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Outras reportagens
de JM


OUTRO OLHAR
Alguns textos de Jomar Morais na coluna Plural,
publicada às terças-feiras pelo Novo Jornal 

 

Relações perigosas

Publicado na edição de 15/05/12

Certa vez estraguei uma relação que se encaminhava para a consolidação de uma amizade ao repetir a esmo a frase célebre do jornalista Joe Pulitzer, cujo sobrenome nomeia o prêmio mais importante do jornalismo americano: “O jornalista não tem amigos nem inimigos”. Meu interlocutor, assustado, afastou-se de mim. Certamente, hoje, amadurecido e menos voluntarioso, eu teria o cuidado de explicar o real significado da sentença e, assim, evitaria a perda no meu círculo afetivo. 

A máxima de Pulitzer foi minha estrela guia enquanto fui repórter e editor. 

Frequentei gabinetes de políticos influentes na República, entrevistei presidentes e busquei a notícia junto a empresários de peso e até banqueiros. Constituí uma malha de contatos nos escalões intermediários que me ajudou a dar conta da missão de levar ao leitor o “furo” e a informação qualificada. Nos últimos anos na ativa conversei com pesquisadores do mundo acadêmico e empreendedores do segmento turístico. E em todas essas etapas, meus relacionamentos com as fontes de informação, ainda que rotineiros, não passaram do nível profissional. 

Foi bom para mim (pois exerci minha profissão com lisura), para as fontes (que puderam falar com a segurança de estar diante de um profissional ético) e, sobretudo, para os leitores (que receberam informação menos tisnadas pelo jogo de interesses). Logo, sou grato a Pulitzer e aos mestres do jornalismo com quem convivi, que me reforçaram a convicção de que não se deve escrever notícias para favorecer e tampouco prejudicar ou perseguir alguém.

Rememoro esses ensinamentos a propósito da recente revelação do envolvimento de jornalistas e publicações com personagens do submundo do crime vip. 

O episódio não é novidade e foi bem mais presente no jornalismo daqui e de outros países – inclusive os Estados Unidos - no tempo em que fazer jornal era ofício de bêbados, politiqueiros e visionários inescrupulosos. No caso em foco, porém, parece-me que estamos diante de uma tragicomédia em que profissionais e publicações, na ânsia do “furo” e no desvio do fervor ideológico, acabaram enredados na armadilha de mafiosos hábeis em contracenar com a mídia no palco dos interesses imediatos, algo mais frequente do que se imagina no cotidiano da imprensa.

É um preço alto e amargo que nós, jornalistas, podemos pagar quando esquecemos a lição básica. A relação entre os jornalistas e as fontes deve ser cordial e honesta, com a troca legítima baseada no interesse de cada parte - a fonte querendo dar a informação que a beneficia e o jornalista querendo obter a notícia relevante para o leitor – mas não deve ir além disso. Uma relação entre jornalista e fonte, não uma relação entre amigos.

 

A aparência do preconceito

Publicado na edição de 08/05/12

Na lanchonete frequentada pela classe média, percebo olhares entediados em direção à minha mesa. Logo imagino que o motivo é a minha companhia: um pedreiro, de corpo calejado e vestimenta simples, que eu fora buscar na vila distante para orçar um serviço de reforma na sede do Sapiens. Depois me dou conta de que eu, de bermudão surrado e tênis popular, poderia ser a causa da reação blasé. Não importa. Em ocasiões como essa eu até me divirto. Quando sinto que minha aparência incomoda alguém que “se acha”, tenho vontade de dizer, sorrindo: “Siga em frente. A gente se encontra no cemitério”. Contenho-me por achar que um preconceituoso também merece curtir sua mesquinhez e seu medo, desde que isso não ameace o direito do outro.

A cena da lanchonete é dissimulada. Nada que se compare, por exemplo, ao ato patético de motoristas elevando rápido os vidros de seus carrões ante a proximidade de meninos esfarrapados que, nos cruzamentos, imploram por moedas em troca da lavagem rápida do parabrisa. Na cultura do medo, passada de pai para filho e sustentada pela mídia inconsequente, a aparência humilde e sofrida de uma pessoa passou a ser encarada como uma sinalização de despreparo, desonestidade e violência. É como se o pobre e, sobretudo o desvalido, estivesse sempre pronto a assaltar o patrimônio, e até a suposta nobreza, de quem se fechou para a riqueza do afeto e da solidariedade. 

Bastaria uma expressão de gentileza para desfazer esse equívoco, gerando a resposta de um sorriso ou de um “vai com Deus”, com ou sem moeda. Mas... quem se lembra? 

A intolerância com a aparência seria cômica, se não fosse trágica em seus efeitos. Ela ergue muros e sustenta guetos, separando pessoas que se enriqueceriam mutuamente nas trocas da convivência desarmada. Também torna nossa vida limitada e insegura, ao fomentar o rancor e realimentar o medo. E, além disso, nos deixa cegos ante da realidade.

Não há um só dia em que os jornais, em suas páginas nobres de política e economia, não nos relatem casos de corrupção no serviço público, fraudes milionárias em empresas e bancos e todo um leque de trapaças praticadas por uma gente bonita e inteligente, que usa ternos e vestidos assinados por estilistas da moda e posa de arautos da cidadania, do empreendedorismo e até da dignidade.

Figurões (e figurinhas) dos poderes executivo, legislativo e judiciário enterrados até o pescoço na lama dos assaltos ao erário que resultam na miséria e morte de milhares, milhões de pessoas... Espertalhões que manipulam números e lesam multidões, na banca e no comércio, em negócios que pareciam lícitos...

E nós aqui, cegos pelo preconceito, com medo do moleque faminto do próximo semáforo.


Agir e não agir

Publicado na edição de 01/05/12


A sabedoria chinesa do Tao Te King afirma: “O caminho é uma constante não-ação que nada deixa por realizar”. Trata-se do conceito de wu-wei, tão difícil de ser compreendido pelas mentes ocidentais, acostumadas à agitação. 

É senso comum entre nós que uma pessoa objetiva e ativa é aquela que não para. Está sempre ocupada, tensa, buscando algo ou se esforçando para alcançar algum resultado mensurável. Nem mesmo os religiosos, cujos apelos da subjetividade da devoção e da objetividade da caridade sugerem a reunião dos opostos, conseguem entender e, sobretudo, praticar, a máxima taoísta. O wu-wei nos parece indiferença e indolência. 

Não é. A não-ação não significa fugir do mundo ou deixar de agir, mas agir de outro modo, sem uma intenção egóica que, na maioria das vezes, causa mais danos que benefícios. É agir com naturalidade e sem especulação, alinhando-se ao ritmo evolutivo do universo, livre do medo e da ansiedade de uma mente desembestada. Quem pratica o wu-wei está cheio de energia e tem o poder de realizar brincando, de bem com a vida, sem virar um mero fazedor, estressado e enredado na miragem do tempo.

O wu-wei se aplica a qualquer evento, mas sua importância se destaca ainda mais quando consideramos o tema urgente da paz e da não-violência.

Certa vez o filósofo Jiddu Krishnamurti surpreendeu a platéia ao responder a um espectador que lhe dissera: “Abomino a guerra, quero a paz. O que devo fazer para ajudar o mundo a conquista-la?” O filósofo o encarou e disse: “Pare de ser a causa da guerra”. O rapaz, perplexo, ainda argumentou que não era a favor da guerra, mas Krishnamurti desceu ao fundo da questão: “É a sua violência, oculta e negada, que conduz às guerras, seja no seu lar, entre grupos sociais ou entre nações.”

Há clareza e precisão nessa resposta, mas a nossa noção de objetividade e ação não nos deixa perceber que a paz de um indivíduo e – por conseqüência, a paz do mundo – acontece quando ele se aquieta, num típico exemplo do poder da não-ação. As negações e polarizações estão na base de sustentação dos conflitos e na validação dos sistemas de poder, campo onde os extremos se tocam na malha dos interesses.

O não agir não quer dizer renúncia ao ativismo, pois a não-ação é, em si, uma forma de ativismo poderoso e ameaçador aos sistemas viciados, continuamente validados pelos discursos da polarização. Nem sequer significa deixar de agir e sim deixar-nos aptos a escolher a ação apropriada à circunstância, que pode até ser um ato de indignação consciente.

Isso nunca será fácil para uma mente governada pelo medo e pela ansiedade. Afinal, o wu-wei é praticado sobre um lastro de virtudes, entre elas coragem, humildade e responsabilidade.

 

Celebridades e heróis

Publicado na edição de 24/04/12


Começo pelo dicionário. Celebridade é a pessoa que “tem fama, notoriedade”. Herói é um “homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”. A partir desse ponto, já se percebe o óbvio: os dois atributos podem estar juntos numa mesma pessoa, mas nem toda celebridade é herói e nem todo herói é celebridade. Com mais acuidade, aliás, percebemos que o desejo de tornar-se célebre é, talvez, a última motivação de um herói. Milhões deles – em especial os heróis da magnanimidade - atuam na obscuridade, sem que isso abale a importância de sua contribuição.

A busca por notoriedade ou, digamos, por reconhecimento pessoal sempre existiu. Trata-se de uma característica de nosso arcabouço psicológico (assim como o impulso heróico de, em anonimato, arriscar a própria vida para salvar a de outro) que acabou favorecida pela paisagem contemporânea. A tecnologia de comunicação, ao estabelecer a aldeia global, tornou factível a profecia de Andy Warhol, nos anos 70, de que no futuro toda pessoa teria 15 minutos de fama e, desde então, os egos não param de inflar num festival de trivialidades e extravagâncias no palco da mídia. 

É preocupante, no entanto, que a fartura de fama ameace o significado do heroísmo e do espírito de serviço nas mentes enredadas nos apelos individualistas.

No filme Mad Max – além da cúpula do trovão, cuja história fala de uma cidade regida por regras brutais após destruição da civilização, a trilha sonora repetia, na voz de Tina Turner, que “não precisamos de um novo herói”. Ali, a ficção mostrava um vencedor (Mel Gibson) que, por se negar a matar o inimigo depois de dominá-lo, termina banido por uma gente que despreza a compaixão. Na vida real, certamente, o mesmo refrão serviria agora à multidão guiada por celebridades vazias, cuja notoriedade, não raro, decorre justamente de seus feitos antiéticos e da exposição de suas fatuidades.

Apesar dos heróis anônimos que, hoje como ontem, melhoram a raça e sustentam o mundo, nunca precisamos tanto de ícones de coragem, honestidade e bondade como nesses tempos em que o valor de um homem tende a ser medido por sua fortuna e por sua esperteza. Nesse aspecto, nossa pobreza é tamanha há algumas décadas. Até o poeta Cazuza, desencantado, já lamentava que seus ídolos tivessem morrido de overdose, um prenúncio desses tempos em que “heróis” fabricados desconhecem o que sejam sentido, perseverança e sacrifício.

Grandes heróis muitas vezes encontram a morte prematura e violenta, pois sua presença nem sempre é bem-vinda por confrontarem interesses inconfessáveis. Jesus foi crucificado. Gandhi e Luther King, abatidos a tiros. Nesses casos, contudo, não podemos dizer que morreram em vão.

 

A espinhela e a bioquímica 

Publicado na edição de 17/04/12

Vovó Apolônia era evangélica fervorosa, mas por amor ao seu neto predileto não hesitava em cometer heresias.

Lembro-me do dia em que, escondendo-se do pastor, ela levou-me a uma benzedeira, preocupada com meu desânimo e insônia aos seis anos de idade. A xamã pesou-me, mediu-me e, finalmente, diagnosticou: era espinhela caída (lumbago), um mal que no seu manual de doenças se curava com uma boa reza e toques de galhos de arruda. No dia seguinte acordei esperto e voltei às traquinagens.

Sorte minha que nasci nos anos 50, não tive plano de saúde na infância e contei com a proteção de uma avó transgressora. Se eu fosse criança hoje e me entristecesse por testemunhar uma crise na relação entre meus pais, talvez até a minha querida velhinha me conduziria ao consultório de um psiquiatra de onde, provavelmente, eu sairia rotulado de deprimido ou estressado, carente de algum antidepressivo ou ansiolítico entre tantos que fazem a dependência química de bilhões de pessoas e a fortuna dos laboratórios.

A psiquiatria tornou-se a vitrine daquilo que o psiquiatra paulistano Wilhelm Kenzler aponta como os três prontos críticos da medicina atual: a despersonalização, a tecnificação e a mercantilização. E, por sua vez, os desvios desse segmento espelham um paradigma no qual o homem é encarado como mera máquina, passível de ajustes pela bioquímica, sem levar em conta sua dimensão espiritual e as implicações éticas que dela decorrem, inclusive a autoaceitação e a liberdade.

Não se trata, aqui, de crucificar os médicos – eles próprios vítimas de um sistema de crenças e de interesses – e, tampouco, amaldiçoar toda receita de fármacos, que a experiência e o bom senso dizem ser razoáveis em situações de emergência e nos casos em que desequilíbrios bioquímicos dificultam o acesso ao ponto onde emerge a maioria das doenças: a alma humana. O mal está no abuso, que mascara a realidade e instala o vício.

No jargão médico, 90% dos diagnósticos não passam de NDN (nada digno de nota) ou DNV (distúrbio neurovegetativo), mas a regra é que o paciente saia do consultório com a indicação de um remédio químico que, no fundo, tomou o lugar do ritual da benzedeira, acompanhado, porém, da ameaça das chamadas doenças iatrogênicas, causadas por medicamentos. Por que, então, descartar o uso da medicina cultural e seu poder terapêutico através da palavra e do reequilíbrio holístico?

Penso nisso a propósito do livro “A Tragicomédia da Medicalização: a Psiquiatria e a Morte do Sujeito”, do filósofo e doutor em psicologia José Ramos Coelho, que será lançado nesta quarta-feira (18 de abril), às 19h, na Saraiva do Midway Mall. Ramos retoma a trilha de pensadores respeitáveis e nos convence: a comédia da medicalização da vida traz embutida a tragédia da morte do ser e da liberdade.

 

A régua da felicidade

 

Publicado na edição de 10/04/12

Todo homem que ser feliz, certo? Mas o que é felicidade?

Até hoje, não conheci pessoa que não concordasse com a frase inicial deste artigo. Já a pergunta que a sucede... Nem que eu tivesse ao meu dispor todas as páginas do NJ não conseguiria contemplar as inúmeras abordagens filosóficas, religiosas, psicológicas e agora também mercadológicas do tema. 

A gente não se entende sobre o que é felicidade, mas, apesar disso, muitos cedem à tentação de quantificá-la, na esperança de, assim, determinar e administrar o que, penso, é incontrolável e imensurável por sua natureza. Há diversas metodologias e técnicas desenvolvidas por pesquisadores nesse sentido, geralmente apoiadas na comparação de fatores físicos e psicológicos. 

O mais famoso desses instrumentos é o chamado Questionário de Oxford, aplicado a indivíduos e composto de 30 perguntas que abrangem da intensidade do riso à visão do futuro. Há ainda propostas de medição da felicidade coletiva, inspiradas mais recentemente naquilo que, em 1972, o rei do Butão, Jigme Singya Wangchuck, chamou pela primeira vez de Felicidade Interna Bruta (FIB), uma fórmula alternativa à do PIB, a qual, embora mensure apenas a atividade econômica, é erroneamente adotada como principal indicador de desenvolvimento. Nesse caso, são levados em conta fatores como educação, ambiente, uso do tempo, bem-estar psicológico e vitalidade comunitária.

É tudo bonitinho e organizado, mas para mim, com todo o respeito aos estudiosos, não passa de exercícios inócuos que perpetuam, no nível individual, a ilusão de que a felicidade é condicionada por fatores externos. Obviamente, essa é uma opinião que decorre do conceito de felicidade que endosso, cujos fundamentos estão na filosofia grega e em tradições sapienciais do oriente e do ocidente, aí incluída a tradição cristã.

A felicidade, nessa perspectiva, é um estado de plenitude que nos instala na serenidade e, por vezes, no êxtase. Ou melhor, é uma percepção da plenitude que somos, cujos subprodutos são a satisfação e o equilíbrio psíquico e físico, com ausência de sofrimento e inquietude. Felicidade é quando nos sentimos completos. Mas quem há de sentir-se completo sem transcender o desejo, essa avalanche de carência que nos isola e nos impede de enxergar a totalidade imensurável?

Um velho ditado diz que a felicidade sempre está onde a pomos, mas nunca a pomos onde estamos. O resultado disso é sempre carência, insatisfação, busca desesperada e ímpeto de mensuração. Ao contrário, quando pomos a felicidade onde estamos, o senso de plenitude aflora e, enfim, compreendemos que ela está aqui e agora, nos fluxos e refluxos da vida, sem busca e sem medições.

 

Um homem, um símbolo

Publicado na edição de 03/04/12

A páscoa é, originalmente, uma comemoração judaica. Relembra o êxodo dos hebreus, livres da escravidão no Egito. Significa passagem e libertação. No Cristianismo, que nasceu no seio do judaísmo (Lembre-se: Jesus nasceu, viveu e morreu judeu.), foi associada ao episódio da ressurreição e à promessa de uma nova vida, liberta de vícios e sofrimentos. É uma pena, a meu ver, que por esses dias se dê tanta ênfase aos aspectos dolorosos da crucificação e, consequentemente, ao sentimento de culpa que muita gente vincula ao exercício da fé cristã. Mas isso tem raízes históricas, na eleição da cruz como principal símbolo cristão.

No primeiro século, os seguidores de Jesus eram identificados pela figura de um peixe formado por duas meia luas, o chamado ictus. A cruz só surgiria na iconografia cristã no século seguinte, talvez pelo fato de os cristãos, submetidos a suplícios físicos em Roma, sentirem-se ainda mais identificados com o sofrimento final de seu mestre.

A cruz aparece em várias culturas, com diferentes conotações. Estava presente nos hieróglifos egípcios, simbolizando a vida. Celtas, persas e fenícios a conheciam. No império romano, no entanto, era instrumento de tortura e morte. Naquele tempo, associar alguém à cruz era algo indesejável e vergonhoso, mas o sacrifício de Jesus – condenado injustamente – atribuiu ao símbolo de horror uma acepção honrosa. A cruz então tornou-se ícone do milagre do amor.

O problema começa quando, ao focarmos a cruz, esquecemos o resto. Isto é, a vida de Jesus e as lições de seu pensamento e atitudes. Em Jesus encontramos a expressão da mais genuína humanidade, dos eventos triviais à transcendência de limites até o ápice em que o homem e o Cristo (cósmico) se fundem. Fixar o nosso olhar apenas no evento da cruz, simbólico da solidão e da dor que fazem parte da experiência de ser homem, é perder de vista o leque de possibilidades em que o amor realiza seus prodígios.

A imagem de Jesus crucificado inspira profunda reflexão, mas, penso, não ofusca a do homem que celebra a vida e encara as suas contradições. 

Que tal um profeta que vai a festas e jantares e se preocupa com o estoque de vinho? E um homem que desmascara a hipocrisia dos líderes religiosos e, literalmente, chuta a barraca no templo? E um líder que, naturalmente, convive com os excluídos e lhes concede trabalho e responsabilidade? E um santo que compreende a pecadora? E um mestre que recomenda assistência a prisioneiros e discriminados? 

Imitar esses gestos, muitas vezes, pode nos levar à cruz. Mas não repeti-los, nos limites de nossa condição, pode custar o sentido de uma vida.

 

A grande motivação

Publicado na edição de 27/03/12

Há cinco anos estou aposentado e tenho como única fonte regular de renda o benefício do INSS. Isto é, a metade do teto da Previdência (hoje em torno de 4 mil reais), embora durante décadas eu tenha contribuído na faixa máxima. Quem mandou começar a trabalhar aos 14 anos de idade e ainda se julgar no direito de sair de campo aos 53? Para punir ousadias como essa é que algum gênio da burocracia inventou o tal fator previdenciário. 

Não reclamo e vivo bem, o que para muita gente parece algo milagroso. Amigos já me disseram que eu lavaria a burra se ministrasse cursos para ensinar a outros aposentados, atolados em dívidas ou na obrigação de seguir cumprindo expediente, como manter a dignidade com proventos tão modestos. É natural no Brasil, onde funcionários públicos podem se aposentar mantendo o salário integral e os hábitos perdulários se sobrepõem à poupança e à vida frugal, que casos como o meu chamem a atenção. Mas quem deve mesmo ministrar o curso é o aposentado inglês, que recebe não mais que o equivalente a 1300 reais. O resto ele aprendeu a garantir poupando e exigindo do governo a contrapartida social de seus impostos, especialmente no setor da saúde.

Como eu dizia, estou aposentado há cinco anos e nesse período recusei várias ofertas para voltar ao mercado, o que não significa que gasto todo o tempo pelos caminhos do mundo ou deitado em casa, esperando a morte chegar. Continuo trabalhando duro, diariamente. A diferença é que, hoje, as minhas atividades são voluntárias e rendem só o salário da satisfação, logo transformado por minha alma e por meu corpo em gratidão e alegria de viver e em um estado de saúde que, até aqui, não precisou da ajuda de remédios. O que me motiva é o espírito de serviço exercido em condições de liberdade, autonomia e interação – uma fonte de prazerosos desafios nos quais me redescubro e redescubro o mundo.

Sou alguém especial? Que nada. Esse é o impulso da maioria das pessoas, embora nem todas consigam transformá-lo em ação. Se a sua rotina vai além de funções mecânicas e repetitivas, é muito provável que o dinheiro não seja a grande motivação de sua vida. 

Isso é comprovado até por pesquisas, entre elas uma patrocinada pelo Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos. 

Segundo o estudo, que avaliou o desempenho de pessoas às quais foram oferecidas recompensas financeiras, comparadas a outras apenas contempladas com liberdade e autonomia para agir durante o experimento, as do segundo grupo sempre se saíram melhor quando a tarefa envolvia criação e a possibilidade de beneficiar alguém.

O Dalai Lama está certo: o bem é da natureza intrínseca do homem.

 

Reencantar é preciso

Publicado na edição de 20/03/12

Desde as suas entranhas, a Terra chora, grita, urra... Mas não é fácil convencer seus filhos de que ela está ferida, cansada e exaurida, à espera de atenção e cuidados. Talvez não fosse assim se ainda a chamássemos por seus nomes míticos: Gaia, Pachamama... Enfim, a Mãe Terra, em cujo útero fomos gerados e cujos seios de recursos generosos, mas limitados, sustentam nossa vida e nossa saga. 

É justo aí que se encontra o nó górdio da conscientização ecológica para salvar o planeta de um estado agonizante: no âmbito da cosmovisão. Os desvios do sistema econômico predatório, - baseado no mero produtivismo, na ganância e na indiferença -, e o comportamento irresponsável das pessoas reduzidas à condição de consumidores compulsivos tem a ver com um paradigma de fragmentação que nos desconectou dos outros e de nossa própria essência, sufocando o senso de pertencimento ao universo. Separados, perdemos de vista o propósito universal que emergia de uma cosmologia espiritual e integrativa e corrompemos profundamente a nossa relação com a natureza. 

A essa altura, calculam os especialistas, já ultrapassamos de tal modo a capacidade de provimento da Terra que ela necessita de pelo menos um ano e meio para repor o que lhe extraímos durante o ano. Eis um dado gravíssimo que aponta para o caos em médio prazo, e ainda assim insuficiente para acordar o sistema e as pessoas pelo simples fato de que, a exemplo da dependência química, o vício coletivo do produtivismo e do consumismo precisa ser tratado em sua raíz: o vazio existencial. Afinal, é da ausência de significado e de propósito que se alimenta a chamada ética da maximização, lembrada por Leonardo Boff, combustível de um círculo deletério. 

A palavra de ordem nesse contexto passa a ser a maximização da produção e do consumo, sob o argumento de que é preciso azeitar a economia e gerar empregos, sem levar em conta aspectos fundamentais como a preservação do equilíbrio ambiental e da qualidade de vida. E a partir daí, o moto contínuo que todos conhecemos. É preciso aumentar a produção para atender ao consumo e estimular o consumo para assegurar a produção. 

Mas será que, para levar uma vida saudável, necessitamos mesmo de tantos excessos e da compulsão novidadeira? Claro que não. No fundo, com essas distorções apenas tentamos preencher o vazio de nossas existências, esforço inglório que tropeça na impossibilidade de que qualquer objeto ou situação externa de preencher o espaço infinito destinado ao nosso senso de transcendência. 

Resgatar a dimensão de nossa espiritualidade não é só fundamental para salvarmos a nós próprios do inferno da carência. É indispensável para salvarmos a Terra e a humanidade de um desastre anunciado.

 

O que é o que é?

Publicado na edição de 13/03/12

Os jornais trazem notícias sobre a nova movimentação em Brasília no sentido da descriminalização do aborto. Leio e fico perplexo. Agora não são apenas grupos de ativistas que propõem a legalização pura e simples da prática repulsiva, mas uma comissão de juristas, nomeada pelo Senado, que surpreende pela habilidade em manejar artifícios.

A legislação vigente é razoável e sensata ao permitir o aborto nos casos em que a mãe corre risco de vida ou a gravidez for resultado de estupro. Que mais justificaria a interrupção do fluxo da vida, exceto se levarmos em conta o egoísmo de mães e pais e a resistência da sociedade em assumir o ônus de seu próprio modelo? Mas a comissão, a pretexto de flexibilizar a abordagem legal do tema, acaba abrindo uma brecha para o aborto incondicional. Seu texto sugere a possibilidade de aborto nos casos de emprego não consentido de técnica de reprodução assistida e, por vontade da gestante e até a 12ª semana de gravidez, se um médico ou um psicólogo atestar que a mulher não apresenta condições de arcar com a maternidade. Isto é: duas situações em que a possibilidade de fraudes e a motivação ideológica podem produzir a aparência de licitude para um ato cruel e antiético. Além disso, alivia a punição dos aborteiros e cria a figura do aborto consensual provocado por terceiro, penalizado apenas com detenção de 6 meses a 2 anos, o que não levaria o infrator à cadeia. 

A julgar pelo noticiário, a comissão enredou-se nos sofismas sustentados por grupos que se proclamam vanguardistas e de feministas apressadinhas, para os quais o direito da mulher de dispor do próprio corpo e a exigência de um padrão dignidade apoiado basicamente em conforto e consumo se impõem ao maior de todos os direitos – o direito à vida, alicerce de nosso edifício ético. Talvez a maioria de seus membros compartilhe a percepção dos ativistas de que, tendo sido adotada em países desenvolvidos, a descriminalização do aborto mereça ser tão somente transplantada para aqui, sem maiores considerações de natureza ética e cultural. 

O que dizer diante do veredicto de tão doutos especialistas? Como um cidadão comum e nada erudito, como eu, pode argumentar contra essa armadilha eufemística? Se me faltarem as palavras que revelem a pantomima, ainda assim poderei recorrer à autoevidência da verdade, tão bem expressada no samba “O que é o que é?”, de Gonzaguinha: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças. É a vida. É bonita. E é bonita.”

A discussão sobre o aborto, repito, não é mero embate entre “conservadores” e “progressistas”. Ela é, antes de tudo, a prova de nossa dificuldade de pensar a vida além do nível de nossas pulsões egóicas.

 

Deixem o velho viver

Publicado na edição de 06/03/12

A melhoria das condições de vida presenteou-nos, nos últimos 100 anos, com uma longevidade inimaginável para os nossos antepassados. No início do século 20, a expectativa de vida de homens e mulheres brasileiros estava abaixo dos 40 anos. Hoje é de quase 74 anos para os homens e de 76 anos para as mulheres. Deixamos de ser um país de jovens e já nos aproximamos do estágio de regiões desenvolvidas onde a população idosa se impõe nas ruas e na economia.

É certo que isso coloca o governo diante do desafio de alterar as regras da previdência, estouradas pelo aumento de despesas que os cálculos atuariais não previram. Mas o desafio maior está posto para a própria sociedade: o de reavaliar a visão sobre o idoso, superando preconceitos cristalizados numa época em que a exaltação da juventude e da beleza estimula a discriminação e o cerceamento.

