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Ano VI // Nº 306

Texto publicado na edição de Exame Melhores e Maiores- 2001 / Julho de 2001 

 

COMÉRCIO VAREJISTA

Nada como ter um pé-quente 

Com apenas cinco anos de existência, a potiguar Sat já é a melhor. Sorte? Não, competência e capacidade de identificar oportunidades

Por JOMAR MORAIS / Foto: LUIS MORAIS

O empresário Marcelo Henrique Ribeiro Alecrim, presidente da Satélite Distribuidora de Petróleo, Sat, empresa potiguar premiada como a melhor do comércio varejista em 2000, tem um problema. Queixas da cotação do dólar e do racionamento de energia? Longe disso. O que preocupa Marcelo, um ex-surfista de 35 anos, é o entusiasmo de dirigentes e torcedores do Corinthians de Caicó, um pequeno time de futebol do interior do Rio Grande do Norte, que insistem em tê-lo nos estádios sempre que o time disputa uma partida. A exigência: mais que aos recursos financeiros injetados na equipe, desde que a Sat passou a patrocinar o clube há dois anos, atribuem ao "pé quente" do empresário a trajetória meteórica do Corinthians, que saltou da terceira para a primeira divisão do futebol estadual. "Na única partida à qual eu não compareci, o time perdeu", diz ele.

A crença de que a presença de Marcelo contribui para vitórias em campo tem origem nas conquistas da Sat. Criada há apenas cinco anos, em Natal, a empresa é a oitava distribuidora de combustíveis do país em número de postos – são 400 da Bahia ao Maranhão – e já detém 6% do mercado regional de gasolina, diesel e álcool. Há dois anos no segmento de lubrificantes, também conquistou 5% do mercado nordestino com sua marca Satlub. No segundo semestre de 2001 o lubrificante começará a ser produzido pela própria Sat numa unidade industrial em construção em Parnamirim, região metropolitana de Natal. Transformada em sociedade anônima em maio passado, a empresa está chegando neste semestre às regiões Norte e Centro-Oeste.

Em 2000, Marcelo, que ao fundar a companhia tinha apenas 29 anos, recebeu o título de "Empreendedor do Ano – Categoria Jovem", concedido por EXAME e a consultoria Ernest & Young. No mesmo período, outros dois prêmios nacionais engordaram o currículo da companhia. Agora, o primeiro lugar no ranking de MELHORES e MAIORES acontece também de forma inusitada: esta foi a primeira vez em que a empresa concorreu na lista das 500. Já na estréia exibiu ótima desenvoltura em crescimento (3º lugar), riqueza por empregado (2º) e rentabilidade (12º). No ano passado, o faturamento da Sat, de 192 milhões de dólares, foi 70% superior ao de 1999.

Como uma empresa jovem consegue ser tão bem sucedida num segmento onde quase 200 pequenas e médias distribuidoras, surgidas após a flexibilização das regras de mercado, mal se mantêm de pé? "O segredo é o atendimento ao cliente", diz Marcelo. Na Sat isso é mais do que uma regra competitiva. É uma questão de raiz. A idéia de criar a empresa surgiu há 12 anos em meio a um episódio humilhante na vida de Jair Alecrim, pai de Marcelo, então dono de um pequeno posto de combustível em Canguaretama, cidade de 25 000 habitantes no interior do Rio Grande do Norte. Diante do iminente aumento no preço da gasolina, decretado pelo governo, Jair tentara comprar 200 000 litros do combustível à Esso, mas a distribuidora recusou-se a atendê-lo, aplicando-lhe um duro golpe em seu capital de giro. Foi então que Marcelo, na já entrosado nos negócios da família, fez a si mesmo um desafio. "Meu pai, eu juro que ainda vou ter a minha distribuidora", disse o rapaz. Ao materializar sua promessa, sete ano depois, Marcelo inspirou-se na frustração do passado para estabelecer a fórmula de sucesso da Sat: atendimento diferenciado à clientela e concentração dos negócios no interior, onde estão 90% dos postos de sua rede.

Em outras palavras: o segredo da Sat é um bom olho clínico para identificar oportunidades e muito marketing de relacionamento. "Queremos crescer, mas sem perder a característica de parceiro de nossos clientes", afirma Jucelino Oliveira Souza. "Não almejamos ser comparados às multinacionais do setor". Até há pouco, os clientes da Sat eram todos pequenos comerciantes que Marcelo conheceu em vaquejadas e mesas de bar ao tempo em que era transportador autônomo de combustível, atividade que lhe permitiu montar a a frota de caminhões usada como ponto de partida da distribuidora. É gente que o presidente da Sat atende ao celular e que exige de Marcelo 32 horas de vôo por mês, a bordo de um avião Sêneca, em visitas para averiguar o nível de satisfação e recolher sugestões para problemas no abastecimento.

Com o crescimento do negócio, o desafio da proximidade ao cliente levou a companhia a investir pesado em tecnologia e reeestruturação, com destaque para um Call Center moderno, subordinado diretamente ao presidente e ao superintendente da empresa. De seu terminal, Marcelo costuma monitorar o atendimento telefônico, faz questão de ouvir as gravações de queixas da clientela e, não raro, invade o diálogo entre compradores e atendentes para oferecer soluções imediatas em questões pendentes. "A linha direta com o presidente será sempre preservada", afirma. Outro diferencial nessa área é a flexibilidade das regras de negociação com o cliente. Segundo Jucelino, os preços praticados pela Sat estão na média do mercado, mas as condições de pagamento variam de acordo com o perfil e porte financeiro de cada comprador.

Após receber a certificação ISO 9002 e implantar seu programa permanente de qualidade, no ano passado, a Sat entrou em 2001 submetendo-se a uma ampla reestruturação. Houve corte de 15% no quadro de funcionários – agora são 130 - e estabelecida a meta de agregar mais 100 postos à rede até dezembro. A diretoria da Sat, formada por profissionais jovens, com idade média de 33 anos, não esconde uma certa apreensão. Calcula-se que , das quase 200 distribuidoras existentes no país, apenas 50 devem sobreviver após a abertura total do mercado de combustíveis a partir de 2002 - e a Sat, por ter se profissionalizado e investido em tecnologia, ao que tudo indica, será uma delas.

Que achou da reportagem acima? Deseja sugerir algum tema para futura reportagem?

Tem algo a dizer ao autor? Envie agora sua mensagem para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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