Cena
1: O salão do Sports
Club Los Angeles é amplo, despojado e, sobretudo,
silencioso. Muito silencioso. Um ouvido apurado talvez
percebesse ali o sopro suave de pulmões inspirando
oxigênio, expirando gás carbônico. Nada mais que isso.
Também não há mobília, apenas pequenos tatames com
almofadas ao centro, enfileirados como poltronas em um
auditório. O ambiente é peculiar. E não apenas pelo fato
de ficar em Los Angeles, uma das cidades mais barulhentas e
poluídas dos Estados Unidos. Dentro do salão há dezenas
de pessoas sentadas, imóveis sobre os tatames, pernas
cruzadas e olhos semicerrados. Desafiam o corpo e a mente
numa atitude de profunda contemplação interior. Acredite:
cada uma delas pagou 1 295 dólares para ter acesso ao local
e a cada mês desembolsa outros 130 dólares para fazer
absolutamente nada por algum tempo.
É verdade
que não se trata de um grupo qualquer. Entre outras figuras
consagradas pela mídia, ali estão Earvin Johnson Jr, o
Magic Johnson, um dos maiores jogadores da história do
basquete americano, a atriz Sarah Gellar, do seriado de TV Buffy
caça vampiros e o filme Pânico II, executivos,
profissionais liberais. Ainda assim, a imagem de alguém
pagando tão caro para não receber nada palpável nem fazer
coisa alguma é algo que impressiona numa sociedade marcada
pelo materialismo e pela agitação. (Ou melhor,
impressionava, como você verá adiante.)
Cena 2: No
9º andar do Hospital do Servidor Municipal de São Paulo,
no bairro do Paraíso, a sala repleta de tatames almofadados
lembra, em quase tudo, o cenário de Los Angeles. O
silêncio, o ambiente sereno, enfeitado discretamente com
algumas guirlandas. A mesma assembléia de pessoas
mergulhadas em seu oceano interior. A diferença é que
nenhuma delas pertence ao olimpo cultural ou econômico do
mundo nem desembolsou um real sequer para participar da
reunião.
Não importa.
Ainda que diferentes em termos de fama e dinheiro, o grupo
californiano e o do hospital público paulistano são
exemplares de um novo tipo de busca e terapia que cresce no
seio das sociedades ocidentais: a busca da cura de doenças
ou simplesmente da paz interior por meio da meditação.
Esqueça as
aparências. "Ao contrário do que se possa imaginar,
meditar não é cair na ociosidade mas ativar a mente",
afirma Dean Ornish, professor de Medicina na Universidade da
Califórnia em San Francisco. E o resultado disso, segundo
Dean, é positivo para a saúde e o equilíbrio emocional.
Em termos práticos, meditar é concentrar a atenção em
uma única coisa. Pode ser o ritmo da respiração, um
mantra – palavras ou sons sem significado utilizados na
meditação budista – ou mesmo o vazio universal. Parece
simples – e é. Apesar disso, poucos desafios são tão
difíceis para a mente turbulenta de um ocidental quanto
aprender a meditar. "Não temos consciência de grande
parte do estresse que existe em nós e, assim, vivemos de
uma forma mecânica, no piloto automático", diz Jon
Kabat-Zinn, diretor da Clínica de Redução do Estresse do
Centro Médico da Universidade de Massachusets. "A
mente agitada está sempre fixada no passado ou no futuro,
ao passo que meditar é concentrar-se no presente".
Quem chegou
lá, garante: os benefícios da meditação começam pelo
repouso corporal, que durante o período de concentração
é superior ao do sono. "Um homem dormindo consome seis
vezes mais oxigênio do que meditando", diz o pediatra
e acupunturista Norvan Martino Leite, idealizador da Sala de
Meditação do Hospital do Servidor paulistano. "Os
batimentos cardíacos diminuem e aumentam no cérebro as
ondas alfa e teta, associadas ao relaxamento". A velha
prática oriental de aquietar a mente está se expandindo no
Ocidente de um modo inédito, apoiada em pesquisas
científicas que buscam comprovar seus efeitos benéficos.
A última
descoberta, realizada por pesquisadores da Universidade da
Califórnia, indica que a meditação contribui até para
evitar o acúmulo de gordura nas artérias - um dado que,
segundo os estudiosos, fecha o circuito de achados recentes
sobre a função preventiva da meditação nas doenças
coronárias. Um deles, apresentado no ano passado por
cientistas da Universidade Harvard, inclui imagens do
cérebro obtidas enquanto praticantes regulares de
meditação há mais de cinco anos meditavam no interior de
câmaras de ressonância magnética. As chapas atestam que
as regiões do cérebro ligadas às emoções e à função
cardio-respiratória mantiveram-se em hiperatividade durante
todo o tempo da meditação, detalhe que para Sara Lazar,
coordenadora do estudo, tem importância fundamental. "Elas
comprovam o que os meditadores dizem sentir e mostram que a
meditação promove alterações quantificáveis no
organismo", diz a pesquisadora.
Estudos
realizados em outras universidades americanas, entre as
quais Stanford e Columbia, já haviam evidenciado
anteriormente que meditar ajuda a baixar a pressão arterial
e reduz a produção de adrenalina e cortisol, dois
hormônios que atuam nas situações de estresse. Além
disso, a meditação estimularia a produção de endorfinas,
espécie de tranqüilizante e analgésico natural fabricado
pelo cérebro. (As endorfinas são responsáveis pela
sensação de leveza experimentada em momentos de
contentamento.)
