Ano
IX
Nº 338
Texto
especial para o Planeta Jota
Abril
2004
Outras
reportagens
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No
tapete mágico
Ir
ao
Marrocos como mochileiro é uma aventura
inesquecível, uma história das Mil e Uma Noites.
Eu fui. O relato completo será publicado brevemente
numa reportagem. Mas, conforme prometi, deixo abaixo
alguns aperitivos para os meus leitores internautas e
para quem sonha em fazer o mesmo roteiro
Por Jomar Morais |

JM na Duna de Chegaga, no Saara:
aventuras no reino do
Marrocos
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La
illáha ila Al-lah. Mohammedan rassulalul-lah. Al-akba.
São
poucos mais de 4h30 da manhã quando eu e minha mulher,
Fátima, somos acordados pelo canto rouco do muezim. Do alto
do minarete da mesquita, os altofalantes ecoam a exortação em
árabe que expressa o primeiro verso do Alcorão: "Não
existe divindade senão Deus. Maomé é o profeta de Deus.
Deus é grande". Aos poucos, o mesmo apelo é repetido em
altofalantes de outras mesquitas, numa cantilena suave e
envolvente. Quando os primeiros raios de sol despontam no
céu, multidões de homens, a maioria metidos em modestas
túnicas com capuz (as djelabas)
seguem em direção aos templos para a primeira das cinco
orações diárias de um muçulmano.
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Emociono-me
com o que ouço e vejo. E será que alguém
conseguiria permanecer imune a tais sons e gestos? Não entendo o canto nostálgico e, ao mesmo
tempo, fervoroso dos muezins (só depois traduziram
para mim), mas sinto a sua força e a dos
movimentos arquetípicos. Há fé, há uma estranha
presença no ar neste que é um mundo para lá de
misterioso para qualquer ocidental. Senhores, estamos
na medina de Fès, patrimônio da humanidade tombado
pela Unesco, relicário de um tempo de glórias da
civilização muçulmana. Senhores, estamos no reino
islâmico do Marrocos. |

Na medina de Fès: por trás da muralha de 14 km2,
mais de
9 000 ruelas e becos e a vida como no século
VIII
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Como
nos dias de Maomé
Há
poucas horas desembarcamos de um ônibus velho e mal-cheiroso,
sem bancos reclináveis, após 9 horas de trajeto a partir de
Tânger, passando por planícies de cedro e terras áridas.
Mas que recompensa por nosso cansaço! Somos deixados a alguns
passos de um dos portais de Fés, a antiga, às 19h30 de 6 de
janeiro de 2004, dia de Reis. A luz da Lua cheia sobre a
muralha realça os detalhes do monumento de 14 quilômetros
quadrados. As portas arqueadas, as torres de vigia, os
desenhos geométricos... tudo ganha um brilho especial. Lá
dentro, o labirinto de 9 400 ruelas e becos onde a vida
transcorre como nos dias de Maomé. O pão, preparado em casa,
é ainda assado em fornos comunitários. A água, distribuída
em chafarizes. As passarelas estreitas abrigam um comércio
esfuziante, onde se vende de ervas a tapetes e onde nada tem
preço fixo. Cansaço? Para onde ele foi?
Faz
frio, 13 graus. Não temos reserva em hotel. Saímos em busca
de um, driblando o assédio de guias improvisados. Mas nesse
país de língua enrolada e gente simpática, é tudo tão
fácil e tão barato, pelo menos em janeiro, longe da alta
temporada de julho. Encontro levas de forasteiros de vários
países, estudantes europeus duros e dispostos a economizar
centavos (e apenas um casal de brasileiros em 13 dias e 2.200
quilômetros de peregrinação). A informação flui e tudo
acaba em pizza - ou melhor em cuscuz marroquino, o prato
típico do lugar. Há pobreza e pouca higiene, mas também
história, muita história (desde a antiga civilização
fenícia), tradição e... Internet em todo lugar.
Cada
cidade tradicional marroquina tem sua medina (a cidade antiga,
medieval) e cada medina tem sua medersa (escola corânica), o
mellah (bairro judeu) e os souks (mercados). Não visitá-los
é como viajar a Roma e não ir ao Vaticano. No Marrocos não
se vende bebidas alcoólicas (exceto em alguns hotéis). Não
há grandes embalos noturnos. Também quase não existem homicídios
e assaltos. Em compensação, é comum visitantes serem
abordados por indivíduos que oferecem “something special”,
que neste caso significa haxixe. Ou serem cercados
por jovens sorridentes
que propõem "savah" - isto é, praticar sexo com
você, seja você mulher ou homem. Ambas
as propostas inusitadas me foram feitas em Fès, à luz do dia.
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Pra
lá de Marrakesh
Fès,
na verdade, é a terceira rodada de emoções e
descobertas neste nosso périplo. Tudo começou com a
nossa opção de alcançar o Marrocos, a partir da
Europa, cruzando o estreito de Gibraltar, o braço de
mar que une o Atlântico ao Mediterrâneo e separa a
África do
continente europeu. De Algeciras, no sul da Espanha, a
Ceuta, um enclave espanhol em território marroquino,
são apenas 50 minutos em ferryboat equipado com
restaurante e lojas duty-free. Preferimos, no entanto,
o roteiro mais romântico e mais longo (2 horas e 30
minutos de navegação) e descemos em Tanger, onde
tivemos nosso primeiro choque cultural.
