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Ano V // Nº 279

Texto publicado na edição de 20 de outubro de 1999 da revista Exame

Nan, Nan, NÃO

Por JOMAR MORAIS, de Belo Jardim / Foto: Luis Morais

Dono de uma das maiores fábricas de baterias do país, o pernambucano Edson Moura não quer sócios estrangeiros e acha que globalização é coisa do imperialismo americano

Às vésperas do ano 2 000, Belo Jardim, cidade de 50 000 habitantes no sertão de Pernambuco, surpreende o vi-sitante com uma cena que lembra tempos medievais. Ali, pode-se perceber a classe social de uma pessoa não apenas pela aparência da roupa ou do meio de transporte que esteja usando, mas, sobretudo, pelo tipo de vaso que utiliza num ritual que, três vezes por semana, reúne os moradores do lugar: a romaria aos caminhões-tanques que trazem água potável, líquido que a seca implacável há meses fez sumir das torneiras. Os mais pobres seguram baldes, latas e panelas. A classe média exibe potes e barris de plástico.

Esse drama social poderia ser o único destaque de uma cidade incrustada numa das áreas mais áridas do Nordeste. Poderia. Mas Belo Jardim não surpreende apenas por seus problemas. É de lá que sai um quarto de todas as baterias de automóveis produzidas no Brasil -- nada menos de 2,5 milhões de unidades fabricadas anualmente pela Baterias Moura, grupo local que ergueu em Belo Jardim a maior indústria de acumuladores da América Latina.

A própria Moura é, em si mesma, um caso surpreendente. Surgiu do nada, há 42 anos, quando havia na cidade apenas um carro e não mais que 700 000 veículos rodavam no resto do país. Desde então, tem escrito uma história na qual a mistura de criatividade e audácia, especialmente nos momentos de crise, tem garantido à empresa avançar num dos setores mais competitivos da economia. No Brasil existem hoje cerca de 200 fabricantes de baterias, mas apenas quatro indústrias dominam o mercado. Entre essas, somente uma não pertence a grupo multinacional -- a própria Moura, líder no segmento de reposição, fornecedora da Fiat e da Volkswagen e dona de um faturamento de 110 milhões de reais.

"Não foi fácil chegar até aqui", diz Edson Mororó Moura, presidente e fun-dador da empresa. "Por duas vezes, pensei em desistir". Na verdade, a história da Moura se confunde com a desse engenheiro químico de 69 anos, carismático, cuja trajetória de atitudes inusitadas e pontos-de-vista con-traditórios costuma também surpreender quem está no mundo dos negócios. Afinal, onde já se viu um capitalista que tece loas ao bigodudo Stalin, o sanguinário ditador comunista, e um pefelista que trata de negócios sob uma foto emoldurada de Che Guevara? O dono da Moura é assim. Um homem que, desde criança, gosta de remar contra a corrente. Às vezes pelo simples prazer de ser diferente e chamar a atenção; em outras por acreditar no impossível.

Nascido em Belo Jardim, Edson era apenas um recém-formado pela antiga Escola Superior de Química de Recife quando apostou suas fichas numa idéia do mecânico Agripino Gonçalves Farias, na época funcionário de uma fábrica de doces de sua família: produzir baterias para automóveis, a partir da reciclagem das placas de chumbo de baterias usadas. Logo o projeto se revelaria uma missão inglória no sertão, por absoluta falta de profissionais especializados e fontes de suporte. Mesmo assim, Edson resolveu ir em frente, buscando em São Paulo o que lhe faltava, de um jeito insólito.