Não me refiro a uma ação superficial, no nível da linguagem. Tem pouca relevância trocar “velhice” por “terceira idade”, se isso não ajuda a manter as pessoas rotuladas integradas à rotina social. Na verdade, essa é uma operação que precisa começar na cabeça dos velhos, dominada por uma ideologia da juventude, que os empurra para uma destrutiva rotina de lamentos e autopiedade, e pelos interesses, às vezes inconfessáveis, de alguns familiares. É o primeiro passo para o idoso libertar-se da condição de semiescravo, condenado a trabalhar além de seus limites ou a anular-se num círculo de superproteção que o retira da vida bem antes da morte.

Na semana passada, surpreendi-me com a minha mãe, saudável nos seus 76 anos, queixando-se de não poder comparecer à hidroginástica por que não havia quem a transportasse. Parece razoável, mas não é. O que levaria idosos saudáveis a se colocarem como dependentes dos mais jovens, a não ser a idéia introjetada de que o seu tempo já passou? Contei-lhe então sobre a japonesinha de 70 anos que há pouco encontrei num trem do Peru. O marido, piloto aposentado, acha que já não tem o que desbravar e prefere não sair de casa. A velhinha, convicta de que a vida continua, aventura-se pelo mundo. Naquele dia, ela escalaria a montanha de Machupicchu.

A palavra chave para se viver bem na velhice é aceitação. Entender os ciclos da existência e adaptar o ritmo pessoal às circunstâncias. É possível manter-se saudável, operante e criativo nessa fase, como comprovam as trajetórias de cientistas, empreendedores e artistas ativos bem depois dos 60, 70, 80 anos. E é possível desfrutar dos prazeres da vida, de um jeito sereno e profundo, se a mente está livre da prisão dos padrões – inclusive os de juventude e beleza.

É possível ser velho e ser feliz.

 

Céu e inferno

Publicado na edição de 28/02/12

No excelente livro O universo autoconsciente, do físico Amit Goswami, encontro uma história exemplar sobre a nossa relação com o desejo e a utopia da felicidade egóica.

Um homem morre, acorda no paraíso e, faminto, pede comida a um atendente. O rapaz esclarece: “Tudo que você tem que fazer é desejá-la”. Como num passe de mágica, pratos saborosos surgem à mesa assim que o recém-chegado os cobiça e, maravilhado, ele se empanturra. Mas logo o noviço se vê enredado em outra carência. Sente-se solitário e quer a companhia de uma mulher. A mágica se repete. Mal pensou e um avião das passarelas pousa ao seu lado, causando-lhe imensa euforia. E assim se sucedem os desejos e suas realizações imediatas, até que, entediado, o homem vai de novo ao atendente:

- Isto aqui não é o que eu esperava. Pensei que a gente ficava entediado e insatisfeito apenas no inferno – queixa-se com amargura.

Então, o atendente olha nos seus olhos e, irônico, pergunta:
- E onde é que você pensa que está? 

                                                                          *      *     *     *     *     *

O nó está dado. E é preciso a sabedoria do santo ou a sagacidade do filósofo para percebê-lo. O mundo surge e alimenta-se do desejo, mas é inútil esperar do desejo (ainda que espiritualizado e nobre) que ele nos leve à bem-aventurança, a felicidade perfeita lastreada na serenidade. Na escravização à pulsão egóica, podemos alcançar as alturas, mas nossa experiência íntima será sempre infernal.

Já no século 19, o filósofo Schopenhauer concluiu que o mundo é representação e vontade. Ou seja, é objeto condicionado ao sujeito, intuição e projeção. É o véu de maia dos orientais expresso nas formas, ilusório por sua natureza e impermanência e, no entanto, base sobre a qual operamos os desejos, eterna fonte de conflitos. Schopenhauer nos revela, com jeito de condenação: nossa vida é um pêndulo que oscila entre o sofrimento do desejo e o tédio que sucede à sua realização.

Um beco sem saída? Prefiro achar, acima de meus desejos, que há intenção e sabedoria nos dilemas e paradoxos. O desenvolvimento da consciência necessita do teatro das formas e da servidão do desejo, mas só a consciência ampliada é sábia o suficiente para não se identificar com o recurso instrumental (forma e desejo), alcançando liberdade e serenidade.

Na rotina vegetativa, centrada no ego, somos como o torcedor fanático que no estádio delira e é capaz de cometer loucuras se o seu time for derrotado. No nível da consciência ampliada, somos o torcedor normal que se diverte, alegra-se ou sofre com o seu time, sem perder a noção de que se trata de um jogo, uma simples brincadeira. 

Desejos e frustrações são parte do jogo da vida e se, por causa deles, o sofrimento nos ameaça, manda o bom senso que recordemos: é um jogo, apenas um jogo...

 

A vez do Brasil

Publicado na edição de 14/02/12

Quem já viveu pelo menos 50 anos conheceu três cenários de geopolítica e sabe que, num mundo marcado pela abundância de informação, o poder jamais voltará a ser concentrado sem que se pague um alto preço de caos, sangue e retrocesso.

Nasci pouco depois de o planeta ser divido pelos dois países que assumiram o espólio da grande guerra, ruminando desejos de hegemonia que continuariam a promover a tirania e o medo, sobretudo em nações subjugadas ao interesse econômico e ideológico. Era o tempo em que, sob o maniqueísmo da “guerra fria” entre os Estados Unidos e a falecida União Soviética, pensávamos o Brasil pela bitola estreita do nacionalismo ou do entreguismo, descrentes das possibilidades criativas de nossa essência mestiça.

Mais tarde, atuando em jornalões e revistas conservadores, vivi a delícia e a dor de um mundo de potência única (os Estados Unidos) ditando tendências e deslumbrando as elites, aí incluídos os gestores da mídia. Copiar, pura e simplesmente, as experiências de fora era a regra. Quem se atreveria a contestar os gurus da nova economia, os bambas da reengenharia, os arautos do mercado financeiro? Quase ninguém. Pelo menos até que os castelos começassem a ruir, as fraudes abalassem fundamentos e espertalhões fossem varridos por crises geradas na ganância e no egoísmo.

Não é que essas etapas nada tenham acrescentado à evolução da humanidade. Pelo contrário. Em nenhuma outra época tivemos tantos saltos de desenvolvimento econômico, tecnológico e mesmo social. Mas em outro quadro político certamente teríamos pagado um preço menor em insalubridade física e emocional.

Agora vemos emergir um mundo multipolar, sem potências hegemônicas, o que é promissor para as relações internacionais, a criatividade e as condições sociais. E nesse contexto cresce o papel e a responsabilidade do Brasil e dos brasileiros. Por nossa expressão econômica, nosso bom desempenho diplomático e pela imagem positiva de nossas peculiaridades étnicas somos, hoje, um dos polos dessa nova geopolítica com grandes possibilidades de gerar mudanças.

Nos países do Mercosul, nossa influência cultural e nossa presença econômica já são avassaladoras. Na Europa e nos Estados Unidos a marca Brasil é vista com respeito e nossa cultura há muito deixou de ser um item exótico. Então, cabe perguntar: que tipo de potência queremos ser? Queremos tão somente acumular tesouros ou compartilhar oportunidades com nossos parceiros? Queremos interagir com outras culturas, reconhecendo o valor da diversidade, ou simplesmente impor a nossa? Queremos ser amados, como somos agora, ou temidos e odiados? 

É saudável nos sentirmos relevantes no mundo... desde que isso não nos tire a paz, a liberdade de ir e vir e a alegria de conviver.

 

Mensagem dos Andes

Publicado na edição de 07/02/12

Finalmente, Machupicchu. Foi bom chegar aqui após rodar quase 10 mil quilômetros entre paisagens brasileiras, paraguaias, bolivianas e peruanas. Este momento não teria o mesmo significado para mim se eu não estivesse sensibilizado pelo contato com a alma do continente.

Observo o tesouro arqueológico do ponto mais alto da cidadela e me pergunto se o mundo não seria hoje bem melhor se a ganância e o preconceito dos conquistadores europeus não tivessem sufocado uma cultura tão rica e - por que não dizer? -  refinada. Os incas foram o ápice de civilizações andinas que se perdem no tempo e Machupicchu, ao que tudo indica, era uma espécie de laboratório onde uma elite pensante desenvolvia técnicas agrícolas e de engenharia, realizava estudos astronômicos e filosóficos e praticava uma espiritualidade que, hoje sabemos, integrava mais o homem à Terra e ao universo do que o materialismo de nossas crenças utilitaristas.

A construção monumental na montanha de 2500 metros impressiona, mas, para mim, ainda mais importante é o fato de nenhuma pedra utilizada na obra ter sido movida com trabalho escravo. Os incas praticavam uma meritocracia invejável em nossos dias. Sua elite era formada por homens de saber e sensibilidade que retribuíam à sociedade com trabalho, inclusive braçal - o jeito inca de pagar imposto. Havia entre eles a convicção de que a vida é um eterno renascer, como sugere o simbolismo das múmias, sempre em posição fetal e voltadas para o nascente.

Caminhando pelas vielas e escadarias de Machupicchu, a cidadela na forma de um condor (símbolo inca da relação com o divino) vem à minha mente as imagens fortes do que eu vira um dia antes em Cusco, a cidade na forma de um puma (símbolo do poder e da concretude terrena), esmagada pelos espanhóis. Penso nas ruínas de  Saqsaywaman, a colossal construção na forma de um raio, em cujo campo se deu a batalha final de 1540, e na Qorikancha, o portentoso templo inca onde os conquistadores comemoraram a vitória  pilhando ouro e prata (que para os nativos tinham apenas valor estético) e depois erguendo sobre os escombros uma igreja dedicada a Santo Domingo de Gusmão. Ainda há vida ali. Não se matam idéias.

Então, a chuva que cai insistentemente sobre a montanha me parece lágrimas que lavam o passado e fazem a catarse de nossos erros...

É possível resgatar, em parte, o que o impulso predatório menosprezou, vilipendiou e fez diluir-se no esquecimento que virou mistério. A sabedoria ancestral, remanescente na tradição de povos indígenas como os quechuas peruanos, tem muito a nos ensinar e pode, sim, nos ajudar a salvar a Terra.


Viver ou sobreviver?

Publicado na edição de 31/01/12

No café da manhã em Assunção, o som romântico da velha guarânia que fala do lago azul de Ipacaraí faz-me meditar sobre o país em que me encontro, na sequência de meu mochilão tropical.

Você já pensou em passear no Paraguai?  Se conseguir livrar-se dos preconceitos, descobrirá que esse renegado país irmao é muito mais que a zorra de muambas de Ciudad del Este e o corredor de impunidade de Pedro Juan Caballero. Assunção, por exemplo, é um otimo lugar para descansar, curtir a história e até para fazer compras de um jeito mais confiável.  E se você for um sortudo, como eu, poderá, de repente, ser premiado com o conforto de uma suíte de cinco ambientes, na cobertura de um hotel clássico - onde eu descobrira pela internet a pechincha de um AP a 100 reais -, graças ao overbooking provocado por uma invasão de gringos.

Na última vez em que estive aqui, o Paraguai ainda era governado pelo ditador Alfredo Stroessner e seus intelectuais se divertiam ao parafreasar o que dissera, já no século 19, o mexicano Porfírio Díaz em relação à proximidade com os Estados Unidos. "Pobre Paraguai. Tão longe de Deus, tão perto do Brasil", diziam para mim, na epoca repórter da revista “Veja” garimpando para uma reportagem sobre contrabando de armas. 

Desde então, Assunção, uma capital com jeito interiorano, ergueu bairros de classe média repletos de shopping centers, virou metrópole de 2,3 milhões de pessoas, mas não perdeu um certo ar brejeiro. Na sofisticação da Villa Morra, a área chique, ou no romantismo do centro histórico, junto ao rio Paraguai, a vida ainda corre tranquila, em meio a moringas e cuias de tereré, o chimarrão gelado, e as deliciosas chipas, pães feitos com quatro queijos. 

Há também mais edificíos e mais carros, mas a favela ao lado do palácio presidencial inspirado no de Versailles, que pertenceu a  Solano López (aquele das aulas de história), é um ícone do enorme desafio social de um país que há dois séculos chegou a ser modelo mundial nessa área.

O que falta ao Paraguai? "Clientelismo e corrupção impediram a industrialização e nos tiraram a credibilidade", disse-me o cocheiro que, no meio da noite, conduziu-me  pelos sítios históricos em sua carruagem turística por apenas 8 reais. Sua fala e sua vida são simbólicos.   Advogado e filho de jornalista, ele faz bicos na noite para complementar a renda.  Seu discurso politizado é sensato e ético, mas no final ele me mostra o que pode acontecer com indivíduos e países quando o argumento da sobrevivência faz perder o foco na vida, onde cabem princípios que lhe dão sentido e a tornam mais justa. 

"E então? Estás buscando uma menina?", insinua o homem, com o ar de quem pode facilitar as coisas. Sorrio, sem me surpreender. Na baía de Assunção, apenas escuto o que costumo ouvir em Natal, nas minhas caminhadas noturnas na enseada de Ponta Negra...

 

Lição de vida na casa da morte

Publicado na edição de 24/01/12

 

Não costumo visitar cemitérios. Nem mesmo no Dia de Finados. Minha relação com os mortos,  apoiada na crença na manifestação contínua da vida sob  a variedade das formas, sugere-me que o túmulo não é o lugar ideal para nos religarmos aos que partiram. Ainda assim, reconheço o poder do símbolo e em situações especiais acabo visitando tumbas, geralmente em viagem. Aí prefiro estar sozinho para meditar sobre a finitude de nossas vaidades.

Foi assim quando desci às grutas do Vaticano em 1982 - época em que ainda se podia percorrê-las até o nível mais baixo - às 8h da manhã, antes da chegada dos turistas e em silenciosa soledade. E também quando fui ao famoso cemitério do Père Lachaise, em Paris, onde estão sepultadas figuras como Balzac, Oscar Wilde, Proust, Chopin, Allan Kardec e Édith Piaf.

Estive ainda em cemitérios menos cotados e deles sempre retornei com um saldo de reflexões e epifanias que influenciam a minha vida. Mas nada se compara à experiência por que passei na última quinta-feira no cemitério São João Batista, em Uberaba, MG.

Diante do túmulo de Chico Xavier, sob chuva e num cenário desértico, eu lembrava da única vez em que estivera com o médium, em 1973, e de como um simples abraço seu, seguido de um "Deus o abençoe", fizera-me entender a força milagrosa do amor, quando, de súbito, surgiu à minha frente um jovem de aparência estranha, um jeitão de bicho louco chapado que, olhando em minha direção, começou a sacar algo de uma velha mochila. Imaginei tratar-se uma arma e, por impulso, interrompi a minha oração,  protegendo-me junto à parede do túmulo vizinho. A consciência, no entanto, advertiu-me: "Faz com ele o que o Chico fez contigo".

Retornei a tempo de ver o rapaz guardando na mochila um simples maço de cigarros e de perceber naquele olhar excêntrico um traço de resignada tristeza. Iniciei uma breve conversação. "Sou espírita", disse-me o moço. "Estou aqui para rogar ao Chico que me ajude a receber uma mensagem de minha mãe. Ela morreu e eu me sinto só". Abençoei-o com carinho de pai e despedi-me.

Então, enquanto caminhava de volta pela alameda molhada, a ficha caiu e vi-me nu em minha prisão de egoísmo e medo. Como pude negar a um ser humano angustiado a cortesia gratuita de um olhar e de uma palavra gentil, apenas motivado por preconceito e avareza?

A clareza do insight foi seguida de forte emoção. Como uma criança, chorei descontrolado, em princípio sob o peso da culpa, depois pela alegria da dádiva. Pela segunda vez em minha vida, Chico Xavier iluminara-me o espírito, não através de um fenômeno retumbante mas por meio da força suave e demolidora de um pequeno gesto de compaixão.

 

Brasil, mostra as tuas caras

Publicado na edição de 17/01/12

 

É um erro alguém dizer que conhece os Estados Unidos só porque passou as férias em Nova York. Metrópole cosmopolita, a Big Apple não representa, com suas cores e liberalidades, os milhões de americanos que habitam cidades e vilarejos pacatos onde a bandeira nacional tremula nos jardins das residências e normas conservadoras guiam uma rotina modorrenta, muitas vezes inspiradas por seitas fundamentalistas e pela obsessão de gerar fortunas.

O mesmo raciocínio serve para quem visita Paris e imagina ter entrado em contato com a alma francesa, embora tenha ficado a léguas das regiões vinícolas e da França mediterrânea, onde a vida segue outros ritmos e valores.  Aplica-se ainda a qualquer gringo que, do "continente" brasileiro, sabe apenas de São Paulo, Rio ou alguma capital turística, como Natal.

"O Brazil não conhece o Brasil", já dizia, nos anos 70, a canção de Maurício Tapajós e Aldir Blanc na voz incomparável de Elis Regina. Sob a ditadura, essa era uma maneira de afirmar que os gestores da Guerra Fria e as  empresas estrangeiras não conheciam a nossa realidade e, portanto, não deviam apontar-nos caminhos. Hoje, com o país na condição de sexta economia do planeta e a gringalhada aprendendo a respeitar nossas especificidades, imagino que o verso adequado seria mesmo "o Brasil não conhece o Brasil", tal a distância que ainda existe entre o Brasil urbano, das metrópoles e capitais litorâneas, e o interiorzão das vilas rurais  e das cidades emergentes povoadas por caipiras ainda não transmutados completamente pela TV e os shoppings centers.

Penso nisso enquanto estou em Palmas, no Tocantins, na sequência de um mochilão que me levará ao  Paraguai e, se as chuvas deixarem, até Cusco e Machupicchu, no Peru. Mais precisamente, penso nisso diante do memorial do movimento tenentista e da Coluna Prestes, cujos líderes redigiram há 75 anos, a 60 quilômetros daqui, o seu manifesto contra a República Velha e pela modernização do país. E penso nisso saboreando e me assustando com essa capital planejada que abriga, principalmente, forasteiros de pequenos municípios unidos pelo ritmo tranquilo - e até tedioso -, a cortesia desconfiada e uma boa dose de conservadorismo.

Surpreendo-me aqui com as redes armadas nos quiosques de postos de taxi onde motoristas aguardam o cliente tardio, com as ruas desertas já as 7 da noite e com a escassez de serviços. 

Palmas está entre as cinco capitais mais seguras do país e nos jornais quase não há notícias de crimes. Mas que ninguém se engane: o Tocantins, diz a imprensa local, lidera o ranking da homofobia, com o assassinato de 27 gays desde 2002.

Isso também é a cara do Brasil. 

 

Sabedoria chinesa

Publicado na edição de 10/01/12

 

A China é a bola da vez. Já é a segunda economia do planeta, atrás dos Estados Unidos, e espera apenas que os americanos acelerem na descida da ladeira para se tornar a grande potência econômica e, quem sabe, militar do século 21. Faz parte do movimento evolutivo a emergência, reinado e declínio de potências mundiais. Lembra do Império Romano?  E da Inglaterra e seu império onde o sol nunca se punha? Talvez o Brasil, galopante em sua posição de sexta economia, veja chegar a sua hora no ocaso deste século, mas até lá teremos muitos cursos de mandarim e uma enxurrada ainda maior de produtos made in China.

Penso que temos mais a aprender com a China ancestral, de sábios como Lao-Tsé e seu Tao Te King, do que com a atual, inebriada pelo lado glamuroso do capitalismo e pelo desejo reprimido de supremacia. É de seu passado que recolhemos indicações mais seguras para a felicidade e não meras receitas utilitaristas para o progresso material e a fatuidade.

O filósofo Huberto Rohden costumava dizer que o Tao Te King compõe, com o Evangelho cristão e o Bhagavad Gita hindu, a trinca de livros máximos da humanidade. Seus 81 aforismos expressam a mais refinada sabedoria chinesa, embora jamais tenham alcançado, mesmo na China, a popularidade dos preceitos de Confúcio, mais pragmáticos que os de Lao-Tsé, focados na relação com o self (o Eu profundo) e o absoluto. Para compreendê-los é necessário um mínimo de amadurecimento espiritual para enxergar no paradoxo do enunciado a verdade universal. E é o que eu lhe desejo ao presentear-lhe com essa breve amostra:

Síntese: “Só temos consciência do belo quando conhecemos o feio. Só temos consciência do bom quando conhecemos o mau. Por quanto o ser e o existir se engendram mutuamente. O fácil e o difícil se completam. O grande e o pequeno são complementares. O som e o silêncio formam a harmonia. (...) Eis por que o sábio age pelo não agir. E ensina sem falar. Aceita tudo que lhe acontece. Produz tudo e não fica com nada. (...) Termina a sua obra e está sempre no princípio.”

Governo: “A presença de um verdadeiro chefe de estado é sentida pelo povo como ausência. (...) Os chefes sábios são ponderados em suas palavras. Desempenham a sua tarefa, mas o povo tem a impressão de se guiar a si mesmo.”

Vida e poder: “Tenro e flexível é o homem quando nasce. Duro e rígido quando morre. Tenras e flexíveis são as plantas quando começam. Duras e rígidas quando terminam. Rígido e duro o que sucumbe à morte. Tenro e plasmável o que é repleto de vida. (...) Pelo que vale isto: o que parece grande e forte já está a caminho da decadência. Mas o que é pequeno e plasmável, isto cresce.”

 

O fim do mundo

Publicado na edição de 03/01/12

Antes do reveillon, vi na televisão uma cartomante acalmar as pessoas preocupadas com a possibilidade do fim do mundo neste ano que se inicia. Existirá na história tema mais recorrente do que o do fim do mundo? Todas as culturas a ele se referem em enredos que desafiam a imaginação. Não há uma só década – ou seria ano? – sem que ele reapareça em muito papel, ondas hertzianas e agora bits que circulam pela Internet.

Bom, mas a cartomante, moderninha, querendo dizer que o planeta não acabará em 2012, conforme a última safra de profecias, entusiasmou-se e acabou sentenciando: o mundo não vai acabar nunca! Seu otimismo certamente esquentou a festa da virada de muita gente que pauta a vida por previsões, mas é um vaticínio tão furado quanto o de qualquer economista. Não há profecia mais confiável que a do fim do mundo.

O que digo não é mera crença, embora todas as escolas de fé façam alguma referência a esse evento. E nem é só ciência, essa outra forma de crença em hipóteses e teorias, testáveis e mutáveis, de acordo com a marcha evolutiva. É simples observação e bom senso ao alcance de uma criança equipada com um telescópio. 

Se a cada momento sistemas estelares envelhecidos viram poeira cósmica, na imensidão das galáxias, por que seria diferente com esse pontinho perdido na vastidão da Via Láctea, nossa Terrinha maltratada? Com ou sem consciência ecológica, ela um dia acabará, submetida que está à lei de impermanência, aquela que nos permite afirmar, sem medo de pagar mico, que tudo passa. O deslize dos videntes consiste em datar o evento, coisa que não está ao alcance nem mesmo de um Stephen Hawking.

Concorda comigo? Então bem-vindo à perguntinha que sempre deixou perplexos o escritor José Saramago e o resto da humanidade: Para quê? 

Para que todo esse processo evolutivo que, ao longo de bilhões de anos, nos tirou da condição de proteína replicante no gel dos mares para a aventura da viagem à Lua, para a circunavegação de nossos jatos, para o milagre da telemedicina, para as elaborações da ciência e o voo da filosofia, para a frieza dos cálculos e o êxtase da fé, para a sombra do egoísmo e a luminosidade do amor?

Se, a certa altura, essa mandala de formas refinadas voltará a ser tão somente poeira – para quê? 

Para mim, só a visão transcendental (e cibernética) de uma realidade virtual cósmica dá sentido à nossa saga. Somos consciência, a informação pura do código, ao mesmo tempo transcendente e imanente às formas passageiras nas quais nos desenvolvemos, conforme os desígnios do programador. 

Os ascetas hindus chamariam tudo isso de lila, o jogo da vida, uma divina brincadeira. E você?

 

Já é. Então, viva.

Publicado na edição de 27/12/11

A convenção do calendário faz desses dias uma abundância de esperanças. O homem é um animal de desejo e de esperança, esses corcéis que nos arrastam da bem-aventurança para o vir-a-ser, a permanente transformação na qual conhecemos o crescimento e também a incompletude.

A esperança serve ao progresso do mundo e à marcha da civilização, mas se o seu foco é a felicidade seria bom descartá-la de sua rotina. Não há possibilidade de contentamento se trocarmos o desfrute da dádiva que está aí, o presente, pela espera, essa companheira dos aflitos. 

Como disse o poeta francês Nicolas de Chamfort, no século 18, a frase que Dante inscreveu na porta do inferno – “Abandonai toda esperança, vós que entrais!” – caberia melhor na do paraíso. São os bem-aventurados que dispensam a expectativa. O que têm lhes basta. Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino já diziam que no Reino não haverá esperança. 

Viver o presente, no entanto, não significa apoiar a vida no instante, uma forma de sofreguidão - outra filha da espera -, ou na imobilidade. Aspirações e planos cabem no movimento real do presente e podem ser desfrutados como dádivas do agora, às quais respondemos com alegria e gratidão, livres da tortura da ansiedade e do medo.

Isso vale para os eventos corriqueiros e para aquilo que colocamos no patamar da realização essencial. E aí me curvo ao ensinamento de um anônimo franciscano, repartido por Leonardo Boff no excelente livro “Terapeutas do Deserto”:

“Se você tiver o chamado do Espírito, atenda e procure ser santo com toda sua alma, com todo o seu coração e com todas as suas forças. 

Se, porém, por sua humana fraqueza, não conseguir ser santo, procure então ser perfeito com toda a sua alma, com todo o seu coração, com todas as suas forças. 

Se, contudo, você não conseguir ser perfeito por causa da vaidade da sua vida, procure então ser bom com toda a sua alma, com todo o seu coração, com todas as suas forças. 

Se ainda não conseguir ser bom por causa das insídias do maligno, então procure ser razoável com toda a sua alma, com todo o seu coração e com todas as suas forças. 

Se, por fim, você não conseguir nem ser santo, nem perfeito, nem bom, nem razoável por causa do peso dos seus pecados, então procure carregar isso diante de Deus e entregue a sua vida à divina misericórdia. 

Se você fizer isso, irmão, sem amargura, com toda humildade e com jovialidade de espírito, por causa da ternura de Deus que ama os ingratos e maus, então você começará a sentir o que é ser razoável, aprenderá o que é ser bom, lentamente aspirará a ser perfeito e, por fim, suspirará por ser santo.”

Feliz Ano Novo! 

 

Feliz Natal

Publicado na edição de 20/12/11

Eu queria lhe dizer Feliz Natal, mas, pensando melhor, o que lhe desejo agora é que você volte a ser criança. Pelo menos por uma noite – a Noite de Natal. Haverá outro jeito de alguém ser feliz no Natal, e na vida inteira, sem resgatar a criança que existe nas profundezas de cada um de nós? Hoje tenho certeza que não.

Só a criança pode entender plenamente a realidade do sonho e adornar de cores e ritmos a paisagem cinza e árida de nosso mundo tão lógico, tão concreto... e tão vazio. Só a criança é capaz de ouvir anjos, viver o mito e lidar sem medo com as poções de sentimento que reencantam o universo.

Se na sua felicidade não há lugar para um menino desarmado e ingênuo, eternamente a brincar com quimeras, desconfie. Talvez tudo não passe de euforia enganosa, disfarce calculado para ocultar a carência que nada “real” pode mitigar.

Neste Natal eu lhe desejo o sonho infantil diante do presépio tosco, a fantasia dos sapatinhos na janela, a imaginação em disparada enquanto as mãos agitam brinquedos feitos de pau e lata... Desejo-lhe a busca das pegadas da mula que transportou o menino Jesus, na manhã natalina, numa época em que Papai Noel ainda nem existia.