A suposta
capacidade de prevenir doenças coronárias com tão pouco
esforço – outra forma de levar o corpo a reagir dessa
forma é suar na academia de ginástica ou praticando
esportes -, despertou o interesse até do governo do Estados
Unidos, através do Instituto Nacional de Saúde. O órgão
patrocina, desde o ano passado, uma pesquisa de 17 milhões
de dólares sobre o emprego de meditação transcendental no
tratamento e prevenção da hipertensão entre negros
americanos. Se os resultados forem positivos, a meditação
poderá integrar as futuras políticas de saúde americanas.
O ritual
meditativo começou há 2 500 anos na Índia e foi, depois,
difundido na Ásia pelos monges budistas. Despido de seu
caráter religioso, transformou-se numa das técnicas novas
mais populares no círculo médico americano. Na verdade,
desde que os Beatles flertaram com o guru Maharishi Mahesh
Yogi, na Índia, há pouco mais de 30 anos, o número de
meditadores nos Estados Unidos jamais parou de crescer.
Estima-se que eles sejam 10 milhões atualmente, a maioria
gente que aprendeu a meditar em hospitais e clínicas como
complemento a tratamentos médicos tradicionais (Magic
Johnson, você lembra, carrega no corpo o vírus HIV).
É desse
grupo também que emergem números sugestivos sobre os
efeitos benéficos da meditação. Veja: entre mais de 11
000 pacientes atendidos no Centro de Redução do Estresse,
da Universidade de Massachusets, os sintomas físicos -
geralmente dores, pressão alta, e problemas digestivos –
teriam diminuído, em média, 40% após eles meditarem duas
vezes por dia durante dois meses.
No Brasil,
onde seminários de um dia sobre meditação chegam a custar
300 reais, é também através dos hospitais que a prática
começa a se disseminar entre a população. O primeiro
passo foi dado pelo Hospital do Servidor Municipal de São
Paulo, há 15 meses. Ali, duas monjas budistas treinaram uma
equipe de 24 médicos nas técnicas de meditação Ch´an
Tao, uma das dezenas de variações da prática, bastante
simples, que consiste em o praticante concentrar-se na
própria respiração. Agora, os médicos estão
ensinando os pacientes. Outra experiência, fora do
centro-sul, é comandada por um doutor em Física Teórica
pela Universidade de Waterloo, no Canadá - o indiano
Harbans Lal Arora - no Hospital Geral e no Hospital Cesar
Cals, em Fortaleza. Segundo o físico, pacientes que
praticaram meditação antes de se submeter a cirurgias
perderam 40% menos sangue durante a operação e voltaram
para casa na metade do tempo previsto. Vinte doentes de
Aids, também segundo Arora, apresentaram redução no
número de vírus HIV no sangue.
Obviamente,
há quem veja com reserva esse súbito interesse da Medicina
pela meditação. Richard Sloan, psicólogo e diretor de
Medicina Comportamental do Centro Médico Presbiteriano de
Columbia, nos Estados Unidos, por exemplo, desconfia de que
se está diante de um "fenômeno de marketing",
com objetivo meramente financeiro e pouco resultado
terapêutico. "Não há dúvida de que relaxar tem
impacto positivo sobre o sistema nervoso, mas é discutível
se isso se é um efeito duradouro para a saúde ou apenas
efêmero", afirma. De qualquer modo, a adoção de
meditação como complemento em tratamentos que exigem a
redução do estresse não enfrenta maiores obstáculos na
área médica e, por enquanto, tem o aval dos pacientes.
"Há dois anos, eu mal conseguia falar devido a um
efisema no pulmão e à arritmia cardíaca", diz a
empresária paulista Edda Dorothy Bragazza, atendida na
clínica particular de Norvan, o pediatra e acupunturista do
Hospital do Servidor. "Com a meditação recuperei a
voz e me livrei da arritmia".
Em princípio,
meditar não tem contra-indicação, segundo praticantes e
estudiosos. "Graças ao seu efeito relaxante, até
pacientes psicóticos podem fazê-lo, desde que sob
assistência profissional", afirma o psicólogo Marlos
Alves Bezerra, que acompanhou experiências com portadores
de psicose maníaco-depressiva no Nordeste. O relaxamento,
no entanto, é uma das etapas primárias da meditação, um
estágio no qual a maioria dos praticantes costuma
estacionar.
Como processo
de autoconhecimento, a meditação profunda nem sempre
produz uma agradável sensação de leveza a cada exercício.
O objetivo da prática é limpar as memórias para que se
chegue "à mente vazia, à mente aberta para a vida",
ensina Norvan. E isso pode acarretar, eventualmente,
desgaste e mal-estar ao contato com as emoções mais
profundas. Após essa "higienização mental", no
entanto, o resultado quase sempre é o amadurecimento
interior e uma vida mais prazeroza, segundo Roger Woolger,
doutor em Psicologia pela Universidade de Londres.
Foi o que
descobriu o jornalista Caco de Paula, da revista Veja
São Paulo, publicada pela Editora Abril. Caco atribui a
seus cinco anos de prática meditativa a estabilidade
emocional que lhe proporcionou mais paz e um nova maneira de
ver a vida (veja quadro na página XXX). Nesse
sentido, a meditação seria mais do que uma terapia, como
lembra Sharon Salzberg, da Insight Meditation Society em
Barre, Massachussets. "É um estilo de vida baseado na
disciplina da mente".
PARA SABER
MAIS
Na Livraria:
Emoções que
Curam, Daniel Goleman
(org.), Rocco, 1999
Ch´an Tao
– Essência da Meditação,
Jou Eel Jia, Norvan Martino Leite e Lilian Fumie Takeda,
Editora Plexus, 1998
Na Internet:
www.newscientist.com/nsplus/insight/big3/conscious
www.meditationcenter.com
www.palasathena.org.br