Ano VI // Nº 302
Texto publicado na edição de Maio de 2001 da revista
SUPER
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Ai!!!
Um
outro jeito de curar
|
A
medicina doente 
Mortes
provocadas por remédios que deveriam curar, exames e
cirurgias caros e desnecessários, tratamento desumano de
pacientes. Um conjunto de distorções abala a confiança nos
médicos e expõe a crise sem precedentes por que passa a
medicina
Por JOMAR MORAIS
Flagrante
do cotidiano em um consultório médico do terceiro milênio:
o executivo Roberto entrega ao doutor um calhamaço de
exames e logo fica sabendo que sua saúde não anda bem. O
colesterol alcançou a estratosférica taxa de 800
miligramas por decilitro – mesmo no futuro, uma taxa
superior a 250 miligramas indica que o sujeito vai mal –,
o que faz de Roberto um candidato fortíssimo a ter um
infarto fulminante. O caso exige cuidados imediatos. Mas, ao
contrário do que ocorre hoje, o médico não saca a caneta
para gerar uma prescrição. Limita-se a digitar em um banco
de dados online a seqüência de genes das células
sangüíneas do executivo e a aguardar, por alguns instantes,
o trabalho de uma pequena impressora. É dali que emerge uma
receita completa e específica com a indicação, entre
quase 200 remédios disponíveis no mercado, daquele que
melhor interage com o paciente.
É tudo tão rápido que a tradicional
consulta médica dura só alguns minutos. Afinal, são
máquinas inteligentes, conectadas a bancos de dados
colossais, que se encarregam praticamente sozinhas do
diagnóstico, levando em consideração todas as
características orgânicas e genéticas do paciente, seu
histórico médico, entre outros parâmetros. Transformado
em simples intermediário entre o paciente e a tecnologia,
ao doutor cabe apenas alimentar o sistema com dados de
análises de sangue e tecidos orgânicos realizadas –
adivinhe – por outros engenhos eletrônicos. É o máximo
em automação e customização do atendimento, num contexto
em que a prescrição de uma simples aspirina pode mobilizar
e cruzar milhões de informações.
Com certeza você ainda não conhece
nenhum médico que trabalhe assim, apesar da parafernália
tecnológica já utilizada pela medicina moderna. Mas o
quadro descrito acima deverá fazer parte da vida real nos
próximos cinco anos, graças a um novo ramo da ciência que
une a farmacopéia às descobertas recentes sobre o genoma
humano – a farmacogenômica. O curioso é que, em vez de
trazer a certeza de que, nessa cena futurista, os serviços
médicos atingirão o ápice em qualidade, a promessa de
mais automatismo na medicina só atiça uma polêmica
emergente em todo o mundo: o modelo biomédico, sobre o qual
se apóiam as rotinas atuais de clínicas e hospitais – e
também a produção de medicamentos –, atende, de fato,
às necessidades do homem no campo da saúde?
Eis aí um paradoxo. Enquanto a
intimidade microscópica do organismo é devassada pela
ciência e mais e mais recursos high-tech são incorporados
aos sistemas de diagnóstico e terapia, cresce também a
insatisfação das pessoas com os custos, o atendimento, e,
sobretudo, com a promessa fria de eficácia dos
procedimentos médicos. "Em todos os setores a
sofisticação
tecnológica reduziu custos e aumentou
a satisfação do cliente, exceto na medicina", diz
Flávio Corrêa Próspero, presidente da Associação
Brasileira de Qualidade de Vida. Hoje as pessoas buscam
muito mais os médicos do que no passado, gastam pequenas
fortunas com exames, estão quase que continuamente tomando
algum remédio e, no final, sempre descobrem que não se
livraram de antigas complicações ou que contraíram alguma
das novas doenças que não param de engordar a lista
oficial de moléstias catalogadas – ela já soma 30 000
itens. Além disso, a tecnologia médica parece ter
promovido o distanciamento entre o terapeuta e o paciente,
desumanizando a prática profissional e abalando uma
relação milenar associada ao processo de cura. A julgar
pelo novo horizonte trazido pela farmacogenômica, esse
fosso deverá ampliar-se ainda mais quando as máquinas de
prescrição invadirem os consultórios.