Eu lhe desejo o deslumbramento e a inquietação do garoto na Missa do Galo quando ainda havia missas do galo, ninguém se importando em transitar à meia noite pelas ruas engalanadas com enfeites artesanais. Desejo-lhe um conto de Natal piegas e verdadeiro, daqueles que fazem jorrar lágrimas sinceras e desinibidas. E, claro, desejo-lhe também a ceia farta, pois que ninguém é de ferro, mas que ela venha temperada com a algazarra na cozinha e aquele dedo transgressor provando escondido as guloseimas caseiras.

Ah! A criança que sufocamos na racionalidade fria, na estupidez da ganância, no receio de ser como somos no correnteza incerta da vida e, sobretudo, em nosso terrível medo de amar.

Eu sei que o Natal pode ser triste por evocar laços de família e, com eles, marcas de dor e trauma. E tristeza, numa sociedade que criou a máscara da alegria perene, tornou-se erroneamente um sinal de falência a ser evitado, mesmo ao custo de dependência química. Ainda assim estaremos no nível da racionalidade e dos padrões aprendidos que só a nossa criança pode transcender na liberdade do sonho.

O Natal em si é a evocação da criança e de seu simbolismo de renovação e pureza: um menino despojado, na manjedoura, totalmente disponível para os desígnios de Deus, o amor essencial. Um brincante sob estrelas a celebrar a vida, entre sorrisos e lágrimas.

Se eu e você, amigo, formos capazes de acordar o menino Jesus que fomos um dia, não terei dúvida: o nosso Natal será feliz num esplendoroso renascimento.

 

Nomes e números poderosos

Publicado na edição de 13/12/11

Todo poder é gasoso. Isso é tão evidente quanto a luz do sol, mas, enredado em sua sedução, dificilmente percebemos sua natureza volátil. Tal ilusão de ótica é inversamente proporcional à distância que nos separa do centro do poder e, claro, ao grau de consciência acima do materialismo e do utilitarismo que regem o cotidiano das multidões – das elites dominantes à plebe.

Na vida, tudo passa. O poder, contudo, parece ainda mais vulnerável. As páginas da história em que heróis nos inspiram bravura e sagacidade e inescrupulosos nos revelam a escuridão do despotismo e da corrupção são as mesmas que nos ensinam a lei de impermanência. Não há forma que não se dissolva, não há poder que, no fundo, não seja miragem.

Mas, se os registros da história nos parecem insípidos e impessoais, a simples consulta a uma velha agenda pode nos chamar à realidade. Neste final de semana, por exemplo, revi minha agenda telefônica dos anos 80, época em que atuei na “Veja” e nos jornais “Folha de S. Paulo” e “Jornal do Brasil”, e mais uma vez constatei a inclinação da vida para puxar tapetes e dissolver fantasias.

O caderninho elegante adquirido na Harrods, de Londres, sinaliza que aquelas anotações tinham enorme importância para mim e, por que não dizer, para muitos jornalistas e as pessoas comuns sem acesso a nomes e números tão poderosos. Nele pode-se ler, entre tantas raridades:

Aureliano Chaves: 035-9412398(R) / 061-2262850 (Palácio Jaburu); Tancredo Neves: 021-2570515; Ulysses Guimarães: 011-2119432 (R); Fernando Henrique Cardoso: 061-2264475(R); Paulo Maluf: 011-8830977(R); Heitor Ferreira: 011-8130031; Leitão de Abreu: 011-5531611(R); Lula: 011-4194451(R); José Serra: 011-2242174; Mário Andreazza: 021-2480020(R); Alfredo Karam: 061-2486311(R); Aluízio Alves: 021-5111062(R); Mário Covas: 011-8133818; Antônio Carlos Magalhães: 071-2473287(R); Waldir Pires: 061-2310503(R); Dilermando Monteiro: 061-5711139; Nelson Marchezan: 061-2245074(R); Humberto Lucena: 061-5774900(R); Miguel Arraes: 081-2417622; Marco Maciel: 061-2431083(R); Romeu Tuma: 011-5714795(R); Franco Montoro – 01-8520417(R); Antonio Ermírio de Morais: 011-2113478(R); Fernando Lyra: 061-224-6024(R)...

Qual o valor de minha velha agenda hoje? Ainda seria disputada por algum jornalista, lobista ou algum deslumbrado interessado em simular prestígio? Nem os números telefônicos sobreviveram à morte física ou política de seus detentores. Mudaram com o fim do monopólio estatal e a expansão da telefonia no país. 

E daí? A que aproveita lembrar disso? 

Recordar a impermanência de todas as coisas pode nos tornar pessoas mais centradas e tolerantes, mais abertas e mais amáveis.

 

Isto é novo. Isto é plural

Publicado na edição de 29/11/11

Um jornal que publica o que escrevo tem de ser plural. Meus textos tratam de temas contemporâneos, porém de um jeito, digamos, heterodoxo, quase sempre na contra-mão do senso comum. E senso comum, diz o dicionário, é o conjunto de opiniões e modos de sentir que, impostos pela tradição, acabam assumindo ares de verdades e comportamentos naturais. É a voz da maioria, a voz do movimento instintivo, ainda que, muitas vezes, manipulado por quem lida com as emoções humanas com intenções utilitárias. 

O que escrevo não agrada a maioria, não dá pico de audiência. Mas um jornal democrático e plural sempre há de reconhecer a diversidade da vida e a legitimidade das minorias, essas vozes dissonantes que, ao longo da história, sempre constituíram o fermento da mudança e a vacina antiestagnação.

O NOVO JORNAL é plural – e não apenas pelo mosaico desta página 6 por onde transitam pontos de vista e interesses tão variados. Ao priorizar a reportagem e a narrativa inteligente, esquecidas nesses dias de mídia impressa em crise emulando, desesperadamente, a incompletude e a fragmentação dos blogs e tweets, o NJ pôde colher em dois anos de atividade um resultado promissor: devolveu ao noticiário cotidiano a excelência da profundidade, associada à pluralidade de abordagens e à criatividade da forma. É uma receita simples e eficaz, coerente com o perfil multifacetado de um país agora complexo e democrático, potência emergente cuja força decorre, sobretudo, de sua enorme diversidade.

Quando comecei no jornalismo, nos anos 60, acreditava-se que notícias e um certo tipo de reportagem, então rotulada de “reportagem informativa”, eram textos objetivos, sem nenhum envolvimento da emoção e das crenças do repórter. O tempo e a ciência se encarregaram de mostrar que isso era uma ilusão: a de que o autor e sua obra, o sujeito e o objeto, existem separadamente. Todo relato expressa um ponto de vista, a carga de significado e sentido atribuídos aos fatos por aquele que os relata. Mas isso não se confunde com o desvio ético da manipulação de dados e a omissão deliberada de outros para enganar o leitor sob motivação inconfessável. O nome disso é desonestidade.

A pluralidade de abordagens e a licença para a criatividade, de outro lado, não excluem o direito de o jornal ter seu próprio posicionamento político e propor rumos à sociedade. Um veículo que não esconde sua opinião, como é o caso do NJ, torna-se transparente e ganha o respeito do leitor. Em contrapartida, terá razões ainda mais fortes para reconhecer e respeitar a diversidade dos indivíduos e das expressões sociais.

Então... Parabéns, equipe talentosa do NJ. Vida longa no bom caminho.

 

Manual da paz

Publicado na edição de 22/11/11

A paz é um tema recorrente na minha rotina de bate-papos despretensiosos, a convite de amigos. Parece assunto grave e urgente, mas no fundo é suave e atemporal, exceto quando o arrastamos para a lista das preocupações utilitárias, sempre balizadas pela ilusão da concretude e pela expectativa de um ganho imediato. Nesse caso, ele surge cercado pela esperança (e, consequentemente, pela dúvida e a aflição) de que alguém nos apresente a fórmula infalível para a realização de nosso desejo. 

Isso é prato cheio para os vendedores de fantasias e, quase sempre, frustração garantida para quem, no primeiro momento, irá encantar-se com a praticidade de algum passo a passo. Uma armadilha da qual, infelizmente, não escaparemos enquanto imaginarmos que a paz é quando as coisas acontecem do jeito que almejamos.

Dias atrás fui surpreendido pelo pragmatismo do título dado a um bate-papo comigo. “O que fazer para alcançar a paz”, garantia o rótulo. Pensei no tamanho da decepção que eu iria causar aos meus amigos, mas deixei fluir. Nem sei como consegui usar os 45 minutos destinados à exposição (E é preciso? A tagarelice é própria da natureza da mente, especialista em complicar coisas simples e diretas). Mas a verdade é que, em vez do manual prometido pelo título da palestra, minha mensagem poderia ser resumida em duas frases breves: “O que fazer para alcançar a paz? Nada.”

Assim mesmo. Nadica de nada. A maioria dos eventos da vida pedem apenas que os aceitemos e saboreemos, a fim de que possam seguir os seus cursos e completar os seus ciclos. São “problemas” que se “resolvem” com mais rapidez e eficácia se não os complicamos com a interferência de nossos caprichos. 

A paz é um dos exemplos mais expressivos dessa obviedade. Toda vez que nos esforçamos para alcançá-la, estabelecemos um conflito. Isso vale da intimidade das relações familiares às ações espetaculares das organizações e estados guerreiros, sempre prontos a promover carnificinas para salvar homens e implantar a paz. Eu e você conhecemos o resultado dessa iniciativa em nosso círculo íntimo. O mundo inteiro conhece os efeitos das cruzadas e das guerras de conquista do passado e, com certeza, ainda conviverá por muitas décadas com as consequências amargas das incursões militares das atuais potências em nome da paz.

O mundo objetivo é expressão de nossa subjetividade. As guerras externas refletem nossa intensa guerra interior, em meio à nuvem das formas-pensamento. Fazer nada, acalmar-se, é a única saída para que elas se dissolvam, permitindo-nos ver e fruir a paz natural das profundezas da vida. Sem indivíduos conflituosos, não haverá mundo em conflito.

 

Segurança psicológica

Publicado na edição de 15/11/11

Toda segurança é psicológica. Nenhuma porta é inabalável. Nenhum cadeado, inviolável. Nenhum guarda (honesto), inexpugnável. Nenhum antivírus, infalível. Nenhum firewall, intransponível. 

Não é que eu considere essas invenções destinadas a proteger as pessoas da ação lesiva dos marginais totalmente inócuas. O que quero dizer é que sua eficácia acontece muito mais no âmbito psicológico, estabelecendo crenças e expectativas que nos proporcionam conforto, ao mesmo tempo que desestimulam a ousadia do delinquente preguiçoso, ansioso ou sem criatividade.

Você concordará comigo se relembrar as notícias espetaculares – e indigestas - que a TV nos serve na hora do jantar. A rapina cinematográfica no cofre do Banco Central... O roubo no cofre do Itaú, onde ricaços paulistanos guardavam jóias e dinheiro nem sempre passíveis de comprovação legal... Os assaltos a mansões cercadas de engenhocas eletrônicas e vigias... As contas bancárias violadas pela internet... Os ataques a computadores do Palácio do Planalto e até aos das Forças Armadas dos Estados Unidos... 

Tais fatos reforçam o meu argumento inicial, mas não foram eles que me levaram ao tema em foco. Minha inspiração vem de acontecimentos corriqueiros de minha experiência e do arrombamento, no último final de semana, do imóvel onde funciona o Sapiens, um grupo onde reúno amigos interessados em filosofia e meditação. O assalto, o segundo em sete anos, dessa vez foi assinalado por um protesto inusitado: insatisfeito por não ter encontrado ali bens que lhe valessem o esforço de estourar cadeados e grades, o ladrão marcou sua passagem com uma escultura de excrementos no centro da sala. 

Que a segurança efetiva só existe no discurso de quem fatura com essa indústria montada sobre o medo das multidões, eu já sabia. Foi, porém, ao assistir a agilidade de um simples chaveiro, ao destrancar o meu carro, que me convenci de que todas as portas do mundo estão sempre escancaradas. E assim também todos os cofres e todas as malas e mochilas. Em 2009, em viagem pela Venezuela, eu mesmo livrei-me do vexame de não poder a abrir a minha mochila, cuja chave se extraviara, ao recordar um truque que me fora ensinado anos antes por um vendedor de bolsas. Com uma simples esferográfica, resolvi o meu problema.

Segurança? Se há vestígios dela no mundo real, devemos isso mais à honestidade dos chaveiros e à sobriedade de quem sabe os truques do que a invulnerabilidade de apetrechos e sistemas. E assim será também se algum dia forjarmos uma sociedade com menos delitos e deliquentes. A segurança efetiva só pode ser assegurada por uma ética que leve em conta a dignidade humana e os valores maiores da compaixão e da solidariedade.

 

Personal styler

Publicado na edição de 08/11/11

O bate-papo seguia animado na Casa de Cultura Popular de Santa Cruz, onde amigos, escritores e poetas regionais acolheram-me para uma conversa sobre o meu livro “Viver”, quando alguém disparou a pergunta: “Mas por que você decidiu escrever um livro assim?”. O eixo do questionamento é o advérbio “assim”. 

Certamente o interlocutor se surpreendera ao confrontar meu currículo de jornalista que durante décadas escreveu sobre a rotina do poder com o conteúdo heterodoxo de minhas crônicas atuais, sempre fluindo na contramão do materialismo, do pragmatismo e do nonsense de nosso tempo. 

Ora, por que eu deveria fidelidade ao que escrevi anos atrás? 

Disse aqui mesmo que, ao rever muitas matérias assinadas por mim em jornais e revistas, já não me reconheço nas velhas páginas pelo simples fato de que ninguém é hoje a mesma pessoa que foi ontem. No eterno movimento do universo, a experiência altera continuamente nossas crenças e valores e, dependendo da velocidade e profundidade desse processo, é possível que constatemos, ao cotejar duas fases de uma mesma vida, uma espécie de salto quântico de significado e sentido. Nas biografias de sábios e santos isso nos parece aceitável, mas temos dificuldade em lidar com esse fenômeno natural quando o percebemos em nossos contemporâneos e, sobretudo, em nós próprios.

Em meu lugar, em Santa Cruz, Gandhi teria respondido: meu compromisso é com a verdade. E da verdade vamos percebendo aspectos que se revelam em etapas, na experimentação diária e no exercício da observação. Fixarmo-nos em papéis sociais, ou nos conceitos gerados sob sua influência, é negar esse fluxo de criatividade e expansão da consciência. É estagnar a vida e instalar-se numa contradição que tem fundamento em nossas pulsões egóicas recheadas de medo – a contradição libertária.

As pessoas querem ser livres, mas também querem ser “normais”, o que pressupõe submissão a padrões e normas. Querem ser únicas, mas receiam ficar fora das “tendências”. Querem ser afirmativas, mas temem ficar sem a carícia do aplauso. Todos queremos liberdade, mas, na prática, optamos por segurança, uma zona de conforto em que possamos garantir ao ego inflado uma massagem permanente.

Isso explica, em parte, por que multidões trocam a possibilidade de fazer escolhas - assumindo a responsabilidade por suas conseqüências - pela busca de proteção nas receitas de tantos especialistas, mestres, gurus e instrutores particulares, profissionais cuja expertise, quase sempre, se resume à arte de dar palpite em linguagem empolada. Isso explica, talvez, por que, nesse tempo libertário, haja lugar para um tal personal styler, o palpiteiro que vai lhe dizer que camisa você deve vestir hoje.

 

O efeito sombra

Publicado na edição de 01/11/11

A sinceridade das crianças impressiona. Quando desliguei a TV depois de uma longa sessão de Discover Kids, uma das babás eletrônicas às quais outorgamos sem critérios a educação de nossas crianças, minha netinha mais nova reclamou: “Mas assim fica muito tranquilo. Isso é perigoso”. A menina só tem quatro anos e já aprendeu, com a televisão e os adultos, que o mundo sem barulho é ameaçador, o silêncio pode nos levar a monstros indesejáveis.

Sua mente infantil, esperta e curiosa, é naturalmente apta a alternar entre a excitação e o relaxamento, mas a overdose de estímulos de nossa rotina estridente começa a desviá-la para a rota do medo e o esconderijo da hiperatividade. Parar pra quê? Só uma criança, mesmo ameaçada em sua singeleza, é capaz de admitir com tamanha franqueza o que os mais velhos dissimulam com desculpas esfarrapadas.

Justificamos a TV ligada dia e noite (alguns precisam dela até para adormecer), o computador sempre conectado e a checagem ininterrupta de mensagens nas redes sociais com a necessidade de nos mantermos antenados em uma sociedade atolada em informações e novidades, sem as quais, supomos, podemos perder o bonde das oportunidades, cair do cavalo do sucesso, dar as costas à felicidade…

No fundo, apenas tememos o silêncio porque ele sempre nos conduz à nossa intimidade, um território onde se encontra o perigo da desilusão. Não há autoimagem que resista ao sossego introspectivo prolongado. E, para quem se acomodou à zona de conforto de um conceito sobre si mesmo, a sua dissolução, sob o impacto da realidade, soa como uma morte psicológica.

Tomar conhecimento das energias e impulsos que habitam as profundezas do ser abala a nossa identificação com uma máscara que, desconfiávamos, tem pouco a ver com a nossa essência, mas nos parece funcional e protetora nas relações com o mundo. Ao mergulhar na intimidade, através do silêncio, entramos em contato com a sombra, o nosso lado obscuro onde vicejam as pulsões primitivas, aquelas relacionadas ao instinto de sobrevivência e ao egoísmo e que nos põem em igualdade com as personalidades vis e os delinquentes.

É desse lado, povoado de monstros e medos, que queremos distância, na esperança de que, esquecida, a sombra deixará de existir. Engano. Reprimida e confinada ao porão da alma, a sombra sempre sabota nossas melhores intenções. Só com o seu reconhecimento e compreensão, podemos efetivamente lidar com a sua força atávica, canalizando-a e transformando-a.

E essa é também uma descoberta a que nos leva a introspecção: toda sombra se transmuta quando, aquietados, permitimos que brilhe a luz do amor, da aceitação.

 

Uma medida para o amor

Publicado na edição de 25/10/11

Se o êxito e a alegria do próximo lhe deixam feliz, então você é compassivo. É assim, correndo na contramão do senso comum, que vejo a expressão genuína da compaixão. Segundo o dicionário, compaixão é o sentimento de pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor ou o mal do outro. É piedade, é pena. E ponto. É algo de que, nas considerações de nosso ego soberbo, jamais queremos ser alvo. “Não quero que alguém tenha pena de mim”, costuma-se dizer como último recurso para não escorregar ao fundo do poço. Ter dó ante a dor é, sim, uma manifestação compassiva, mas não a totalidade da compaixão.

A compaixão é um aspecto do amor. Como capacidade que temos de sentir o próximo, é ampla, inclusiva e nos leva a compartilhar da aspiração essencial de felicidade que move cada pessoa. Logo, a possibilidade de nos alegramos com o bem-estar do outro, mais que a piedade diante de seu sofrimento, deveria ser o referencial da postura compassiva.

É mais fácil estender a mão ao caído do que participar da felicidade do outro quando ela não diz respeito aos nossos interesses imediatos. Na zona mais sombria de nosso ser, quase sempre o contentamento de quem segue conosco incomoda e assusta. É como se culpássemos o êxito ou a alegria do companheiro por nossas desventuras, um disfarce para o egoísmo que reduz a vida ao nosso próprio umbigo. 

Essa nossa face patológica manifesta-se com mais clareza nas relações íntimas, nas quais o sentimento de posse atiça o ímpeto devorador do ego. Explode, por exemplo, no ciúme dos casais e dos amigos, na volúpia castradora de cônjuges competitivos e até no controle de pais sobre filhos e vice-versa. Em todas essas situações, a motivação dissimulada é a incapacidade de aceitar e compartilhar do sucesso e da alegria do outro, um certo receio de que ele escape ao nosso controle ou nos tire da posição superior de quem estende a mão, tão cara à nossa insegurança egóica. Nesse contexto, detalhes ínfimos podem nos deixar furiosos e alterar a nossa projeção mental sobre quem há pouco chamávamos de “meu amigo” ou “meu bem”.

Num tempo sem psicologia e psicanálise, o apóstolo Paulo captou com acuidade essa pulsão destrutiva (e autodestrutiva) do homem, ao escrever aos cristãos de Corinto, uma cidade onde a prostituição corrompera as relações afetivas e o senso de compaixão. “Ainda que eu entregue meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valerá”, disse Paulo. Isto é, a soberba e o controle podem estar presentes na piedade e na ajuda a quem está em dificuldade, mas é menos provável que isso aconteça quando, com sinceridade, simplesmente alegramo-nos com a alegria do próximo.

 

As marchas, eu e você

Publicado na edição de 18/10/11

Na semana passada vi, em São Paulo, a expressão real de dois movimentos que, nos últimos meses, tem ocupado mais e mais espaço no noticiário, reacendendo a esperança de quem clama por mudanças no Brasil e no mundo.

No feriado do dia 12, cerca de 2 mil pessoas, a maioria jovens de cara pintada, marcharam pelas ruas do centro para protestar contra a corrupção no país, pedir a extensão da lei da Ficha Limpa a todas as esferas de poder e exigir o fim do voto secreto no Congresso, uma garantia da independência do parlamentar que acabou desvirtuada no jogo entre corrompidos e corruptores. Três dias depois, pouco mais de 200 manifestantes, sob chuva, ecoaram no Anhagabaú o grito dos ativistas que ocuparam a Wall Street, o coração financeiro de Nova York, para dizer à banca internacional e aos especuladores profissionais que não é justo que o mundo pague o preço de crises geradas na irresponsabilidade e na ganância dos agentes do mercado.

As duas marchas estão interligadas no conteúdo e na forma. Os que acamparam em Wall Street também querem o fim das práticas corruptoras - nos bancos e empresas. Seu grito se junta ao dos "indignados" europeus, em sua maioria jovens alcançados pelo desemprego, que pedem nas praças uma nova ordem mundial menos vulnerável à ambição e ao despudor. E todas as marchas, que acontecem sincronizadas em várias cidades do planeta, exibem a característica de terem surgido nas redes sociais da internet, sem vínculos a partidos políticos ou a interesses corporativos. A inspiração mais próxima é o recente movimento na Irlanda e sua proposta de plebiscitos para barrar leis injustas aprovadas pelo Parlamento, o que evitou que o governo torrasse dinheiro público em bancos falidos. Em vez disso, levas de executivos financeiros envolvidos em golpes contábeis foram presos e apresentados à Justiça.

Quando vi em Sampa a pequena multidão pedindo compostura e transparência no poder, apostei na idéia, não pela expressão numérica da manifestação, mas por seu perfil radical e inovador e o seu compromisso com a não-violência. Isso pode fazer florescer uma era de mudanças profundas na política e na economia, a partir do ponto de mutação que toda idéia nova repetida e compartilhada acaba forjando.

Mas que ninguém se iluda: as marchas atuais, ainda que dissociadas das estruturas obsoletas e viciadas, logo serão mais uma revolução sabotada, se a mudança que se propõe para sociedade não começar pelo indivíduo. Se na vida pessoal, eu e você acreditamos mais no dinheiro que em princípios e se não hesitamos em "molhar" a mão do guarda para escapar da multa, então o mundo continuará injusto e corrompido.

 

Steve e as conexões 

Publicado na edição de 11/10/11 

Na morte, Steve Jobs foi agraciado com a reverência do mundo. Justa homenagem. Não há como não reconhecer a importância de um homem que ajudou a moldar as novas relações humanas sobre uma base tecnológica que nos deu – para o bem e para o mal – mobilidade, velocidade, interação global e conforto. Steve foi saudado como gênio, tal o impacto na vida de bilhões de pessoas de seus Iphone, Ipad, Ipod, Macintosh e toda a revolução que esses conceitos de design e funcionalidade provocaram na indústria da computação. Mas, como sempre acontece sob o impacto da emoção, nessas homenagens também nos perdemos em superlativos.

Máquinas que facilitam nossa rotina e distraem nossos sentidos são remates de processos iniciados, quase sempre, com intuições em mentes contemplativas e reflexivas, capazes de enxergar a simplicidade das coisas, atribuir novos significados aos eventos e conceber novas possibilidades criativas. Isso abrange cientistas, filósofos, artistas, místicos e até inventores. 

Um Iphone carrega em sua tela os insights de Newton, ícone da física clássica, e os de Niels Bohr, Eisenberg, Schrödinger e o próprio Einstein, pais da moderna física quântica. Os vôos espaciais levam embutida a ficção de Júlio Verne. A internet inteira deve seu reinado ao telefone de Graham Bell e Antonio Meucci, ponto de partida tecnológico que permitiu o cenário atual das comunicações e da informação no planeta.

O universo funciona em rede e há algo, além de nossa capacidade de elaboração, que assegura as conexões entre eventos aparentemente distantes e isolados, sempre com um propósito evolutivo. Disso tinha consciência o próprio Steve Jobs, como se pode perceber em sua fala na Universidade Stanford, em 2005, agora resgatada em vídeos que circulam na internet. Seu senso de observação e sua relação com a filosofia levaram-no a identificar em sua vida a ligação entre três momentos de perdas (o abandono da faculdade por falta de recursos, a demissão da Apple e a descoberta do câncer) e o seu estrondoso sucesso profissional, com repercussão no mundo dos computadores e no das pessoas. Tais infortúnios o conduziram a novas trilhas e tentativas sem as quais nossos micros e celulares continuariam feios e menos ágeis.

As conexões do universo estão aí, mas só as distinguimos quando olhamos para trás, ensina Steve. É impossível vislumbrá-las olhando para frente. O futuro será sempre uma jogada de risco, uma aposta que se faz no próprio sonho e na força insondável que move o cosmo, a que chamamos Deus.

OK, Steve. Agora entendo porque você disse à revista Newsweek em 2001: “Eu trocaria toda a minha tecnologia por uma tarde com Sócrates.”

 

Um certo Giovanni... 

Publicado na edição de 04/10/11 

Dediquei meu livro Viver – Outro olhar sobre o amor, a dor e o prazer a Giovanni di Pietro di Bernardone. Chamei-o de amigo, pois é assim que o vejo em minha vida. Coloquei-o em meu tempo, pois entendo serem atuais e, sobretudo, necessárias, a sua vida e suas idéias. Entre centenas de pessoas que, até agora, congratularam-se comigo, apenas quatro demonstraram conhecer o estranho personagem de minha dedicatória, uma forma inédita de homenagear Francisco de Assis, o santo cuja morte rememoramos ontem.

Giovanni é o nome de batismo do jovem filho do comerciante Pietro di Bernardone (daí o sobrenome), de Assis, Itália, que, tomado de súbita “loucura”, revoluciona a própria vida e enfrenta, com a sua coragem terna, o poder onipresente do papado para firmar o seu direito de viver e pregar a essência da mensagem cristã, sufocada nas estruturas religiosas e no egoísmo manipulador de seus dirigentes e burocratas. E foi a Giovanni, o homem como qualquer um de nós, passível de enlouquecer no amor e mudar o mundo – em vez da imagem do santo canônico, reabsorvida e manipulada pelas estruturas – que eu quis prestar minha singela homenagem.

No Cristianismo, depois de Jesus, não há ninguém maior que Francisco. Com sua mensagem universal e inclusiva e seu olhar transcendental sobre todos os eventos da vida, ele é o laboratório vivo no qual se comprova a viabilidade do ideal cristão e sua força transformadora sobre indivíduos e sociedades. Ele é a expressão da liberdade no amor se sobrepondo às amarras das formalidades e jogos de poder, um “anarquista” de Deus que se entrega por inteiro à vida e ao mistério onde ela ocorre.

Há quem diga que ainda falta aos historiadores debruçarem-se sobre os efeitos políticos da passagem de Francisco na Europa medieval e a influência de sua mensagem até à filosofia da Renascença. Para mim, basta a feliz definição de Dante Alighieri: “Francisco é uma luz que brilhou sobre o mundo”.

Sua visão positiva do homem e da criação, sua dedicação aos pobres, sua noção de teia universal na qual todos os seres se interligam, podendo assim ser chamados de irmãos, sua inabalável confiança e submissão à consciência cósmica, não se deixando escravizar em mecanismos de controle, fazem de Francisco um ícone do homem pleno e solidário. 

