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Ano XI
 Nº 346

 

Texto publicado na matéria de capa da revista  Viagem e Turismo, edição de outubro/2005, e na Viagem e Turismo - Especial Cruzeiros

 


Outras reportagens

 

Viagem à ilha fantástica

A bordo do pequeno, mas acolhedor navio Pacific, uma viagem deslumbrante rumo aos encantos de Fenando de Noronha

Por Jomar Morais  /  Fotos Luis Morais
(O texto completo, o teste de viagem e o serviço estão nas páginas da Viagem e Turismo) 


Luis Morais e JM, no Pacific. Ao fundo, o Morro do Pico, em Noronha

Ao embarcar no navio Pacific para o seu primeiro cruzeiro, o casal David Fujiama e Teresa Takako, de Marília, no interior de São Paulo, tinha uma dúvida comum a dezenas de outros passageiros que ali estreavam num passeio marítimo. Como seria viajar horas a fio, tendo por cenário apenas mar e céu? A incerteza se dissipou já no primeiro minuto do roteiro de quatro noites, cujo ponto alto é a parada no fantástico arquipélago de Fernando de Noronha. Logo que a embarcação começou a deslizar no cais do Recife, a música e a dança tomaram conta da área da piscina no deque Riviera, a placidez do fim de tarde se transformou. Sob os olhares ainda hesitantes da maioria da platéia, artistas e tripulantes entraram no ritmo de uma banda que tocava axé e rock, convidando todos à descontração. Foi rápido. O agito terminou 20 minutos depois, quando as luzes da orla recifense, agora distantes, se acenderam no crepúsculo. Mas o espírito desse ritual de boas vindas iria marcar as dezenas de atividades de lazer e entretenimento que, ao longo do passeio, não deixam ninguém parado. O Pacific é uma festa.

Pequeno e modesto, se comparado aos grandes navios de lazer que singram os mares do planeta, o Pacific foi fretado pela operadora CVC para realizar cruzeiros na costa nordestina, com saídas de Recife e Fortaleza. É o único a ancorar em Fernando de Noronha e, apesar de suas limitações físicas e técnicas, nas últimas temporadas tornou-se uma das boas opções de cruzeiros curtos e baratos. Sua grande vantagem, com certeza, são os itinerários de grande beleza natural, como é o caso do circuito de Fernando Noronha, testado por JM. Contam ainda a seu favor o bom restaurante e uma programação de lazer adaptada ao perfil de cada grupo.  “Só os shows são fixos. O resto é modificado de acordo com a reação das pessoas”, diz o diretor de cruzeiro Alexandre Araújo, o Sadan. É, porém, para a simpatia e presteza da tripulação, sempre esbanjando bom humor, que se dirigem os aplausos unânimes no final do passeio.

O Pacific já é coisa nossa. Passa quase 10 meses por ano em águas nordestinas e tem sabor nacional em quase todos os seus serviços, detalhe reforçado pela presença de um terço de brasileiros entre seus 372 tripulantes de 22 países. O português é o idioma predominante à bordo, uma raridade entre embarcações que percorrem o Atlântico sul. Esse diferencial agrada em cheio aos passageiros - a maioria debutando em férias no mar, atraída pelos roteiros rápidos e econômicos - e acaba por neutralizar desvantagens, como o balanço do navio e a simplicidade de alguns serviços.

Construído em 1972 e celebrizado como locação do antigo seriado de TV americano The Love Boat (O Barco do Amor), o navio foi reformado várias vezes. Seu casco de 33 anos abriga instalações e equipamento de navegação modernos que lhe adicionaram mais conforto e segurança. Ainda assim, seu aspecto veterano frustra os que antes se refestelaram em embarcações recentes e sofisticadas. “Há muito animação e simpatia, mas o navio é antigo, balança muito e deixa a desejar”, diz a publicitária Renata Teixeira, do Rio de Janeiro, que anteriormente fez um cruzeiro nas Bahamas. A médio prazo, a aposentadoria do Pacific é inevitável. “Em cinco anos, não será mais vantagem manter o navio navegando”, diz o comandante português Amadeu Albuquerque. “O Pacific está atualizado, mas seria caro demais realizar novas adaptações”. Até lá, vale a pena curtir o charme do  “barco do amor”, a começar por seus oito tipos de cabines, aí incluídas as novíssimas suites com varanda do deque Promenade, o de melhor vista.