A noção de que há algo errado com a
medicina como a conhecemos é consensual. Falam disso
usuários e críticos dos serviços de saúde. E também os
próprios médicos, tradicionalmente uma das categorias
profissionais mais marcadas pelo corporativismo. O que varia
são as leituras da situação, que apontam causas e
soluções distintas para o problema. Outro sinalizador da
crise que, aos poucos, se instala na área da saúde é a
corrida de usuários da medicina convencional para as
chamadas terapias alternativas, métodos de cura baseados em
paradigmas que se opõem ao modelo médico hegemônico,
geralmente originárias do Oriente. Na França, estima-se
que 82% dos pacientes superpõem a seus tratamentos na
medicina oficial as terapias alternativas. Nos Estados
Unidos, 35% da população já freqüenta consultórios de
homeopatas, acupunturistas e outros terapeutas que não
fazem uso de drogas químicas, os chamados remédios
alopatas. Inflando a onda de contestações, há uma série
de falhas que contribuem para minar a confiança de
pacientes nos ritos médicos tradicionais.
Medicamentos matam mais de 100 000
americanos por ano
Tomem-se, por exemplo, alguns números
dos Estados Unidos, o centro médico mais avançado do mundo.
Ali, segundo estimativa da própria Associação Médica
Americana, a cada ano 2,2 milhões de pessoas contraem
doenças e outras 106 000 morrem devido a efeitos colaterais
de medicamentos, a quarta causa de óbitos no país. Um
espanto quando se considera o rigor da FDA, a agência
federal de controle de drogas. O órgão costuma autorizar a
comercialização de um novo remédio somente após uma
seqüência de estudos que envolvem milhares de pacientes ao
longo de cinco ou mais anos. (No Brasil, quinto país do
mundo em consumo de medicamentos, a Fundação Oswaldo Cruz
estima em 24 000 as mortes anuais por intoxicação
medicamentosa.) Nos hospitais, 98 000 americanos teriam
morrido, no ano passado, vitimados por erros médicos
grosseiros. Mas Janet Corrigan, diretora de Serviços de
Saúde do Instituto de Medicina (IoM), um órgão do governo,
acha que o número foi subestimado. "O erro médico tem
sido ocultado", diz Janet. O número seria maior se
computados os casos ocorridos em casas de repouso,
prontos-socorros e consultórios. Incluam-se nesse rol de
problemas as queixas contra efeitos colaterais das vacinas
– foram 108 000, no ano passado, apenas através do site
do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos – e
se perceberá que o raio-x da medicina oficial está marcado
por nódulos e obstruções.
Seria loucura negar, sob o pretexto
dessas distorções, a contribuição dos serviços médicos
à melhoria da qualidade de vida e à longevidade no mundo
atual. Quem, vivendo em algum lugar minimamente civilizado,
não conhece pelo menos um caso de alguém salvo da morte ou
libertado da doença graças à pronta intervenção médica?
O que os problemas em debate revelam é que essa
contribuição pode estar aquém do que se imagina, numa
relação custo-benefício bastante desfavorável para quem
paga a conta – o paciente. Um estudo da Universidade
Stanford, dos Estados Unidos, com o objetivo de aferir os
fatores que levam uma pessoa a viver mais de 65 anos,
mostrou que a assistência médica é o que menos pesa:
apenas 10% num conjunto em que o estilo de vida participa
com 53%, as condições ambientais com 20% e a herança
genética com 17%. É muito pouco quando se compara esse
percentual aos preços salgados e aos lucros gordos que
envolvem a assistência médica.
