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Ao
embarcar no navio Pacific para o seu primeiro cruzeiro, o casal
David Fujiama e Teresa Takako, de Marília, no interior de São
Paulo, tinha uma dúvida comum a dezenas de outros passageiros que
ali estreavam num passeio marítimo. Como seria viajar horas a
fio, tendo por cenário apenas mar e céu? A incerteza se dissipou
já no primeiro minuto do roteiro de quatro noites, cujo ponto
alto é a parada no fantástico arquipélago de Fernando de
Noronha. Logo que a embarcação começou a deslizar no cais do
Recife, a música e a dança tomaram conta da área da piscina no
deque Riviera, a placidez do fim de tarde se transformou. Sob os
olhares ainda hesitantes da maioria da platéia, artistas e
tripulantes entraram no ritmo de uma banda que tocava axé e rock,
convidando todos à descontração. Foi rápido. O agito terminou
20 minutos depois, quando as luzes da orla recifense, agora
distantes, se acenderam no crepúsculo. Mas o espírito desse
ritual de boas vindas iria marcar as dezenas de atividades de
lazer e entretenimento que, ao longo do passeio, não deixam ninguém
parado. O Pacific é uma festa.
Pequeno
e modesto, se comparado aos grandes navios de lazer que singram os
mares do planeta, o Pacific foi fretado pela operadora CVC para
realizar cruzeiros na costa nordestina, com saídas de Recife e
Fortaleza. É o único a ancorar em Fernando de Noronha e, apesar
de suas limitações físicas e técnicas, nas últimas temporadas
tornou-se uma das boas opções de cruzeiros curtos e baratos. Sua
grande vantagem, com certeza, são os itinerários de grande
beleza natural, como é o caso do circuito de Fernando Noronha,
testado por JM. Contam ainda a seu favor o
bom restaurante e uma programação de lazer adaptada ao perfil de
cada grupo. “Só os
shows são fixos. O resto é modificado de acordo com a reação
das pessoas”, diz o diretor de cruzeiro Alexandre Araújo, o
Sadan. É, porém, para a simpatia e presteza da tripulação,
sempre esbanjando bom humor, que se dirigem os aplausos unânimes
no final do passeio.
O
Pacific já é coisa nossa. Passa quase 10 meses por ano em águas
nordestinas e tem sabor nacional em quase todos os seus serviços,
detalhe reforçado pela presença de um terço de brasileiros
entre seus 372 tripulantes de 22 países. O português é o idioma
predominante à bordo, uma raridade entre embarcações que
percorrem o Atlântico sul. Esse diferencial agrada em cheio aos
passageiros - a maioria debutando em férias no mar, atraída
pelos roteiros rápidos e econômicos - e acaba por neutralizar
desvantagens, como o balanço do navio e a simplicidade de alguns
serviços.
Construído
em 1972 e celebrizado como locação do antigo seriado de TV
americano The Love Boat (O Barco do Amor), o navio
foi reformado várias vezes. Seu casco de 33 anos abriga instalações
e equipamento de navegação modernos que lhe adicionaram mais
conforto e segurança. Ainda assim, seu aspecto veterano frustra
os que antes se refestelaram em embarcações recentes e
sofisticadas. “Há muito animação e simpatia, mas o navio é
antigo, balança muito e deixa a desejar”, diz a publicitária
Renata Teixeira, do Rio de Janeiro, que anteriormente fez um
cruzeiro nas Bahamas. A médio prazo, a aposentadoria do Pacific
é inevitável. “Em cinco anos, não será mais vantagem manter
o navio navegando”, diz o comandante português Amadeu
Albuquerque. “O Pacific está atualizado, mas seria caro demais
realizar novas adaptações”. Até lá, vale a pena curtir o
charme do “barco do
amor”, a começar por seus oito tipos de cabines, aí incluídas
as novíssimas suites com varanda do deque Promenade, o de melhor
vista.
O
navio possui 17 espaços de serviços e lazer, alguns amplos e com
algum luxo, como o Teatro Carousel e o Salão Pacific, e outros
acanhados, como a esquecida academia de ginástica (quase uma ficção
num lugar onde cinco refeições diárias, inclusas na passagem, são
um convite irresistível à ingestão de calorias). Junto às duas
piscinas, a maior delas nas alturas do deque Sun, se sucedem as
apresentações musicais – rola tudo, do brega ao jazz -, os
jogos grupais, o humor satírico e até demonstrações de
escultura em frutas do cozinheiro Enrique Dagawin. Em outros
locais, acontecem desfiles de moda, aula de alongamento e recreação
para crianças e adolescentes.
À
noite, o glamour dos cruzeiros emerge, ainda que sem o
brilho dos grandes navios. É hora dos musicais no Teatro Carousel
e dos jantares à la carte no requintado Restaurante Coral (no
almoço, a maioria prefere o bufê do deque Sun, junto à
piscina), o momento dos modelitos e dos encontros românticos.
Mas é preciso sincronizar os espetáculos e o jantar em
dois turnos, pois tanto o teatro quanto o restaurante só têm
capacidade para receber metade da lotação do navio: 650
passageiros. Exceto na Noite de Gala, quando a tradição do paletó
e gravata e dos vestidos longos é revivida, os jantares sempre
acabam em festa, com performances de garçons e cozinheiros em
meio as mesas. A Noite Tropical é o ápice dessa descontração:
no final do jantar, garçons
e clientes se misturam dançando merengue. Nas altas horas, três
ambientes dançantes – o Salão Pacific, a Discoteca Cova dos
Piratas e o deque Sun
– recebem públicos distintos para balançar ao som de MPB,
rock ou forró.
Mesmo
em dólar, os preços no Pacific são razoáveis. Um refrigerante
custa 1 dólar, um coquetel, 3 dólares. Caro mesmo só
telefonemas, a 4 dólares o minuto, e o acesso à Internet, cujo
cartão de 80 minutos custa 20 dólares. Se é para gastar, no
entanto, muita gente prefere fazê-lo no cassino. A banca abre às
7 da noite e, para atrair jovens e passageiros com pouco cacife,
aceita apostas a partir de 2 dólares (5 reais).
Todos
esses atrativos viram coisa menor quando, na manhã do terceiro
dia, deparamos com a silhueta do arquipélago de Fernando de
Noronha, rompendo a solidão do oceano. Às 8h, o navio atraca a
cerca de um quilômetro do cáis e, então, o café da manhã é
servido contra um cenário deslumbrante: a ilha principal, o Morro
do Pico (a enorme rocha vulcânica visível de todo o arquipélago),
as enseadas de águas verdes cristalinas e, ao longe, as rochas gêmeas
dos Dois Irmãos. Ainda no navio é possível contratar um passeio
de barco pelas ilhas secundárias e as praias do Mar de Dentro, a
zona liberada aos turistas, por 28 dólares por pessoa. Ou marcar
uma sessão de mergulho com cilindro por 88 dólares. O passeio
terrestre, de bugue, custa 22 dólares por pessoa. Para quem
prefere fazer o seu próprio programa, a opção é alugar um
bugue no cáis, por 120 reais a diária, e descobrir as surpresas
da ilha principal, rodando por trilhas que conduzem a belas
enseadas. Não é preciso guia. Fernando de Noronha é pequena e
nenhuma trilha tem mais de 2,5 quilômetros. Um quiosque no cáis
distribui mapas amigáveis aos turistas.
O
roteiro pode começar pela Vila dos Remédios, onde está a
igrejinha do século XVIII e o Palácio São Miguel, sede
administrativa. A visita ao mirante da Baía dos Golfinhos, cujo
acesso se dá a pé por uma trilha de 850 metros, é imperdível,
mas deve ser feita preferencialmente pela manhã, quando os
golfinhos estão mais exibidos. A Baía Sueste e as praias do
Cachorro e da Cacimba do Padre estão entre as mais bonitas e propícias
aos banhos.
Em
Noronha nada é barato, mas o almoço na Pousada do Zé Maria vale
o investimento. O lombo de peixe Meca, acompanhado de arroz,
gergelim, farofa de cuscuz e banana e purê de jerimum é
delicioso. A porção para dois custa 60 reais.
No final da tarde, um programa obrigatório: o mirante do
Forte São Pedro do Boldró. É lá que a turistada se encontra
para assistir ao espetáculo do pôr-do-sol no oceano, ao som do
Bolero de Ravel. Depois disso é no navio que as coisas acontecem,
com o agito da Noite Tropical.
A
manhã seguinte ainda será dedicada ao arquipélago, mas o pôr-do-sol
será apreciado dos deques do navio em movimento - uma cena imperdível
para quem curte o relax sobre a imensidão das águas. A última
noite, na rota de volta para Recife, é marcada por humor e emoção
no teatro - com direito a performance do diretor de cruzeiro,
Sadan, como cover de Ney Mato Grosso -, e no restaurante, onde garçons
a caráter cantam Amigos para Sempre e confraternizam com
os passageiros. A maioria vai mais cedo para as cabines. O que
eles dirão no desembarque varia com as expectativas. O português
Antonio Preto, dono de boate em Natal, queria mais agito, apesar
do fuzuê à bordo. O aposentado Jacques Pedroza e sua mulher
Janice, que viajaram antes no navio Eugenio C,
sentiram a falta de mais opções no bufê e no
restaurante. A jornalista Simone Silva, do Jornal de Hoje, também
de Natal, adorou exorcizar todo o estresse da profissão nas piscinas do navio.
E David e Teresa, nossos paulistas estreantes? “Eu
até enjoei com o balanço, mas adorei o passeio”, diz Teresa.
“Já estamos planejando o nosso próximo cruzeiro”. Nos comentários
de outros passageiros dá para perceber que Teresa não é uma
exceção.
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A
chegada ao arquipélago nas primeiras horas do dia

