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Ano VII // Nº 309

Texto publicado na edição de Outubro de 2001 da revista SUPER

 


Só tem aqui: Lamentação ante o WTC

 

SEPARAR É PRECISO

JOIO E TRIGO NO ISLà  

Por JOMAR MORAIS

Uma semana após os Estados Unidos terem sofrido o maior atentado terrorista da história, o presidente George W. Bush visitou o Centro Islâmico de Washington e, pés descalços – como manda a tradição muçulmana –, exortou os americanos a não confundirem os terroristas que atacaram o World Trade Center e o Pentágono com as pessoas pacíficas que professam o Islã, a religião que mais cresce no planeta. Até então, mesquitas vinham sendo apedrejadas e muçulmanos agredidos em várias partes dos Estados Unidos, no rastro de uma confusão antiga que atingiu seu ápice sob a comoção provocada pelo terror: a enorme incapacidade dos ocidentais para entender as peculiaridades e dessemelhanças culturais que compõem o mundo islâmico.

Vistos pela ótica de um americano – ou de um brasileiro – um mulçumano de Dubai, um cidadão árabe, e outro de Teerã, um persa, pensam e agem de forma idêntica, sempre movidos pelos princípios da religião. Errado. Os 1,3 bilhão de seguidores do profeta Maomé (1,5 milhão no Brasil) não formam um bloco homogêneo. Como os cristãos, dividem-se em correntes e seitas que interpretam diferentemente os textos do Corão, a bíblia muçulmana. Os mulçumanos sequer se limitam aos países de etnia árabe, como muita gente imagina. A maior nação islâmica do mundo – a Indonésia - não é árabe. Entre os 56 países que têm o islamismo como religião predominante, existem até dois viozinhos do Brasil - a Guiana e o Suriname.

Se existe algo comum a todos os membros desse bloco é o fato de serem todos países pobres, apesar do potencial econômico de alguns, em especial os produtores de petróleo do Oriente Médio. A maioria também está ou esteve recentemente sob governos ditatoriais ou exerce a democracia com restrições.

Na lista estão desde países tolerantes,  como Marrocos e Tunísia, que aderiram à economia global e mantêm acordos com a União Européia, num claro contraponto ao primitivismo de economias agrárias da África e da Ásia, a exemplo de Moçambique e do Afeganistão. No pequeno Dubai, 200 empresas de alta tecnologia - inclusive a IBM e a Microsoft - dão o tom das inovações tecnológicas e da abertura ao ocidente, enquanto potências islâmicas como o Egito e a Arábia Saudita seguem a passo lento no processo de modernização.

A face mais conservadora do Islã se apresenta nos estados teocráticos, onde as normas religiosas constituem ou norteiam o sistema legal e governos são dominados pelo clero. É o caso do Irã, transformado em república islâmica em 1979 ( e nos últimos dois anos está adotando posturas mais flexíveis). Outro é o Afeganistão, onde há cinco anos a milícia Taliban  impôs a sua interpretação fundamentalista do Corão. Tais países também têm se revelado inspiradores do terrorismo de estado e de grupos que, em geral, têm como alvo Israel e o seu principal aliado, os Estados Unidos. O Al Qaeda, grupo do temido Osama bin Laden, encontrou seu porto seguro no Afeganistão, após ser relegado por outros governos islâmicos. O Irã deu apoio militar e financeiro ao Hezbollah, principal organização paramilitar que luta contra a ocupação de territórios árabes por Israel (veja glossário ao lado).

"A maior parte dos movimentos políticos islâmicos, no entanto, não utiliza a força", diz a doutora em relações internacionais Norma Breda dos Santos, do Departamento de História da Universidade de Brasília. "Além disso, vale lembrar que algumas potências ocidentais contribuíram no passado para a pesada militarização de alguns grupos quando estes lhes pareciam aliados no terreno movediço da guerra fria". A CIA, por exemplo, armou bin Laden quando este lutava contra tropas da antiga União Soviética no Afeganistão.

Foi graças à força do Islã, palavra que significa submissão a Deus, que a humanidade viu surgir, há 13 séculos, o maior império do mundo – o árabe -, resultado da reunião das tribos nômades da península arábica. Ao morrer, em 632, Maomé não havia deixado apenas uma religião, mas também um modelo de regime social para uma Arábia unificada, ponto de partida para um estado teocrático. Expandindo seus domínios em nome de Alá, os árabes só conheceriam a decadência 800 anos depois, quando a Europa entrou na era das grandes viagens marítimas, deflagrando o ocaso do império otomano. A estagnação já dura cinco séculos. A explosão do Islã no terceiro milênio seria o começo de alguma mudança?