Cerca de 85% dos exames solicitados
têm resultados negativos
Na última década, os serviços
médico-hospitalares cresceram em torno de 12% ao ano nos
Estados Unidos. Estima-se que eles responderão por 15% do
PIB americano este ano, algo em torno de 1,3 trilhão de
dólares. (Isso dá mais de duas vezes o PIB brasileiro.) Em
média, cada cidadão americano gasta 4 800 dólares por ano
com consultas médicas, exames e internações. No Brasil,
onde a assistência médica compõe 4% do PIB (algo como 24
bilhões de dólares), a Fundação Getúlio Vargas estima
que na cidade de São Paulo, o maior centro médico do país,
a indústria da saúde cresce em torno de 15% ao ano.
Os números de Stanford apontam para
problemas que, até há pouco, se mantinham encobertos pela
suposição de que a simples sofisticação tecnológica e a
variedade de drogas produzidas pela indústria farmacêutica
bastavam para derrotar tanto as velhas doenças quanto as
novas moléstias. Sabe-se agora que é enorme o desperdício
na utilização da tecnologia – um dos principais fatores
dos altos custos médicos –, bem como o abuso na
prescrição de remédios e indicação de cirurgias.
"A escola americana de medicina, modelo seguido no
Brasil, é muito intervencionista", afirma a doutora
Regina Parizi, presidente do Conselho Regional de Medicina
de São Paulo. "Nesse modelo apela-se demais à
cirurgia e aos procedimentos agressivos." Compare:
enquanto no Japão apenas um em cada 100 000 habitantes é
submetido a algum tipo de cirurgia coronária por ano, nos
Estados Unidos essa proporção sobe para 61 por 100 000.
Não há também justificativa lógica para o fato de 51%
dos partos no Estado de São Paulo acontecerem mediante
operações cesarianas.
Na verdade, diz o psiquiatra
paulistano e doutor em psicossomática Wilhelm Kenzler,
cerca de 85% dos exames solicitados pelos médicos – o
número varia de seis a 28 na consulta inicial –
apresentam resultados negativos. E mais de 90% dos
diagnósticos se resumem nas siglas NDN (nada digno de nota)
ou DNV (distúrbio neurovegetativo, ou seja, uma crise
nervosa). Mesmo assim a maioria dos pacientes volta para
casa com uma receita de
medicamento, cujo uso – dispensável
na maioria dos casos, como se pode perceber – pode ser o
ponto de partida de "doenças iatrogênicas",
aquelas que são causadas por tratamentos médicos
inadequados.
Eis aqui outro paradoxo. Enquanto se
queixam do relacionamento frio e impessoal com a medicina,
os pacientes cada vez mais transferem para os médicos e seu
arsenal químico e tecnológico a responsabilidade pela
própria saúde e a de seus familiares. Não raro, são eles
próprios que acionam o circuito do desperdício e da
dependência, pressionando pela prescrição de exames e de
drogas. Se isso não acontece, costumam entrar em pânico ou
duvidar do profissional, como afirma o pediatra americano
Wells Shoemaker. Ao atender em seu consultório, no interior
da Califórnia, um menino acometido de resfriado comum, o
médico recomendou apenas repouso e boa alimentação. Para
sua surpresa, a mãe da criança, inconformada, exclamou que
não voltaria para casa sem uma receita. "Meu filho
precisa de antibióticos", disse a mulher. "É
assim que ele cura seus resfriados." O pediatra ainda
tentou explicar que antibióticos combatem bactérias e não
vírus, os causadores de resfriados, além de serem
substâncias perigosas, com muitos efeitos adversos no
organismo. Em vão. Aos berros, a mãe do menino encerrou a
consulta: "Vou procurar um doutor que saiba cuidar de
crianças".
Mas, afinal, o que está mesmo
acontecendo com a medicina? Por que tantos exageros e
descontentamentos numa época em que o conhecimento das
ciências médicas, segundo o doutor em neurofisiologia
Renato Sabbatini, da Faculdade de Ciências Médicas da
Unicamp, em Campinas, dobra a cada três anos e em que não
existe limite para a tecnologia que desbrava o corpo humano?