Certamente que, se ele reaparecesse entre nós, seria de pronto hostilizado pela maioria inconsciente, à maneira dos soberbos cardeais e do próprio papa Inocêncio III, que viram no fradinho despojado e poético, declamando o Sermão do Monte, apenas um louco ingênuo e inconsequente. O mundo, porém, sempre carecerá de loucos para avançar e redimir-se.

 

Poder, ação e compaixão 

Publicado na edição de 27/09/11 

Certa vez, ao falar sobre a sua experiência como presidente da República, o atual presidente do Senado, José Sarney, revelou um segredo dos bastidores da política: um presidente da República manda bem menos do que supõe a imaginação popular. Cerca de 70% de suas ordens, segundo Sarney, se perdem no labirinto da burocracia e das sabotagens. Jamais se transformam em mudanças concretas em benefício do cidadão. Em muitos episódios, inclusive em alguns escândalos de corrupção, o presidente é o último a saber, o que realça o papel de uma imprensa independente para a boa gestão do estado.

Lembrei disso ao receber, a propósito de meu texto da semana passada, um email do secretário de Justiça e Cidadania do RN, Thiago Cortez, no qual ele lamenta os episódios de incivilidade e desrespeito à lei que culminaram na interrupção do trabalho da Pastoral Penitenciária no Presídio Estadual de Parnamirim (PEP). O texto sugere que o secretário desconhecia os fatos que se sucederam durante meses. Ao lembrar Sarney em seu desabafo, não tenho motivos para duvidar de sua sinceridade. Gentil, Thiago se propõe a discutir a retomada do trabalho reeducativo junto aos presos, manifestando a crença de que “essas ações fortalecem e são necessárias em nossas unidades prisionais”. 

Encaminhei a correspondência aos coordenadores da Pastoral e torço para que providências eficazes sejam adotadas, não apenas no PEP – onde o trabalho interrompido contribuiu para a relativa tranquilidade das relações no presídio, nos últimos anos - mas em todo o sistema de prisões da SEJUC, cujas rebeliões em série sinalizam equívocos administrativos e a falência do objetivo maior de ressocialização do delinquente. 

Por causa da coluna passada, reproduzida em blogs e no Twitter, recebi outra mensagem exemplar, dessa vez do ativista dos direitos humanos Marcos Dionísio. Dela extraio uma reflexão antológica: “Ariano Suassuna, emocionado ao assistir a uma encenação do Auto da Compadecida por presidiários em São Paulo, lembrou que na sua infância, no sertão paraibano , era orientado por sua avó a visitar o cárcere da sua cidade. Pedagogicamente sua avó demonstrava-lhe que quem delinquia poderia ser preso, mas ensinava-lhe, igualmente, a necessidade de se levar o sentimento da compaixão aos encarcerados. Nos dias que correm, talvez resida aí a razão do beco sem saída no qual está encalacrado o sistema penitenciário brasileiro: poucas pessoas fazem o que Ariano fazia na sua infância.” 

Concordo. Não haverá solução para o problema da violência e da criminalidade enquanto a sociedade não assumir a sua responsabilidade no problema e na solução.

 

Paz no presídio e na cidade 

Publicado na edição de 20/09/11 

Após três anos de atividade, interrompi na semana passada a minha prática meditativa na Penitenciária Estadual de Parnamirim (PEP). Não foi uma decisão espontânea, mas o desfecho de circunstâncias lamentáveis que acabaram por sufocar ali a atuação da Pastoral Penitenciária, na qual se integrava a minha colaboração como estudioso de temas da mente e praticante de espiritualidade. E esse é o detalhe mais deplorável: o impedimento da ação educativa da Pastoral, que há sete anos era sustentada por um grupo constituído em sua maioria por mulheres, sob o comando da médica Regina Medeiros e de Zilma Souza. 

O estrangulamento desse trabalho foi lento e gradual, mediante a restrição de horários e de movimentação e a transformação em celas da área dedicada a práticas espirituais, instalada na gestão do secretário de Justiça Leonardo Arruda, sensibilizado com a proposta do então presidiário Luiz Gusson, que encontrara um novo sentido para sua vida na prática do Yoga. Sem alternativa, Regina e Zilma, responsáveis também pela assistência médica voluntária aos detentos, bateram em retirada, literalmente sob os aplausos dos atuais gestores. Em todo o sistema prisional de Natal, não há um só núcleo da Pastoral Penitenciária em ação por falta de condições de trabalho e boa vontade das autoridades, o que é uma ofensa à lei e ao bom senso.

A Lei de Execução Penal garante a assistência religiosa ao preso. Além disso, concede à cidadania o direito de fiscalizar o sistema prisional por meio de um Conselho da Comunidade que, implantado em Parnamirim, também se encontra cerceado pelos gestores penitenciários, segundo um de seus integrantes, Cleber Pinheiro Costa.

Não é preciso ser gênio para perceber que a assistência religiosa e a meditação são mais eficazes na reeducação do deliquente do que espancamentos e humilhações, estimulantes de ódios e vinganças. É agindo nas profundezas da mente e do coração, alterando crenças e valores, que se promove a libertação de homens que a sociedade ensinou a amar a posse e a fatuidade e, depois de isolá-los em guetos de miséria material ou moral, se surpreende ao vê-los reagir como feras.

Isso é fato, como prova o sistema APAC de penitenciárias, gerado na experiência pastoral e hoje com mais de 100 unidades no país, inclusive uma em Macau, no RN. Um abismo separa os resultados da APAC - com suas prisões sem grades, sem fugas, sem drogas e sem rebeliões - e os dos presídios oficiais, com suas condições desumanas e violentas. Na APAC, o índice de reincidência entre egressos é de apenas 10%; no sistema oficial, chega a 90%, embora o custo por detento seja cinco vezes maior que no sistema alternativo. 

Prisões que resgatassem a dignidade do homem seriam um golpe mortal na indústria da violência, aquela que, além das comissões de praxe, manifesta-se também na face sombria das milícias e grupos de extermínio. Mas isso, sabemos, contraria muitos interesses – poderosos interesses, que se alimentam do caos e da ignorância.

 

O sertão não é mais espera 

Publicado na edição de 13/09/11 

Na semana passada, voltei ao sertão. Tenho feito isso com frequência, a convite de amigos que me apóiam, mas, dessa vez, cercado pelo carinho de tantos que levaram o lançamento de meu livro “Viver” em Currais Novos e Assu a exceder a proposta de encontros singelos, transformando-se em eventos regionais, a emoção foi mais forte e as recordações também. 

Minha origem é urbana, cresci na capital. O sertão, porém, logo se abancou na varanda de minha memória, marca indelével de aventuras adolescentes. A Natal desse tempo, pequena e provinciana, era retocada de traços sertanejos aqui exibidos por “coronéis” da caatinga e seus herdeiros e, sobretudo, pelas levas de desvalidos da seca implorando nas ruas migalhas de pão. Ainda assim, avançar para o interior era descobrir outro mundo, antigo e estranho, celeiro de tradições que evocavam a ingenuidade e a força de uma gente num cenário árido ou selvagem.

Jamais esqueci episódios simples e marcantes dessa minha pré-história de mochileiro. E quem poderia esquecê-los? 

O “misto” - o emblemático caminhão “pau-de-arara” -, em sua marcha arrastada, a menos de 20 quilômetros por hora, vencendo a trilha esburacada que então ligava Assu, Pendências e Alto do Rodrigues. Eu lá em cima, na carroceria, menino perplexo, aboletado entre homens e mulheres que sobraçavam fardos sem se impacientarem com o rangido da madeira se contorcendo num interminável passar das horas no vale do Piranhas... 

Os vaqueiros sob o sol tórrido da paisagem rochosa, invadindo as ruas de Currais Novos vestidos a caráter em silenciosa disputa por espaço com uma espécie de classe média mineira emergente... As queijeiras nas encruzilhadas, a carne-de-sol exposta, os chapéus de palha usados com orgulho, rendeiras às portas produzindo sua arte despretensiosa... 

O sertão de minha memória ainda cabia com precisão na frase definitiva de Guimarães Rosa: “O sertão é uma espera enorme”. Carência e sofrimento no cenário inóspito, inocência e fortaleza alimentando-se de sabedoria telúrica. A felicidade da desesperança nos fazendo amar o que temos.

Não, não é esse o sertão que revisitei na semana passada e nem poderia sê-lo, a menos que se parasse o mundo e se recolhesse toda a tecnologia da informação e os apelos da loucura consumista. Urbanizado, já não sabe esperar e, ansioso, se perde na própria ânsia de consumo e fatuidade, desconectado de sua raiz. Ainda assim, sou grato aos amigos Fernando de Sá Leitão (Assu) e Aldenir e Anunciada Dantas e João Antonio (Currais Novos) que me levaram a rever algumas trilhas do passado e a resgatar uma parte de minha própria essência.

 

Aprendendo a escrever 

Publicado na edição de 06/09/11 

Nos meus contatos com as pessoas, é comum me pedirem fórmulas para escrever bem. Meu currículo de jornalista acaba inspirando no interlocutor a crença de que eu posso apontar-lhe o caminho das pedras, mas perguntas desse tipo me deixam um tanto constrangido. Que dizer, além de citar normas clássicas ou dicas de grandes escritores? Mas até isso, às vezes, me escapa, pois, não me apego a mandamentos e, cada vez mais, acredito na exclusividade do talento. No fundo, eu queria ter a fórmula de tornar a escrita um momento muito mais de inspiração do que transpiração, mas todo “pedreiro” intelectual sabe que essa utopia é irrealizável. 

Jornalistas produzem “literatura apressada”, já dizia, no século de 19, o crítico inglês Matthew Arnold. Exceto os que se destacam por sua genialidade e acabam produzindo obras densas fora das páginas dos jornais e revistas, somos mais escrevinhadores que escritores. Em nosso ritmo sôfrego, costumamos abrir mão da inspiração, que produz a beleza, aprisionando-nos às técnicas, que servem à velocidade. Dificilmente poderemos bradar, com o poeta Pessoa, sem medo e sem culpa: “Não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.”

As pessoas pedem regras. Prefiro remetê-las a reflexões sensatas, como as do filósofo Schoppenhauer, um cultor do estilo, sintetizadas pelo jornalista Paulo Nogueira em seu blog diariodocentrodomundo.com.br :

"1) Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos é o sinal inconfundível da mediocridade. O homem inteligente resume, ao contrário, muitos pensamentos em poucas palavras. 2) Um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma sola de sapato. Da mesma forma, um bom escritor pode tornar interessante o assunto mais árido. 3) Existem três classes de autores. Primeiro, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam para escrever. Eles pensam justamente para escrever. São numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem exatamente porque pensaram. Estes são raros. 4) Não há nenhum erro maior do que imaginar que a última palavra usada é a melhor, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. 5) Não há nada mais fácil do que escrever de maneira que ninguém entenda. Em compensação, nada é tão difícil quanto expressar pensamentos significativos de modo que todos os compreendam. 6) Como alguém que de tanto cavalgar desaprende de andar, alguns eruditos de tanto ler livros se tornam burros."

 

Amigos e "muy amigos" 

Publicado na edição de 30/08/11 

Há falas banais que marcam nossas vidas. São frases despretensiosas pronunciadas em bate-papos casuais, opiniões desarrazoadas de amigos ou desconhecidos. Lembramos delas sempre que um evento mexe conosco e nos leva a pensar sobre o sentido das coisas e das relações. Hoje, por exemplo, eu acordei pensando na amizade e logo me veio à mente, pela milionésima vez, a lembrança de duas frases triviais que recolhi muito longe do Brasil, num tempo agora longínquo.

A primeira eu ouvi em Londres, numa noite de janeiro de 1982, de um ex-atleta brasileiro, homem ultracompetitivo que se tornara empresário. Para ele, a amizade era “ilusão que se dissolvia ao impacto da primeira frustração”. Em outras palavras, a amizade seria um jogo de interesses que se sustenta da expectativa de ganhos. Para mim, um idealista que até hoje se alimenta do ideal da amizade, foi chocante. Mas a fala amarga sempre volta à tona toda vez que vejo amigos se transformarem em “muy amigos” quando não posso ou não devo contemplar-lhe as esperanças e interesses ou pelo simples fato de, traído pela memória, eu esquecer algum ritual atrelado ao papel social do amigo, algo imperdoável nas amizades utilitárias.

Em outra noite de janeiro, dessa vez em 1986 e na tranquilidade de um restaurante de Frankfurt, ouvi do alemão Fredrich Ohm, que eu conhecera quatro anos antes, a segunda frase, embalada em orgulho e amargura: “Quem tem muitos amigos, não tem nenhum”. Isto é, segundo ele, a amizade real é uma possibilidade raríssima, ao alcance de raras pessoas. Na época, a conclusão pareceu-me razoável. Mas também essa frase só me vem à mente diante da fúria de um “muy amigo”, como espécie de consolo ao meu próprio ego ferido e interesseiro.

Frases que marcam e que, no entanto, são incapazes de nos levar às profundezas da questão. Como expressão do amor, a amizade é o seu aspecto mais suave, sublimemente prazeroso, o “amor feliz” que se regozija com o que tem e alegremente aceita a diferença do outro. É plenitude da “philia” (amizade, no conceito grego) que se contrapõe à carência de “eros” e que só é menor que o ágape, o amor radicalmente incondicional dos iluminados. 

Confúcio dizia que “para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça”. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade. A afirmação é sábia, mas, para entender amigos e “muy amigos”, prefiro a leveza de Sócrates ao dizer que “para conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso ter em nós as qualidades que nela admiramos”. Amizades sinceras e estáveis se sustentam da afinidade de ideias e propósitos nobres.

 

Uma receita antiestresse 

Publicado na edição de 23/08/11 

Vi na televisão um especialista dizer que viver com estresse é bom. Não raro, especialistas são figuras que, a exemplo de um operário da linha de produção, sabem tudo sobre a parte que fabricam ou montam, e nada sobre o resto, o todo onde a peça se encaixa conforme um propósito muito além de sua especificidade. 

Não quero, com isso, dizer que o especialista da TV está completamente errado. Talvez eu pudesse só esclarecer que a minha parte eu prefiro em tranquilidade. Isso, porém, seria perder-me no egoísmo, essa obsessão pelo interesse próprio que está na base de nosso mundo de gente exaurida, correndo o tempo todo. Talvez pudéssemos, eu e o especialista, concordar em que a ocorrência do estresse é inevitável, e até mesmo necessária, na hora e na dose certas, como estimulante da ação. Mas afirmar que viver com estresse é bom não me parece razoável, embora disso dependam egos inflados e inseguros.

Estresse é a reação do organismo a agressões físicas e psíquicas que lhe perturbam o equilíbrio. Uma resposta que se apresenta sob a forma de fadiga, ansiedade, palpitações, hiperacidez, dificuldade de respirar e até doenças graves, como as insuficiências cardíacas. Mas não se trata de uma novidade da civilização. Convivemos com o estresse desde o nosso estágio na caverna, tempo em que a nossa vida era ameaçada por predadores. Inédito é o estresse de base emocional e social, que diz respeito aos nossos egos, nossas crenças e condicionamentos. 

Atribui-se a Freud a afirmação de que não há nada mais difícil de suportar do que a sucessão de três dias lindos. É uma carga por demais pesada para quem vive de esperança, em constante correria para o futuro. Imagino que, se vivo fosse, o próprio Freud encurtaria esse prazo. Para muita gente, apenas minutos de um dia lindo – sem “problemas” para resolver – são o suficiente para instalar o tédio ou florescer o pavor. Estressados exibem incompatibilidade com o presente, detestam curtir o que tem e, na expectativa de coisas “importantes”, estão sempre em busca de uma felicidade aninhada no depois. Renunciam ao aqui e agora, onde a vida se apresenta como dádiva, e se aprisionam à carência de quem tudo espera. Definitivamente, descartam a capacidade de fruir a vida como uma divina brincadeira.

O que fazer nesse caso? Parar, para mudar o olhar e alterar crenças e valores, é fundamental. Mas, para começar, duas regrinhas bastam: 1) Não se preocupe com ninharias. 2) Tudo é ninharia.

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PS: obrigado aos amigos e leitores que, sem estresse, fizeram do lançamento do meu livro “Viver”, na Livraria Siciliano, uma festa inesquecível.

 

Toda palavra é uma semente 

Publicado na edição de 16/08/11 

Março de 1967. Eu era um menino jornalista e um jornalista menino. Aos 14 anos de idade, há dois meses na reportagem, exultava ante o desafio das “pretinhas”, apelido carinhoso do teclado da Olivetti. Orgulhava-me de minha credencial de repórter, então uma simples declaração em folha A4 assinada pelo secretário de Redação de “A Ordem”, Tarcísio Monte. Lambia meu nome nas páginas impressas. E foi assim, nesse estado de êxtase, que levei a primeira bronca do chefe. 

Na verdade, nem era o chefe, era o chefão, o todo-poderoso, nada menos que o bispo, pois o jornal era um semanário de propriedade da Igreja católica que fizera história no jornalismo potiguar e naquela época vivia o seu ocaso. E a bronca... Bem, a rigor, nem foi um carão, mas a lição terna de um homem espiritualizado, o bispo Nivaldo Monte, a uma criança que se iniciava na arte escorregadia de lidar com as palavras.

Tarcísio, que cometera a ousadia de transformar em repórter um garoto que lhe pedira apenas um emprego de mensageiro, conduziu-me à sala de D. Nivaldo, seu tio, e recomendou-me tranquilidade. O bispo olhou em meus olhos e sapecou a primeira de um longo interrogatório: “Foi você mesmo quem escreveu a matéria ou alguém fez isso pra você?”. Respondi, tímido: “Foi eu, sim senhor”. O estopim da crise era a entrevista com o psiquiatra Quinho Chaves e a psicóloga Vanilda Chaves sobre liberdade sexual, o top dos temas polêmicos naqueles dias ainda influenciados por beatniks e hippies. Era um texto cândido e superficial, mais inocente que qualquer programa da Xuxa, mas, à época, e por ser publicado num jornal da Igreja, suficiente para escandalizar setores de uma Natal pacata e provinciana.

Com jornalismo na veia, ouvi os argumentos do bispo e, em silêncio, discordei da censura. Mas o encontro com D. Nivaldo iria marcar a minha vida. Foi ele o primeiro a ensinar-me sobre a importância da palavra como agente de construção e destruição e sobre o cuidado necessário ao tecermos nossas falas. No final, presenteou-me com o livro “Toda palavra é uma semente”, de sua autoria, um texto singelo sobre a magia do verbo criador que até hoje, sempre que me permito recordá-lo, salva-me dos julgamentos apressados e da cegueira do orgulho no momento de escrever.

Não sou um intelectual, sou povo. Mas, como homem e jornalista, tive sempre na palavra minha ferramenta de trabalho e participação. Ao lançar, amanhã (17/08), o meu terceiro livro, “Viver - Outro olhar sobre o amor, a dor e o prazer”, escrito, em parte, neste canto de página do NOVO JORNAL, peço a Deus que as sementes de suas páginas possam gerar, senão frutos, pelo menos sombra para quem busca um sentido maior na jornada.

 

Ponto de partida 

Publicado na edição de 09/08/11 

Numa sociedade atormentada pela escassez de virtudes, certamente a solução de problemas como a corrupção, a violência, os vícios e a indiferença seria bem mais fácil se reconhecêssemos que nenhuma virtude é autêntica se não estiver apoiada na humildade. É ela que dá acesso aos demais valores éticos, ao nos proporcionar a percepção de nossa fraqueza e nos impulsionar à reverência e à submissão à vida. Mas o que é, na prática, humildade? Duas histórias da tradição judaico-cristã nos ajudam a entendê-la.

A primeira é uma parábola de Jesus relatada no evangelho de Lucas. Fala-nos de um fariseu e de um publicano que oram no templo, cada um a seu modo. Fariseu era um judeu fundamentalista, apegado à letra da Torá e, também por isso, quase sempre hipócrita. Publicano era o cobrador de impostos no império romano, naturalmente odiado pelas populações dominadas, como a da Judéia, e, não raro, metido até o pescoço em casos de corrupção. Segundo Lucas, o fariseu, de pé, dava graças a Deus por não ser “como os demais homens, ladrões, injustos e adúlteros”. Para si mesmo, relembrava que jejuava e dava o dízimo de tudo que ganhava. Já o publicano, sem ousar olhar para o céu, apenas batia no peito: “Ó Deus, tende piedade de mim, pecador!” Diante desse quadro, Jesus surpreendeu: o publicano foi aquele que voltou para sua casa justificado. Ele estava no ponto de mutação. Tinha autoconhecimento. 

Humildade é clareza de visão, é conhecer o próprio tamanho e limitações, algo essencial em qualquer projeto de mudança.

A segunda história, de origem anônima, também se passa num templo e fala-nos de um rabino que, tomado pela sensação de humildade ante a grandeza do cosmo, ajoelhou-se e passou a repetir, em voz alta: “Eu não sou ninguém! Eu não sou ninguém!” O regente do coro, que o observava, logo se comoveu e, juntado-se a ele, também passou a exclamar: “Eu não sou ninguém! Eu não sou ninguém!”. Então, o zelador do templo, que limpava o piso, foi despertado pelo clamor de ambos e, igualmente emocionado, juntou-se à dupla, bradando: “Eu não sou ninguém! Eu não sou ninguém!”. Nesse momento, o regente voltou-se para o rabino e, indicando o zelador, sussurrou: “Veja quem pensa que não é ninguém”.

Humildade não é modéstia aparente nem mortificação. Atitudes assim apenas dissimulam o orgulho e a vaidade presentes na ilusão de que existo separado e sou alguém especial. Humildade, talvez, seja o reconhecimento de que somos pequenos, mas úteis na teia imensurável da vida. Um sentimento que nos livra da hipocrisia e do perfeccionismo para desfrutarmos a dádiva de viver, agir e compartilhar o que temos.

 

Os sábios e a educação 

Publicado na edição de 02/08/11 

Eu queria escrever sobre educação. Não há solução de longo prazo para os problemas sociais, a não ser por essa via. Refiro-me a educação, não a mera acumulação de conhecimentos técnicos e diplomas. Eu queria escrever, mas... Encontrei em diariodocentrodomundo.com.br um post sobre o tema do amigo Paulo Nogueira, um dos jornalistas mais brilhantes deste país, hoje vivendo em Londres, e me rendi. Eu não faria melhor. Assim, brindo a você, leitor, com os trechos que esse canto de página me permite transcrever. 

“Como educar os filhos na era da internet? Vejo Camila no laptop e penso nisso. Bom, um bom passo é olhar para sábios que se detiveram nessa questão. (...)

Xenofonte, discípulo de Sócrates, fala dos persas. Eles se preocupavam mais em ensinar as virtudes às crianças do que as letras e as ciências. Platão, outro pupilo de Sócrates, aliás o maior deles, também fala dos persas. Os garotos persas aprendiam a ser sinceros, justos, valentes, antes de mergulhar na trigonometria ou na gramática. Ou, se pensarmos em nossos dias, nos computadores.

Também a mocidade de Esparta recebia esse tipo de instrução. Os jovens eram preparados para a vida. Exemplos do que lhes era ministrado: como suportar as adversidades ou como controlar os desejos. Perguntaram a um pensador grego o que as crianças deveriam aprender. Respondeu ele: “O que terão de fazer quando crescerem”. As lições gregas de como criar a juventude encantaram e comoveram, tempos depois, Montaigne. Na sua obra magna, “Os Ensaios”, Montaigne lembra, com admiração reverente, que os gregos ensinavam suas crianças a “defender-se contra as tentações da volúpia e encarar com coragem os revezes da sorte ou a morte que nos ameaça”.

A pedido de uma amiga grávida, Condessa de Gurson, Montaigne escreveu nos “Ensaios” um capítulo sobre a educação. (...) Algumas palavras de Montaigne à Condessa:
# O silêncio e a modéstia são muito apreciáveis na conversação. # Deve-se ensinar o menino a mostrar-se parcimonioso em seu saber, quando o tiver adquirido; a não se irritar com mentiras ou tolices ditas em sua presença. Que se contente em corrigir a si próprio, e não aos outros. Que evite as atitudes indelicadas de dono do mundo. Que o ensinem sobretudo a ceder numa discussão ante a verdade, logo que a enxergue, surja ela dos argumentos do adversário ou de sua própria reflexão. (...)

# Habitue a criança ao suor e ao frio, ao vento, ao sol. Tire-lhe a moleza, o requinte no vestir, no dormir, no comer e no beber.

Montaigne pregava, enfim, inspirado nos exemplos que a história lhe oferecia, uma educação cuja validade é eterna, com internet ou sem.”

 

Amy vive em Wall Street 

Publicado na edição de 26/07/11 

Quando a polícia de Londres encontrou o corpo de Amy Winehouse, no sábado passado, a Noruega ainda contava as vítimas do duplo atentado que, na véspera, matara 76 pessoas em Oslo e Utoya. A morte anunciada da cantora, cujas overdoses de álcool e drogas já não lhe permitiam exercer plenamente o seu ofício, logo deslocou a tragédia norueguesa para o segundo plano do noticiário. O drama de um artista talentoso que se deixa destruir pelo vício no ápice da fama já não surpreende, tal a recorrência de eventos do gênero, mas continua a ser glamourizada pela mídia e pelas multidões em catarse.

Foi dito que Amy agora integra o seleto grupo de artistas geniais que morreram aos 27 anos, um certo Clube 27 do qual fazem parte Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones e Kurt Cobain. Ainda bem que se teve o cuidado de lembrar que participar desse clube não se trata de um privilégio, mas de uma “maldição” que não tem a ver com a idade e nem com a música, mas com o vício. Na internet, alguém teve a lucidez de afirmar que “Amy já estava morta e, provavelmente, precisava de um ‘teco’ para se sentir viva.”

Por que tantos artistas acabam se suicidando na dependência química? Uma psiquiatra disse na TV que todos eles são portadores de conflitos que, em vez de serem aplacados, acabam se intensificando na relação com o sucesso. Uma obviedade que não responde à pergunta sobre a natureza desses conflitos e esquece outros territórios da fama e do poder onde vítimas como Amy Winehouse poderiam se sentir em casa com o seu drama.

É o caso do mundo, igualmente glamourizado, dos homens que controlam o sistema financeiro americano na Wall Street, em Nova York. Em entrevista à revista “Alfa”, o psicoterapeuta Jonathan Alpert, o preferido de corretores, operadores e gerentes de fundos, revelou toda a carência e sofrimento do lado oculto dessa gente montada em dinheiro que trabalha até 18 horas por dia. Eles chegam numa “situação terrível”, diz Alpert. Ao preço de 2 mil dólares por sessão, o terapeuta os vê chorar enquanto relatam o uso contínuo de álcool e drogas pesadas, a incapacidade de dormir sem tranquilizantes, as escapadas com prostitutas de 1 000 dólares a hora – às vezes só para conversar e expor os sentimentos -, a frequencia quase diária a casas de massagens, os constrangimentos no emprego e o medo de a mulher pedir a separação e “levar tudo” na partilha.

O dinheiro e o sucesso podem levar ao vício e o vício, à destruição? Isso seria simplificar a questão. Afinal, na raiz dessa tragédia está uma visão de mundo egóica e materialista que, descartando a transcendência, nos sufoca na escassez de sentido e na abundância de tédio.

 

Deus, o Palmeiras e os ateus 

Publicado na edição de 19/07/11 

A revista Alfa deste mês traz uma reportagem do jornalista Antonio Regalado sobre Miguel Nicolelis, o gênio brasileiro da neurobiologia cotado para o Prêmio Nobel. A matéria é puro jornalismo. Apresenta os dois lados do médico. Ou, para ser preciso, os seus vários lados, como é normal a qualquer homem, gênio ou não. A chamada de capa (“O gênio encrenqueiro”) realça uma dessas facetas: a de cientista bom de briga que dispara contra colegas enciumados, políticos e jornalistas, inclusive o repórter da Alfa, hoje “persona non grata” ao entrevistado. Mas é um Nicolelis à altura de suas qualidades que salta do texto da revista e impressiona o cérebro dos leitores.

