Ano
IX
Nº 333
Texto
publicado
na revista Super, edição de outubro de 2003
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É
só respirar
Médicos
a recomendam. Neurocientistas a estudam. Em 10
anos,
dobrou o número de pessoas que praticam meditação
– uma técnica ancestral que, segundo a ciência,
funciona
Por Jomar Morais |

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Na
sala vazia e silenciosa, dois monges zens, com seus mantos e
cabeças raspadas, estão sentados no chão, lado a lado,
pernas cruzadas. Depois de alguns instantes, o mais jovem lança
um olhar surpreso e irônico para o mestre. Sereno,
o velho monge comenta: “É isso aí. Nada vai acontecer
depois”.
Não se trata de uma cena real. É só uma charge
publicada na renomada revista novaiorquina The New Yorker,
brincando com o novo hábito americano de meditar
regularmente, como fazem os orientais há milhares de anos. A
fina ironia da charge, no entanto, tem a ver com a realidade.
Embora singela, a atitude de sentar sobre uma almofada (sentar
no chão em posição de lótus exige um preparo de monge) e
ficar atento à própria respiração é tão fora de propósito
em nossa rotina atabalhoada que é fácil se identificar com o
jovem monge, perplexo e irônico, ao encará-la pela primeira
vez. Comigo não foi diferente.
Na
primeira vez em que me detive a acompanhar o compasso da
respiração, o sentimento inicial foi surpresa.
Impressionou-me a rapidez com que tudo caminhou para a inatividade. O
turbilhão de pensamentos que ocupava a minha mente (uma conta
para pagar, uma cena do filme que eu vi no dia anterior, uma
ótima piada para contar aos amigos) foi desaparecendo sem que
eu me desse conta. O incômodo da perna dormente, pressionada
pela flexão, logo foi substituído por um inesperado prazer,
prazer de simplesmente respirar. Então, de repente, foi como
se tudo houvesse parado nos primeiros segundos depois de
acordar, aqueles instantes em que você se sente presente e
alerta, mas com a cabeça vazia de preocupações ou intenções.
Enfim, aqueles poucos segundos do dia em que nada acontece.
Foi
então que tudo ficou meio irônico: o êxtase, o delicioso
estranhamento que entupiu meus sentimentos acabou em um
segundo ou menos! E no instante seguinte lá estava eu com
todos os pensamentos de volta: a conta, o filme, a piada e
mais uma porção de coisas. Rindo comigo mesmo, me perguntei
– talvez como um jovem monge perplexo e desconfiado – se não
haveria algo mais divertido para fazer naquele instante.
É
isso aí. Meditação, afirmam os especialistas, é um não-fazer.
É a única atividade humana que intencionalmente não
objetiva levar o praticante a lugar algum ou a qualquer
resultado. Quer
dizer que meditar é só parar e não pensar em nada? É. Mas acredite: não
é nada fácil. Não para ocidentais como eu e você,
acostumados com a idéia de que, para resolver um assunto, o
primeiro passo é pensar bastante nele. Na meditação, a idéia
é exatamente o oposto: parar de pensar (por mais bizarro que
isso possa lhe parecer).
A
novidade é que, mesmo parecendo alienígena, a meditação
conquista cada vez mais adeptos no Ocidente. Dez milhões de
americanos meditam regularmente em casa e em hospitais,
escolas, empresas, aeroportos e até em quiosques de internet.
No Brasil, o interesse pelo assunto também multiplicou o número
de locais onde se pode meditar. Entre os milhões de
meditadores americanos estão celebridades de grosso calibre,
como o dirigente da Ford, Bill Ford, e o ex-vice-presidente Al
Gore. No Brasil, a exemplo da Hollywood dos anos 90, a meditação
entrou para a rotina de estrelas – como a atriz Christiani
Torloni e a apresentadora Angélica, que recorreu à prática
para livrar-se de uma crise de síndrome do pânico – e
virou ferramenta diária de produtividade em empresas e até
em alguns círculos do poder. O prefeito petista de Recife, João
Paulo, por exemplo, só inicia o expediente após meditar por
alguns minutos.
Mas
como é que algo assim, na contramão do pragmatismo moderno,
consegue empolgar tantas pessoas? Tem gente pagando caro para
participar de sessões de meditação – pagando para ficar
sentado em silêncio em uma sala despojada. Como pode?