"Isso ocorre devido a três pontos críticos", diz
Wilhelm. "À despersonalização, à tecnificação e
à mercantilização da medicina." Na raiz desses males
estaria o próprio conjunto de conceitos e hipóteses que
fundamentam a moderna prática médica – o modelo
biomédico moldado há três séculos.
Para entendê-lo é necessário recuar
no tempo para encontrar dois marcos na história do
conhecimento: o físico inglês Isaac Newton e o filósofo
francês René Descartes. No século XVII, Newton concebeu o
universo como um imenso mecanismo de relógio, possível de
ser compreendido a partir do estudo de suas partes. Na mesma
época, Descartes estabeleceu a visão dualista do homem,
separando mente e corpo como entidades independentes. Nos
séculos seguintes, tais idéias constituíram o cerne do
que hoje é conhecido como o paradigma cartesiano-newtoniano,
base de todos os sistemas conceituais nos diversos ramos da
ciência. Na medicina, a aplicação do paradigma
mecanicista deu ênfase ao estudo isolado de órgãos e
tecidos, o que foi reforçado ainda mais pelos grandes
avanços da microbiologia no século XIX.
O modelo biomédico consiste
basicamente em três premissas: o corpo é uma máquina, a
doença é conseqüência de uma avaria em alguma de suas
peças e a tarefa do médico é consertá-la. A partir daí
é que se determinou a prática médica atual, a
organização da assistência à saúde e a formação dos
recursos humanos nessa área, caracterizando-se a ruptura
com a tradição inspirada no grego Hipócrates (século V
a.C.) e seus valores
humanísticos. "As raízes da
medicina hipocrática se assentavam na filosofia da natureza
e seu sistema teórico partia de uma visão holística que
entendia o homem como um ser dotado de corpo e espírito",
afirma Dante Gallian, pesquisador do Centro de História e
Filosofia das Ciências da Saúde da Universidade Federal de
São Paulo. O médico clássico era um filósofo. Conhecia a
alma humana e a cultura local, andava muito próximo de seus
pacientes e atuava como conselheiro em assuntos como o
despertar da sexualidade nos adolescentes, os
problemas de relacionamento do casal e
outras questões da vida familiar. Diante das limitações
terapêuticas, permanecia ao lado do enfermo e seus
familiares, ajudando-os no sofrimento e na preparação para
a morte. A figura romântica desse clínico geral foi
sepultada pela explosão das especializações no século XX,
quando o reducionismo impôs-se de vez à prática médica
ocidental. O médico, então, tornou-se um técnico, um
especialista com grande conhecimento específico e quase
sempre sem noção do todo.
A indústria farmacêutica quer
faturar 400 bilhões de dólares em 2002
Note: a implantação do modelo
biomédico não emergiu do nada, mas de uma convergência de
fatores históricos e culturais que validaram, na época, os
axiomas básicos da medicina ocidental como a conhecemos. O
trabalho do químico francês Louis Pasteur, pioneiro no
estudo dos microorganismos, é talvez o pilar mais
importante desse modelo. Pasteur demonstrou a correlação
entre bactérias e doenças e atribuiu a micróbios
específicos a causação de doenças específicas. Opôs-se
assim a Claude Bernard, cuja teoria, muito difundida no
século XIX, apresentava a doença como resultado de uma
perda de equilíbrio do organismo provocada por fatores
externos e internos. Bernard afirmava que os micróbios são
inócuos e que o corpo do homem é hábitat natural de
bactérias, úteis à eliminação de toxinas. Em apenas 1
mililitro de saliva humana, por exemplo, existem 150
milhões de bactérias. Essa coexistência pacífica dos
microorganismos com o nosso corpo só seria rompida, segundo
Bernard, quando este, agredido por fatores ambientais e
hábitos não saudáveis, se desregulasse e se transformasse
em um "terreno" propício ao surgimento de
doenças. Em vez de ser a causa primária das doenças, as
bactérias seriam manifestações sintomáticas de um
distúrbio fisiológico oculto. Os danos a tecidos e
órgãos, na tese de Bernard, decorreriam da reação
excessiva do organismo provocada por descontrole dos
mecanismos de defesa.
