu lugar estivesse Carl
Jung, um dos pioneiros da psicanálise que decidiu ir além da
fronteira estabelecida por Freud, muito provavelmente ele
estaria à vontade para testar aqui suas teorias inusitadas,
como a do inconsciente coletivo.
Eis
a cena: no centro do salão, deitada sobre a cerâmica fria, a
jovem Maria (nome fictício, por razões óbvias) tem os olhos
marejados e carrega na face uma expressão de angústia
enquanto fala de assuntos estranhos à pequena platéia.
-
Quero o meu filho – diz, soluçando.
-
Aqui está ele – responde, em inglês, auxiliado por um
tradutor, um senhor de voz grave, ora fraternal e meiga, ora
firme e imperativa, que coloca suavemente sobre o colo da
jovem um pacote de toalhas enroladas.
Mais
lágrimas. Maria abraça os panos como se fossem um bebê. Sua
expressão agora é de ternura e calma.
Ainda
há pouco, seu relato fora dramático. Entre os presentes,
houve até quem chorasse com ela. Estimulada por perguntas do
gringo calvo e sexagenário, mas de aparência jovial, Maria
falou de um passado não localizado, permeado de emoção.
Havia sido uma garota pobre que se apaixonara por um homem
casado, de linhagem nobre, e por causa disso acabou perseguida
pela rival e, depois, abandonada pelo amante que, para não
deixar vestígios da união, sequestrou-lhe o filho
recém-nascido. Um trauma imenso que o senhor de voz grave
esforça-se para fazê-la superar mediante conselhos que
lembrariam uma sessão corriqueira de psicoterapia, não fosse
por um detalhe: Maria não estava falando de Maria, mas de uma
existência pregressa na qual a mesma mente, agora tumultuada
por lembranças remotas, sustentou outra personagem no palco
da vida.
Vidas
passadas? Reencarnação? Afinal, estamos falando de
Espiritismo, de parapsicologia, de alguma religião do Oriente?
Não. Isto é psicologia transpessoal. O salão onde os fatos
se passam pertence a um spa encravado no meio da mata
atlântica, a 50 quilômetros de Recife, e é aqui que um
grupo de 20 pessoas, a maioria psicólogos de formação
tradicional, aprende com o inglês Roger Woolger os
fundamentos e as técnicas da escola transpessoal, um híbrido
das idéias de Jung e dos pesquisadores americanos e europeus
que na década de 60 analisaram a psique humana a partir de
estados alterados de consciência. Transe, insights, visões e
lembranças de vidas anteriores – manifestações que um
psiquiatra ou um psicanalista ortodoxos não hesitariam em
rotular de patológicas - são encarados pelo professor e seus
alunos com absoluta naturalidade e reconhecidos como
expressões da natureza mais profunda do ser, o território da
espiritualidade. Através deles, acreditam, o homem pode
chegar à resolução de seus conflitos internos e à cura de
distúrbios psicossomáticos. "Freud desbravou áreas
muito importantes, como a da sexualidade infantil, mas foi
Jung quem percebeu que todas as nossas neuroses são de
natureza espiritual", diz Woolger.
Formado
em psicologia pela Universidade Oxford, na Inglaterra, Woolger
começou a carreira como psicanalista junguiano. Mais tarde,
estudou o budismo, obteve o doutorado em religiões comparadas
pela Universidade de Londres e, desde a década passada,
dedica-se à formação de terapeutas transpessoais em vários
países através de seu Woolger Training International.
Escreveu, entre outros, o livro As vidas alma, obra na
qual resume suas idéias e a técnica de "terapia
regressiva integral", uma espécie de psicanálise do
espírito. Sua tese é simples: há dramas inacabados cujos
resíduos a alma carrega de um corpo para o outro, provocando
receios, doenças e agressividade. A explicação para esse
fenômeno, segundo Woolger, está nas camadas cada vez mais
profundas do inconsciente descobertas pelos pesquisadores
modernos. É nessas faixas que se encontra o que Jung chamava
de inconsciente coletivo, conjunto de marcas ou impressões
que funcionam como uma espécie de DNA psíquico da humanidade,
expressado nas mitologias de todos os povos, nos temores e nas
aspirações coletivas. E é lá também que pedaços de
antigas histórias individuais continuariam a ecoar no
presente das pessoas.