É
verdade que tem muita gente desiludida com o modo de vida
ocidental (a destruição do meio ambiente, a vida cada vez
mais solitária das grandes cidades e a competição pelo
ganha-pão). Mas esse contingente não é capaz de explicar,
sozinho, a explosão da meditação. A verdade é que a ciência
resolveu se debruçar sobre os efeitos da meditação, e as
notícias dos laboratórios de pesquisas cada vez convencem
mais pessoas a dar uma relaxada em posição de lótus ou
simplesmente sentada em uma cadeira.
O
principal resultado dessas pesquisas pode ser resumido em duas
palavras: meditação funciona. Ou seja, por mais estranho que
possa parecer aos ratos de academia que sabem de cor seu ritmo
cardíaco máximo e sua capacidade de esforço, não fazer
nada por alguns minutos diariamente tem efeitos palpáveis,
reais e mensuráveis no corpo. E o melhor: só apareceram
efeitos positivos (pelo menos até agora). Ou seja, aquilo que
os adeptos da tradicional medicina chinesa e os mestres
budistas há tanto tempo viviam repetindo (com um sorriso
bondoso no rosto) começa a ser comprovado por alguns dos mais
renomados centros de pesquisa ocidentais, como as
universidades Harvard, Columbia, Stanford e Massachussets, nos
Estados Unidos, e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
no Brasil.
É
difícil listar as descobertas, porque as pesquisas sobre a
meditação alcançaram a maioridade recentemente. Mais
precisamente no ano 2000, quando o líder do budismo tibetano,
o Dalai Lama (sempre ele) encontrou-se com um grupo de psicólogos
e neurologistas na Índia e sugeriu que os cientistas
estudassem um time de craques em meditação durante o transe,
para ver o que ocorria com seus corpos. Os cientistas abraçaram
o desafio e, desde então, as pesquisas não páram de
produzir surpresas. Já se sabe, por exemplo, que meditar
afeta, de fato, as ondas cerebrais. Sabe-se também que isso
tem efeitos positivos sobre o sistema imunológico, reduz a
tensão e alivia a dor. “Três décadas de pesquisas
mostraram que a meditação é um bom antídoto do
estresse”, diz o jornalista e psicólogo americano Daniel
Goleman, autor dos livros Inteligência
Emocional e Como
Lidar com as Emoções Destrutivas, este o relato do
encontro dos cientistas com o Dalai Lama. “Agora, o que está
mira dos pesquisadores é saber como a meditação pode
treinar a mente e reformatar o cérebro”, afirma Daniel.
A
piada dos dois monges na revista americana não é gratuita.
Afinal, faz séculos que se pratica meditação no Oriente,
por recomendação religiosa. O detalhe é que agora a recomendação
também é médica. Nos anos 70, quando a prática começou a
se espalhar pelo Ocidente, impulsionada pelo movimento hippie,
o cantor e compositor brasileiro Walter Franco cantava que
tudo era uma questão de “manter a mente quieta, a espinha
ereta e o coração tranqüilo”. Hoje, os versos de Walter
poderiam fazer parte de uma receita médica, de uma sessão de
psicoterapia, de um treinamento em uma grande empresa ou até
mesmo de um programa para a recuperação de presos.
“Focalizar
a atenção no mundo interior, como se faz na meditação, é
uma situação terapêutica”, diz o psicólogo José Roberto
Leite, coordenador da unidade de medicina comportamental da
Unifesp, que em setembro foi transformada no primeiro
instituto de medicina comportamental do país. “Queremos
avaliar o alcance dessa prática e isolá-la de seu aspecto
supersticioso.” Por trás dessa intenção está o fato de
que as causas de doenças mudaram muito nos últimos cem anos.
No passado, as doenças eram causadas principalmente por
microorganismos, as pessoas morriam de poliomielite, de
sarampo, de varíola e outras doenças causadas por bactérias
e vírus. Mas isso mudou, graças aos investimentos em
saneamento e o desenvolvimento de antibióticos e vacinas.
“Hoje, a maioria das doenças são causadas por coisas como
hipertensão, obesidade e dependência química, que estão
ligados a padrões inadequados de comportamento”, diz José
Roberto. , Ou seja, o que mata hoje são os maus hábitos.
