Uma
semana após os Estados Unidos terem sofrido o maior
atentado terrorista da história, o presidente George W.
Bush visitou o Centro Islâmico de Washington e, pés
descalços – como manda a tradição muçulmana –,
exortou os americanos a não confundirem os terroristas que
atacaram o World Trade Center e o Pentágono com as pessoas
pacíficas que professam o Islã, a religião que mais
cresce no planeta. Até então, mesquitas vinham sendo
apedrejadas e muçulmanos agredidos em várias partes dos
Estados Unidos, no rastro de uma confusão antiga que
atingiu seu ápice sob a comoção provocada pelo terror: a
enorme incapacidade dos ocidentais para entender as
peculiaridades e dessemelhanças culturais que compõem o
mundo islâmico.
Vistos pela
ótica de um americano – ou de um brasileiro – um
mulçumano de Dubai, um cidadão árabe, e outro de Teerã,
um persa, pensam e agem de forma idêntica, sempre movidos
pelos princípios da religião. Errado. Os 1,3 bilhão de
seguidores do profeta Maomé (1,5 milhão no Brasil) não
formam um bloco homogêneo. Como os cristãos, dividem-se em
correntes e seitas que interpretam diferentemente os textos
do Corão, a bíblia muçulmana. Os mulçumanos sequer se
limitam aos países de etnia árabe, como muita gente
imagina. A maior nação islâmica do mundo – a Indonésia
- não é árabe. Entre os 56 países que têm o islamismo
como religião predominante, existem até dois viozinhos do
Brasil - a Guiana e o Suriname.
Se existe
algo comum a todos os membros desse bloco é o fato de serem
todos países pobres, apesar do potencial econômico de
alguns, em especial os produtores de petróleo do Oriente
Médio. A maioria também está ou esteve recentemente sob
governos ditatoriais ou exerce a democracia com restrições.
Na lista
estão desde países tolerantes, como Marrocos e
Tunísia, que aderiram à economia global e mantêm acordos
com a União Européia, num claro contraponto ao
primitivismo de economias agrárias da África e da Ásia, a
exemplo de Moçambique e do Afeganistão. No pequeno Dubai,
200 empresas de alta tecnologia - inclusive a IBM e a
Microsoft - dão o tom das inovações tecnológicas e da
abertura ao ocidente, enquanto potências islâmicas como o
Egito e a Arábia Saudita seguem a passo lento no processo
de modernização.
A face mais
conservadora do Islã se apresenta nos estados teocráticos,
onde as normas religiosas constituem ou norteiam o sistema
legal e governos são dominados pelo clero. É o caso do
Irã, transformado em república islâmica em 1979 ( e nos
últimos dois anos está adotando posturas mais flexíveis).
Outro é o Afeganistão, onde há cinco anos a milícia
Taliban impôs a sua interpretação fundamentalista
do Corão. Tais países também têm se revelado
inspiradores do terrorismo de estado e de grupos que, em
geral, têm como alvo Israel e o seu principal aliado, os
Estados Unidos. O Al Qaeda, grupo do temido Osama bin Laden,
encontrou seu porto seguro no Afeganistão, após ser
relegado por outros governos islâmicos. O Irã deu apoio
militar e financeiro ao Hezbollah, principal organização
paramilitar que luta contra a ocupação de territórios
árabes por Israel (veja glossário ao lado).
"A maior
parte dos movimentos políticos islâmicos, no entanto, não
utiliza a força", diz a doutora em relações
internacionais Norma Breda dos Santos, do Departamento de
História da Universidade de Brasília. "Além disso,
vale lembrar que algumas potências ocidentais contribuíram
no passado para a pesada militarização de alguns grupos
quando estes lhes pareciam aliados no terreno movediço da
guerra fria". A CIA, por exemplo, armou bin Laden
quando este lutava contra tropas da antiga União Soviética
no Afeganistão.
Foi graças
à força do Islã, palavra que significa submissão a Deus,
que a humanidade viu surgir, há 13 séculos, o maior
império do mundo – o árabe -, resultado da reunião das
tribos nômades da península arábica. Ao morrer, em 632,
Maomé não havia deixado apenas uma religião, mas também
um modelo de regime social para uma Arábia unificada, ponto
de partida para um estado teocrático. Expandindo seus
domínios em nome de Alá, os árabes só conheceriam a
decadência 800 anos depois, quando a Europa entrou na era
das grandes viagens marítimas, deflagrando o ocaso do
império otomano. A estagnação já dura cinco séculos. A
explosão do Islã no terceiro milênio seria o começo de
alguma mudança?
Quem
é quem
Al Fatah
É a maior
facção da Organização para Libertação da Palestina (OLP),
que controla o governo palestino. Fundado na década de 50
por Yasser Arafat, durante seu exílio no Kuwait, o grupo
perambulou pela Jordânia, Líbano e Tunísia até tornar-se
a facção política mais importante da Palestina. A Fatah
foi a primeira a realizar ataques contra Israel e a primeira
a abandonar a luta armada, em direção à negociação da
paz.