A
forma de superar esses traumas, conforme Woolger, é
revivê-los, enfrentá-los e entendê-los através da
regressão, perdendo-se assim o medo inconsciente de
vivenciá-los outra vez no cotidiano. Quando isso ocorre,
desaparecem as fobias, as dores inexplicáveis e outros
sintomas gerados por velhas cicatrizes da alma. No caso de
Maria, o episódio do amante sequestrador estaria por trás de
seu complicado relacionamento atual com os homens,
caracterizado por profunda desconfiança e uma boa dose de
agressividade que a impedem de manter uma relação duradoura
e serena com os namorados. Se ela conseguiu livrar-se dos
sintomas neuróticos após a regressão, ainda não se sabe (horas
depois da sessão, a jovem, que é também psicóloga e aluna
de Woolger, continuava a sentir enjôos e a vomitar,
sinalizando o forte impacto emocional da experiência), mas o
terapeuta afirma que seu portfólio está repleto de casos de
pacientes que se curaram de distúrbios físicos e psíquicos
desse modo.
A
psicologia transpessoal, como o próprio nome sugere, aborda o
ser humano numa perspectiva que transcende o ego (o "eu",
caracterizado por forte senso de identidade) e a consciência
de vigília, a chamada consciência normal. A consciência é
vista como um campo ou espectro, semelhante ao espectro
eletromagnético, onde cada nível ou "freqüência"
manifestaria um modo de percepção. Cabe ao terapeuta levar
em conta as diferentes percepções do paciente, mesmo aquelas
derivadas de estados tidos como anormais ou doentios, e
ajudá-lo a atingir níveis superiores de consciência, nos
quais o autoconhecimento e o sentido de unicidade liberam o
indivíduo dos conflitos egóicos, proporcionando-lhe uma vida
serena e prazerosa.
Não
é tarefa fácil, a julgar pela herança legada por nossos
ancestrais. "Guerras, escravidão e abusos diversos
cometidos durante séculos deixaram feridas no inconsciente
coletivo que hoje contribuem para as depressões coletivas e a
atmosfera psíquica conturbada nas sociedades industriais",
afirma Woolger. "Como se dizia em Roma, há medo em todos
os lugares porque os bárbaros estão às portas". Ao
mesmo tempo, a fixação em aspectos inferiores da
consciência impede que o homem realize a autocrítica e dê
um salto qualitativo. No nível do ego, que caracteriza a
nossa "normalidade", a pessoa tende a identificar-se
não exatamente consigo mesma e com o seu corpo, dizem os
psicólogos transpessoais, mas com uma representação mental
que ela aceita como sendo o seu "eu", diferente e
independente de tudo e de todos. O apego a essa auto-imagem
determina que as relações interpessoais só devem ser
mantidas se houver vantagem específica para o ego,
estabelecendo assim uma barreira entre o indivíduo e os
outros, fato que está na raiz dos processos de angústia e
ansiedade. "Nas sociedades industriais, as pessoas estão
desconectadas de suas necessidades profundas, inseguras e
dependentes de coisas superficiais", lembra Woolger.
É
possível, no entanto, evoluir desse ponto para o chamado
nível biossocial, marcado pela preocupação com os aspectos
do ambiente natural e social, e daí para o nível existencial,
em que emerge um senso de identidade superior, responsável
pelos ideais humanistas e o desenvolvimento das
potencialidades ligadas à emoção e à razão. No nível
transpessoal, enfim, dá-se a expansão da consciência para
além das fronteiras do ego, correspondendo à identificação
com o meio ambiente, onde tudo se mostra interligado de forma
sutil e não linear.