Apaziguar a mente, os cientistas estão
descobrindo agora, pode reduzir o nível de ansiedade e
corrigir comportamentos pouco saudáveis. O cardiologista
Herbert Benson, da Universidade Harvard, um dos maiores
pesquisadores da meditação e do poder das crenças na promoção
da saúde, chega a estimar em seu livro Medicina
Espiritual que 60% das consultas médicas poderiam ser
evitadas se as pessoas apenas usassem a mente para combater as
tensões causadoras de complicações físicas.
Mas,
afinal, como é que se medita e o que acontece durante a prática
contemplativa? Bem, há um leque de modalidades para quem
deseja meditar, mas a receita básica é a mesma: concentração.
Vale concentrar-se na respiração, em uma imagem (um ponto ou
uma imagem de santo), um som ou na repetição de uma palavra
(o famoso mantra). Parar de pensar equivale a ficar quase que
exclusivamente no presente. Faz sentido: os pensamentos são
feitos basicamente de duas substâncias: as idéias e experiências
que ouvimos, vivemos ou aprendemos no passado e os planos e
apreensões que temos para o futuro. É aí que surgem aqueles
sentimentos comuns nas descrições de grandes meditadores,
sensações como sentir-se em ligação íntima com o
universo, ou ter uma superconsciência do mundo. A impressão
é de que se está ainda mais consciente, apesar do completo
desligamento do mundo externo. “Na meditação, a mente
ganha a precisão de um raio laser, totalmente focada em um
ponto. É uma pesquisa interior, onde o meditador é ele próprio
cientista, cobaia e laboratório”, afirma a psicóloga
e monja Susan Andrews, americana que há 30 anos ensina técnicas meditativas
do tantra e biopsicologia e que há dez anos fundou a ecovila
Parque Visão Futuro, em Porangaba, no interior de São Paulo.
Meditar é, portanto, concentrar-se em cada vez menos coisas,
inibindo os sentidos e esvaziando a mente. Tudo isso sem
perder o estado de alerta, ou seja, sem dormir.
BIOLOGIA DO ZEN
Nos
primeiros estudos sobre a meditação, na década de 60, o
cardiologista Benson, de Harvard, e outros pesquisadores
submeteram meditadores a experimentos nos quais a pressão
arterial, os ritmos cerebrais e cardíacos e mesmo a
temperatura da pele e do reto eram monitorados. Constatou-se
então que, enquanto meditavam, eles consumiam 17% menos oxigênio
e seu ritmo cardíaco caía para incríveis três batimentos
por minuto (a média para pessoas em repouso é de 60
batimentos por minuto). Isso acontecia quando as ondas
cerebrais alcançavam o ritmo teta, mais lento e poderoso, no
qual a mente alcançaria o estado de “superconsciência”
relatado pelos iogues e caracterizado por uma inundação de
insights e alegria.
Para
se ter uma idéia dessa mudança, quando estamos ativos o cérebro
emite ondas beta, de oscilação em torno de 13 ciclos por
segundo. As ondas teta vibram a apenas quatro ciclos por
segundo, abaixo até das ondas alfa do estado de relaxamento e
a um passo das ondas delta, de 1 ciclo por segundo, presentes
somente na meditação profunda de monges ultratreinados. Você
conhece essa sensação causada pelas ondas teta. É aquele
embotamento que aparece normalmente nos segundos que antecedem
o sono. Naquele momento, nosso cérebro funciona no ritmo
teta. Mas os meditadores pesquisados não estavam dormindo. Ao
contrário, estavam bem acordados e serenos.
Mais
tarde, percebeu-se que no momento da meditação o fluxo sanguíneo
diminuía em quase todas as áreas cerebrais, mas aumentava na
região do sistema límbico, o chamado “cérebro
emocional”, responsável pelas emoções, a memória e os
ritmos do coração, da respiração e do metabolismo. Benson,
que escreveu um clássico sobre o tema nos anos 90 – A
Resposta do Relaxamento – , emprestou um pouco da
humildade oriental e disse que seu trabalho se resumiu a
explicar biologicamente técnicas conhecidas há milênios.
