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Feliz
Dia dos Pais e dos Filhos
Celebremos,
neste ano, o pai verdadeiro. Olhemos com honestidade para
todos os sentimentos que essa maravilhosa e terrível
figura nos evoca
por
Eduardo Farah |
Sou
pai de duas crianças, e criança de um pai. Diante de alguns anos
de vida como pai e como filho, sei que hoje posso falar sobre a
paternidade com um pouco de “conhecimento de causa”.
E
minha experiência está muito distante das figuras sempre
sorridentes dos comerciais. Não sou, em absoluto, um daqueles
homens que sai em êxtase de um shopping, pronto para presentear
“meu grande professor”, ou que mal pode esperar para ver que
especial surpresa meus filhos perfeitos prepararam para mim. Não
sou daqueles que apenas choram de amor e gratidão pelos seres que
me trouxeram ao mundo. Meu choro, por ser humano, também pode vir
carregado de raiva, tristeza, perdão, confusão e entendimento.
E, até que eu alcance o estado iluminado (e creio, possível) de
não mais odiar, mas apenas amar, esse será o teor de minhas lágrimas:
um choro dinâmico, mas verdadeiro.
Pois
seja qual for a verdade, somente ela pode trazer o amor. Não
tenho nada contra as imagens de famílias felizes, ou contra dar e
ganhar presentes belos e caros. Pelo contrário: minha crença é
de que todos podemos e devemos alcançar um estado de puro amor,
preservado de qualquer negatividade. Um estado em que a abundância
emocional e material é inesgotável. Mas isso precisa ser verdade,
e não um papel que desempenhamos para sentirmos que somos
“legais” ou “bonzinhos”. E o fato é que, por trás de
todo o discurso amoroso vendido nas TVs e bancas de jornal, pais e
filhos sentem, além de amor, muita mágoa e rancor. Freud e Jung,
entre outros, já mostraram isso na Psicologia.
E
veja bem: isso nem mesmo é ruim - só é prejudicial enquanto é
tratado como algo condenável, escondido embaixo do tapete. Quando
trazida à tona, essa ambigüidade que nós, pais e filhos,
sentimos é libertadora e profundamente amorosa. Não existe nada
mais maravilhoso do que ver as coisas como realmente são, sem
condenação ou julgamento. Tudo bem. Amamos e odiamos. Queremos
estar perto e muito longe. Somos pais e filhos. E isso, por si só,
já gera crescimento.
O
Dia dos Pais deve ser um dia de comemoração, mas de verdade.
Isso significa que não devemos ir para nenhum dos extremos, ou
seja, nem o de fingirmos um amor que não existe, devido a nossa
auto-condenação e repressão, nem o de colocarmos nossa raiva
para fora, condenando e agredindo, como se o outro fosse responsável
pela falta de amor que sentimos. A verdade pode ser, em alguns casos, dolorida, mas jamais será
destrutiva. A verdade, a tal “verdade verdadeira”, segue um
caminho contrário: ela une e constrói.
Por
isso, gostaria de fazer um convite para celebramos, neste ano, o
pai verdadeiro. Para olharmos com honestidade para todos os
sentimentos que essa maravilhosa e terrível figura nos evoca.
Para assumirmos que o pai não é uma figura limitada, que apenas
orienta e sorri. Ele é bravo, e também suave. Pode ser amoroso,
e também cruel.
E
não há nada melhor que amar alguém por inteiro, pois do contrário,
somente as crianças privilegiadas (e talvez inexistentes),
aquelas que aparentam ter pais perfeitos, poderiam amar de verdade
seus progenitores. Entretanto, quando praticamos um nível mais
profundo de amor, compreendemos que os defeitos possuem tanto
significado quanto as virtudes. Que mesmo aqueles pais que em
alguns momentos machucaram trazem maravilhosas lições. E que
podemos chorar de raiva por isso. E, em seguida, chorar de compaixão,
perdão e, até, gratidão.
Sinto
que o Dia dos Pais deveria ser uma data para valorizarmos a essência
humana dentro de cada pai e de cada filho. Uma data para
valorizarmos a verdade, com toda a sua natureza (mesmo que seja
temporária) dual, bipolar. Por isso, seguindo o meu convite, faço
uma sugestão: não vamos mais pensar que o presente especial é o
melhor presente. Se existe alguma atitude, ou mesmo objeto, que
nosso coração queira verdadeiramente dar ao pai, vamos oferecer
esse presente. Se não houver, tudo bem. Vamos ser verdadeiros e
dar o que realmente temos de amor. Vamos dar o nosso melhor.
E
nós, pais, aqueles que talvez ganhem os presentes, vamos pensar
na responsabilidade da nossa função. Em como temos, muitas
vezes, sido provedores de alimento e sustento, como os animais,
mas não de valores maiores, como os humanos. Vamos admitir
plenamente nosso papel, grandioso e assustador, de servir de guia
para uma alma, nessa jornada terrestre. Um pai de verdade é
ativo, e também passivo. Ele é pai, e também mãe. Ele é tudo,
e também é nada. Ele é inteiro, e só assim, verdadeiro, pode
tocar o coração do seu filho.
É
isso, ao menos, que tenho pedido ao Pai Maior. Ser um pai mais
verdadeiro, para além do medo, da culpa e dos papéis sociais.
Para além, enfim, do próprio egoísmo. Com esse espírito de
verdade e amor, desejo a todos um Feliz Dia dos Pais (e dos
Filhos).
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