O navio possui 17 espaços de serviços e lazer, alguns amplos e com algum luxo, como o Teatro Carousel e o Salão Pacific, e outros acanhados, como a esquecida academia de ginástica (quase uma ficção num lugar onde cinco refeições diárias, inclusas na passagem, são um convite irresistível à ingestão de calorias). Junto às duas piscinas, a maior delas nas alturas do deque Sun, se sucedem as apresentações musicais – rola tudo, do brega ao jazz -, os jogos grupais, o humor satírico e até demonstrações de escultura em frutas do cozinheiro Enrique Dagawin. Em outros locais, acontecem desfiles de moda, aula de alongamento e recreação para crianças e adolescentes.

À noite, o glamour dos cruzeiros emerge, ainda que sem o brilho dos grandes navios. É hora dos musicais no Teatro Carousel e dos jantares à la carte no requintado Restaurante Coral (no almoço, a maioria prefere o bufê do deque Sun, junto à piscina), o momento dos modelitos e dos encontros românticos.  Mas é preciso sincronizar os espetáculos e o jantar em dois turnos, pois tanto o teatro quanto o restaurante só têm capacidade para receber metade da lotação do navio: 650 passageiros. Exceto na Noite de Gala, quando a tradição do paletó e gravata e dos vestidos longos é revivida, os jantares sempre acabam em festa, com performances de garçons e cozinheiros em meio as mesas. A Noite Tropical é o ápice dessa descontração: no final do jantar,  garçons e clientes se misturam dançando merengue. Nas altas horas, três ambientes dançantes – o Salão Pacific, a Discoteca Cova dos Piratas  e o deque Sun –  recebem públicos distintos para balançar ao som de MPB, rock  ou forró.

Mesmo em dólar, os preços no Pacific são razoáveis. Um refrigerante custa 1 dólar, um coquetel, 3 dólares. Caro mesmo só telefonemas, a 4 dólares o minuto, e o acesso à Internet, cujo cartão de 80 minutos custa 20 dólares. Se é para gastar, no entanto, muita gente prefere fazê-lo no cassino. A banca abre às 7 da noite e, para atrair jovens e passageiros com pouco cacife, aceita apostas a partir de 2 dólares (5 reais).

Todos esses atrativos viram coisa menor quando, na manhã do terceiro dia, deparamos com a silhueta do arquipélago de Fernando de Noronha, rompendo a solidão do oceano. Às 8h, o navio atraca a cerca de um quilômetro do cáis e, então, o café da manhã é servido contra um cenário deslumbrante: a ilha principal, o Morro do Pico (a enorme rocha vulcânica visível de todo o arquipélago), as enseadas de águas verdes cristalinas e, ao longe, as rochas gêmeas dos Dois Irmãos. Ainda no navio é possível contratar um passeio de barco pelas ilhas secundárias e as praias do Mar de Dentro, a zona liberada aos turistas, por 28 dólares por pessoa. Ou marcar uma sessão de mergulho com cilindro por 88 dólares. O passeio terrestre, de bugue, custa 22 dólares por pessoa. Para quem prefere fazer o seu próprio programa, a opção é alugar um bugue no cáis, por 120 reais a diária, e descobrir as surpresas da ilha principal, rodando por trilhas que conduzem a belas enseadas. Não é preciso guia. Fernando de Noronha é pequena e nenhuma trilha tem mais de 2,5 quilômetros. Um quiosque no cáis distribui mapas amigáveis aos turistas.