Desde
então, uma série de novas pesquisas, respaldadas em imagens
da intimidade cerebral feitas por tomógrafos sofisticados que
retratam o cérebro em funcionamento, levantaram o véu sobre
outros segredos. Um dos estudos mais abrangentes e reveladores
foi realizado por Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia,
nos Estados Unidos. A idéia era registrar o que ocorre com o
cérebro quando se alcança o clímax em práticas místicas
como a meditação e a oração. Newberg rastreou a atividade
cerebral de um grupo de praticantes budistas em meditação
profunda e de um grupo de freiras franciscanas, quando rezavam
fervorosamente.
Ele
constatou uma significativa alteração no lobo parietal
superior, localizado na parte anterior do cérebro e responsável
pelo senso de orientação – a capacidade de percepção do
espaço e do tempo e da própria individualidade. Segundo as
descobertas de Newberg, à medida que a contemplação se faz
mais profunda, a atividade na região diminui gradualmente até
cessar totalmente no momento de pico, aquele em que o
meditador experimenta a sensação de unicidade com o
universo, cerca de uma hora após o início da concentração.
Nesse instante, privados de impulsos elétricos, os neurônios
do lobo parietal desligam os mecanismos das funções visuais
e motoras e o meditador ou devoto perde a noção do “eu”
e sente-se prazerosamente expandido, além de qualquer limite.
Talvez esteja aí o
indício mais concreto de que se tem notícia do não-fazer
meditativo e do nirvana ou do paraíso anunciados pelos místicos.
Além disso, as
imagens revelaram que, durante a experiência, os lobos
temporais, sede do sistema límbico, tiveram sua atividade
redobrada, o que explicaria a enorme influência dos estados
contemplativos sobre as emoções e a personalidade dos
praticantes.
Newberg
concluiu que as sensações vivenciadas por
budistas e freiras são um fenômeno real baseado em eventos
biológicos – uma constatação que permite inferências em
outras áreas do conhecimento. No livro Why God won´t go
away (Por que Deus não vai embora), no qual relata sua
pesquisa, o cientista recorre à antropologia para afirmar que
o desenvolvimento do lobo parietal no cérebro dos humanos foi
fundamental para a emergência da mitologia e do misticismo.
Afinal, é lá que se encontra a estrutura neurológica que
proporciona a noção de causalidade e oposição, bem como o
centro da linguagem, ambos necessários à formação da
narrativa mítica. Um chimpanzé, com seu lobo parietal
rudimentar, até pode lidar com alguns conceitos matemáticos,
mas é incapaz de elaborar pensamentos abstratos como o da
transcendência da morte.
Mas
há quem veja tudo isso com uma certa desconfiança. “Ao que
parece, estamos diante de um fenômeno de marketing”, disse
Richard Sloan, psicólogo do Centro Médico Presbiteriano de
Columbia, em Nova York, comentando o encontro do Dalai com os
cientistas, há três anos. Segundo Richard, é discutível se
o impacto da meditação sobre o sistema nervoso e a saúde
tem um efeito profundo e duradouro ou apenas superficial e efêmero.
Então, está na hora de conferir o que os estudos dizem a
respeito.
MENTE
QUIETA, CORPO SAUDÁVEL
A
meditação ajuda a controlar a ansiedade e a aliviar a dor?
Ao que tudo indica, sim. Nessas duas áreas os cientistas
encontraram as maiores evidências da ação terapêutica da
meditação, medida em dezenas de pesquisas. Nos últimos 24
anos, só a Clínica de Redução do Estresse da Universidade
de Massachussetts monitorou 14 mil portadores de câncer,
aids, dor crônica e complicações gástricas. Os técnicos
descobriram que, submetidos a sessões de meditação que
alteraram o foco de sua atenção, os pacientes reduziram o nível
de ansiedade e diminuíram ou abandonaram o uso de analgésicos.
Ou seja, eles aprenderam a entender a dor, em vez de combatê-la.
Com isso, deixaram de antecipá-la ou amplificá-la por meio
do medo de vir a sentí-la. Sim, porque boa parte da sensação
dolorosa é psicológica, fabricada pelo medo da dor.
Resultado: as queixas de dor, segundo o diretor da clínica,
Jon Kabat-Zinn, diminuíram, em média, 40%.
