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A
sinceridade das crianças impressiona. Quando desliguei a TV depois de uma longa
sessão de Discover Kids, uma das babás eletrônicas às quais outorgamos sem
critérios a educação de nossas crianças, minha netinha mais nova reclamou:
“Mas assim fica muito tranquilo. Isso é perigoso”. A menina só tem quatro
anos e já aprendeu, com a televisão e os adultos, que o mundo sem barulho é
ameaçador, o silêncio pode nos levar a monstros indesejáveis.
Sua mente infantil, esperta e curiosa, é naturalmente apta a alternar entre a
excitação e o relaxamento, mas a overdose de estímulos de nossa rotina
estridente começa a desviá-la para a rota do medo e o esconderijo da
hiperatividade. Parar pra quê? Só uma criança, mesmo ameaçada em sua
singeleza, é capaz de admitir com tamanha franqueza o que os mais velhos
dissimulam com desculpas esfarrapadas.
Justificamos a TV ligada dia e noite (alguns precisam dela até para adormecer),
o computador sempre conectado e a checagem ininterrupta de mensagens nas redes
sociais com a necessidade de nos mantermos antenados em uma sociedade atolada em
informações e novidades, sem as quais, supomos, podemos perder o bonde das
oportunidades, cair do cavalo do sucesso, dar as costas à felicidade…
No fundo, apenas tememos o silêncio porque ele sempre nos conduz à nossa
intimidade, um território onde se encontra o perigo da desilusão. Não há
autoimagem que resista ao sossego introspectivo prolongado. E, para quem se
acomodou à zona de conforto de um conceito sobre si mesmo, a sua dissolução,
sob o impacto da realidade, soa como uma morte psicológica.
Tomar conhecimento das energias e impulsos que habitam as profundezas do ser
abala a nossa identificação com uma máscara que, desconfiávamos, tem pouco a
ver com a nossa essência, mas nos parece funcional e protetora nas relações
com o mundo. Ao mergulhar na intimidade, através do silêncio, entramos em
contato com a sombra, o nosso lado obscuro onde vicejam as pulsões primitivas,
aquelas relacionadas ao instinto de sobrevivência e ao egoísmo e que nos põem
em igualdade com as personalidades vis e os delinquentes.
É desse lado, povoado de monstros e medos, que queremos distância, na esperança
de que, esquecida, a sombra deixará de existir. Engano. Reprimida e confinada
ao porão da alma, a sombra sempre sabota nossas melhores intenções. Só com o
seu reconhecimento e compreensão, podemos efetivamente lidar com a sua força
atávica, canalizando-a e transformando-a.
E essa é também uma descoberta a que nos leva a introspecção: toda sombra se
transmuta quando, aquietados, permitimos que brilhe a luz do amor, da aceitação.
[Publicado
na edição de 01/11/11 do Novo Jornal]
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