O meu foi tocado por um detalhe dissociado da fama do cientista. Ele virou ateu durante a primeira comunhão. “Naquele dia, o Palmeiras perdeu um jogo. Portanto, deduziu o jovem Nicolelis, ´não é possível Deus existir`”. É uma brincadeira do pesquisador, conhecido por sua paixão pelo time paulistano, ao referir-se a uma de suas convicções que, suponho, deve ter fundamento racional. Mas poderia ser verdade.

Argumentos dessa natureza estão na base do ateísmo da maioria dos intelectuais que costumam expor seu desconforto com a ideia de Deus, assim como no desencanto dos não eruditos.

São poucos os que se converteram ao ateísmo – sim, ser ateu é também uma questão de crença! – apoiados em proposições filosóficas e reflexões. Em geral, abjura-se a divindade em meio a frustrações ou perdas que maculam a imagem de um deus pessoal, protetor e provedor a quem se pode invocar nos embates da vida, em busca de superação e satisfação egoística. Mesmo quando a perda da fé vem de uma decepção com fundamento ético, como o questionamento da justiça divina nas tragédias naturais, é sempre a imagem de um deus enquadrado em nossas preferências e caprichos que se dissolve na mente inapta a lidar com a transcendência e a ressignificar a imanência do mistério em nossos contextos existenciais.

Deus, a palavra, é só uma seta que aponta para a incognoscível totalidade. Para algo além de nossos conceitos, inclusive os de bem e mal. O deus pessoal e protetor que nos enleva e decepciona é apenas o primeiro estágio de uma percepção que se completa quando, finalmente, entendemos que a noção de Deus se altera e se refina na medida que nos percebemos parte e não o centro ou o propósito maior do cosmo. 

Nesse ponto, podemos então fazer coro com o filósofo André Comte-Sponville, um ateu respeitável: “Crença e descrença não tem prova, e é isso que as define: quando sabemos, não há mais por que crer ou não”. Ou, pelo menos, não há mais por que nos perdermos no dogmatismo das religiões ou do cientificismo.

 

A pesquisa 

Publicado na edição de 12/07/11 

Até Jesus recorreu a pesquisa de opinião. Na cidade de Cesaréia de Felipe, reuniu seus discípulos e indagou: “quem dizem as multidões que eu sou?”. As respostas revelaram a crença popular de que ele era um dos antigos profetas retornado em novo corpo. Ninguém cravou a alternativa “é o Cristo”. 

O resultado da sondagem certamente estimulou Jesus e o colégio apostólico a esclarecerem a massa em toda a Judéia e até na capital, Jerusalém. Mas faltou ao núcleo inicial do Cristianismo investigar as multidões sobre como viam a novidade, o que esperavam dela e se estavam dispostas a aceitar a missão cristã e suas consequências radicais sobre indivíduos e sociedades. Mais tarde, os fatos dramáticos de Jerusalém, que levaram Jesus da aclamação triunfal à crucificação em curtíssimo tempo, atestariam essa lacuna e também a fugacidade e vulnerabilidade da opinião pública, essa entidade forjada sobre emoções egoísticas, manipuláveis pelos inescrupulosos de todas as épocas, com ou sem a ajuda da ciência estatística e das táticas de marketing. 

Jesus errou? Não. Nem ele e nem qualquer outro reformador daria conta de seu trabalho sem a coragem de nadar contra a corrente. Nenhuma utopia seguiria o seu curso rumo à realidade se mestres e heróis se permitissem acatar o interesse imediato das massas. Foi bom para o mundo que da sondagem de Cesaréia constasse apenas a uma pergunta.

As pesquisas de opinião até podem ser confiáveis, mas jamais serão sinalizações indiscutíveis pela natureza instável e imprevisível das multidões. E quando a isso se soma a incompetência técnica, a irresponsabilidade ou a desonestidade na apuração dos dados, estamos diante de uma farsa nociva a pessoas, empresas, o mercado, os governos, a democracia, a educação e a ética, cujos processos levam em conta a suposta opinião coletiva.

Lembrei disso ao assistir recentemente, numa praça do Recife, a atuação de um grupo de pesquisadores, a maioria mulheres, que mensuravam a popularidade do medicamento Amidalin, usado contra infecções da boca e da garganta. A praça estava repleta de gente, mas os entrevistadores preferiram se aboletar em um banco e ali preencher alguns formulários a esmo, para “fechar a cota do dia”, tendo o cuidado de completá-los com dados pessoais de familiares e amigos que eram contatados via celular e instruídos sobre como responder, caso fossem procurados pela equipe de checagem da pesquisa. “Não esqueça, você usa Amidalin. A-mi-da-lin, certo?”, dizia ao telefone uma lépida “pesquisadora”. 

Ninguém teve a iniciativa de me entrevistar, embora eu estivesse ao lado. Era hora do almoço e todos queriam seguir para o restaurante...

 

O shopping e a praça 

Publicado na edição de 05/07/11 

Não curto shopping centers. Se me encontrar nas alamedas de um desses templos da religião do consumo, tenha certeza de que estarei ali quase que por obrigação. Talvez eu esteja acompanhando um familiar ou um amigo ou, sem alternativa, tenha sido levado a realizar alguma compra indispensável nessas dependências para mim asfixiantes. Mas admito: o shopping é hoje uma aquarela que revela a alma dos que lá transitam e o traço psicológico de nosso tempo.

Obtive a prova final dessa ilação ao revisitar, na semana passada, o maior centro de compras do Recife. Durante duas horas, pela primeira vez me permiti percorrer suas galerias e esparramar-me em suas poltronas e bancos com a intenção de observar a paisagem e os indivíduos, comparando-os ao que nos oferece a velha praça, hoje um logradouro pouco usado pela população. Esse cotejo é razoável, já que os shoppings, embora sejam lugares dedicados ao consumo por impulso, cada vez mais funcionam como pontos de encontro e passarelas de corpos e expectativas.

Um shopping já não é só um point de jovens e dondocas. Velhinhos se acomodam e cochilam em suas cadeiras confortáveis. Garanhões aposentados, inflando a barriga em seus bares e restaurantes, evocam o charme perdido, olhos grudados em gatinhas e coroas turbinadas. Gays experientes ou recém-saídos do armário dão o ar da graça com uma algaravia capaz de provocar chiliques no deputado Bolsonaro. A baixa classe média se mistura aos mais abastados, todos unidos pelas grifes famosas, originais ou pirateadas, que parecem compensar carências e inseguranças enquanto transformam corpos em outdoors ambulantes e gratuitos.

Apesar do pelotão de guardas e das normas à altura de uma propriedade privada, o shopping avança sobre o espaço antes ocupado pela praça pública, deixando-se pintar com as muitas cores da democracia e do pluralismo. Pena que, como manda a regra não escrita de uma sociedade movida pelo medo e pela fatuidade, suas passarelas sirvam ao desfile de personagens que ocultam as pessoas, impedindo a transparência, único jeito de nos deliciarmos em relações autênticas, profundas e prazerosas. Ali somos mais solitários que na praça, em cujo palco a dança das máscaras parece esconder menos a realidade, sob a inspiração do céu, do sol, das estrelas e do ar puro que nos faltam nas alamedas assépticas de um shopping.

Não sou contra shopping center e seu jeito de abrigo nuclear luxuoso, onde gente assustada se imagina protegida de um mundo hostil que apenas reflete nosso egoísmo e avareza. Mas prefiro a praça onde, penso, a vida ainda pulsa com mais beleza e espontaneidade.

 

Remédio e veneno 

Publicado na edição de 28/06/11 

Uma notícia nos jornais levou-me a recordar dois episódios de minha relação desconfiada com a medicina moderna e sua ênfase na especialização mecanicista que subestima a totalidade do ser e o envolvimento do médico com o paciente.

Cena 1: em 1991, em São Paulo, eu não estava bem comigo mesmo e com o mundo. Vivia um momento de instabilidade emocional que tinha a ver com situações na família e no trabalho que contrariavam meus desejos. Foi quando o meu coração de 38 anos disparou pela primeira vez. Um cardiologista diagnosticou: prolapso da válvula mitral. É um transtorno leve que assalta milhões de pessoas, disse o profissional. Eu teria de tomar um tal Propanolol para controlá-lo. Desconfiei. Procurei a ajuda de um amigo médico e assustei-me com o seu relato dos efeitos colaterais da droga. Esqueci o assunto e o coração sossegou.

Cena 2: como eu continuasse inábil para administrar meus desejos e os “problemas”, no ano seguinte as palpitações voltaram e, com a pressão a 17/13, corri para o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas onde um especialista, cioso de sua autoridade, avaliou meus exames e logo decretou: eu teria de tomar o antihipertensivo Adalat para o resto dos meus dias. Meu anjo da guarda disse não. Como um médico, que não procurou saber sobre minha rotina e minhas emoções, podia tomar uma decisão tão séria apenas baseado em gráficos que atestavam sintomas e não a causa do desequilíbrio do meu corpo? Busquei outro cardiologista que prescreveu um medicamento mais leve - e por apenas 40 dias - e apontou-me a solução efetiva: descarregue o barco, reduza o trabalho, faça atividade física e reconsidere seus valores.

Segui à risca, acrescentando à receita o retorno à prática espiritual regular, que eu havia esquecido, e me dei bem: 20 anos depois, com a pressão a 12/8, vivo sem remédios e com disposição. É óbvio que isso não é garantia de longevidade. Para morrer, basta estar vivo. Mas imagino como estariam hoje a minha cabeça e os meus movimentos se durante esse tempo eu tivesse me empanturrado com as drogas desnecessárias.

Ah! A notícia que me fez lembrar desses fatos refere-se à preocupação da ONU com o consumo excessivo de remédios no Brasil. Somos campeões no uso de estimulantes e antidepressivos e tomamos 55% de toda a sibutramina (inibidor de apetite) fabricada no mundo. Muita automedicação e muita prescrição de maus médicos também. Faltou falar da contribuição do marketing da indústria farmacêutica, das negociatas de distribuidores com a burocracia corrupta da área da saúde e da influência dos laboratórios sobre os médicos. Mas isso já é outro assunto...

 

Assim é, se lhe parece 

Publicado na edição de 21/06/11 

Ontem vi na TV um padre dizer que não acredita em predestinação, ao ser indagado sobre sua vocação precoce. Para ele, o que conta é a influência do meio e, sobretudo, o livre arbítrio. Ou seja, a possibilidade de o homem exercer sua vontade e fazer escolhas, fazer acontecer. Nada mais. 

Imagino que a maioria das pessoas, em nossa civilização judaico-cristã, pensa como o padre, que, aliás, não fugiu da Bíblia ao expressar sua opinião. A questão é que a Bíblia e todos os livros sagrados também se referem à onisciência divina. Ou seja, à consciência universal além da ilusão do tempo e do espaço, se preferirmos a linguagem dos físicos que hoje se ocupam com espiritualidade. Jesus, só para citar um exemplo, chegou a afirmar que não cai uma folha seca ou um fio de cabelo sem permissão (conhecimento prévio) de Deus, seja este a divindade pessoal da maioria dos cristãos, a totalidade do filósofo Spinoza ou a consciência única dos orientais e de alguns místicos da tradição cristã. 

E agora, José? Livre arbítrio e determinismo formam uma dicotomia e um paradoxo. Isto é, estão juntos e relacionados, apesar da aparente contradição. É possível entendê-los, mas isso será mais fácil se, primeiro, considerarmos que o mundo (e o tempo e o espaço nos quais ele existe) é uma miragem (ou realidade virtual) e que todas as coisas que aconteceram, estão acontecendo ou acontecerão estão ocorrendo justamente agora. Isso não significa que não exista livre escolha e que toda a nossa vida esteja rigidamente ordenada. Mas...

Uma analogia divulgada pelo escritor Neale Walsch ajuda-nos a desatar esse nó. Imagine aquele jogo de xadrez em seu computador. O programador ordenou em códigos todas as possibilidades de movimento das peças e suas variações. Elas estão lá, ocultas, e você, depois de rachar a cabeça calculando, pode decidir “livremente” por esse ou aquele movimento. É você usando seu livre arbítrio, com uma pequena diferença em relação ao seu oponente, o computador: enquanto você leva longos minutos para armar uma jogada, a máquina faz isso numa fração de segundo, pois para ela todas as possibilidades são conhecidas, o game inteiro já foi jogado. 

Suas escolhas podem conduzí-lo à esperada frase “Parabéns, você venceu”. Ou àquela indigesta “Sorry, you lose”. Mas tem nada não. Depois disso, o computador sempre perguntará se você topa outra partida.

Quando sentei para escrever este artigo, eu tinha três temas na cabeça. Com o “meu livre arbítrio”, escolhi este. Você gostou? Ganhou? Perdeu? Independentemente de sua resposta, espero que aceite o convite para o nosso jogo da próxima terça.

 

O essencial 

Publicado na edição de 14/06/11 

Num email cortês, o diretor de Redação Carlos Magno comunicou-me a sentença: o espaço “Plural” foi redimensionado e se espera de seus colaboradores que digam o que têm a dizer em 2 600 toques, aí incluídos os espaços entre as palavras. Foi um corte modesto, cerca de 10% sobre os 2 900 toques a que estávamos acostumados (algo como 40 linhas numa velha lauda de Olivetti). Mas para mim tem a aparência de desafio. 

Explico. Há poucos dias, ouvi do amigo Fernando de Sá Leitão, de Assu, que chama a atenção em meus textos o fato de eu sintetizar temas complexos e polêmicos com tão poucas palavras, sem perder a clareza. Coisa de amigo, pensei, pois a qualidade citada não é virtude minha, mas do jornalismo, escola onde fui treinado e militei profissionalmente por quase 40 anos. Mas nunca se deve afagar o ego já inflado de um jornalista, mesmo aposentado. Agora terei de dar pulinhos para que Fernando não mude sua opinião.

A nova regra do NJ também me obriga a resolver, ainda que só aparentemente, um paradoxo do universo que ronda minha relação com o teclado. Se, como diria o filósofo Karl Popper, o real, por ser transcendente e infinito, jamais pode ser apreendido, mas dele apenas podemos nos aproximar por meio da realidade dos sentidos e da realidade das idéias, de quantas palavras (quantos toques!) preciso para expressar, como idéia, o essencial que não cabe em palavras? 

Deus, vida, amor, espírito, matéria, o universo, o início, o fim... Como abordar esses aspectos essenciais senão mediante a tosca aproximação dos conceitos mutáveis com a experiência? Na verdade, que teoria explica qualquer coisa em definitivo? O real, como sugere a marcha da ciência, parece ser mais fantástico do que a mais delirante de nossas fantasias. Fazer ciência exige do cientista a humildade e o despojamento do físico Niels Bohr ao encarar, certa vez, uma idéia nada ortodoxa. Na ocasião, ele afirmou que a questão não era saber se a idéia era maluca, mas se era suficientemente maluca para ser verdade.

Quantas palavras?... O ponto não é a quantidade, mas a natureza finita da palavra. O ponto, em se tratando de comunicação, é a inquietude de nossa mente, que nos impede de ver o essencial e nos atira à verborragia febril. 

Hoje, quando sentei diante do computador, tudo o que eu queria dizer era: “O essencial é invisível aos olhos. Só se ver bem com o coração.” Minha coluna em 62 toques brilhantes do escritor Antoine de Saint-Exupéry. O essencial pede menos que os 140 toques do Twitter! Mas que fazer? Eu tinha 2 600 e, de novo, me enredei, brincando com as palavras. 

E quem não gosta de brincar?

 

Justiça e vingança 

Publicado na edição de 07/06/11 

Na semana passada, vi no UOL uma notícia que fortaleceu minha fé na bondade intrínseca à condição humana. Eis um trecho da nota: 

“O ano era 2001. Alguns dias depois do atentado de 11 de setembro, em Nova York, o americano Mark Stroman queria se vingar dos ataques e, no que chamou de "missão", matou a tiros dois imigrantes asiáticos e ainda feriu uma terceira pessoa no rosto. A terceira vítima era o muçulmano Rais Bhuiyan, que acabou perdendo a visão do olho atingido pelo tiro.

Preso sob acusação de cometer crimes de ódio, Stroman foi condenado à pena de morte no Texas (EUA). Agora, curiosamente, Bhuiyan está tentando invalidar a condenação do atirador. Bhuiyan criou a campanha "Mundo sem Ódio" na internet -- cujo slogan é "Odeie o pecado, mas não o pecador. Salve a vida de Mark Stroman" -- e está reunindo assinaturas para entregar uma petição à Justiça do Texas. "Eu perdoei Mark Stroman anos atrás. Acredito que ele foi ignorante e incapaz de distinguir entre o certo e o errado, do contrário, não teria feito o que fez", diz Bhuiyan.”

Terminada a leitura, corri ao site da campanha - http://worldwithouthate.org  –, onde encontrei argumentos que revelam a grandeza de caráter desse jovem imigrante paquistanês. 

Sua maior motivação surgiu do sofrimento imposto pelo gesto insano de seu algoz. “Tive muitos anos para crescer espiritualmente”, afirma Bhuiyan. “Agora tento fazer o melhor para impedir a perda de mais uma vida”. Perdoar, liberando-se do ódio, fez mais do que livrá-lo de uma existência condenada ao inferno do trauma e do rancor. Concedeu-lhe a visão clara de que crimes contra a vida – especialmente os crimes de ódio, estimulados por preconceitos – apenas acrescentam mais medo, sofrimento, ressentimentos e tragédias à rotina das pessoas. Sua ação é igualmente inspirada na melhor tradição do direito: justiça não é vingança. A petição com que pretende obter a comutação da pena de morte imposta a Stroman em pena de prisão de perpétua segue no fluxo dos que defendem a sacralidade da vida e o aspecto reeducativo da punição legal.

É auspicioso que se faça luz sobre o exemplo de Bhuiyan num momento em que mesmo estados formalmente defensores da ética e do direito que fundamentam a civilização sancionam, na prática, a vindita, como o foi o caso recente do assassinato a sangue frio do terrorista Osama bin Laden pelos Estados Unidos. Em que pese a retórica ds interesses estratégicos, a lógica por trás desses eventos é a mesma do policial embrutecido para quem “bandido bom é bandido morto” – ou seja, a mesma atitude reativa das multidões iradas, subjugadas pela emoção.

Que ganhamos com isso? A degradação de nossa dignidade e de nossa qualidade de vida. Séculos de vingança têm sustentado o círculo do ódio e do medo e acobertado a teia corruptora que impede a justiça de educar e redimir. “É preciso romper esse círculo”, diz Bhuiyan. E isso se faz, primeiro, dando uma chance ao amor, cuja natureza contém a justiça, e à justiça, que sem amor é tão somente desforra.

 

 

Meu reino por um verso 

Publicado na edição de 31/05/11 

Sim, eu um trocaria meus quase 40 anos de jornalismo, há cinco atracados no porto sossegado da aposentadoria, pela destreza de escrever um verso. Um único verso. Um verso definitivo, carregado de surpresa, conciso e belo, que revelasse ao mundo o meu sentir. Milagre de luz e sutileza que, no passado, jamais emergiu de minha barulhenta Olivetti e hoje é prodígio negado às teclas caladas de meu computador.

Acordei pensando nisso. Meu reino por um verso. Um verso singelo, mas tocante, no qual, seguindo os passos de Fernando Pessoa, eu ousasse fingir, e fingir tão completamente, a dor e a delícia que deveras sinto, que deveras sou... É devaneio, eu sei. Vã heresia na prisão de meus textos duros e inodoros, onde a quimera da objetividade sufoca e oculta o meu canto de pássaro. Que fazer? Esse o meu limite. Como consolo, resta-me o deleite de sussurrar para a relva o canto de outros em que me identifico.

Tolice, talvez dissesse o poeta Pessoa: “Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso”. Eu sei, eu sei. Mas o mundo certamente seria outro, e bem melhor que este, se em versos todo homem falasse, abrindo o coração onde o discurso utilitário insiste em amordaçá-lo. Em versos, parece, há mais sentir ou há só sentir. E sentir, diria Pessoa – sempre ele – é criar. “Sentir é pensar sem ideias e, por isso, compreender, visto que o universo não tem ideias”. Como a multidão, perdido em pensamentos que me aprisionam a normas, apenas sonho em imitar-lhe o brado: “Não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”.

Segunda-feira de céu azul. Sol dourado reluzindo em meu quintal. Intervalo breve nesses dias de nuvens cinzas e chuvas invernosas? Que importa... Acordei pensando em versos nos versos de outros. Versos de poetas que seguem ao lado, juntinho a nós, mas nem sempre são percebidos por nossas almas embriagadas de lógica e pragmatismo. Ganhei meu dia. 

Abro-me em Resina, antologia de Diva Cunha: “Que gesto é esse que me abraça / puro e alastrado / sobre a carne passageira? / Que corpo é esse onde habito? / De quem a voz que me devora / quando não digo o inomeável nome? / Como conter num mínimo ponto no espaço / esse deus que cresce incontido?”

Danço em Destino de Pássaros, de Francisco de Assis Câmara: “Será mais belo o pássaro pousando / ou quando cumpre o ofício de voar? / A pergunta, um enigma a decifrar. / A resposta, um soneto se formando. / E nas asas do pensar, imaginando / vejo-me pássaro, solto, em pleno ar. / Quando regresso, o pouso é meu penar. / Exercício de sofrer, se estou sonhando”.

Enfim, escondo-me, misturando-me outra vez à resina cortante da poeta Diva: “Quando Deus me habita / cresço para todos os lados. / Quando Deus me fala / apuro os ouvidos. / Quando somos um só / desapareço na luz”.

Num canto de jornal, meu canto. Meu sentir no sentimento deles, nossos poetas tão próximos e tão distantes.

 

Ouvir estrelas 

Publicado na edição de 24/05/11 

Um homem desapegado é perigoso. Em nossa sociedade materialista e imediatista, ele é tão ameaçador quanto um terrorista em sua fúria ideológica. É furacão que põe em xeque a ordem instituída no silêncio da não adesão. A história registra exemplos inesquecíveis da ação demolidora de homens desse naipe, os quais abalaram as estruturas de seu tempo sem jamais almejar os louros das conquistas convencionais. Três deles me encantam: Jesus, Francisco de Assis e Gandhi. Embora sejam alvos de estudos que mais complicam que explicam suas passagens revolucionárias entre nós, os três atuaram sob uma lógica simples e a mesma inspiração radical: o amor. 

Jesus propôs um reino que não era “deste mundo” e dispensava o aparato de poder disputado por judeus e romanos. Desagradou a ambos e foi por isso preso e assassinado. Ao convidar a multidão de explorados a adotar um novo estilo de vida, sua utopia era um tiro mortal em todos os que se nutriam das mazelas do sistema, a começar pelos comerciantes do templo. Francisco, renunciante da riqueza em sua loucura pelos pobres, desafiou a soberba do papa Inocêncio III e sua corte, conseguindo assim salvar a mensagem cristã em um período de obscurantismo e corrupção acentuados na Igreja católica e na Europa. Gandhi, ensinando seu povo a prescindir das tentações consumistas e a resistir na trincheira da ética, levou a Índia à independência e colocou a pá de cal sobre o poderoso império britânico.

Um homem desapegado “delira” e assusta. Seu não agir é ação que golpeia os sistemas de poder em sua raíz, negando-lhe validação. Que valor tem aquilo que não se disputa? Que temor inspira aquilo que não nos interessa? Sistemas são validados pelos que lhes atribuem significado e importância e se esforçam para desfrutar-lhes as benesses, enquanto temem serem delas excluídos. É isso que põe a engrenagem em movimento, com suas virtudes e defeitos. A aplicação da lei de oferta e procura a uma base de crenças em que a procura exacerbada mantém em alta o valor e a utilidade do objeto evidenciado.

Agora imagine o que aconteceria se, alterando o nosso conjunto de crenças, trocássemos suas prioridades, deixando em segundo plano a corrida ao ouro, o hedonismo e o interesse pessoal. Não é preciso ser gênio para inferir que com isso desapareceria, por exemplo, a motivação da ganância, da corrupção, dos crimes passionais, da violência em geral e de tantos outros desvios de conduta. Mas não há dúvida de que, a essa altura, a economia já não seria a mesma e o mapa das corporações - e, consequentemente, do poder - passaria por ajustes hoje inimagináveis. Terremoto nos negócios e na política e abertura para uma nova ordem mundial.

Podemos tornar um sonho assim realidade? “Ora, direis, ouvir estrelas. Certo perdeste o senso”, responderia a maioria, na carona dos versos de Bilac. Um homem desapegado, livre e destemido, sacaria, no entanto, o grand finale do poema: “E eu vos direi: amai para entendê-las./ Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e entender estrelas”.

 

Educação para a paz 

Publicado na edição de 17/05/11 

Deu nos jornais: nos últimos 15 anos, os Estados Unidos torraram 3 trilhões de dólares no combate ao terrorismo, aí incluídas as guerras do Iraque e do Afeganistão. Uma montanha de dinheiro suficiente para acabar com a fome na África. Mas esse número escandaloso espelha só a face menos onerosa dessa “guerra permanente”. Nele não estão computados os reflexos negativos do conflito na atividade econômica dos Estados Unidos e aliados e, principalmente, o preço pago pelos americanos e o resto do mundo sob a forma de medo, constrangimentos e restrições.

O Brasil não tem inimigos externos mas a violência urbana aqui já exibe um custo exorbitante, sem que isso, a exemplo da cruzada americana, resulte em solução eficaz e duradoura. Os gastos com segurança no país chegaram a cerca de 37 bilhões de reais no ano passado, dos quais 18 bilhões saíram dos cofres públicos. Obviamente, tais números não refletem o custo inestimável de dor, medo e restrições que aviltam a qualidade de vida de pobres e ricos.

A julgar pelo que assistimos até agora, a guerra por segurança não tem limites e pouco se pode esperar em benefícios efetivos pelo simples fato de, como toda guerra, esta também atuar sobre efeitos, deixando intocados os agentes que, no interior do homem, geram e sustentam todas as formas de violência. A resolução do problema pede educação e, sobretudo, educação do sentimento, aí incluído o resgate da espiritualidade reprimida por nosso ponto de vista materialista.

Existem, sim, alternativas às viciadas e danosas políticas de segurança, algumas já aplicadas em comunidades periféricas por organizações independentes. O pensamento conservador da sociedade, no entanto, as impede de avançar. Que governo ou empresa apostaria em um programa como o das escolas de perdão e reconciliação, executado com êxito em áreas conflituosas do Quênia e da Colômbia e no violento bairro do Campo Limpo, em São Paulo? Isso dispensa os bilhões gastos com armas e treinamento para o uso da força, mas exige uma difícil revisão de nossos valores éticos. O perdão é fundamental à paz e ao desarmamento e indispensável na reconstrução de vidas despedaçadas pela violência.

As escolas citadas trabalham a visão do perdão como uma libertação do passado, expressada por Hannah Arendt e outros pensadores, mas no fundo retomam a sabedoria das tradições espirituais, destrinçando-a num passo a passo para aplicação individual e coletiva. O perdão é mais que uma decisão. É uma atitude, um processo e uma forma de vida que se sustentam sobre uma percepção da condição humana, o que abrange a necessidade de perdoar a si mesmo, liberando-se de traumas e condicionamentos. Não é a aprovação de ações negativas ou a submissão à injustiça. É uma mudança interior que não reclama sequer a comunicação direta com aquele que é perdoado, embora quase sempre isso se torne possível.

Um mundo no qual o perdão se tornasse prática comum certamente seria menos violento e mais seguro que o atual, onde medo e rancor realimentam continuamente nossa rotina de pânico e agressões.

 

A medicina doente 

Publicado na edição de 10/05/11 

Há 10 anos escrevi uma reportagem de capa da revista Superinteressante que tinha o título da coluna de hoje. Foi uma explosão. Vieram parabéns pela abordagem de aspectos escamoteados no debate da assistência médica no Brasil e no mundo e também protestos, a maioria de gente ligada a corporações da área. A cobertura dos problemas da saúde costuma ser centrada na incompetência dos governos, um sintoma quase sempre associado à praga da corrupção. Por ignorância, falta de meios ou motivação imediatista, não se chega ao núcleo da questão: os defeitos do modelo biomédico vigente e sua manipulação por interesses econômicos bilionários.