No
hospital da Unifesp, em São Paulo, a meditação é indicada
para pacientes com fibromialgia (dores nos músculos e
articulações), fobias e compulsões. Ali, estudo recente
dirigido pela doutora em biologia Elisa Harumi Kozasa atestou
a melhoria da agilidade mental e motora em ansiosos e
deprimidos que, durante três meses, meditaram sob a orientação
de instrutores indianos. Outras duas pesquisas, coordenadas pelas psicólogas
Márcia Marchiori e Elaine de Siqueira Sales, deve comparar
nos próximos meses os efeitos terapêuticos da meditação
com os das técnicas de relaxamento físico e o nível de
adesão dos praticantes das diferentes modalidades de
meditação.
O
desempenho antiestresse da meditação, segundo estudos das
universidades americanas Stanford e Columbia, acontece porque
a mente aquietada inibe a produção de adrenalina e cortisol
– os dois hormônios secretados nas situações de estresse
– , ao mesmo tempo que estimula no cérebro a produção de
endorfinas, um tipo de tranqüilizante e analgésico natural tão
poderoso quanto a morfina e responsável pela sensação de
leveza nos momentos de contentamento.
Já
parece motivo suficiente para render-se aos mantras, mas tem
mais. Investigações realizadas na Universidade Wisconsin,
nos Estados Unidos, acrescentaram que meditar também melhora
a ação do sistema imunológico, que defende o organismo
contra o ataque de microorganismos (bactérias, vírus e
outros germes). A experiência comparou dois grupos de voluntários
– um constituído de pessoas que meditavam havia alguns
meses e o outro de não-meditadores. Primeiro se constatou que
os meditadores tiveram um aumento na atividade do córtex pré-frontal
esquerdo, a área cerebral relacionada às emoções
positivas. Então, ambos os grupos foram inoculados com a
vacina contra gripe, e submetidos a medições quatro semanas
e oito semanas depois. O pessoal habituado a entoar mantras
apresentou um número bem maior de anticorpos contra a vacina,
o que sugere que seus sistemas de defesa estavam mais ativos.
Em
abril passado, durante um encontro da Associação Americana
de Urologia, anunciou-se que a meditação ajuda a conter o câncer
da próstata. E alguns pesquisadores relataram que mulheres
com câncer de mama que passaram a meditar tiveram elevação
no nível de células imunológicas que combatem tumores. Mas
essas descobertas estão longe de alcançar a unanimidade
entre os cientistas. O psiquiatra americano Stephen Barret, um
dos principais críticos às terapias alternativas nos Estados
Unidos, desconfia desses resultados. “Meditar pode aliviar
temporariamente o estresse, mas sua ação nunca irá além
disso no tratamento de doenças graves, como o câncer.”
Mesmo Herbert Benson, não descarta os tratamentos ocidentais
tradicionais. Para ele, a saúde e a longevidade no mundo
moderno serão, cada vez mais, resultado de um tripé formado
por remédios, cirurgias e cuidados pessoais, incluindo-se
aqui a meditação e todo o poder catalisador das crenças nas
reações orgânicas.
O
CÉREBRO REFORMATADO
Mas
ainda há muita coisa para ser descoberta sobre o poder do mantra e os
pesquisadores estão debruçados sobre os meditadores,
tentando entender como é que um ato tão simples causa tantas
modificações. Estudos como o de Wisconsin, que ligam
disciplina mental a emoções positivas e ambas ao bom desempenho do
sistema imunológico, atiçam o interesse dos cientistas em
avaliar o real poder da meditação na reformatação das funções
cerebrais. E o que eles estão descobrindo é que, com
suficiente prática, os neurônios podem reprogramar a
atividade dos lobos cerebrais, especialmente a área
relacionada à concentração e à orientação.
Não
dá para negar que, sobre concentração, o Dalai Lama e os
orientais, com sua atenção aos detalhes e sua atenção
extrema, têm muito a ensinar aos ocidentais. “Só há pouco
a psiquiatria ocidental reconheceu a existência do transtorno
do déficit de atenção (uma síndrome caracterizada pela
dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração
e impulsividade),
mas há milhares de anos tradições como o budismo afirmam
que todos sofremos desse distúrbio com mais ou menos
intensidade”, diz o psiquiatra Roger Walsh, da Universidade
da Califórnia em Irvine.