Quem é quem

Al Fatah

É a maior facção da Organização para Libertação da Palestina (OLP), que controla o governo palestino. Fundado na década de 50 por Yasser Arafat, durante seu exílio no Kuwait, o grupo perambulou pela Jordânia, Líbano e Tunísia até tornar-se a facção política mais importante da Palestina. A Fatah foi a primeira a realizar ataques contra Israel e a primeira a abandonar a luta armada, em direção à negociação da paz.

 

Al Qaeda (A Base)

Grupo terrorista fundado em 1989 pelo milionário saudita Osama bin Laden, no início tinha por objetivo expulsar militares americanos instalados na Arábia Saudita e na Somália. Posteriormente estendeu seu combate a todos os governos não-islâmicos ou aliados de Israel. É o inimigo número 1 dos Estados Unidos, responsável, entre outros, pelo atentado à embaixada americana no Quênia (213 mortos) e, provavelmente, pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Coopera com o grupo palestino Hezbollah e possui bases em países islâmicos, na Europa e na América do Norte.

 

Hamas (Resistência Islâmica)

Fundada em 1987 pelo xeque Ahmed, essa é uma das organizações mais radicais no confronto entre palestinos e israelenses. É famosa por seus atentados suicidas com homens-bombas, que em sete anos já mataram cerca de 200 pessoas em Israel. Contrária aos acordos de paz assinados por Yasser Arafat, a Hamas mantém escolas onde jovens e crianças são treinados para se tornarem shaheeds (santos mártires), sob a promessa de que seus familiares terão estabilidade financeira e eles ganharão no Céu a companhia de 72 virgens.

 

Hezbollah (Partido de Deus)

É o grupo paramilitar mais atuante no Oriente Médio. Surgiu no início dos anos 80, durante a segunda invasão de Israel ao Líbano. Executa atentados, mas também desempenha intensa atividade política. Foi o Hezbollah quem, em 1983, explodiu carros-bombas junto à embaixada americana e a um quartel americano em Beirute. Há evidências de que o grupo foi também responsável pelo atentado à embaixada de Israel na Argentina, em 1992.

 

Intifada

Trata-se da rebelião popular que eclodiu em 1987 em Gaza. Após a morte de quatro palestinos, atropelados por um caminhão do exército israelense, jovens e crianças armados com paus e pedras enfrentaram nas ruas soldados de Israel. A dura reação israelense foi condenada pelo Conselho de Segurança da ONU e levou a opinião pública mundial a expressar simpatia pela causa palestina. As diversas facções da OLP uniram-se então para proclamar no ano seguinte o estado independente da Palestina, ao mesmo tempo em que reconhecia a existência de Israel.

 

Jihad (Guerra Santa)

Essa organização foi criada por estudantes palestinos no Egito e passou a atuar na Faixa de Gaza sob o comando de Fathi Shikaki, depois assassinado, aparentemente por agentes israelenses. O grupo se opõe aos acordos de paz com Israel e também realiza atentados suicidas, mas suas maiores ações foram contra políticos egípcios moderados. Em 1981, a Jihad assassinou o presidente do egípcio Anwar Sadat, num tiroteio sem precedentes durante uma cerimônia pública. Em 1993, matou o primeiro-ministro egípcio Atef Sedky.

 

OLP (Organização para Libertação da Palestina)

Fundada em 1964, com a finalidade de unir os diversos grupos palestinos que lutavam contra a presença israelense no território da antiga Palestina, a OLP foi dominada pela Al Fatah de Yasser Arafat e na década de 70 passou a ser reconhecida pelas nações árabes como representante do povo palestino. Após renunciar à violência e aceitar a existência de Israel, em 1988, a OLP passou a ser vista como um governo no exílio.

 

Sunitas

São os muçulmanos que seguem as sunas, coletânea de atos e pronunciamentos do profeta Maomé. É a corrente predominante na maioria dos países islâmicos, defensores de posturas mais moderadas que os seus opositores xiitas.

 

Taliban

Movimento estudantil transformado depois em estrutura militar, sob a influência do serviço secreto do Paquistão, o Taliban assumiu o controle de dois terços do Afeganistão em 1996, deslocando do poder os guerrilheiros mujaheddin que combateram durante décadas os soldados soviéticos. Fundamentalistas, os talibans implantaram no país uma república teocrática, baseada na sua própria interpretação do Islã. Houve severa restrição dos direitos das mulheres, a televisão foi banida e a amputação de membros e a execução de criminosos tornaram-se rotina no país. O líder do Taliban é o mulá Mohammad Umar.

 

Xiitas

Muçulmanos fiéis à tradição dos hashemitas, um dos quatro ramos em que se dividiu a comunidade islâmica logo após a morte de Maomé. Os xiitas defendem o direito dos descendentes de Ali, primo de Maomé, ao califado. Predominam no clero de países fundamentalistas, como o Irã e o Afeganistão.

 

 

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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