Pasteur, que, além de pesquisador
meticuloso era um polemista hábil, acabou infundindo sua
teoria, favorecido pela eclosão, na Europa, de epidemias
que lhe permitiram demonstrar o conceito de causação
específica. Desde então, o combate aos microoganismos
geradores de doenças passou a ser o foco da medicina
ocidental em sua pretensão de tornar-se uma ciência exata.
No século XX, o desenvolvimento de vacinas e medicamentos
contra enfermidades infecciosas, especialmente os
antibióticos, os antidepressivos e a descoberta do
hormônio cortisona e seu poder antiinflamatório, selaram o
triunfo do modelo biomédico no controle de males
devastadores. Também a eficácia da medicina de emergência
em casos de acidentes, infecções agudas e outros
imprevistos contribuiu para esse êxito. Os novos recursos
da medicina e da farmacologia passaram a ser vistos como os
grandes responsáveis pela melhoria das condições de
saúde e o aumento da expectativa de vida nos últimos 100
anos. (Em 1900 um brasileiro vivia, em média, 37 anos; hoje
vive 68, quase o dobro.)
O brilho de tanto sucesso ofuscou por
várias décadas questões como o perigo dos efeitos
colaterais dos medicamentos, a influência dos fatores
sociais, econômicos e culturais no aumento da expectativa
de vida e a contribuição poderosa dos processos psíquicos
e dos hábitos para a saúde do organismo. Mas, nos últimos
tempos, pesquisas como a da Universidade Harvard, atestando
a supremacia do estilo de vida entre os fatores de saúde e
longevidade, trouxeram para o centro do debate antigos
argumentos. Um deles, apresentado pelo inglês Thomas Mckown,
em seu livro The Role of Medicine: Mirage or Nemesis (O
papel da medicina: ilusão ou castigo), ainda inédito no
Brasil, é o que atribui o enorme declínio da mortalidade,
a partir do século XVIII, ao aumento da produção de
alimentos, com reflexos na nutrição das pessoas, à
melhoria das condições de higiene e saneamento e à
redução da pobreza. Segundo Thomas, as principais doenças
infecciosas já tinham atingido o seu pico e
estavam em declínio bem antes da
chegada dos antibióticos ou das campanhas de imunização,
fato que demonstraria a responsabilidade modesta que a
intervenção médica teve naqueles casos. Quando a vacina
contra sarampo foi adotada nos Estados Unidos, em 1964, por
exemplo, o índice de mortes provocadas pela doença já
havia declinado 95% desde 1915.
Metade dos médicos brasileiros atua
no eixo Rio-São Paulo
Seja como for, os medicamentos
passaram a ser vistos como a chave para a cura de todos os
problemas de saúde. E, como conseqüência, a produção de
remédios tornou-se um dos negócios mais lucrativos do
planeta, detalhe que veio a influenciar profundamente o
ensino e a prática da medicina. A aliança das ciências
médicas com a indústria farmacêutica, ainda hoje um dos
muitos temas tabus entre os médicos, foi notada pela
primeira vez no início do século XX, quando a Associação
Médica Americana promoveu uma pesquisa sobre as escolas de
medicina. O objetivo do estudo era proporcionar uma base
científica à formação do médico. Mas havia um objetivo
paralelo: selecionar escolas que receberiam verbas vultosas
de fundações como a Rockefeller e a Carnegie, desde que
atendessem a critérios preestabelecidos. A pesquisa deu
origem ao chamado Relatório Flexner, documento que
influenciou a reforma do ensino médico nos Estados Unidos.
"O interesse do big business não
é curar, mas manter as doenças sob controle de remédios",
diz Wilhelm. Segundo o psiquiatra, que também é professor
de medicina psicossomática na Faculdade de Medicina Santo
Amaro, em São Paulo, a grande indústria farmacêutica
mobiliza bilhões de dólares para financiar escolas e
centros de pesquisa médica, além de cortejar médicos e
pesquisadores com mordomias que incluem viagens a congressos
e estágios no exterior. "O pesquisador passa a ser
praticamente um colaborador do laboratório farmacêutico e
o médico, um de seus propagandistas", afirma Wilhelm.