O que terá pensado, por exemplo, o italiano Aldo Rabioglio, presidente da Satúrnia, então a maior fábrica de baterias do país, quando descobriu que o jovem estagiário que viera de Pernambuco não era nenhum professor de Química e sim um empreendedor que se preparava para lhe fazer concorrência? A bem da verdade, é preciso dizer que foi o próprio Edson quem revelou ao empresário o real objetivo de sua presença, omitido na carta de apresenta-ção da Escola Superior de Química. Mas o estágio, no qual a Satúrnia se propunha até a pagar a conta do hotel, obviamente foi cancelado. Em São Paulo, Edson ainda comprou algumas máquinas de uma fabriqueta de baterias falida e, ao custo de muitas promessas, acabou convencendo um operário especializado a seguir com ele para Belo Jardim. No entanto, quase nada mudou.

A Moura só não faliu em 1962 porque uma idéia simples, porém genial, resgatou-a do fundo do poço. "Se o chumbo utilizado nas baterias não trazia dinheiro, por que não utilizá-lo para fabricar cartuchos de rifles e espingardas?", pensou Edson. Foi um achado. Numa época em que a caça era largamente praticada no Nordeste, inclusive como meio de sobrevivência em algumas áreas, a Moura vendeu munição como água, capitalizando-se ao ponto de, em 1967, arriscar um investimento de 1 milhão de dólares em uma nova fábrica de baterias, financiada pelo Banco do Nordeste. Com o uso de máquinas importadas dos Estados Unidos, a produção pulou de pífias 50 unidades por mês para 5 000 baterias. Além disso, o produto da Moura ganhou qualidade e passou a competir com o da Satúrnia, então campeã de vendas.

Ironicamente, esse salto abriu caminho para uma das piores crises da empresa, no início dos anos 70, resulta-do de sua inexperiência em negócios de larga escala. Na ânsia de ampliar as vendas de qualquer jeito, a empresa acabou levando um tombo que por pouco não a liquidou. Muitos clientes ficaram inadimplentes e, no sufoco, a Moura teve que desfazer-se até dos carros da diretoria. Mais uma vez, o pragmatismo do velho Edson livrou a empresa da forca. Com o intuito de fazer dinheiro com rapidez, durante algum tempo a Moura colocou em segundo plano sua própria linha de baterias, tornando-se a maior fornecedora de caixas de ebonite -- usadas na época para acon-dicionar os componentes dos acumuladores -- para concorrentes de pequeno e médio portes.
A empresa só retomaria o crescimento na década de 80, começando pela montagem de uma rede nacional de 40 centros de distribuição, em parceria com empresários locais. Foi um estouro. A Moura chegou a ter 40% do mercado de reposição. Até hoje a rede, que cobre mais de 4 000 pontos de venda no país, é uma de suas principais vantagens competitivas. A exemplo de outras companhias, no período, a empresa também fez inchar sua estrutura e diversificou negócios indiscriminadamente, desperdício que só pôde ser camuflado enquanto a inflação esteve na estratos-fera. Com a estabilidade da moeda, o downsizing tornou-se imperioso para a racionalização de custos, inclusive com a desativação das fábricas de São Paulo e Recife.
"A Moura tem gestão industrial moderna e está muito bem capacitada tecnologicamente", diz João Eurico Aguiar de Lima, ex-gerente de Informática do grupo. "O que atrapalha é o caráter familiar da empresa, em que as ligações de confiança predominam sobre a competência". Com a globalização, esse é talvez o grande calcanhar-de-aquiles da companhia, que hoje exporta 15% de sua produção para o Mercosul e Caribe e mantém acordos de transferência de tecnologia com a Exide, da Inglaterra, e a GNB americana. É um tema, aliás, que está no centro da luta sucessória na empresa, há algum tempo protagonizada pelo primogênito Edson Viana Moura, o engenheiro Edinho, e o também engenheiro Paulo Gomes Sales, casado com a filha de Edson, Maria da Conceição.