Al Qaeda (A
Base)
Grupo
terrorista fundado em 1989 pelo milionário saudita Osama
bin Laden, no início tinha por objetivo expulsar militares
americanos instalados na Arábia Saudita e na Somália.
Posteriormente estendeu seu combate a todos os governos
não-islâmicos ou aliados de Israel. É o inimigo número 1
dos Estados Unidos, responsável, entre outros, pelo
atentado à embaixada americana no Quênia (213 mortos) e,
provavelmente, pelos ataques ao World Trade Center e ao
Pentágono. Coopera com o grupo palestino Hezbollah e possui
bases em países islâmicos, na Europa e na América do
Norte.
Hamas (Resistência
Islâmica)
Fundada em
1987 pelo xeque Ahmed, essa é uma das organizações mais
radicais no confronto entre palestinos e israelenses. É
famosa por seus atentados suicidas com homens-bombas, que em
sete anos já mataram cerca de 200 pessoas em Israel.
Contrária aos acordos de paz assinados por Yasser Arafat, a
Hamas mantém escolas onde jovens e crianças são treinados
para se tornarem shaheeds (santos mártires), sob a promessa
de que seus familiares terão estabilidade financeira e eles
ganharão no Céu a companhia de 72 virgens.
Hezbollah (Partido
de Deus)
É o grupo
paramilitar mais atuante no Oriente Médio. Surgiu no
início dos anos 80, durante a segunda invasão de Israel ao
Líbano. Executa atentados, mas também desempenha intensa
atividade política. Foi o Hezbollah quem, em 1983, explodiu
carros-bombas junto à embaixada americana e a um quartel
americano em Beirute. Há evidências de que o grupo foi
também responsável pelo atentado à embaixada de Israel na
Argentina, em 1992.
Intifada
Trata-se da
rebelião popular que eclodiu em 1987 em Gaza. Após a morte
de quatro palestinos, atropelados por um caminhão do
exército israelense, jovens e crianças armados com paus e
pedras enfrentaram nas ruas soldados de Israel. A dura
reação israelense foi condenada pelo Conselho de
Segurança da ONU e levou a opinião pública mundial a
expressar simpatia pela causa palestina. As diversas
facções da OLP uniram-se então para proclamar no ano
seguinte o estado independente da Palestina, ao mesmo tempo
em que reconhecia a existência de Israel.
Jihad (Guerra
Santa)
Essa
organização foi criada por estudantes palestinos no Egito
e passou a atuar na Faixa de Gaza sob o comando de Fathi
Shikaki, depois assassinado, aparentemente por agentes
israelenses. O grupo se opõe aos acordos de paz com Israel
e também realiza atentados suicidas, mas suas maiores
ações foram contra políticos egípcios moderados. Em
1981, a Jihad assassinou o presidente do egípcio Anwar
Sadat, num tiroteio sem precedentes durante uma cerimônia
pública. Em 1993, matou o primeiro-ministro egípcio Atef
Sedky.
OLP (Organização
para Libertação da Palestina)
Fundada em
1964, com a finalidade de unir os diversos grupos palestinos
que lutavam contra a presença israelense no território da
antiga Palestina, a OLP foi dominada pela Al Fatah de Yasser
Arafat e na década de 70 passou a ser reconhecida pelas
nações árabes como representante do povo palestino. Após
renunciar à violência e aceitar a existência de Israel,
em 1988, a OLP passou a ser vista como um governo no exílio.
Sunitas
São os
muçulmanos que seguem as sunas, coletânea de atos e
pronunciamentos do profeta Maomé. É a corrente
predominante na maioria dos países islâmicos, defensores
de posturas mais moderadas que os seus opositores xiitas.
Taliban
Movimento
estudantil transformado depois em estrutura militar, sob a
influência do serviço secreto do Paquistão, o Taliban
assumiu o controle de dois terços do Afeganistão em 1996,
deslocando do poder os guerrilheiros mujaheddin que
combateram durante décadas os soldados soviéticos.
Fundamentalistas, os talibans implantaram no país uma
república teocrática, baseada na sua própria
interpretação do Islã. Houve severa restrição dos
direitos das mulheres, a televisão foi banida e a
amputação de membros e a execução de criminosos tornaram-se
rotina no país. O líder do Taliban é o mulá Mohammad
Umar.
Xiitas
Muçulmanos fiéis à
tradição dos hashemitas, um dos quatro ramos em que se
dividiu a comunidade islâmica logo após a morte de Maomé.
Os xiitas defendem o direito dos descendentes de Ali, primo
de Maomé, ao califado. Predominam no clero de países
fundamentalistas, como o Irã e o Afeganistão.