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Ano VI // Nº 303

 

 

Texto publicado na edição de Maio de 2001 da revista VIAGEM e TURISMO

 

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SE ESSA CASA FALASSE ...

 

Museu Neruda  

Por JOMAR MORAIS,  de Isla Negra

I sla Negra, a 100 quilômetros de Santiago, já não é mais a praia deserta de 50 anos atrás, nem este sobrado, outrora solitário, é a única construção sobre a escarpa que se impõe diante do Pacífico. Mesmo assim, tudo na velha casa, hoje um museu, ainda exala poesia, paixão. A mobília, arrumada da mesma maneira como a deixou Pablo Neruda, não dá margem a dúvida. Foi aqui onde o poeta maior do Chile, Prêmio Nobel de Literatura, ativista do socialismo e amante inveterado, colecionou seus melhores sonhos e amores ardentes. Fascinado pelo mar, Neruda, que se autoproclamava capitão sem jamais ter comandado um barco, ergueu uma casa com jeito de navio. Portas pequenas, teto curvo, corredores ligando salas "protegidas" por carrancas em forma de sereias. Imagens femininas em meio a presentes recebidos de amigos do mundo inteiro. Mulheres, sempre as mulheres. "Nada está completo se uma mulher não compartilha nossos descobrimentos", disse o poeta certa vez. Na proa, ao alto, o quarto, a cama rústica e um enorme janelão de vidro descortinando o oceano. Um santuário. Ali, a pequena Matilde Urrutia, terceira mulher de Neruda, embriagou-o de inspiração ao longo dos últimos 20 de anos de sua vida. No guarda roupa, os vestidos e xales ainda denunciam o corpo diminuto, quase uma criança. Suas mãos e pés minúsculos encantavam o poeta. "Tudo o que escrevo é dedicado ela", disse Neruda, apaixonado.

Se essa casa falasse, certamente sussurraria, com o poeta, os versos delirantes:

Eu te nomeio rainha.

Há mulheres mais altas do que tu, mais altas.

Há mais puras do que tu, mais puras.

Há mais belas do que tu, mais belas.

Mas tu és a rainha.

"Doze dias depois do Golpe Militar ser proclamado no Chile, em 1973, o poeta morreu. Estava doente e os últimos acontecimentos tinham acabado com sua vontade de viver. Agonizou em sua cama em Isla Negra olhando sem ver o mar que estalava contra as pedras debaixo de sua janela", escreveu Isabel Allende em seu livro Paula.

 

Foto:

Jomar, Fátima e Márcia Morais (à direita) nos
 jardins da casa de Neruda, em Isla Negra

Serviço:

Museu da Fundação Pablo Neruda

Comunidade El Quisco, Isla Negra

Ingresso: 2 000 pesos chilenos (3,5 dólares)

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jomar.morais@supercabo.com.br


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