A finalidade desses estudos seria quase sempre validar novos
produtos prestes a entrar num mercado novo.
Há 20 anos, o mercado global de
medicamentos movimentava apenas 12 bilhões de dólares.
Agora a indústria farmacêutica quer chegar a 2002
faturando 400 bilhões de dólares. É como se dois terços
de toda a riqueza produzida no Brasil no ano passado fosse
empregada apenas na compra de remédios alopáticos. Mas o
que move a parceria da indústria farmacêutica com a
pesquisa e o ensino médico não é o mero desejo de lucro,
diz Serafim Branco Neto, secretário Executivo da Abifarma,
a Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica.
"Perde-se muito dinheiro em pesquisas que não chegam a
nada ou desaconselham o uso de algum novo produto."
Segundo Serafim, o valor médio investido na pesquisa de uma
única nova droga é de 400 milhões de dólares.
"Não há nada errado no modelo
biomédico. O paradigma da patologia celular continua
válido e é suficiente para explicar as doenças e buscar a
sua cura", diz Renato Sabbatini. "A boa medicina
é científica, apóia-se em evidências." Para Renato,
muitas das limitações da medicina convencional, entre elas
os efeitos adversos dos remédios, devem ser superadas nos
próximos anos graças aos progressos da biologia molecular.
Medicamentos feitos sob medida, a partir do conhecimento do
código genético do paciente, serão mais precisos. E as
intervenções no DNA poderão tornar o organismo humano
mais resistente às condições ambientais ou dotado de
habilidades próprias de outras espécies como, por exemplo,
enxergar no escuro.
O problema da medicina, diz Renato,
está circunscrito à exploração econômica da atividade,
que transformou o médico num assalariado mal pago e afetou
a qualidade do ensino da medicina com a proliferação
desordenada de cursos – outro grande filão na área da
saúde. O Brasil possui 104 faculdades de medicina. Apenas
em Ribeirão Preto, cidade média do interior de São Paulo,
existem quatro. Entre as 81 faculdades submetidas, no ano
passado, ao exame de avaliação do MEC, o provão, mais de
um terço recebeu conceito ruim ou péssimo.
Lançados em ritmo de linha de
montagem no mercado urbano (há três anos metade dos
216 000 médicos atuantes no Brasil
trabalhava em São Paulo e no Rio de Janeiro), muitos desses
profissionais acabam incorrendo em transgressões éticas
que vão além da indiferença no trato com o paciente.
"O que esperar de um médico que ganha 3 reais por
consulta no Sistema Único de Saúde, o SUS, se ele pode
ganhar 400 solicitando uma tomografia ou 40 000 numa
cirurgia paga pelo cliente?", pergunta Renato. Uma
expressiva parcela dos médicos tornou-se, enfim, vítima de
situações estressantes, nem sempre levadas em conta quando
eles cuidam da própria saúde e da de seus pacientes.
Chega a ser irônico que a expectativa
de vida dos profissionais da área médica, mesmo em países
desenvolvidos, como os Estados Unidos, seja cerca de dez
anos menor que a média das outras pessoas. Também causa
espanto que o alcoolismo, o abuso de drogas e o suicídio
apresente elevados índices entre os médicos. Um estudo da
Universidade da Califórnia, realizado no ano passado entre
9 600 médicos americanos, mostrou que 20% deles usaram
drogas derivadas de ópio, prática facilitada pelo acesso
rotineiro à morfina e substâncias similares utilizadas em
hospitais. O alcoolismo é um vício tão espraiado entre
médicos que foi criada uma versão especial dos grupos de
auto-ajuda Alcoólicos Anônimos só para atendê-los – o
International Doctors in Alcoholics Anonymous, IDAA. O mais
grave em tudo isso é que, com raras exceções, os médicos
dependentes de drogas continuam na ativa, às vezes
atendendo em UTIs e realizando cirurgias.
