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A
revista Alfa deste mês traz uma reportagem do jornalista
Antonio Regalado sobre Miguel Nicolelis, o gênio brasileiro
da neurobiologia cotado para o Prêmio Nobel. A matéria é
puro jornalismo. Apresenta os dois lados do médico. Ou,
para ser preciso, os seus vários lados, como é normal a
qualquer homem, gênio ou não. A chamada de capa (“O gênio
encrenqueiro”) realça uma dessas facetas: a de cientista
bom de briga que dispara contra colegas enciumados, políticos
e jornalistas, inclusive o repórter da Alfa, hoje
“persona non grata” ao entrevistado. Mas é um Nicolelis
à altura de suas qualidades que salta do texto da revista e
impressiona o cérebro dos leitores.
O meu foi tocado por um detalhe dissociado da fama do
cientista. Ele virou ateu durante a primeira comunhão.
“Naquele dia, o Palmeiras perdeu um jogo. Portanto,
deduziu o jovem Nicolelis, ´não é possível Deus
existir`”. É uma brincadeira do pesquisador, conhecido
por sua paixão pelo time paulistano, ao referir-se a uma de
suas convicções que, suponho, deve ter fundamento
racional. Mas poderia ser verdade.
Argumentos dessa natureza estão na base do ateísmo da
maioria dos intelectuais que costumam expor seu desconforto
com a ideia de Deus, assim como no desencanto dos não
eruditos.
São
poucos os que se converteram ao ateísmo – sim, ser ateu
é também uma questão de crença! – apoiados em proposições
filosóficas e reflexões. Em geral, abjura-se a divindade
em meio a frustrações ou perdas que maculam a imagem de um
deus pessoal, protetor e provedor a quem se pode invocar nos
embates da vida, em busca de superação e satisfação egoística.
Mesmo quando a perda da fé vem de uma decepção com
fundamento ético, como o questionamento da justiça divina
nas tragédias naturais, é sempre a imagem de um deus
enquadrado em nossas preferências e caprichos que se
dissolve na mente inapta a lidar com a transcendência e a
ressignificar a imanência do mistério em nossos contextos
existenciais.
Deus, a palavra, é só uma seta que aponta para a incognoscível
totalidade. Para algo além de nossos conceitos, inclusive
os de bem e mal. O deus pessoal e protetor que nos enleva e
decepciona é apenas o primeiro estágio de uma percepção
que se completa quando, finalmente, entendemos que a noção
de Deus se altera e se refina na medida que nos percebemos
parte e não o centro ou o propósito maior do cosmo.
Nesse ponto, podemos então fazer coro com o filósofo André
Comte-Sponville, um ateu respeitável: “Crença e descrença
não tem prova, e é isso que as define: quando sabemos, não
há mais por que crer ou não”. Ou, pelo menos, não há
mais por que nos perdermos no dogmatismo das religiões ou
do cientificismo.
[Publicado
na edição de 26/07/11 do Novo Jornal]
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