O roteiro pode começar pela Vila dos Remédios, onde está a igrejinha do século XVIII e o Palácio São Miguel, sede administrativa. A visita ao mirante da Baía dos Golfinhos, cujo acesso se dá a pé por uma trilha de 850 metros, é imperdível, mas deve ser feita preferencialmente pela manhã, quando os golfinhos estão mais exibidos. A Baía Sueste e as praias do Cachorro e da Cacimba do Padre estão entre as mais bonitas e propícias aos banhos.

Em Noronha nada é barato, mas o almoço na Pousada do Zé Maria vale o investimento. O lombo de peixe Meca, acompanhado de arroz, gergelim, farofa de cuscuz e banana e purê de jerimum é delicioso. A porção para dois custa 60 reais.  No final da tarde, um programa obrigatório: o mirante do Forte São Pedro do Boldró. É lá que a turistada se encontra para assistir ao espetáculo do pôr-do-sol no oceano, ao som do Bolero de Ravel. Depois disso é no navio que as coisas acontecem, com o agito da Noite Tropical.

A manhã seguinte ainda será dedicada ao arquipélago, mas o pôr-do-sol será apreciado dos deques do navio em movimento - uma cena imperdível para quem curte o relax sobre a imensidão das águas. A última noite, na rota de volta para Recife, é marcada por humor e emoção no teatro - com direito a performance do diretor de cruzeiro, Sadan, como cover de Ney Mato Grosso -, e no restaurante, onde garçons a caráter cantam Amigos para Sempre e confraternizam com os passageiros. A maioria vai mais cedo para as cabines. O que eles dirão no desembarque varia com as expectativas. O português Antonio Preto, dono de boate em Natal, queria mais agito, apesar do fuzuê à bordo. O aposentado Jacques Pedroza e sua mulher Janice, que viajaram antes no navio Eugenio C,  sentiram a falta de mais opções no bufê e no restaurante. A jornalista Simone Silva, do Jornal de Hoje, também de Natal, adorou exorcizar todo o estresse da profissão nas piscinas do navio. E David e Teresa, nossos paulistas estreantes? “Eu até enjoei com o balanço, mas adorei o passeio”, diz Teresa. “Já estamos planejando o nosso próximo cruzeiro”. Nos comentários de outros passageiros dá para perceber que Teresa não é uma exceção.

 

A chegada ao arquipélago nas primeiras horas do dia

 



O Pacific nas águas esmeraldas e cristalinas

 



Mocós como esse aí estão em toda parte em Noronha 

 



Piscina do Pacific, à noite: baladas quentes

 



Simone Silva (centro), no jantar final: xô estresse! 


Romances 
sobre ondas

Dizem que no Pacific ninguém dorme sozinho. Juro que passei as quatro noites solitário, esparramado na cama de casal de minha cabine. O fotógrafo Luis Morais, meu filho, casado e pai de minha linda neta, ficou alojado em outra cabine. Até hoje minha nora duvida, mas o rapaz garante: apesar de seus 24 anos, nas madrugadas só contou estrelinhas pela janela panorâmica. Luis, no entanto, admite: o Pacific é uma das melhores opções de viagem para um homem solteiro. O clima romântico dos tempos em que figurou no seriado O Barco do Amor ainda envolve o navio, para a alegria dos 35% de passageiros jovens e solteiros. À noite, a discoteca Cova dos Piratas ferve e os casais que ali se formam vão esquentar depois as alcovas balançantes. Como há mais mulheres, o homo sapiens vira item disputadíssimo à bordo.

Até uma parte dos  tripulantes são beneficiados por essa desigualdade dos sexos.  Não é raro, na madrugada,  passageiras desimpedidas abordarem, sem cerimônia, atléticos garçons latinos e outros funcionários, diz um tripulante graduado. A regra é clara: nenhum deles pode alojar-se na cabine de um passageiro. Mas não há norma para o vice-versa.

 

 

 

 

 

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jomar.morais@supercabo.com.br


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