Edinho, diretor comercial da Moura, acha que está na hora de mudar antigas posturas, sob pena de prejudicar o futuro da empresa. "Meu pai não soube criar uma equipe de colaboradores fora da família e ainda hoje perdemos pro-fissionais produtivos pelo simples fato de terem opiniões diferentes das nossas", queixa-se o filho. O que diz o velho Edson? "Edinho é muito competente, mas gosta muito de se divertir. Quem pensa em baterias 24 por dia sou eu", ironiza. O patriarca também afirma que o fato de ser o primogênito não dá a Edinho o direito natural de sucedê-lo no comando da Moura, o que certamente não tem relação com o pensamento reformista do filho, mas com o modo de conduzi-lo. Embora não admita em público, Paulo Sales, genro e diretor financeiro da Moura, apontado por consultores como o homem que mais quebra paradigmas na empresa, tem idéias semelhantes à de Edinho, porém mais habilidade para executá-las.

Foi Sales quem comandou o processo de enxugamento da Moura e, habilmente, realizou uma proeza até então impensável: tirar da sogra, a também engenheira química Conceição, a chave do cofre da empresa, um dos maiores obstáculos no processo de decisão. Conceição era conhecida pelo apelido de "Dona Biônica", por sua incrível capacidade de controle sobre tudo e todos na Moura. Com a implantação do sistema de unidades de negócio, com autonomia para definir seus próprios gastos, Dona Biônica achou melhor dedicar mais tempo à sua loja de antigüidades.

Na área industrial, coube a Sérgio Moura, outro filho de Edson, tocar as mudanças, especialmente quanto aos recursos humanos. "Estávamos patinando e, se não mudássemos, iríamos perder espaço",diz Sérgio. Com o auxílio de consultoria externa, ele intensificou o treinamento nas linhas de produção e implantou o sistema de participação nos resultados, que se somou à tradicional distribuição de cestas básicas para os funcionários. Em três anos, a produtividade aumentou 76%.

Um nó crucial para a Moura, no entanto, dificilmente será desatado enquanto Edson der as cartas na empresa: a necessidade de encontrar parceiros capitalistas que permitam à companhia fazer lances mais audaciosos no mercado global. A hipótese já foi levantada em reuniões internas por Paulo Sales e até por Edinho. Em vão. Nacionalista e crítico do capitalismo global, o velho Edson rebate com o jargão esquerdista de que a globalização é o novo nome do imperialismo americano e põe em dúvida o resultado das associações. "As multinacionais têm dinheiro, mas não têm eficiência", afirma. "Concorremos com três e vamos muito bem". A Moura tem mesmo gás para seguir sozinha? Só o tempo dirá.


EDSON MORORÓ MOURA


Idade: 69 anos
Formação acadêmica: engenheiro químico
Família: casado com Conceição das Neves Moura e pai de Edson e Sérgio (engenheiros) e Pedro Ivo (administrador) e Maria da Conceição
Filhos: "Aqui, os conservadores são eles"
Religião: Católica
Credo político: "Um homem que pende para a esquerda"
Vínculos políticos: Com o PFL
Gurus: De Gaulle e Stálin ("porque re-ergueram suas nações")
Amigos: "Só dois". O deputado José Mendonça (PFL-PE) e o vice-presidente Marco Maciel
Leitura atual: "O Tao da Física", de Fritjof Capra
Livros que o marcaram: "Guerra e Paz", de Leon Tolstoi, "História da Segunda Guerra Mundial", de Winston Churchill, e "A Comédia Humana", de Balzac
Hobby: ler e ouvir música clássica
Sobre seu sucesso -- I: "Nada teria sem a ajuda de minha família"
Sobre seu sucesso -- II: "Não teria avançado sem apoio político. Eu e qualquer outra empresa nordestina".
Sobre o capitalismo: "Seu único objetivo é acumular dinheiro. Acho-o pior do que a tirania do estado".
Sobre a esquerda brasileira: "Ela cometeu o erro de combater os militares e abriu caminho para o imperialismo"
Fernando Henrique: "Muito bom no quadro-negro, péssimo na Presidência".
Autocrítica: "Tenho idéias e gosto de ser diferente".


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