A
possibilidade de alterar em profundidade o cérebro, apenas
meditando, talvez possa no futuro ajudar a prevenir ou a
superar complicações vasculares a custo bem mais baixo que o
das cirurgias. Ou a romper condicionamentos e redirecionar as
mentes de indivíduos anti-sociais – o que, aliás, vem
sendo testado com relativo êxito. Numa experiência na Kings
County North Rehabilitation Facility, penitenciária próximo
a Seattle, nos Estados Unidos, um grupo de prisioneiros
condenados por crimes relacionados ao consumo de droga e álcool
praticou vippassana (meditação budista com foco inicial na respiração,
seguida de análise existencial) 11 horas por dia durante 10
dias. Após voltarem para casa, 56% deles reincidiram na
criminalidade no prazo de dois anos, um índice considerado
otimista comparado aos 75% de reincidência entre os presos
que não meditaram.
Já
na Universidade Cambridge (EUA), um estudo conduzido por John
Teasdale constatou a redução de até 50% nas recaídas de
pacientes com depressão crônica que passaram a meditar
regularmente. A doença é acompanhada por uma diminuição no
nível do neurotransmissor serotonina no cérebro, processo
geralmente revertido com o uso de antidepressivos, como Prozac.
A meditação aumenta a produção de serotonina, funcionando
como um antidepressivo natural. Em Cotia, na Grande São
Paulo, um programa de meditação para crianças carentes,
conduzido pela monja Sinceridade no Templo Zu Lai (sede da
primeira universidade budista do país) tem resultado em mudanças
significativas no comportamento de 128 meninos de favelas.
“Eles melhoraram significativamente a concentração e a
convivência social”, diz Sinceridade.
FAST-FOOD
MENTAL?
Toda
essa popularidade, porém, não permite afirmar se, no
futuro, a meditação neste lado do mundo continuará
mantendo alguma identidade com a prática ancestral do
Oriente. Além de sua gradual transformação em técnica
laica, ocorre neste momento uma rápida adaptação do modo
de usá-la ao estilo de vida ocidental.
Em
vez de contemplações que duram horas (você aí teria
pique para ficar quatro horas sentado no chão, imóvel,
meditando, como faz diariamente o Dalai Lama?), tornou-se
padrão a meditação de 20 minutos duas vezes ao dia. Ainda
assim, isso parece exigir uma boa dose de sacrifício de
inquietos habitantes de metrópoles como Nova York e São
Paulo. No próximo ano, o autor Victor Davich lançará nos
Estados Unidos o livro Eight
minutes that will change your life (Oito minutos que
mudarão sua vida) no qual defenderá um tipo de meditação
fast-food de não
mais que oito minutos. Segundo ele, esse é o tempo máximo
que os americanos estão acostumados a se concentrar
diariamente: os blocos de programas de TV duram exatamente
isso, entre um comercial e outro. Da mesma forma, os mantras
sonoros em sânscrito das meditações místicas,
cujas freqüências acústicas muitas vezes são similares
às das ondas cerebrais alfa e delta, foram
substituídos por mantras mentais, baseados em palavras
quase sempre escolhidas aleatoriamente.
Tais
ajustes são vistos com reservas por iogues, praticantes
tradicionalistas e até instrutores mais liberais, como
Susan Andrews, para quem é saudável tirar a meditação
“das nuvens do esoterismo” e aproximá-la da ciência.
“Relaxamento e pensamento positivo são efeitos colaterais
da meditação, não a sua meta”, diz Susan. “O grande
alvo é atingir a hiperconsciência, o samadhi, estado de
plenitude, iluminação e êxtase que não dá para ser
descrito em palavras”. A questão é que para chegar lá o
meditador precisa deixar de lado a idéia de que meditar não
implica qualquer esforço, cuidando de manter a concentração
firme e afinada por pelo menos uma hora. E isso, admitamos,
é algo que também exige um preparo de monge.
PARA SABER MAIS:
Na
Livraria:
A Mente Alerta -
Jon Kabat-Zinn, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001
Medicina Espiritual
- Herbert
Benson, Campus, Rio de Janeiro, 2003
Meditação e os
segredos da Mente - Susan
Andrews, Instituto Visão Futuro, Porangaba, 2001
Why God won´t go
away
- Andrew
Newberg, Ballantine, Nova York, 2001
Yoga - Caco
de Paulo e Marcia Bindo, São Paulo, Superinteressante, 2002
Na Internet:
www.dharmanet.com.br
www.yoga.pro.br
www.mindandlife.org
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