O impacto do texto (acesse-o em http://planetajota.jor.br/medidoi.htm) se deve, em parte, a dados que ferem crenças consolidadas. É o caso de um estudo da Universidade Stanford, dos Estados Unidos, sobre os fatores que levam um homem a viver mais de 65 anos, no qual a assistência médica aparece como o item de menor peso: apenas 10% num conjunto em que o estilo de vida participa com 53%, as condições ambientais com 20% e a herança genética com 17%. Só isso abala, a um só tempo, o fundamento mecanicista que faz do médico um consertador de peça avariada, sem levar em conta a totalidade do paciente, o hábito das pessoas de abrir mão da responsabilidade sobre sua saúde, transferindo-a ao médico e seu arsenal químico, e, sobretudo, o fabuloso negócio das drogas, favorecido pelo foco no tratamento em vez da prevenção.

A reportagem incomoda também ao revelar mazelas de uma prática viciada: o abuso de procedimentos invasivos, como as cirurgias, as doenças iatrogênicas (causadas pelo uso inadequado ou excessivo de medicamentos), a influência da indústria farmacêutica nos cursos de medicina e na rotina de profissionais cooptados para o seu estafe de propaganda e mesmo a saúde dos médicos, categoria com índice crescente de dependência química.

Não se trata de um libelo contra a biomedicina, cuja excelência é comprovada por sua eficácia nas emergências, urgências e tratamentos de complicações que os recursos naturais de autocura e procedimentos de outras escolas médicas não conseguem resolver. O ponto é a necessidade de uma visão integrativa que inclua outras racionalidades médicas, ampliando benefícios e barateando custos. Desde o final do século XX, esse é um pensamento emergente em países como os Estados Unidos e a França, onde respectivamente 82% e 35% da população já superpõem a seus tratamentos na medicina oficial as terapias homeopáticas, a fitoterapia, a acupuntura e a meditação. E desde então esse é também um direito assegurado aos brasileiros pelo Sistema Único de Saúde (SUS), embora a ignorância de gestores públicos e os interesses inconfessáveis tenham obstado a sua universalização.

Dessa perspectiva, a intenção da Secretaria de Saúde do RN de implantar no Estado uma política de terapias integrativas complementares é um pioneirismo regional que pode melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas e aliviar a cena caótica de postos de saúde e hospitais. A proposta merece aplausos, mas não será fácil torná-la realidade. Pode-se fazer muito com pouco, mas é justo aí que surge a fúria sabotadora do big business e da corrupção velha de guerra.

 

Osama, Sai Baba e nós 

Publicado na edição de 03/05/11 

Manhã de segunda-feira, 2 de maio. Os portais da Internet estão repletos de notícias sobre a morte de Osama bin Laden, finalmente alcançado pelos militares americanos no Paquistão. O assunto é manchete em todos. É natural. Por seu significado político e estratégico e por seu simbolismo, que coroa a reação dos Estados Unidos ao terrível atentado de 11 de setembro de 2001, a morte de Osama não poderia ser tratada de outro modo pelos editores, exceto se uma mudança profunda nos valores sociais viesse a alterar a nossa leitura dos fatos e o nosso conceito de mérito.

Manhã da segunda-feira passada, 25 de abril. Sai Baba, o guru indiano que pregou a paz entre as religiões e o amor ao próximo traduzido em ações, está morto. Ele atuou em favor da vida e fez o bem a milhões de pessoas. Os jornais e os sites de notícias praticamente ignoram sua morte natural e tranquila. Eu próprio, que em 2006 tive a sorte de conhecê-lo e pousar no seu ashram em Puttaparthi, no sul da Índia, só fiquei sabendo da notícia através de posts no Twitter. Seria demais esperar que a mídia elegesse a morte do líder espiritual para as primeiras páginas, a menos que uma mudança radical de valores viesse a alterar os critérios de avaliação dos eventos. A omissão generalizada, no entanto, é reveladora da pobreza de princípios que norteia a sociedade e seu moderno aparato tecno-ideológico. Nessa perspectiva, a morte violenta de um ícone da violência será sempre um apelo mais forte que a serena passagem de um símbolo do amor e da inclusão. 

Cada ação gera uma reação em seu próprio nível. O sucesso da operação militar antiterrorista foi saudado pela maioria dos países. Não há como imaginar o enfrentamento da fúria homicida sem reações à sua altura, a menos que se trabalhe com outro paradigma ético, como o de Jesus e o de Sai Baba, por exemplo. Da forma como moldamos o mundo, é impossível prescindir da força legal que, em situações extremas, pode realizar o trabalho sujo de opor-se ao mal com as armas do mal. A questão é que também essas ações não se esgotam em si mesmas, perpetuando reações em círculo.

De tudo o que vejo na net, nesta manhã histórica, é uma foto de bombeiros de Nova York comemorando eufóricos a morte de Osama o que mais mexe comigo, entristecendo-me. Lembro do altruísmo heróico das centenas de bombeiros que avançaram para a morte trágica, no interior das torres gêmeas, na tentativa de salvar inocentes atacados pelo fanatismo cruel. Naquele lastimável 11 de setembro foram eles que, em meio à treva dos corações mergulhados no ódio, reafirmaram para nós que também a bondade é intrínseca à condição humana.

O que foi feito no domingo passado em Islamabad é o que podia ser feito no mundo que temos e cultivamos. O planeta ficou mais seguro? Claro que não. Não haverá mundo seguro enquanto formos capazes de nos alegrarmos com a morte violenta de um homem, mesmo que seja a de um terrorista hediondo que precisa ser contido.

 

O príncipe e o casamento 

Publicado na edição de 26/04/11 

Trinta anos depois do espetáculo de Charles e Diana, a realeza britânica encanta o mundo com um novo conto de fadas da era midiática. O enredo é perfeito: um príncipe, herdeiro do trono, apaixona-se por uma plebéia e oferece-lhe o reino em troca de seu amor. No enlace de William de Gales e Kate Middleton, esse ingrediente mítico é o que fascina os súditos, o milhão  de turistas que irão a Londres por causa do casório e os 2,5 bilhões de pessoas que em todo o mundo acompanharão a cerimônia pela TV. Não importa se na vida ordinária a condição humana quase sempre borre a cena primorosa. 

Charles e Diana logo conheceram o reverso da magia. Talvez sejam mais suaves os próximos capítulos da fairytale de William e Kate. Há sinais dos tempos nessa união. A eleita do príncipe não é virgem e, mesmo comedida, não parece inclinada a encarnar uma personagem. O príncipe é despojado, tem o espírito de sua geração e vai viver a milhas de distância da prisão ritualística do palácio. O evento londrino, de algum modo, nos leva a pensar sobre o futuro dos matrimônios.

Passei a juventude ouvindo profecias sobre o fim do casamento. Inspirada pelos hippies e pela liberação sexual, parte de minha tribo não via como conciliar a liberdade do indivíduo com uma instituição que atira sobre criaturas imperfeitas a responsabilidade de uma perfeição inalcançável. De lá para cá, muita água rolou, a crise nos relacionamentos mostrou sua face mais feia, mas o casamento sobreviveu. 

Há mais gente casando, ou querendo casar, do que sugere a aparência de um tempo que exalta a “ficada” e o divórcio. O impulso natural de acasalamento duradouro, característica de pouquíssimas espécies, impõe-se sobre o discurso libertário, fechando os olhos dos apaixonados – e até dos interesseiros – ao contraponto das formalidades implacáveis. Não importa se aqui, como na fairytale dos príncipes, a história possa ter um final amargo. O sonho não morreu, mas a realidade alterou, e certamente há de alterar ainda mais nas próximas décadas, o contrato das uniões formais, um velho instrumento de coesão social e crescimento pessoal e coletivo.

O caminho já percorrido sinaliza casamentos mais flexíveis e compatíveis com as limitações humanas. E, em que pese a atual corrupção dos sentimentos e o traço de prostituição implícita ou explícita de muitas uniões, a tendência é de matrimônios mais apoiados no afeto que nos interesses materiais de cônjuges ou famílias, uma prática milenar que o romantismo enfraqueceu.

Restará ainda a cegueira egóica, alimentada pelo próprio romantismo, ligeira em forjar algemas e promover indignidades em nome do amor. Mas talvez seja mais fácil ao amante, em sua aflição depuradora, finalmente entender e aceitar a liberdade inerente ao amor verdadeiro. Se descartarem a fantasia do romance ideal, os casais estarão livres da expectativa de desempenho e segurança que os aprisiona a um relacionamento entre imagens, não entre humanos reais. Será um salto de qualidade. Sem imagens não há conflito. O amor não tem imagem. O amor é pura abertura para a vida, seu fluxo e suas surpresas.

 

Sabedoria ou erudição? 

Publicado na edição de 19/04/11 

Não é necessário ser gênio para notar que em nós há mais informação que conhecimento e mais conhecimento que sabedoria. Costumamos empregar essas três palavras com a mesma acepção, mas é grande a distância que separa seus reais significados. Informação é o dado em estado bruto, aquilo que captamos através dos sentidos. Conhecimento é o resultado do processamento dos dados, o que pressupõe análises e conexões. Já a sabedoria é o conhecimento digerido em um nível mais profundo, não raro intuitivo, que acaba estruturando um novo modo de pensar.

Nosso tempo febril e a tecnologia produzem montanhas de dados cujo efeito em nossas vidas nem sempre é saudável. Há bilhões de pessoas “antenadas”, em dia com as novidades, que, no entanto, seguem desnorteadas, incapazes de perceber contextos, fazer escolhas e traçar o próprio caminho. Estão simplesmente intoxicadas pela overdose de informação não processada. Ao lado dessa massa caótica, milhões se tornaram aptos a operar no nível do conhecimento, sob a motivação do pragmatismo, sem que isso, necessariamente, se manifeste como criatividade interna – isto é, sabedoria – ou mesmo inteligência, a destreza mental que nos permite aprender e compreender.

É fácil notar a fugacidade do “antenado” perdido em seus dados desconexos, mas é difícil reconhecer a superficialidade de nossa erudição. Muita gente dá show recitando trechos de autores renomados diante de situações assemelhadas às das narrativas, mas é incapaz de elaborar uma opinião ou solução para o problema, uma mostra de que a erudição, embora possa secundar a sabedoria e a inteligência, muitas vezes não passa de exibição de uma memória afiada. Podemos saber de cor textos de grande expressão artística ou filosófica sem que isso altere nossas crenças e ações viciadas. 

A sabedoria não decorre do acúmulo de conhecimentos, mas da reflexão e da meditação daquilo que se conhece. É possível alguém ser sábio sem erudição, como provam tantas pessoas que jamais tiveram acesso ao conhecimento acadêmico, muitas vezes em nossas famílias. Quem nunca conviveu com uma bisavó iletrada ou um tio bronco hábeis em fazer associações e extrair de eventos corriqueiros lições óbvias que ninguém enxergou antes? Sua aptidão para lidar com situações adversas nos surpreende, atestando que, mais do que meros portadores, eles são o próprio conhecimento emergindo da mente e do coração.

Sempre que contemplo a sabedoria dos simples, convenço-me do acerto de Lao-Tsé, o sábio do Tao, ao afirmar: “Na busca do conhecimento, cada dia algo é adquirido. Na busca da sabedoria, cada dia algo é abandonado”. Sobrecarregados de informação, temos sufocado a intuição e a sensibilidade em prejuízo da sabedoria que nos presenteia com entendimento pleno e fruição da vida. Ficamos mais pobres, ainda que aparentemente ricos. Um paradoxo que nos leva a indagar com o poeta T. S Eliot: “Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?”

 

Por trás do massacre 

Publicado na edição de 12/04/11 

Até agora, além dos mortos e feridos e do sofrimento das famílias atingidas, só há um dado indiscutível na tragédia ocorrida, na semana passada, na Escola Tasso da Silveira, do Rio de Janeiro: a mente doentia do atirador, o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos. Ninguém planeja e executa um massacre de crianças inocentes se não estiver doente da cabeça e da alma. Na verdade, ninguém mata se não estiver, ainda que por um momento, perturbado. Tudo mais que se tem falado sobre antecedentes que levaram à loucura do assassino são ainda conjeturas no esforço para identificar causas e prevenir novas chacinas.

Entre os fatores realçados, quatro me chamam a atenção, não só por sua obviedade, passível de ser constatada por qualquer um, mas também por serem traços de nossa perturbação coletiva, só percebida pelos mais atentos. Vejamos:

Bullying – o assédio e intimidação de alguém por pessoas de seu círculo de convivência. É prática antiga e abominável, apoiada em preconceitos, que tem se intensificado no ambiente escolar nos últimos tempos. Adolescente, Wellington teria sido ridicularizado e humilhado por colegas na Tasso da Silveira. Se isso causaria estragos emocionais numa pessoa normal, imagine o que pode acontecer se a vítima padece de algum distúrbio mental...

Fanatismo religioso – visão retrógrada da divindade e da espiritualidade que conduz a posturas e ações discriminatórias, perpetuando na sociedade pós-moderna o senso das religiões tribais do passado e seus deuses protetores em guerra permanente. É algo que sensibiliza facilmente pessoas inseguras e adolescentes em busca de fortaleza na ação grupal, seja uma religião ou uma torcida de futebol. A mente frágil de Wellington encantou-se com o radicalismo de certos grupos judaico-cristãos e islâmicos.

Sensacionalismo – a divulgação espalhafatosa e repetitiva de escândalos e crimes pela mídia, na disputa por audiência. Sobre pessoas “saudáveis” isso tem um efeito catarse, logo seguido de um reforço do medo, principal causa da violência. Nas mentes desequilibradas de psicopatas e marginais, ao que tudo indica, renova a esperança de sucesso em projetos sombrios e a intenção de serem resgatados do anonimato. Wellington, ao que se sabe, era consumidor voraz de notícias relacionadas ao terrorismo e violência em geral.

Acesso a armas – é tão fácil adquirir uma arma, legal ou ilegalmente, quanto comprar um picolé. Wellington talvez tenha recorrido a atravessadores porque não tinha a idade mínima, 25 anos, para comprar seus dois revólveres e a farta munição numa loja. A ilusão de que uma arma em casa protege a família levou a maioria dos eleitores a dizer não ao desarmamento no plebiscito de 2005. Está na hora de rediscutir o assunto.

Esses fatores estão entrelaçados e compõem, junto com outros, um conjunto de rotinas sustentado por nossas crenças, a base de nosso mundo real. É sobre elas que devemos atuar, se almejamos mudança. Mas isso nunca será fácil. Todos queremos a omelete da paz, mas quem se dispõe a quebrar o ovo? 

 

Sou grato, sou feliz 

Publicado na edição de 05/04/11 

Na timeline do twitter encontrei esta pérola sobre a dissintonia entre palavra, sentimento e intenção: “Foi mal não é desculpa. Valeu não é obrigado. E eu também não é eu te amo”. A luz amarela logo acendeu. Eu tenho abusado das gírias nascidas da comunicação superficial e ciclotímica pela Internet, sem notar que, assim, amplio o fosso entre o sentir e o falar, esvaziando ainda mais minha relação com o outro e comigo mesmo. 

“Valeu” é a minha preferida. Aparentemente, a palavrinha cunhada pelas galeras soa mais forte que o velho “obrigado”. É um verbo, traduz ação. É um signo carregado de vibração. Seu significado contém uma explosão emocional, algo como um grito na hora do gol. Mas falta-lhe a significação serena da gratidão infundida no adjetivo tradicional com o qual expressamos agradecimento. Esquecer a gratidão é empobrecer a vida, a nossa vida...

A troca de obrigado por valeu até poderia ser vista como um sinal dos tempos. Em nosso tempo de egos inflados, é natural que a euforia pela imposição de vontades e a realização de desejos pessoais sufoque a percepção de que nada nem ninguém existe por si mesmo. A interdependência abrange todos os seres, todos dependemos de uma cadeia de agentes e processos na eterna teia mutante da vida. Não há vencedores nem heróis, nem santos nem sábios sozinhos. Não há obra que não seja coletiva. Apesar disso, a ilusão de que existimos separados do universo, causada pela mente e pelo senso de ego, leva-nos constantemente a eleger autores isolados em um divertido jogo de aparências.

Também essa falha de visão não existe por si. Suas raízes se apóiam na ignorância sobre nossa essência atemporal e ilimitada – a dimensão espiritual, onde há plenitude -, e na carência que permeia a experiência existencial exclusiva na dimensão do ego. A gratidão é um sentimento cuja frequência e intensidade são proporcionais à percepção de nossa plenitude. A ingratidão é associada a um estado de carência sustentado pelo mais puro egoísmo.

O nosso não reconhecimento das dádivas da vida não é de hoje, embora isso se tenha intensificado em nossa cultura individualista e consumista. É exemplar o caso dos dez leprosos que, tendo implorado a Jesus por saúde, receberam dele a orientação para se apresentarem aos sacerdotes. A caminho do templo, todos foram curados, mas apenas um voltou ao mestre para agradecer. A este, Jesus teria dito “a tua fé te salvou”, uma frase emblemática dos benefícios da gratidão.

O místico Meister Eckhart costumava dizer que se a única oração que fizéssemos ao longo da existência se resumisse à palavra “obrigado”, isso já seria suficiente. Ser grato é ser feliz. A gratidão não nos aprisiona, antes liberta-nos da dependência emocional a pessoas e coisas, tornando-nos aptos a enxergar, na perspectiva da unidade, as bênçãos inerentes à interpendência da vida. Ela promove a energia do amor e instala em nós a tão sonhada sensação de suficiência. 

Valeu? 

Eu prefiro dizer obrigado a todos os que, na infinita cadeia da vida, contribuíram com trabalho e ensinamentos para que este texto chegasse até você.

 

Vida, morte e... cinema 

Publicado na edição de 29/03/11 

Dogen Zenji, fundador da escola Soto Zen, do budismo japonês, escreveu a propósito da busca espiritual: “Estudar o caminho é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo”. Uso esse ensinamento do grande mestre para entender melhor o tema da morte. 

Não existe assunto mais recorrente. A noção de nossa finitude é a raiz de nossa angústia existencial e, ao mesmo tempo, um propulsor de nossos movimentos e de nossa criatividade. Apesar disso, desperdiçamos nossa relação com a morte, evitando encará-la antes da hora inevitável, na ilusão de que assim fazendo privilegiamos a vida e aplacamos nossa perplexidade. 

É nesse ponto que aplico uma paráfrase da sabedoria de Dogen. Falar sobre a morte é esquecer da morte - esquecer de si mesmo, desse “eu” inseguro, aprisionado a miragens. É descobrir-se vivo numa grande teia, deleite de sentir-se parte, sentir-se meio e não fim.

Não dá para acessar essa dimensão sem antes fazer as pazes com a indesejada, compreendê-la em sua natureza e aceitá-la como um aspecto essencial do próprio fenômeno da vida, que dela carece para manifestar-se. Vida e morte são faces da mesma moeda. A morte está presente na impermanência de todas as coisas, nas mutações de cada segundo. E, no entanto, o que se assiste nessa sucessão de apagar e acender de luzes é a continuidade do mesmo espetáculo – o show da vida – que surpreende a cada ato.

Escrevo esta pensata estimulado pelo lançamento, esta semana, de um novo título do chamado cinema transcendental brasileiro: o filme “As mães de Chico Xavier”. Hollywood já faz isso há alguns anos. O teatro e a arte em geral tratam da morte e da vida no além há séculos. Na cinematografia nacional, a novidade é que o gênero vem florescendo sob a inspiração das idéias espíritas e da vida do médium Chico Xavier, dois ingredientes que abrem a possibilidade de abordagens inéditas e de um jeito brasileiro de entrelaçar a vida de “lá” e a “daqui”. Em “As mães de Chico”, os diretores Glauber Filho e Halder Gomes alcançam esse objetivo com um filme suave, que toca o coração e provoca o pensamento ao relacionar espiritualidade e questões dramáticas do dia a dia, como o suicídio, as drogas e o aborto.

É uma boa notícia que, em meio à sofreguidão materialista, estejamos falando mais sobre a morte e, consequentemente, habilitando-nos a desfrutar serenamente a vida, em qualquer de suas dimensões. Obviamente nossa percepção ainda se ressente da sutileza do olhar do sábio ou do místico, que vêem a vida de uma perspectiva transpessoal. Ela é ainda limitada por desejos egóicos de satisfação pessoal que, não raro, corrompem nossas descobertas com a adição de novos medos e ilusões. Mas isso também passa. Encarar a morte e aceitá-la é um passo largo em direção à humildade. E humildade, como diria o rabino Nilton Bonder, é tão só “o contentamento por sermos parte de algo belo e maravilhoso”.

 

Japão, ação e reação 

Publicado na edição de 22/03/11 

Pelo menos 15 mil pessoas devem ter perecido no terremoto e no tsumani que devastaram este mês uma parte do Japão e, ao danificar a usina de Fukushima, ameaçaram o mundo com uma nova catástrofe nuclear. É o mesmo número de mortos do grande sismo, também seguido de maremoto, que em 1º de novembro de 1755 destruiu Lisboa, então a quarta maior cidade da Europa. Há outra conexão entre os dois eventos: o tremor no Japão alcançou 8,9 pontos na escala Richter, uma magnitude semelhante a que é estimada para o abalo de Lisboa.

No século XVIII não havia TV nem internet para impactar o mundo com imagens apocalípticas, como as que vimos no caso japonês e no terremoto que arruinou o Haiti no ano passado. A notícia da calamidade lisboeta só chegou a Londres três meses depois. Ainda hoje, porém, as narrativas dramáticas do pavor de sobreviventes ensangüentados, arrastando membros expostos entre metralhas, e do fogo que durante cinco dias transformou em cinzas o que restara de pé na cidade justificam a excitação do imaginário popular e o das elites da época. O que explicaria o fato de Lisboa, uma cidade tão beata, ter sido alvo da fúria da natureza precisamente na data consagrada a todos os santos no calendário católico? Por que seu povo fervoroso e contribuinte fiel da arca da Igreja sofreria um flagelo à altura de Sodoma e Gomorra?

Os tempos são outros, o ocidente tornou-se laico, mas a cada tragédia natural repetimos as mesmas perguntas atônitas, agora disfarçadas pelo verniz intelectual que dá ares de formulação científica à nossa dificuldade de lidar com os incontroláveis movimentos da vida. Por que o Japão, tão preparado, organizado e disciplinado, capaz de comover o mundo com a postura serena e ética de sua gente mesmo em situação tão extrema? Por que o Haiti tão pobre e sofrido, já há séculos abandonado à própria sorte?

Não é simples estabelecer uma relação de causa e efeito entre desastres naturais e a história de um povo. Sempre corremos o risco de cair na resposta simplória da “ira de Deus”, reforçando preconceitos.  Mas se é verdade que uma borboleta batendo asas na Ásia tem a ver com o clima aqui, como hoje é aceitável diante de novas teorias científicas, é razoável admitir que pensamentos e atitudes também tomem parte nessa intricada cadeia reativa.

As ilações são mais fáceis quando, em vez do antes, focamos o depois desses eventos inusitados. Catástrofes costumam ser sucedidas por ondas de progresso social, deixando para trás muitas imperfeições e mazelas. A de Lisboa, que levaria à construção dos primeiros prédios resistentes a terremotos e ao surgimento da ciência da sismologia, acabou influenciando até a inconfidência mineira e, mais tarde, a independência do Brasil em razão do aumento de impostos para cobrir o rombo no tesouro português, devido às obras de reconstrução da cidade. A do Japão atual talvez nos leve a repensar o uso da energia nuclear e o nosso próprio modelo econômico.

Há causa e efeito, sim, mas, quando a dor se manifesta, não significa necessariamente que a natureza está aplicando uma punição ao homem. Embora isso não nos agrade, dor é indispensável ao processo evolutivo. É ela que desafia a inteligência e o coração e faz crescer indivíduos e a humanidade.

 

Onde nasce a frustração 

Publicado na edição de 15/03/11 

E se, de repente, alguém interrompesse este seu momento de paz e leitura e lhe alvejasse com a pergunta: qual o propósito de sua vida? Imagino que você teria dificuldade em responder, pelo menos com precisão e sinceridade. Eu teria. A maioria da população também. Não é regra, em nossa cultura, estimular uma pessoa a meditar sobre sua finalidade na vida e, por consequência, sobre seus dons ou talentos - aquilo que a torna única e especial e deveria ser base de sua atuação comunitária. Em geral, vivemos no piloto automático, fazendo coisas que nos foram impostas ou buscadas sob a motivação de acumular dinheiro e prestígio, supostamente os garantidores de nossa sobrevivência na selva civilizada e de nossa realização aparente.

Como nossos pais, numa época em que podiam determinar antes do nascimento a profissão de um filho, procuramos induzir nossas crianças ao sucesso financeiro, sem levar em conta suas características psicológicas, desejos e habilidades. Para isso nem é preciso o autoritarismo do passado. A crença corrente no poder do dinheiro, as tendências de mercado, o apelo do marketing e o fetiche da fama ajudam a “fazer a cabeça” de jovens sem ideal, empurrando-os para uma ilusão de alto custo individual e coletivo. Imenso é o malogro de quem faz o que não gosta. E seria ingenuidade debitarmos apenas na coluna dos baixos salários e das precárias condições de trabalho, a enxurrada de profissionais mau-humorados, preguiçosos, relapsos, indiferentes, irresponsáveis, desonestos, arrogantes, incompetentes e sem nenhuma inclinação para servir que encontramos nos mais diferentes ramos de atividade, especialmente no serviço público, onde são escassos ou inexistentes os critérios de avaliação e generosas as cláusulas de estabilidade no emprego. 

Quantos artesãos natos estão hoje aprisionados no papel de médico? Quantos cantores estão sufocados na armadura do burocrata? Quantos comerciantes estão paralisados sob a bata do professor? A poda da alma tem efeitos desastrosos. Ela nos transforma em zumbis perdidos nos movimentos vegetativos, eternamente carentes de vida e sentido. É o inferno da frustração, onde caímos pela incapacidade de descobrir nossa missão e onde permanecemos estagnados pelo receio de romper algemas e virar a mesa.

No caminho do crescimento pessoal e da felicidade não existe receita pronta, mas arrisco-me a afirmar que teríamos mais gente feliz e comunidades bem servidas se, desde criança, perscrutássemos o espírito com objetivo de identificar nossos talentos e estabelecer nosso propósito de vida. 

O que é que eu faço me divertindo, sem sentir o passar das horas? O que eu faço bem e de um jeito só meu? O que me faz sentir-me útil e acende em mim o desejo de servir à humanidade? Quando conseguimos responder com segurança a perguntas como essas, simples e indispensáveis, é por que, finalmente, encontramos nosso lugar no mundo, aquele no qual estamos sempre plenos e realizados, gratos à vida e disponíveis para os desafios evolutivos.

 

Verdade silenciosa 

Publicado na edição de 01/03/11 

Abro ao acaso o livro O poder do agora, de Eckhart Tolle, e deparo com uma afirmação que transita na contramão das crenças e valores que sustentam o nosso mundo. “Toda negatividade é causada pelo acúmulo de tempo psicológico”, diz o autor. No estudo das narrativas, o tempo psicológico, que flui na imaginação, é colocado em contraposição ao tempo cronológico, o tempo “real” medido pelo relógio. No livro de Tolle, é tudo aquilo que está fora do agora, a única instância da realidade. Passado e futuro são ficções. O tempo é uma ficção. Um simples movimento do dedo mindinho ou um pensamento só são possíveis no presente, no agora.

Isso é fato. Mas a cultura nega, a mente nega. Vivemos no tempo psicológico, negando o presente, e o preço pago por essa distração é cada vez mais alto na teia de miragens a que nos aprisionamos. O desconforto, a ansiedade, o estresse e todas as manifestações de medo resultam do excesso de futuro em nossas vidas, lembra Tolle. A culpa, o ressentimento, a tristeza, a injustiça e a impossibilidade do perdão são sintomas do excesso de passado. Não existem problemas no agora, todos eles acontecem no tempo, seja este de 1 minuto ou 10 anos.

