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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais

O efeito sombra

Não há autoimagem que resista ao sossego introspectivo prolongado. 
E, para quem se acomodou à zona de conforto de um conceito sobre 
si mesmo, a sua dissolução soa como uma morte psicológica.
 

A sinceridade das crianças impressiona. Quando desliguei a TV depois de uma longa sessão de Discover Kids, uma das babás eletrônicas às quais outorgamos sem critérios a educação de nossas crianças, minha netinha mais nova reclamou: “Mas assim fica muito tranquilo. Isso é perigoso”. A menina só tem quatro anos e já aprendeu, com a televisão e os adultos, que o mundo sem barulho é ameaçador, o silêncio pode nos levar a monstros indesejáveis.

Sua mente infantil, esperta e curiosa, é naturalmente apta a alternar entre a excitação e o relaxamento, mas a overdose de estímulos de nossa rotina estridente começa a desviá-la para a rota do medo e o esconderijo da hiperatividade. Parar pra quê? Só uma criança, mesmo ameaçada em sua singeleza, é capaz de admitir com tamanha franqueza o que os mais velhos dissimulam com desculpas esfarrapadas.

Justificamos a TV ligada dia e noite (alguns precisam dela até para adormecer), o computador sempre conectado e a checagem ininterrupta de mensagens nas redes sociais com a necessidade de nos mantermos antenados em uma sociedade atolada em informações e novidades, sem as quais, supomos, podemos perder o bonde das oportunidades, cair do cavalo do sucesso, dar as costas à felicidade…

No fundo, apenas tememos o silêncio porque ele sempre nos conduz à nossa intimidade, um território onde se encontra o perigo da desilusão. Não há autoimagem que resista ao sossego introspectivo prolongado. E, para quem se acomodou à zona de conforto de um conceito sobre si mesmo, a sua dissolução, sob o impacto da realidade, soa como uma morte psicológica.

Tomar conhecimento das energias e impulsos que habitam as profundezas do ser abala a nossa identificação com uma máscara que, desconfiávamos, tem pouco a ver com a nossa essência, mas nos parece funcional e protetora nas relações com o mundo. Ao mergulhar na intimidade, através do silêncio, entramos em contato com a sombra, o nosso lado obscuro onde vicejam as pulsões primitivas, aquelas relacionadas ao instinto de sobrevivência e ao egoísmo e que nos põem em igualdade com as personalidades vis e os delinquentes.

É desse lado, povoado de monstros e medos, que queremos distância, na esperança de que, esquecida, a sombra deixará de existir. Engano. Reprimida e confinada ao porão da alma, a sombra sempre sabota nossas melhores intenções. Só com o seu reconhecimento e compreensão, podemos efetivamente lidar com a sua força atávica, canalizando-a e transformando-a.

E essa é também uma descoberta a que nos leva a introspecção: toda sombra se transmuta quando, aquietados, permitimos que brilhe a luz do amor, da aceitação.

[Publicado na edição de 01/11/11 do Novo Jornal]

 


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