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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais

STEVE E AS CONEXÕES

As conexões do universo estão aí, mas só as distinguimos quando 
olhamos para trás. O futuro será sempre uma jogada de risco, uma aposta 
que se faz no próprio sonho e na força insondável que move o cosmo.  

 

Na morte, Steve Jobs foi agraciado com a reverência do mundo. Justa homenagem. Não há como não reconhecer a importância de um homem que ajudou a moldar as novas relações humanas sobre uma base tecnológica que nos deu – para o bem e para o mal – mobilidade, velocidade, interação global e conforto. Steve foi saudado como gênio, tal o impacto na vida de bilhões de pessoas de seus Iphone, Ipad, Ipod, Macintosh e toda a revolução que esses conceitos de design e funcionalidade provocaram na indústria da computação. Mas, como sempre acontece sob o impacto da emoção, nessas homenagens também nos perdemos em superlativos.

Máquinas que facilitam nossa rotina e distraem nossos sentidos são remates de processos iniciados, quase sempre, com intuições em mentes contemplativas e reflexivas, capazes de enxergar a simplicidade das coisas, atribuir novos significados aos eventos e conceber novas possibilidades criativas. Isso abrange cientistas, filósofos, artistas, místicos e até inventores. 

Um Iphone carrega em sua tela os insights de Newton, ícone da física clássica, e os de Niels Bohr, Eisenberg, Schrödinger e o próprio Einstein, pais da moderna física quântica. Os vôos espaciais levam embutida a ficção de Júlio Verne. A internet inteira deve seu reinado ao telefone de Graham Bell e Antonio Meucci, ponto de partida tecnológico que permitiu o cenário atual das comunicações e da informação no planeta.

O universo funciona em rede e há algo, além de nossa capacidade de elaboração, que assegura as conexões entre eventos aparentemente distantes e isolados, sempre com um propósito evolutivo. Disso tinha consciência o próprio Steve Jobs, como se pode perceber em sua fala na Universidade Stanford, em 2005, agora resgatada em vídeos que circulam na internet. Seu senso de observação e sua relação com a filosofia levaram-no a identificar em sua vida a ligação entre três momentos de perdas (o abandono da faculdade por falta de recursos, a demissão da Apple e a descoberta do câncer) e o seu estrondoso sucesso profissional, com repercussão no mundo dos computadores e no das pessoas. Tais infortúnios o conduziram a novas trilhas e tentativas sem as quais nossos micros e celulares continuariam feios e menos ágeis.

As conexões do universo estão aí, mas só as distinguimos quando olhamos para trás, ensina Steve. É impossível vislumbrá-las olhando para frente. O futuro será sempre uma jogada de risco, uma aposta que se faz no próprio sonho e na força insondável que move o cosmo, a que chamamos Deus.

OK, Steve. Agora entendo porque você disse à revista Newsweek em 2001: “Eu trocaria toda a minha tecnologia por uma tarde com Sócrates.”

[Publicado na edição de 11/10/11 do Novo Jornal]


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