É difícil compreender esse conceito quando nos encontramos atolados nas ocupações e obrigações de uma rotina construída na linha do tempo psicológico. Os negócios, a política, os relacionamentos e, principalmente, a salvação da alma – bandeira das religiões predominantes – estão apoiados na expectativa de uma felicidade que está por vir e em nome da qual, muitas vezes, atropelamos a vida e as pessoas com o uso de meios abomináveis. O próprio Tolle, um alemão de carreira brilhante na Universidade Cambridge, na Inglaterra, só percebeu isso ao mergulhar numa crise existencial e saltar para fora do sistema, refazendo o caminho de desapego e introspecção de sábios e loucos até descobrir o seu novo lugar no mundo.

Podemos alegar que o foco no futuro estabelece a esperança. E a esperança nos leva a prosseguir. Foi assim que chegamos até aqui, edificando a civilização. O foco permanente no futuro, no entanto, perpetua a negação do presente e, consequentemente, a infelicidade sinalizada pelas tensões e pela insegurança. A sanidade da humanidade pede o “delírio” de rompermos um padrão mental que nos remete continuamente a outro lugar em busca de uma “situação de vida” enquanto a vida está aqui e agora. Um delírio que nos revele o engano dos sentidos e a loucura do corpo e nos devolva a verdade silenciosa a que se refere o belo poema de Cecília Meireles:

“Os teus ouvidos estão enganados / E os teus olhos / E as tuas mãos / E a tua boca anda mentindo / Enganada pelos teus sentidos / Faze silêncio no teu corpo / E escuta-te / Há uma verdade silenciosa dentro de ti / A verdade sem palavras / Que procuras inutilmente / Há tanto tempo / Pelo teu corpo, que enlouqueceu.”

 

Não chore pela Argentina 

Publicado na edição de 22/02/11 

Numa madrugada de julho de 1976, eu estava em um ônibus que saíra de Mendoza, aos pés da cordilheira dos Andes, para Buenos Aires quando, próximo à cidade de Córdoba, vi a cara da última ditadura militar argentina. Detido num trecho deserto da rodovia, o veículo foi revistado por uma patrulha do Exército, os passageiros arrancados do sono para exibir documentos e pertences tendo apenas as estrelas por testemunhas. Qualquer coisa poderia ter acontecido ali, embora na ocasião eu, ainda jovem, não me tenha dado conta do perigo. Das ditaduras que assolaram o Cone Sul nos estertores da Guerra Fria, a da Argentina foi a mais sanguinolenta, gerando cerca de 30 mil desaparecidos.

Lembrei desse episódio há dez dias quando, de bermuda e camiseta, posei para foto no gabinete da presidenta Cristina Kirchner na Casa Rosada, em Buenos Aires. Foi algo inusitado. Outra vez num ônibus, eu retornava do El Caminito, reduto turístico-boêmio montado em antigos cortiços do bairro de La Boca, quando ao passar pela Plaza de Mayo deparei com turistas cruzando o arco do palácio presidencial. Desci, juntei-me ao grupo e, após submeter-me a um detector de metais, logo estava percorrendo os salões da área térrea – uma galeria de heróis e personalidades latino-americanos na qual o Brasil é representado por Tiradentes e Getúlio Vargas -, sem que ninguém me pedisse sequer um documento. É possível ir além, e eu fui. Os próprios “granaderos” da Presidência, equivalentes aos Dragões da Independência do Exército brasileiro, conduzem os visitantes à pompa e ao esplendor do segundo piso com o seu salão branco das grandes recepções, o salão norte das reuniões ministeriais, o gabinete do chefe do governo e o grande balcão de onde Eva Perón e todos os presidentes civis falaram ao povo e onde, em 1996, Madonna cantou Don´t cry for me, Argentina durante a filmagem da ópera-rock Evita.

Imagino o que se passa na cabeça e no coração de um argentino ao contemplar a Plaza de Mayo dessa varanda histórica, se até um estrangeiro, como eu, emociona-se ao cotejar a praça hoje ocupada pacificamente por grupos de pressão com o logradouro asséptico e lúgubre que conheci há 35 anos, sob a mira de metralhadoras do poder usurpado. A paz de uma ditadura, mesmo na ausência de cadáveres e presos de consciência, é sempre a paz das sepulturas. A vida emerge da diversidade que, no ambito político, é assegurada pela democracia, em que pese suas fragilidades e defeitos em permanente processo de depuração. Nela, sob o império da lei, os interesses contraditórios coexistem debaixo de uma unidade de princípios e a força das armas se curva ao estado de direito. 

É emblemático, na visita à Casa Rosada, que a postura marcial dos guardas engalanados se transforme em gentilezas, sorrisos e fotos com os visitantes. E é auspicioso para qualquer um reencontrar Buenos Aires em novo momento de pujança e liberdades que confirmam a metrópole como um dos melhores pólos culturais do mundo e um grande destino turístico.

 

Passeio na rambla 

Publicado na edição de 15/02/11 

A natureza foi generosa com Montevidéu. Esculpiu sua orla em recortes magníficos onde cabem nove belas praias fluviais, que os uruguaios souberam valorizar ornamentando-as com a imponente "rambla", uma via costeira de 22 quilômetros de extensão, de faixas amplas e calçadão sinalizado. Ela é via de acesso fácil a qualquer bairro e também ponto de encontro e de comemorações. Em alguns trechos lembra Copacabana: edifícios a perder de vista e muitas áreas para práticas esportivas. Mas não é mar a vastidão de águas que abraça a cidade. É apenas o estuário do rio da Prata, que ali é ainda reforçado pelo encontro com o rio Uruguai. Lindo cenário.

A natureza foi dura com Montevidéu. Colocou-a entre Buenos Aires, uma metrópole de múltiplos atrativos, e Punta del Leste, um balneário que há décadas seduz os endinheirados. A capital do Uruguai ficou esquecida, principalmente pelos brasileiros, que assim desperdiçam a oportunidade de conhecer um pedaço da América hispânica profundamente ligado à nossa história. 

Depois dos anos de glamour, que consolidaram seu desenho europeu e sua arquitetura suntuosa, com muita art dècor, a cidade parou no tempo, sua população envelheceu nas décadas de 70 e 80. Mas isso está mudando.

Minha primeira vez em Montevidéu foi em 1976, no auge do período depressivo. Encontrei uma cidade estagnada onde circulavam ônibus e automóveis da década de 30, eternamente restaurados em oficinas caseiras. Havia desemprego e tristeza no olhar das pessoas. Como os demais países do Cone Sul na época, o Uruguai vivia sob ditadura militar e toda expressão de opinião e sentimento era contida. Predominava a nostalgia de uma nação orgulhosa de ter sediado a primeira Copa do Mundo e vivido o fausto dos anos 50.

Só retornei agora e me surpreendi. Montevidéu renasceu. Ao lado da Ciudad Vieja, restaurada e pronta para ser desfrutada em toda a sua beleza arquitetônica, uma cidade nova, efervescente sem perder a classe das atitudes recatadas e do senso de organização, reflete novos conceitos sob uma atmosfera política e econômica positiva.

Montevidéu tem hoje um dos aeroportos mais bonitos do mundo, já dispõe de shoppings a altura de uma cidade de 1,5 milhão de habitantes, grandes hotéis estão chegando e a vida noturna se agita... Mas não é isso o que me encanta. 

Prefiro o ritmo da Montevidéu sobrevivente na Ciudad Vieja e em alguns trechos da rambla, repleta de estilo e arte, ainda não invadida por hordas de turistas e ciosa de seus pequenos museus e galerias. Uma Montevidéu tranquila onde se pode perambular sem pressa, só às vezes provocado pelo jazz, tango uruguaio ou candombe (a batida afro local) emergente de algum bar ou casa de show.

A novidade que me atrai? O buquebus, o ferry boat moderno e confortável que liga Montevidéu a Buenos Aires em 3h30 de travessia do imenso Prata. Provei. Uma delícia. E foi assim que, na manhã de um domingo ensolarado, pude teclar este texto à sombra do fantástico bulevar da avenida 9 de Julio, entre o Obelisco e o Teatro Colón, no centro de Buenos Aires. Mas isso já é outra história...

 

 

Calamidade moral 

Publicado na edição de 08/02/11 

A jovem magérrima, vestindo apenas uma camiseta, aproxima-se do ponto de ônibus, em São Paulo, e pede um cigarro. Não fala, só balbucia. Os olhos verdes, sem brilho, imploram. As pessoas se afastam e murmuram críticas. Minutos depois, a menina cai, treme, agita-se.  Então, do meio do pequeno grupo, a voz de  um rapaz, limpo e bem vestido, se destaca. "Tem gente que não sabe viver", diz, contrariado. "Eu também uso crack, mas nunca fiquei assim, largado pelas ruas".

É uma cena emblemática. São Paulo, nossa megalópole, parece resignada com a devastação de corpos e almas promovida pela banalização do consumo e do negócio das drogas. Há os que "sabem" cachimbar e os que "não sabem", os que viram lixo humano e os que permanecem aninhados na família e no emprego... 

Os "nóias" paulistanos estão em toda parte. Para os mais pobres, a feira livre das drogas no centro e em pontos periféricos funciona dia e noite. Ruas inteiras tomadas por desvalidos na busca alucinada das pedras da morte. Nos bairros chiques e nas cercanias das empresas, o delivery do vício garante abastecimento com comodidade.

São cenas fortes do lado obscuro de nossas grandes cidades que, lamentavelmente, tem sido imitadas no resto do país. Acabo de chegar a Porto Alegre e eis que vejo na tevê as mesmas imagens a que se acostumaram o Rio e Sampa: postos de vendas de drogas funcionando abertamente, clientela de jovens e senhores, olheiros e policiais corruptos dando cobertura. Com variações que sinalizam o nível de gravidade, a situação se repete em Natal, nas outras capitais e até em cidadezinhas do Pará, onde a profissionalização do tráfico implantou a violência e o comando territorial de gangues.

Infelizmente, ainda não conseguimos perceber a verdadeira natureza e a dimensão do problema.  Não estamos diante de um caso de polícia, embora se faça necessária a atuação policial para conter efeitos colaterais, como a violência. contra pessoas e patrimônios. Não se trata de uma questão exclusiva de estado, embora a incompetência e a leniência das instituições tenham contribuido para o seu agravamento. A ameaça que nos cerca é uma calamidade moral da qual não sairemos até entendermos que a solução efetiva está no âmbito dos valores, responsabilidade individual e coletiva que precisamos assumir.

O mal em si não é o uso de maconha,  cocaína, ecstase ou crack. Isso é apenas um dos sintomas da doença real da alma, sufocada no egoísmo e no individualismo.  A vida nesse contexto será sempre o reino da carência que, em vão, tentamos suprir ou disfarçar com o apego a sensações prazerozas.   Afastamo-nos da serenidade, onde florescem o sentido e a partilha, e nos perdemos em movimentos reativos que nos aprisionam a acumulação compulsiva, consumo compulsivo, sexo compulsivo, droga-adição compulsiva...

A cura da doença social do crack e demais drogas não será diferente da de qualquer dependente individual: terá de começar pela consciência de que somos todos viciados.

 

 

Os cariocas

Publicado na edição de 01/02/11 

Há 30 anos, em Manaus, ouvi de um turista francês que "nada simboliza  tão bem o Brasil quanto o povo carioca". Ele estava encantado com o bom-humor das pessoas no Rio e seu sorriso fácil, com o ar de festa permanente nos botequins e praias e, sobretudo, pelo jeito de conversar dessa gente e seu sotaque inconfundível. Se não bastasse, tudo isso acontecia em um dos mais belos cenários naturais do planeta.

Achei-o exagerado. Carioca é uma designação gentílica aplicada apenas a quem nasce na cidade do   Rio de Janeiro e aos hábitos e estilos cultivados nessa região. Não seria demais confundir o Rio com o Brasil e suas incontáveis diversidades? Nos anos seguintes,  percebi que o estrangeiro estava certo. O Rio pode não ser a cara do Brasil, mas espelha parte do painel da nacionalidade que os próprios cariocas  ajudaram a construir, com sua influência político-cultural sobre o país - soberana enquanto o Rio foi a capital brasileira e ainda hoje presente em nossas vidas, apesar do predomínio de São Paulo, atual locomotiva da economia, da política e da cultura. 
 
Como todo nordestino de minha geração, sonhei com o  Rio na juventude. Nas madrugadas, acompanhava pelas ondas curtas das rádios Globo e Tupi a vida da cidade que me parecia outro mundo, eternamente vibrante, contrastando com a modorra de uma Natal que dormia cedo. Em 1970, meu sonho foi realizado de uma forma inesquecível: depois de viajar durante dias numa velha kombi, cruzei de balsa a baía de Guanabara e deslumbrei-me com a visão da metrópole margeando a montanha, adornada de cores que minha imaginação de adolescente acrescentava. Nos dias seguintes, anotaria no coração as mesmas impressões do turista francês, ampliadas por meu espanto provinciano. Mas... naquela mesma viagem conheci São Paulo e minha paixão se dividiu.

Foi com a "paulicéia desvairada" que estabeleci vínculos, lá vivendo a partir dos 23 anos de idade. Infelizmente não amei o Rio quando, finalmente, morei no Rio, uma experiência profissional e pessoal que fortaleceu ainda mais meus laços com Sampa. É natural. No dia a dia das pessoas e das comunidades, o glamour desaparece e aí você descobre se falam ou não a mesma língua. Meu perfil combina melhor com o dos paulistanos, mas jamais deixei de curtir o nosso cartão de visita, lindo e sedutor.

Agora mesmo estou no Rio e, como faço em toda cidade, vou onde o povo está. Muita coisa mudou, mas as conversas nos botequins ainda são gritadas, cheias de "s" e "ch", principalmente na zona norte... Os homens continuam contando vantagens e as mulheres exibindo sensualidade, ainda que se tenham tornado um tanto grosseiras e agressivas... Todo mundo é técnico de futebol e sempre se ouve alguma explicação mirabolante para os atos da política... Esbanja-se chacotas e, com elas, preconceitos... Há toques, tapinhas e um jeitinho mal disfarçado de levar vantagem financeira ou obter um privilégio...

Tiro o chapéu para o francês. Na  malandragem carioca, esconde-se um pedaço da alma do Brasil.

 

Este mundo é meu 

Publicado na edição de 25/01/11 

O homem é um viajante. Começamos nossa história como nômades, migrando das adversidades climáticas da África, conforme supõe a ciência hoje, em direção à Europa e outras regiões do planeta. Durante milhões de anos fomos apenas animais errantes, em busca de água e alimento até que o surgimento da agricultura estabelecesse uma relaçao mais duradoura entre nós e o chão que garante a nossa sobrevivência.

Com o advento das cidades e, posteriormente, do estado, essa relação telúrica foi aprofundada, sem que abandonássemos completamente nosso impulso de correr o mundo. Continuamos a migrar movidos pela dureza das condições naturais e pela escassez de trabalho, como fizeram milhões de nordestinos entre o final do século 19 e meados do século 20, em direção ao sudeste do país, e as levas de brasileiros que, legal ou clandestinamente, se instalaram nos Estados Unidos e na Europa entre as décadas de 1970 e 1990. Além disso, descobrimos o prazer de viajar por viajar, a viagem de lazer que durante séculos permaneceu como um privilégio dos poderosos e endinheirados e, finalmente, foi democratizada pelas facilidades de recursos e os novos estilos da pós-modernidade.

Para mim, viajar, a trabalho ou por puro prazer, é um barato. Agora mesmo escrevo esta coluna em trânsito. Estou viajando no rumo sul. Isso mesmo. Sem destino determinado. Provavelmente chegarei a Montevidéu, no Uruguai, e, de lá,  cruzarei o estuário do rio da Prata de barco até Buenos Aires. Viajar é um curso sobre vida e convivência e um recurso pedagógico para que aceitemos diferenças e nos livremos de preconceitos . Mais: viajar facilita o processo de autoconhecimento. No espelho do próximo, acabamos percebendo nuances de nosso ser.
Algumas das minhas melhores descobertas sobre mim,  aconteceram em viagens pelo Brasil e outros 28 países em cinco continentes.   E, principalmente, naquelas ocasiões em que perambulei como mochileiro - e não como jornalista, com o apoio logístico de empresas.

O mochileiro, imagino, é o viajante que curte integralmente o prazer de dar asas à aspiração conhecer o mundo. Em suas andanças prevalece a magia da surpresa   e do contato humano, sem a pressa, a superficialidade e a manipulação comercial dos chamados pacotes turísticos. O mochileiro é livre ou não será mochileiro. Roteiros e horários rígidos, tensão, ansiedade e submissão a um programa de compras não combinam com esse jeito descolado de viajar.

Há quem teme colocar a mochila nas costas e aventurar-se por mares nunca dantes navegados. Alega-se que há violência e malícia em toda parte, muitos perigos. Exagero de nosso tempo de medo, subproduto de nosso egoísmo. No Brasil ou na Bolívia, nos Estados Unidos ou na Índia, na Nova Zelândia ou no Marrocos encontrei gente. Gente como a gente. Muita gente amável e pouca gente grosseira. Gente que me esclareceu com paciência e até abriu as portas de suas casas para mim.  Gente que me levou a envergonhar-me de ser tão desconfiado e arredio diante de um humano.

 

O segredo e o sagrado 

Publicado na edição de 18/01/11 

O sagrado diz respeito à essência, à pureza, à vida em sua manifestação espontânea. Aprendemos a vê-lo como algo separado, um modo de dar limite ao ilimitado e explicar o inexplicável. Foi assim que, no passado, criamos representações de sua emergência, como totens e ritos que nos ajudam a recordar a origem, a energia da criação e a totalidade em que estamos imersos.

Em nome da razão, dessacralizamos o mundo, uma opção onerosa para indivíduos e sociedades. Sobrou o profano, o trivial que, sem a referência do sagrado, torna-se experiência de dissociação na área periférica do ego, reino caótico de conflitos em que predominam o egoísmo e a insegurança. 

Mas isso é teoria. Na prática, nada se mantém sem seu oposto. O profano pede a existência de algo que contracene com a superficialidade de suas manifestações, ainda que como farsa ou arremedo da plenitude do sagrado. E é aí que entra o segredo, o artifício com que emulamos a sacralidade, porém atados às mesquinharias cotidianas. Em todos os tempos, multidões correram atrás de segredos, fenômeno recorrente cuja fonte mais concorrida são as instituições religiosas manipuladoras. A diferença hoje é que isso assumiu uma proporção colossal, com consequências desagregadoras. Em sua falsa contraposição ao materialismo, o segredo escora a nova mitologia na qual o homem aparece como senhor de um universo capitalista e consumista que o abastece de bens e independência.

O sagrado é o oculto que permeia e une tudo. Pode ser sentido, vivido, mas jamais conhecido e controlado. O segredo é para ser revelado e aprendido, servindo aos interesses da consciência utilitarista. É a chave do sucesso, da realização dos desejos. Imaginamo-lo apoiados no antropocentrismo e no devaneio egóico, como lembra o doutor em literatura hebraica Nilton Bonder. Ou seja, a partir da crença de que a humanidade é o centro e propósito máximo do universo, eu sou o centro da humanidade e o propósito máximo de mim é o meu desejo. Qualquer desejo. Há alguns meses, ouvi um rapaz dizer, entusiasmado, que aprendera a usar o poder da mente depois de assistir ao filme O Segredo: “Agora, quando vou ao shopping, mentalizo uma baia do estacionamento e sempre encontro um lugar livre para o meu carro”...

O segredo existe sempre no nível pessoal e é marcado pela carência e pela submissão ao querer, o que descarta a surpresa, o encanto, a espontaneidade, a simplicidade, a bênção. É a própria antessala do tédio e do medo. O sagrado acontece no nível transpessoal, no qual discernimos com clareza os sinais da vida, os caminhos livres e os interditados. Só nesse nível podemos ser íntegros e justos, pois nele conseguimos trafegar na contramão dos interesses pessoais, o grande entrave à retidão e à justiça.

Faz falta, muita falta, a noção do sagrado em nossos dias. Mas substituí-lo pela farsa do segredo apenas nos ilude e mascara o alto preço que pagamos em vão por nosso materialismo. O segredo e sua intenção egoística nos separam e nos isolam do outro e do universo na maldição da carência.

 

A-ha! Eureka! Achei! 

Publicado na edição de 11/01/11 

A imagem mais emblemática de um insight (percepção repentina) é, talvez, o episódio da maçã de Newton – lenda para alguns, fato para outros. Conta-se que o gênio da física clássica conseguiu finalmente estruturar sua teoria sobre a lei da gravidade ao observar uma fruta caindo enquanto descansava sob uma macieira. Esse acontecimento rotineiro, assistido antes por milhões de pessoas sem que lhes ocorresse nenhum pensamento especial, na mente obstinada do cientista foi o estopim de uma revolução no conhecimento. O detalhe surpreendente é que isso ocorreu em um instante de relaxamento, provavelmente depois de uma etapa de intensa ebulição intelectual e cálculos. 

Essa história é ilustrativa daquilo que chamamos criatividade. O fenômeno criativo não é mera maquiagem ou a transformação do que já conhecemos. É a produção de algo novo em um contexto inteiramente novo. O aspecto fundamental aí é a novidade do contexto, o modo como as idéias se entrelaçam. Há muita “novidade” nas vitrines das lojas, nas propostas dos políticos e nas idéias dos formadores de opinião... e, no entanto, tudo apoiado em velhos conceitos reembalados em artimanhas modernas. Como na canção de Belchior, nosso retrato informa: “vivemos como os nossos pais”. 

Somos criativos quando descobrimos outra maneira de interpretar e lidar com as possibilidades. Ou seja: a criatividade pressupõe o rompimento de algum paradigma, um modelo a partir do qual construímos nossa realidade. Não é fácil. O apego ao conhecido é o principal entrave a que enxerguemos de outra perspectiva, lançando outro olhar sobre o universo e seus fenômenos. 

Na rotina de nossas elaborações, comportamo-nos como animais de carga aos quais se aplica viseiras para impedir que vejam ao redor. As possibilidades existem, estão no inconsciente coletivo como realidade não-local a permear todo o cosmo, mas as viseiras dos padrões aprendidos nos aprisionam a um contexto, não permitindo a visualização de alternativas. Como romper essa limitação e saltar para fora do sistema? Esforço e relaxamento contribuem para isso.

Podemos minimizar o condicionamento da mente assumindo uma postura consciente de abertura. Entrar em contato com algo a que não fomos submetidos antes, como, por exemplo, ler sobre uma nova idéia, pode provocar uma mudança de contextos em nosso pensamento acerca de um assunto não relacionado. É a ação de um estímulo não aprendido gerando novos entrelaçamentos de idéias. O mesmo pode acontecer quando conversamos e trabalhamos com outras pessoas. 

A experiência de Newton, porém, realça a importância de uma mente desplugada da rotina dos pensamentos, conceitos e hábitos, como acontece no relaxamento, porta de acesso à observação plena. No espaço ampliado entre um pensamento e outro, crescem as chances do insight, da percepção do novo. Finalmente podemos distinguir o que permanecia encoberto pela viseira dos padrões ou pela ansiedade da busca. A-ha! Eureka! Parar, relaxar, meditar ou mesmo dormir pode fazer a diferença.

 

A praga da normose 

Publicado na edição de 02/11/10 

No mundo inteiro e, mais intensamente em algumas sociedades, predomina a crença de que tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz deve ser considerado normal e, assim, deve servir de guia para o comportamento geral e de roteiro para a educação. Foi essa crença que inspirou os cuidados de nossos pais, nos dias de nossa infância, e é nela que se apóiam, hoje, os nossos esforços para ajudar filhos e netos a encontrarem um lugar ao sol. Mais: essa convicção permeia e dirige todo o aparato social, que tende a discriminar e excluir tudo e todos que se movem na contramão do habitual. 

Parece candido e legítimo, mas não é. Em alguns casos, é a crueldade que sufoca a vida e a beleza de sua expressão criativa. Afinal, nem todas as normas adotadas por conformidade são benevolentes e muitas provocam sofrimentos, doenças e morte. A normalidade, do jeito que a encaramos, é patogênica e a prova está em transtornos pessoais aceitos, como a soberba e a avareza, nas guerras e na destruição dos ecossistemas, tudo isso validado pelo consenso social.

Nossa fixação em ser normal é neurose. Ou, com mais precisão, é normose, como bem o disseram os pensadores Jean-Yves Leloup, Roberto Crema e Pierre Weil, os formuladores desse novo conceito. A normose é uma praga que se dissemina rapidamente em nossa época de comunicação massiva, ídolos e estereótipos forjados por técnicas de marketing, indústria de tendências e hábitos enraizados na sofreguidão dos sentidos e na avidez pela posse. Estamos cercados de modelos de homem ideal, mulher ideal, casal ideal, vestuário ideal, sociedade ideal... padrões que nos levam a perder o contato com a humanidade real e a sufocar o nosso próprio ser e suas aptidões. O normótico é alguém que vive a tragédia da negação de si mesmo e de sua originalidade, transmutado em zumbi a vagar pela noite dos modismos em busca de um sentido jamais alcançado.

A normose se sustenta no medo inconsciente que se opõe ao desejo primordial de abertura, tão claramente manifestado na curiosidade e na disposição de experimentar das crianças tenras, ainda não engessadas nos condicionamentos culturais. É o grande medo do desconhecido ou do que pode não ser aprovado em consenso, eterna fonte de ansiedade, angústia e, não raro, terror. É uma força negativa que nos induz a procurar proteção nas posturas padronizadas e nos preconceitos, ingredientes que mantem a coesão grupal na ausência do amor – sempre inclusivo e libertário - e de outros valores éticos.

Em princípio, instalar-se nesses falsos abrigos pode gerar a ilusão de que encontramos o rumo e a pacificação interior, mas esse efeito costuma durar pouco. Renunciar à autenticidade e aos dons que a vida nos confiou sempre resulta em tumulto interno e em torno de nós e, nesse caso, a tensão e o conflito darão o tom de nossa existência e de nossas relações com as pessoas e o mundo. Nosso perfil ajustado e validado será tão somente o inferno no qual arderá, em fogo brando e interminável, o melhor de nossa essência.

 

Mundo feminino 

Publicado na edição de 05/10/10 

O mundo convencional tem a marca masculina. Foi construído a partir do impulso de conquista e domínio, sustentado pelo apetite voraz e uma obstinada busca de prazer físico. A palavra-chave nesse contexto é crescer. Graças a essas características saímos da caverna e superamos obstáculos, erigindo nossa civilização tecnológica para a qual nem mais o céu é o limite. Em compensação, a ânsia masculina de avançar e dominar nos levou a perder de vista o detalhe e o oculto, que abrigam a suave essência da vida, deixando-nos abandonados ao eterno combate. O resultado dessa “falha estrutural” é prático e óbvio. Manifesta-se em nós e ao nosso redor sob a forma de angústia, solidão, avareza, medo e violência.

Um mundo assim, tão masculino e tão áspero, só pode ser salvo por um toque feminino. Isso não significa necessariamente que as mulheres devem ocupar todos os postos de comando e, então, impor seus valores e sentimentos ao universo masculino. Agir desse modo seria perpetuar o traço machista que, durante milênios, as condenaram à submissão e ao confinamento. Na verdade, isso não tem a ver sequer com os aspectos exteriores dos gêneros, mas com algumas características psicológicas associadas à feminilidade: sensibilidade, emoção, capacidade de partilha, atenção a detalhes, intuição, espiritualidade... Um toque feminino no mundo contribuiria para balanceá-lo, suavizando a dureza e o rastro de dor e sangue de nossa pulsão por poder e controle.