Como entram os pacientes nessa
história? Para começo de conversa, é preciso frisar que
muitos dos males apontados na medicina ocidental têm
relação causal com a postura passiva de indivíduos como
eu e você. De modo geral, os pacientes delegam aos médicos
a responsabilidade integral pelo diagnóstico da doença e
pela decisão sobre que terapia adotar. Essa tradição
paternalista agrada à maioria dos pacientes, que não está
nem um pouco interessada numa participação que lhes exija
algum tipo de esforço. Afinal, por que operar sofridas
mudanças de comportamento e de hábitos alimentares, por
exemplo, se é tão mais fácil engolir uma pílula mágica?
Essa atitude, no entanto, começou a mudar. E, com isso,
alguns pilares da rotina médica ocidental passaram a se
mover.
"A voz dos pacientes precisa ser
ouvida", diz Patrick Terry, líder de um grupo de
pacientes de Sharon, Massachusetts, nos Estados Unidos,
acometidos de PXE, doença que resulta da acumulação de
cálcio nos tecidos e pode cegar suas vítimas. A voz dos
usuários começa a ser ouvida em diferentes estágios da
cadeia médica. Grupos similares ao de Patrick, como o
Genetic Interest Group, da Inglaterra, e outros na Holanda,
na Bélgica e nos Estados Unidos não se mobilizam apenas
por mais humanismo na medicina. Eles querem influenciar o
desenvolvimento de drogas contra doenças incuráveis,
inclusive propondo-se a adquirir patentes de novos remédios
com a intenção de barateá-los.
Iniciativas como essa já produzem
resultados lá fora. E no Brasil também. Nos últimos anos,
por exemplo, centenas de escolas de medicina dos países
desenvolvidos anunciaram ajustes em sua grade de conteúdos,
com a inclusão de disciplinas que abrangem relações
humanas,
dinâmica familiar, violência
doméstica e até fé e compaixão. "No Brasil também
estamos discutindo a reformulação do ensino médico",
diz Regina. "O objetivo é formar profissionais mais
generalistas e capazes de lidar com pessoas, seguindo os
passos das principais faculdades de medicina do mundo."
Uma pesquisa patrocinada pelo governo americano revelou que,
para 85% dos pacientes, o valor de um médico se deve mais
à sua capacidade de ouvir e explicar do que ao peso do seu
currículo.
Estudo indica que 20% dos médicos
americanos são dependentes do ópio
É pouco provável que o modelo de
medicina hegemônico no Ocidente venha a ser alterado em sua
base nos próximos anos. Mesmo com as limitações e
distorções agora em debate, a medicina convencional ainda
é o recurso mais próximo e mais rápido para o
enfrentamento de situações extremas no campo da saúde.
Mas é bom prestar atenção ao que se passa na vizinhança
do establishment médico. Neste momento, cerca de 200
hospitais americanos já utilizam terapias não-alopáticas
para complementar o tratamento de seus pacientes. Escolas de
medicina do primeiro time, como as das universidades
Harvard, Stanford e Columbia, mantêm departamentos voltados
exclusivamente para a pesquisa de terapias alternativas e de
práticas holísticas baseadas no conhecimento oriental.
Grupos de médicos brasileiros ligados a grandes hospitais,
como o Hospital do Servidor Municipal de São Paulo, e à
Universidade de São Paulo, discutem uma abertura da
medicina convencional na direção de outros sistemas de
cura. Como em qualquer crise, a da medicina moderna pode ser
um sinal de renovação.
PARA SABER MAIS:
Na livraria:
Reclaiming Our
Health -John Robbins, HJKramer, Estados Unidos, 1996
O Ponto de Mutação - Fritjof Capra, Cultrix, 1999
The Placebo Effect - Anne Harrigton, Harvard University Press, Estados Unidos,
1999
O Homem Holístico - Francisco di Biase, Vozes, 2001
Na Internet:
http://nccam.nih.gov
www.nib.unicamp.br/publ.htm
www.taps.org.br/biblio.htm
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