O
Pacific nas águas esmeraldas e cristalinas

Mocós
como esse aí estão em toda parte em Noronha

Piscina
do Pacific, à noite: baladas quentes

Simone
Silva (centro), no jantar final: xô estresse!
Romances
sobre ondas
Dizem
que no Pacific ninguém dorme sozinho. Juro que passei as
quatro noites solitário, esparramado na cama de casal de
minha cabine. O fotógrafo Luis Morais, meu filho, casado e
pai de minha linda neta, ficou alojado em outra cabine. Até
hoje minha nora duvida, mas o rapaz garante: apesar de seus
24 anos, nas madrugadas só contou estrelinhas pela janela
panorâmica. Luis, no entanto, admite: o Pacific é uma das
melhores opções de viagem para um homem solteiro. O clima
romântico dos tempos em que figurou no seriado O Barco do Amor ainda envolve o navio, para a alegria dos 35% de
passageiros jovens e solteiros. À noite, a discoteca Cova
dos Piratas ferve e os casais que ali se formam vão
esquentar depois as alcovas balançantes. Como há mais
mulheres, o homo
sapiens vira item disputadíssimo à bordo.
Até
uma parte dos tripulantes são beneficiados por essa
desigualdade dos sexos.
Não é raro, na madrugada,
passageiras desimpedidas abordarem, sem cerimônia,
atléticos garçons latinos e outros funcionários, diz um
tripulante graduado. A regra é clara: nenhum deles pode
alojar-se na cabine de um passageiro. Mas não há norma
para o vice-versa.
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