A psicologia analítica de Carl Jung faz referência a dois aspectos inconscientes que se opõem à personalidade, equilibrando-a. No homem, esse fator arquetípico chama-se Anima ou, simplesmente, a porção mulher descrita na canção de Gilberto Gil. Ela é realçada, por exemplo, na alma dos artistas, dos religiosos e parte dos intelectuais e sufocada na dos guerreiros, dos competidores compulsivos e dos excessivamente lógicos. Na mulher, trata-se do Animus, o lado masculino que se expressa principalmente na coragem das mães e no ímpeto de correr riscos com soluções inovadoras. Tais aspectos também se manifestam no ambiente coletivo e mesmo cósmico, funcionando como polaridades presentes em variados fenômenos. 

Em termos sociais, é fácil perceber que Anima continua a ser reprimido, apesar da ascensão funcional das mulheres, não raro ao preço de sacrifício de seus valores e sentimentos, justo aquilo que poderia melhorar o mundo. Mas há sinais otimistas em toda parte, que se refletem na expansão da arte e da espiritualidade em plena aridez do mercado e da racionalidade dogmática. Uma sinalização recente é a pesquisa sobre o perfil do homem urbano brasileiro, maduro e bem sucedido, encomendada pela revista Alfa, nova publicação masculina da Editora Abril. Esse é o homem que, ao contrário do passado, hoje considera como qualidades essenciais ser honesto, responsável e bom pai (em vez de ser rico e sedutor), não se incomoda em chorar e acha que a coisa mais importante na educação dos filhos é passar o senso de família (em vez da agressividade competitiva). Anima começa a mostrar a sua face...

 

E por que não eu? 

 Publicado na edição de 10/08/10 

Sempre que assisto a manifestações de perplexidade e revolta diante de infortúnios que alcançam pessoas de bem ou inocentes aparentemente lesados pelo acaso, lembro de uma parábola do judaísmo citada pelo rabino e doutor em literatura hebraica Nilton Bonder em seu instigante livro “O Sagrado”. Um professor querido e admirado em sua comunidade morre ao cair nas águas de um rio congelado. Inconsoláveis, seus amigos buscam o esclarecimento de um rabino e, como acontece nessas ocasiões, bradam a pergunta óbvia: “Como é possível que isso aconteça com um homem tão bom, gentil e afável, que dedicou sua vida a compartilhar ensinamentos com os outros?” O rabino responde: “Eu sei. Mas as águas não sabiam que ele era tão especial e o gelo não reconhecia tantas virtudes...”

É sempre assim. Diante do propósito insondável da vida, evocamos a nossa pretensa condição especial, nossos méritos, para reivindicar o privilégio de sermos poupados do movimento natural do universo e da causalidade transpessoal que ignora nossos desejos. Toda a cultura reforça essa ilusão que tem no materialismo espiritual de nossos dias sua principal base de apoio. Ser especial e ter o poder de dobrar o cosmo aos nossos caprichos é a nossa mais profunda aspiração - e isso explica o sucesso das igrejas que vendem imunidades e dos livros que revelam “segredos” para impor nossa vontade à incerteza dos eventos.

Lembrei novamente da metáfora judaica na semana passada, ao tomar conhecimento de uma entrevista do jornalista Christopher Hitchens, da revista Vanity Fair, dias depois de revelar em sua coluna que tem câncer na garganta, doença que costuma vencer suas vítimas em muito pouco tempo. Em situações como essa, a reação corriqueira, mesmo entre aqueles aparentemente crentes e devotados a algum culto religioso, é a pergunta angustiada e insubmissa: “E por que eu?” Mas Hitchens, um inglês de 61 anos que ganhou fama como polemista e ateu praticante que não perde uma chance de alfinetar as religiões e a idéia de Deus, surpreendeu seus leitores com uma atitude equânime e resignada. “E por que não eu?”, disse ele na entrevista, poucos dias depois de lançar um livro de memórias que está vendendo como água, proporcionando ao autor, além do lucro financeiro, a glória passageira da notoriedade e dos salamaleques.

A atitude de Hitchens pode ser atribuída à altivez de quem se libertou da ilusão de ser especial por reconhecer o caos aparente em que existimos, mas ela é digna do mais ardente místico, alguém que no cultivo profundo de sua espiritualidade se percebe como parte de algo inexplicável além do ego e sua identificação com as formas transitórias. E por que não eu? pode ser a resposta equânime de quem se rende ao mistério da vida e o reverencia, invertendo a lógica do materialismo expresso na prática religiosa convencional e interesseira. O ponto não é submeter o universo aos nossos caprichos, mas alinhar nossos anseios ao movimento do cosmo e à intenção que o permeia e guia acima de nosso senso egóico e de nossos delírios.

 

Para quê? 

 Publicado na edição de 22/06/10

Ao final da longa entrevista, José Saramago foi provocado pelo jornalista Geneton Moraes Neto: “Qual a pergunta que o sr. jamais conseguiu responder?”. O escritor laureado com o Nobel de Literatura foi ágil: “É uma pergunta muito simples: Para quê? Para que tudo isso?” A questão que desafiou Saramago, um ateu de carteirinha, até à morte é irmã gemea da mais insolúvel das dúvidas: por que existe algo em vez de nada? Sejamos teístas ou ateus, não sabemos. Na verdade, sequer temos respostas definitivas para “o que” - aquilo que, de modo apriorístico, rotulamos de realidade. O que é o universo? O que é a vida? A ciência nada pode dizer sobre as questões essenciais e, para aplacar nossa perplexidade, resta-nos o exercício reflexivo da filosofia e o abrigo vulnerável das religiões, incluindo-se aí a moderna religião do cientificismo.

Não é exagero afirmar que, no fundo, tudo é crença. Mesmo o ateísmo, diz o filósofo André Comte-Sponville, ele próprio um ateu, é uma crença, “um pensamento que se alimenta do vazio do seu objeto”. Nossas crenças moldam o mundo ao determinarem nosso olhar e nossa relação com os objetos, nossos experimentos e o tipo de ciência que praticamos, produzindo ao final uma reflexividade que alimenta a espiral da percepção e da criatividade. Se elas mudam, o universo muda, alteram-se paradigmas e instrumentos de investigação e novas hipóteses e teorias se impõem, sempre com prazo de validade. A jornada milenar da ciência nos permite esse raciocínio e a descoberta, pela física quântica, da intricada interação entre sujeito e experimento nos leva a considerar a subjetividade do cosmo e a intencionalidade subjacente.

A pergunta “para quê?” remete-nos inevitavelmente à questão da causalidade absoluta e, por consequencia, ao duelo entre teístas e ateus. Mas, ao contrário do que possa parecer, há um elo – e, portanto, uma possibilidade de tolerância – entre esses dois tipos de crentes. Afinal, ambos combatem pelo que ignoram. Por que existe algo em vez de nada? A única resposta possível é: por que Deus, o incognoscível, o mistério. Nisso concordam inclusive os ateus, já que ser ateu, como ressalta Sponville, não é negar o mistério, mas fugir à tentação de rejeitá-lo ou reduzí-lo sem maior esforço.

Penso que existem menos ateus do que sugerem as declarações intelectuais, e a maioria deles se sustenta da visão anacrônica de um deus pessoal, à parte do universo, preservada pelas religiões ocidentais. À medida que cientistas operantes na fronteira da ciência acenam com modelos sobre o cosmo que desmontam a lógica mecanicista (centrada na partícula e não na energia), e os conceitos de linearidade dos eventos e separação entre mente e matéria, abre-se a possibilidade de uma nova concepção do divino e de uma releitura de nossa dimensão espiritual que, certamente, farão refluir o ateísmo, sem que isso signifique o fim das dúvidas. Novas respostas suscitarão novos questionamentos e, a cada passo que dermos para frente, o horizonte recuará mais uma vez, em meio ao esforço humano para compreender o absoluto. E assim, entre teístas e ateus, continuaremos a indagar: para quê?

 

Caminho do meio 

 Publicado na edição de 18/05/10

Há mais que beleza e encanto nos versos de “Certas Coisas”, uma das canções mais conhecidas de Lulu Santos e Nelson Motta: “Não existiria som / se não houvesse o silêncio. / Não haveria luz / se não fosse a escuridão. / A vida é mesmo assim, / dia e noite, não e sim...” Inspirados na simples constatação da realidade, nossos poetas resgatam em ritmo melodioso a velha filosofia sobre o equilíbrio dos opostos. Tudo que é percebido pelos nossos sentidos ou pela imaginação só o é em função de sua negação. 

Se é certo que o som exige o contraponto do silêncio, não é menos verdadeiro que a virtude só se faz notar diante do pano de fundo do erro. Entre uma e outra polaridade, desenrola-se o nosso cotidiano de combinações variadas no qual a mente, não raro, se perde na idéia de separação e autosuficiência, assumindo a perigosa rigidez da radicalização.

É fácil ser radical. Basta entregar-se ao impulso natural da mente, que se nutre de nossos apegos e aversões. Nessa situação, forjamos verdades absolutas, inconciliáveis com o eterno dinamismo da vida, e logo adicionamos complicações à rotina e bloqueios ao relacionamento com o próximo. Ser moderado, ao contrário, exige o esforço para ver com clareza, liberto do egocentrismo, e o bom senso de aplicar a ação adequada a cada evento. Nessa circunstância, tornamo-nos hábeis para lidar com a virtude contida em cada pecado e a podar o pecado de cada virtude, alcançando o ponto de equilíbrio numa vida harmoniosa. 

Viver bem nos pede a capacidade de trabalhar com paradoxos, o contra-senso que a física moderna afirma existir mesmo no mundo físico, como na misteriosa alternância entre partícula e onda no fenômeno da luz. Em termos práticos, isso nos leva a considerar, por exemplo, a utilidade até do orgulho, da avareza e da luxúria, três dos pecados capitais que estão por trás do progresso material e do conforto alcançado pelo homem, sem que isso descarte o objetivo maior de purificar sentimentos e intenções, capacitando-nos a promover o desenvolvimento sustentável numa sociedade apoiada na solidariedade e na cooperação.

A aceitação da existência dos opostos, e dos matizes que colorem o espaço entre um e outro, nos livra do sectarismo, combustível dos conflitos irracionais, e salva-nos da ignorância que nos faz enxergar nonsense onde o universo manifesta inteligência e perfeição. Fica mais fácil também administrar as situações do dia a dia, embora isso nos transforme, a exemplo dos grandes mestres, em pessoas menos previsíveis, ainda que mais confiáveis. 

O caminho dos sábios é o do meio, aquele no qual respondemos a cada evento de forma apropriada, dosando elementos de ação às vezes opostos, mas sempre sob a mesma inspiração do amor e da equanimidade. Não é fácil, mas é possível. E a recompensa de uma vida saudável, com equilíbrio emocional e consciência, vale o esforço para seguir nessa trilha.

Adolescência sem fim 

 Publicado na edição de 11/05/10

Dei um tempo ao trabalho e abri o guia de lazer de um jornalão paulistano, em busca de ajuda para ir ao cinema. Em vez da opinião do crítico, o que atraiu minha atenção foi um neologismo usado para rotular alguns filmes. "Indicado para adultecentes", escreveu o jornalista. Adultecente? Sim. Sempre existe um por perto.

Adultecente é aquele homem ou mulher que, apesar dos anos já vividos, continua a pensar, sentir e a se comportar como um adolescente. Antes isso acontecia como exceção à regra da natureza, mas a modernidade parece ter tornado corriqueiro o que era um desvio eventual.

Conheço homens que, aos 40 anos, jamais trabalharam, dependem dos pais ou de alguém a que se agarram como o náufrago à boia. Não se trata de play boys à moda dos anos 50, herdeiros de fortunas que optaram por marcar suas vidas com a futilidade. São filhos da nova classe média, forjada a partir do salto de desenvolvimento dos anos 70. Outros conseguem ser produtivos, mas têm dificuldade para lidar com obrigações e valores e, sobretudo, manter um mínimo de equilíbrio emocional. Um adultecente é caprichoso e inseguro. Não avalia corretamente circunstâncias e limitações, exige demais das pessoas sem oferecer contrapartida e, ao mesmo tempo, depende exageradamente da opinião dos outros por ser incapaz de se autoconhecer e estabelecer o próprio rumo.

Talvez um outro neologismo - aborrecente - se aplique com mais precisão a esse tipo de adulto que a garotos e garotas dos 11 aos 17 anos que, desafiados pela descoberta do corpo e a explosão dos hormônios, entram em parafuso e enlouquecem a rotina dos pais. Adultecentes costumam perturbar por sua incontida tolerância zero a tudo o que não combina com suas preferências e exigências, o que os torna incapazes de uma vivência afetiva madura e profunda.

Não sei até onde essa situação vai nos levar, mas sei que o aumento do número de adultecentes tem a ver, entre outros fatores, com um erro de visão a que fomos levados ao longo da melhoria da qualidade de vida e da mobilidade social no Brasil das últimas décadas. Os pais da nova classe média, em geral, cresceram em lares pobres onde a falta até do essencial impedia a superproteção paterna e estimulava os adolescentes a buscar cedo o mercado de trabalho e a aprender com a vida a noção de direito e dever, trabalho e recompensa. Ao ascenderem na pirâmide social - e sob a influência hedonista do nosso tempo - a maioria desses pais passou a ver as lutas heróicas do passado tão somente como sofrimento e humilhação e, assim, decidiram poupar os filhos da experiência indispensável de caminhar com os próprios pés e a lidar serenamente com o êxito e a frustração.

É obvio que as famílias têm o direito de proporcionar aos filhos conforto compatível com as suas posses. Mas a superproteção que aprisiona o espírito e menospreza valores essenciais, como o trabalho, sempre resultará em adultos inabilitados para a vida.

 

Chico Xavier, o homem

Publicado na edição de 06/04/10

Conheci Chico Xavier na madrugada de 23 de março de 1970, quinze meses antes de sua participação no “Pinga-Fogo” da TV Tupi, programa em que conquistou o país com seu carisma e mudou para sempre a imagem do Espiritismo no Brasil. Naquela época, Chico contabilizava 43 anos de mediunidade, polêmicas, adversidades e, sobretudo, amparo a carentes do corpo e da alma que o buscavam dia e noite. Eu era um menino, 17 anos, e chegara à Comunhão Espírita Cristã de Uberaba imaginando cenários e falas logo descartados pela realidade. 

Em vez do ambiente solene e asséptico de minha fantasia, deparei com um clima de pronto-socorro de hospital público, com “pacientes” esbarrando-se em espera ansiosa, produzindo uma algaravia que o som de músicas clássicas tentava abafar. Chico encerrara a psicografia daquela noite. Agora, no fundo da sala, aquele homem baixo, franzino, metido num despojado paletó cinza - e ainda sem a controvertida peruca que cobria sua calvície acentuada -, distribuía sorrisos, beijos e palavras de ânimo numa maratona que, não raro, ia até o amanhecer. Na fila, eu esperava por um recado qualquer de Emmanuel, o guia do médium, mas nenhum espírito iluminado (nem zombeteiro) se deu ao trabalho de me enviar um ”torpedo”. Em vez disso, ganhei de Chico um abraço como eu jamais experimentara (toque macio e ternura maternal) e um “Deus te abençoe” ao pé do ouvido que me fez conhecer a paz dos anjos sem, contudo, desbastar a frustração de moleque desejoso de um fenômeno retumbante. 

Só a maturidade me faria entender, anos depois, aquela madrugada singela no interior de Minas. Sem que os meus sentidos fossem abalados pelo inusitado, revelara-se ali, à minha mente e ao meu coração, a poderosa força que move os santos: a capacidade de experimentar sua humanidade no limite da virtude essencial, o amor. Hoje consigo perceber que não foi a vasta e complexa fenomenologia que assinalou a trajetória de Chico que o transformou em marco e unanimidade na sociedade brasileira. Afinal, fenômenos paranormais sempre existiram e existirão, mas seus efeitos costumam durar o tempo da excitação dos sentidos. Foi a sua capacidade de materializar o substrato ético de tais eventos que o tornou único e confiável. Como outro Francisco, o pobrezinho de Assis, Chico Xavier empenhou a vida no propósito de provar a viabilidade do amor nas refregas do dia-a-dia, como exemplificara antes Jesus, o grande inspirador de ambos. 

Em Chico, o apóstolo se funde ao homem que, conhecendo suas fraquezas, descobre no exercício da compaixão o seu grande recurso de superação. Fiel às suas crenças, soube entender a diversidade, respeitando o perfil de cada um. E, graças ao seu trabalho, o Espiritismo iniciado por Allan Kardec tornou-se uma religião brasileira na qual o toque de sincretismo – tão próprio de nossa gente – sintoniza com o anseio mundial por alteridade e tolerância. Chico é nossa mensagem de paz ao mundo.

 

 

Sexo e culpa

Publicado na edição de 09/03/10

Sim, eu sei, a energia sexual é a mais poderosa das forças que movem o ser humano. É algo que extrapola o conceito de libido, o desejo de prazer sensual, manifestando-se em tudo o que fazemos como motor de vida e criatividade. Ela está na sofreguidão do devasso e no êxtase dos santos, na sensibilidade do artista e na perspicácia do cientista... Sem ela, em sentido amplo, sucumbiríamos ao tédio, sem falar que, se viesse a nos faltar em sentido estrito – aquele que embala os amantes -, há muito teríamos desaparecido da Terra. É compreensível que as pulsões libidinosas sejam o mais frequente objeto de nossas confabulações. O que não consigo entender é a overdose de conversa fiada, gossip e insinuações maliciosas que recheiam até hoje, meio século após a chamada revolução sexual, nossos papos, textos, imagens e seja lá o que for em que o tema recorrente do sexo é abordado.

Desde os estudos de Alfred Kinsey (que nos anos 40 revelaram o comportamento sexual dos americanos), a descoberta da noretindrona (que levou à pílula anticoncepcional), e a maré libertária dos hippies (que implodiu a hipocrisia em que se ocultava a sexualidade até os anos 60), parecia que, finalmente, a naturalidade do sexo seria resgatada, ficando para trás a velha imagem de coisa suja e proibida que asfixiava o mundo afetivo de homens e mulheres, enquanto sustentava à margem o sórdido negócio da prostituição. Não foi o que aconteceu. Jamais falamos tanto em sexo quanto nos dias atuais, mas o fazemos quase como nossos pais no banheiro da escola ou nas rodas de bar: entre risos e olhares marotos de quem se vê diante do ridículo ou do pecaminoso.

Sei não... mas desconfio que a geração que só pensa naquilo e consome como nunca os produtos da indústria do erotismo, padece do mesmo sentimento de culpa de nossos ancestrais ante esse ato corriqueiro. Ainda falamos de sexo como quem se imagina cometendo uma transgressão. Mais: desconfio que, ocupados em escrever e ler tanto sobre sexo, fantasiar diante de tantas imagens, ensaiar tantas perfomances e desperdiçar tanto tempo em aventuras virtuais, nós, os liberais desta era permissiva, desfrutemos bem menos que os conservadores do passado do prazer através do qual a vida se replica ou se fortalece em profundas trocas energéticas.

Numa sociedade sexualmente liberada, a prostituição e a pornografia certamente seriam negócios condenados ao fracasso. Afinal, fazer sexo é tão natural e espontâneo quanto respirar. No momento certo, os hormônios dirigem o corpo e o sentimento, esse grande ausente do sexo maquinal e envergonhado, guia o coração. Se ainda precisamos comprar um momento de parceria íntima e se dependemos de estímulos artificiais para gozar o que a vida nos oferece como dádiva, então está na hora de rever nossos critérios... e ilusões.

 

O virus sapiens

Publicado na edição de 02/03/10

Quando eu era criança, sempre que corriam notícias de terremoto, erupção vulcânica, furacão ou outra catástrofe natural, minha avó suspirava: “Sinal do fim do mundo... Tudo isso está na Bíblia”. Imagino a angústia da boa velhinha, se ainda estivesse entre nós neste século apocalíptico. Em apenas 60 dias, fomos surpreendidos por um terremoto que destruiu a capital do Haiti, uma tromba d´água que devastou a Ilha da Madeira, tempestades que causaram enormes danos no Brasil e na Europa e um sismo quase recorde que levou morte e pânico ao Chile. O temor de minha avó, com certeza, atingiria as alturas também ao saber que sua antiga suspeita – o fim do mundo – é agora partilhada até por céticos e ateus.

Mesmo com a Terra tremendo, prefiro manter os pés no chão. É preciso serenidade para enxergar com clareza através da cortina de pó e nuvens e, assim, agir corretamente ante as sinalizações da natureza. Terremotos, erupções e tsumanis existem há bilhões de anos, como resultado das revoluções do planeta, e na maioria das ocasiões apanharam-nos de improviso, deixando rastros de dor. No ano 79, por exemplo, as cinzas do Vesúvio riscaram do mapa as cidades de Pompéia e Herculano, na Itália, e em 1755 um terremoto, seguido de tsunami, arrasou Lisboa. O que chama a atenção em nossos dias é o aparente aumento da freqüência desses eventos num contexto de reconhecida agressão do homem à Terra. Quase não há mais dúvida de que a ação humana tem acelerado o aquecimento global e o degelo nos pólos, fato que pode ter repercussões imprevisíveis em todos os ciclos planetários. Um sinal vermelho acendeu-se e isso nos convoca à coragem da autocrítica e da mudança, a começar pela nossa visão do mundo.

Penso que nenhum de nós devia morrer sem contemplar aquela fantástica foto da Terra, clicada pelos astronautas. É um bom ensaio para dissolver, ou pelo menos tornar consciente, a ilusão de que vivemos à parte da grande teia e podemos submetê-la aos nossos apetites insaciáveis. Ali, a esfera azul se nos apresenta em sua face de organismo vivo, no interior do qual todos os seres e coisas interagem. Um movimento ínfimo, quem sabe até uma intenção, tem repercussão global.

Diante da bela imagem, talvez nos reconheçamos agindo no corpo planetário à moda dos vírus, que na ânsia de replicação desordenada sugam e destroem seu hospedeiro. Há milênios, o virus sapiens – o homem inconseqüente em sua relação com o planeta – tem cumprido essa rotina. Sugamos e ferimos o meio ambiente, na loucura da acumulação indiscriminada, o que, naturalmente, leva o organismo Terra a acionar suas defesas.

Ao contrário de muitas bactérias, que cooperam no metabolismo animal, um vírus nunca estabelece alianças com aquele que o nutre. Sua vitória, porém, é sempre uma derrota suicida. Morto o hospedeiro, extingue-se igualmente o seu predador.

 

A ética do aborto

Publicado na edição de 23/02/10

Discussões são quase sempre intermináveis. É compreensível. O real é inatingível, só pode ser representado. Ainda assim, precisamos desse exercício de aproximação das idéias à realidade, o que inclui nossas considerações sobre ética. Discussões nessa área duram séculos, mas é possível harmonizar alguns pontos de vista, como prova a convivência em sociedade. A ética inspira a moral cotidiana e a moral, como define o filósofo contemporâneo André Comte-Sponville, “é o que um indivíduo se impõe ou proíbe a si mesmo, não para aumentar seu bem-estar, mas para levar em conta os direitos do outro”.

Há quem considere a existência de uma ética absoluta e inflexível. Desconfio dessa inflexibilidade, mas o movimento do cosmo não me deixa duvidar que um princípio básico - bem mais simples que nossas conjeturas - guia as mutações infinitas. A questão é que só o percebemos pela janela existencial, delimitada por nossa própria experiência; daí a impossibilidade da concordância irrestrita. Em termos práticos, a ética é sempre relativa e progressiva, como ponderou o filósofo Pietro Ubaldi, sujeita a mudança a cada nível biológico ou evolutivo. Um leão que devora sua presa não fere a “ética” de seu nível, mas o mesmo raciocínio não se aplica a um humano. Um homem comum pode sentir-se em paz apenas dedicando-se à família e ao trabalho, mas quem já se percebe parte da teia social, certamente, exigirá de si o plus da solidariedade.

No patamar da civilização, capacitamo-nos a vislumbrar a ética universal através de janelas cada vez mais amplas, o que nos permitiu reconhecer direitos fundamentais do homem e demais seres – o primeiro deles, o direito à vida. O universo inteiro conspira nesse sentido. A própria entropia, a desordem sistêmica que leva à desagregação, serve ao propósito primeiro da harmonia, que reúne e recria o que se acha disperso em expressões de beleza e... intencionalidade.

Desse ponto de vista, o dever ético que se impõe, a partir do maior de nossos direitos naturais, não é outro senão o de nos colocarmos a favor do fluxo da vida. E, desse ponto de vista, não há como entender a defesa do aborto incondicional senão como um erro de percepção, uma contradição favorecida pelo individualismo exagerado e o hedonismo de nosso tempo. Afinal, desenvolvemos sensibilidade para reconhecer e defender o direito à vida de um animal (eu sequer mato formigas!), mas, se está em jogo o nosso desejo de comodidade e prazer, podemos até assassinar um homem frágil e indefeso, cumprindo os ciclos da vida no abrigo do útero.

A discussão sobre o aborto não é mero embate entre “conservadores” e “progressistas”, rótulos que ocultam o essencial. No fundo, é uma sinalização de nossa dificuldade de pensar a vida além do nível primitivo de nossas pulsões egóicas. Nosso estágio biológico e evolutivo, no entanto, já nos permite mudar.

 

O PIB não é tudo

Publicado na edição de 15/12/09

Meu pai é um mossoroense típico. Mudou-se para Natal ainda adolescente, na década de 1940, mas o lugar em que nasceu é, até hoje, seu grande referencial. Sempre que viajo, ele me aborda, querendo comparação: “Essa cidade onde você foi é maior ou menor que Mossoró?”. Divirto-me com a pergunta. O sonho de meu pai é ver sua Mossoró repleta de edifícios altos, carrões e milhões de habitantes exibindo nas ruas sinais exteriores de riqueza. E nisso ele é igual à maioria da população urbana, acostumada a avaliar o desenvolvimento apenas com base em números.

Em setembro, fui arrancado temporariamente da aposentadoria a fim de dirigir um projeto editorial da Editora Abril numa famosa capital nordestina. Causou-me espanto a intenção dos gestores locais de suprimir nas fotos imagens praianas tradicionais, como a jangada, e realçar a fileira de edifícios à beira-mar, sob o argumento de que aquelas remetiam ao passado pobre da cidade e os arranha-céus sinalizavam sua abundância e modernidade. Era meu pai expondo seus argumentos através de outras bocas... sustentando a urgência do gigantismo e da demonstração de poder. 

Foi sempre assim. Avaliamos o desenvolvimento de uma cidade ou de um país pelo tamanho de sua produção e de seu consumo - os números do PIB - e sonhamos com mais e mais crescimento, na suposição de que isso basta para suprir todas as necessidades humanas. Ilusão. Um PIB gordo não resolve por si mesmo sequer o problema da distribuição da renda e da injustiça: o nosso, por exemplo, está entre os 10 maiores do mundo, mas o Brasil continua entre os campeões da desigualdade social. Nem mesmo um bom IDH (o novíssimo Índice de Desenvolvimento Humano, que considera na avaliação aspectos como saúde e educação) consegue retratar a real condição de um povo, sua qualidade de vida. Afinal, se o PIB e o IDH são robustos, mas os indivíduos sofrem com a solidão, a dependência a drogas, a violência doméstica ou a violência das ruas é que há algo podre e indesejável sob os tapetes da aparencia glamourosa.

É auspicioso que, neste momento, um grupo de pensadores, técnicos e governantes considere esse grito da realidade e se debruce, com o apoio das Nações Unidas, sobre a nova proposta do FIB – Felicidade Interna Bruta -, um índice que leva em conta, no cálculo do desenvolvimento, dimensões como o bem-estar psicológico, o uso equilibrado do tempo pelo cidadão, a vitalidade comunitária, o acesso à cultura e a governança.  A experiência pioneira começou no Butão e já sensibilizou setores do Canadá e até o governo da França, interessado em abjurar a “religião dos números”. Oxalá possa expandir-se. A grandeza de uma nação passa pela capacidade de seus filhos sorrirem, abraçarem-se e serem solidários. Não há desenvolvimento, se não há povo feliz.

 

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JM REPÓRTER

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