A
questão é como alcançar tais níveis superiores, um ponto
que divide os terapeutas transpessoais. Há quem acredite que
não convém escarafunchar os porões da mente em busca de
traumas desta ou de vidas passadas, mas apenas elevar o
padrão de percepção através de estados alterados de
consciência, como o alcançado durante a meditação, ou do
cultivo das emoções e pensamentos positivos. É o caso da
antropóloga e doutora em psicologia Susan Andrews, que
mantém em Porangaba, no estado de São Paulo, o projeto
Visão do Futuro, espécie de spa destinado a treinamentos
antiestresse e ao desenvolvimento dos níveis superiores da
consciência. "O que importa não é voltar ao passado,
mas levar a mente a projetar imagens positivas", diz
Susan. "O universo é holográfico e todas as imagens
acabam se materializando algum dia". Além disso, a
rememoração de antigos traumas desencadearia emoções
negativas e desequilíbrios químicos que põem em risco a
saúde mental e física do paciente. "Um único impulso
de raiva é capaz de deprimir o nosso sistema imunológico
durante seis horas", diz Susan.
Woolger,
que utiliza em seus trabalhos técnicas de psicodrama e as
idéias de William Reich acerca das energias bloqueadas no
corpo, concorda que as regressões podem oferecer risco a
pessoas muito instáveis, que não suportariam a carga
emocional (o que também ocorre nas terapias convencionais),
mas rebate o argumento da colega americana. "Há gente na
transpessoal querendo ir logo para o espírito e para a luz,
sem tratar as feridas, mas isso pode ser apenas um modo de
fugir dos problemas", afirma. Mesmo as tradições
espirituais esotéricas, como o budismo e o sufismo, segundo o
terapeuta, não optam pela negação da dor. "Os budistas
começam olhando para o sofrimento de todos os seres e os
sufis, que formam o segmento iniciático muçulmano, costumam
perguntar: você já chorou esta semana?"
Apesar
de incluir aspectos relacionados à reencarnação, um
ensinamento basilar em religiões como o Espiritismo, de Allan
Kardec, a terapia regressiva de Woolger deve ser vista, antes
de tudo, como um meio de promover a catarse, processo
utilizado em quase todos os tipos de psicoterapia. "Não
faço regressão para provar que a reencarnação existe",
diz o psicólogo. "Isso seria pesquisa científica e meu
objetivo é chegar pela catarse à liberação dos traumas das
pessoas". Para Woolger, pouco importa se os fatos
lembrados pelo paciente ocorreram na sua infância ou há
séculos, se são mesmo fatos de sua história individual ou
fantasias. O importante é que eles venham à tona e a energia
seja desbloqueada. "Quando o assunto é reencarnação,
prefiro concordar com os budistas", conclui. "Não
há um ego que reencarna. Só as neuroses reencarnam".
A
formação da escola transpessoal levou décadas, mas tanto
Woolger quanto Susan reconhecem: ainda não há uma unidade
substancial que pelo menos reduza as polêmicas que cercam a
sua prática. Tudo começou quando Jung, na década de 1920,
convenceu-se de que a abordagem freudiana dos fenômenos
psíquicos - estritamente histórica e determinística -
deixava muitas lacunas, que ele se propôs a preencher com o
conceito de sincronicidade, uma explicação para a ligação
não-causal entre eventos, como nas coincidências separadas
no tempo e no espaço. Na época, a física moderna começava
a considerar novos paradigmas sobre a natureza do mundo
físico e Jung, que também se interessava por esse tipo de
estudo, chegou a trocar idéias com Albert Einstein sobre
sincronicidade. Só 40 anos depois, no entanto, as pesquisas
de estados alterados de consciência – inicialmente
provocados com drogas psicodélicas, como o LSD -, e o estudo
das experiências místicas de pico permitiram a estudiosos
como Abraham Maslow, Stanislav Grof e Ken Wilber completarem o
quadro teórico básico da nova corrente em psicologia.
Em
resumo, o que define a orientação transpessoal é um modelo
que reconhece a importância das dimensões espirituais da
psique humana e o potencial para a evolução da consciência.
Segundo Maslow, assim como existe no indivíduo uma
pulsão inconsciente para a experiência sexual, também
parece haver uma pulsão para a espiritualidade, através do
desenvolvimento dos níveis de percepção. Quando esse
impulso é relegado e o afloramento dos níveis transcendentes
da personalidade impedido, o resultado é o desequilíbrio
psíquico e físico, com a surgimento de vários tipos de
doenças.
PARA
SABER MAIS
Na
Livraria:
A
psicoterapia transpessoal,
Vera Saldanha, Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 1999
As
vidas da alma,
Roger Woolger, Cultrix, São Paulo, 1997
Na
Internet:
www.woolger.com.br
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