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Fátima
e JM na travessia
do canal que separa a
África da
Europa: ao
fundo, a cidade de Gibraltar
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É
surpreendente ser cercado na chegada por vendedores
gritando ofertas no dialeto darija, o árabe marroquino, e ver
cafés e restaurantes tomados por homens que chegam de mãos
dadas e se cumprimentam com beijos no rosto enquanto as
mulheres, cobertas da cabeça aos pés, trafegam nas ruas como
figuras fugidias. Surpreende ver bancos funcionando à noite e
homens estendendo pequenos tapetes em qualquer lugar para
cumprirem o compromisso de orar voltado para Meca cinco vezes
ao dia. Impressiona o fato de apenas 14 quilômetros de
lâmina d´agua separarem civilizações tão
diferentes.
A
segunda rodada começou na mahata (estação rodoviária) de
Tânger, ao subirmos num ônibus de linha normal, rumo a Fès,
sem poltronas reclináveis, e onde a gente humilde transporta
no colo potes, cestas, colchões dobrados e até galinhas,
enquanto no teto um bagageiro abriga móveis e cargas em
geral. É claro que existem ônibus turísticos fazendo a
mesma linha, mas que graça isso tem para um mochileiro
interessado em viver o dia-a-dia de um povo?
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Agora
estamos a caminho de Marrakesh, a cidade que já deu
nome ao país. De Fés até lá são mais 500 quilômetros
e 10 horas de estrada. Dureza. Mas que importa quando
se está diante da soberba cidade avermelhada ao pé da
cordilheira Atlas? Nas cidades marroquinas os edifícios,
casas e muros têm uma mesma cor – a cor da cidade.
Tanger é azul. Fès, amarela. Marrakesh se impõe
pelo tom ocre que destaca suas muralhas e o minarete
da Koutobia, a grande mesquita de
800 anos. Aqui há luz e alegria. E tudo
converge para a praça Djemaa El Fna, onde se misturam
músicos, bailarinos, encantadores de serpentes,
contadores de histórias e incontáveis barracas de
alimentos. Charretes transportam turistas pelos
jardins da cidade, repletos de palmeiras. Ficamos
apenas dois dias em Marrakesh. Nossa meta é mais
além.
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Minarete
da Koutobia, a mesquita de 800 anos: farol espiritual
de Marrakesh
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Neve
e casbahs
O
ônibus range, varando as eternas montanhas brancas. Há
sujeira e desconforto no veículo. Algumas mulheres, enjoadas
com a altitude, vomitam. Mas o show acontece lá fora e é
possível apreciá-lo pela janela: os picos nevados do Atlas,
as gargantas abismais por onde escorrem rios límpidos, as
impressionantes esculturas naturais em rochas coloridas.
Paramos em vilas de pastores, agricultores e artesãos.
Exageramos no consumo de amêndoas e chocolate para aliviar o
frio. Aqui, nas alturas, as tradições árabes e berberes se
cruzam e na babel que resulta desse encontro às vezes não se
consegue achar uma única alma que entenda inglês, francês
ou espanhol. Nessas horas descobrimos o valor da velha e utilíssima
mímica e, sobretudo, o da boa vontade entre os homens.
Ouarzazate,
a cidade em cujas cercanias estão algumas das mais belas
casbahs medievais, - castelos de barro suntuosos erguidos em
campos de amendoeiras ou no sopé de montes – surge logo
depois do Atlas. Duzentos quilômetros à frente, aportarmos
em Zagora, a pequena e empoeirada cidade, às portas do
deserto, onde finalmente iremos definir nossa aventura no
Saara. Com Ait Sousi Karim, jovem berbere organizador de
expedições, acertamos um pacote que inclui um Land Rover e uma equipe que nos servirá durante
dois dias: o motorista Mohammed, seu pai, o cozinheiro Ali e
ele próprio na função de guia. Nosso destino são as dunas
de Chegaga, uma área que não está no mapa turístico do
Marrocos nem no roteiro das agências (que preferem Merzouga e
Tinfou), mas tem a vantagem de estar situada na região mais típica
do deserto, o chamado Grande Saara.
No
esplendor do Saara
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Chegaga
fica a cinco horas de Zagora. A caminho, passamos por
pedregais e montanhas rochosas – sim, o deserto não
é só areia! –, conhecemos a vida de beduínos e
descansamos da refrega no oásis Sacre, local onde uma
pequena nascente e algumas palmeiras contrastam com a
aridez do Saara. Quando alcançamos o acampamento de
Chegaga quase já não há tendas disponíveis. Deixo,
porém, que a equipe negocie com os nativos berberes e
me atiro sozinho (a mulher não topou o desafio) ao
mais duro momento dessa viagem: a escalada da grande
duna de 360 metros de altura, em cujo topo posso
apreciar a cadeia de morros avermelhados. Para
corpos sedentários, como o meu, o esforço é hercúleo.
É preciso força para desenterrar os pés da areia,
água para aliviar a sede intensa e algumas pausas
para o coração não explodir. A recompensa, porém
é um espetáculo de luz e cores: os raios dourados do
crepúsculo esparramados sobre a cadeia de dunas,
produzindo na areia ocre efeitos dignos de uma
superprodução do cinema.
Chegaga é a porta de
entrada do Grande Saara, o enorme areal do deserto e a
contemplação do pôr-do-sol aqui é um prazer que
atrai forasteiros de toda parte. Dois deles, os
franceses Jean e Yves, venceram a pé mais de 200 quilômetros
desde a cidade mais próxima, Zagora, só para
experimentar a amplidão dessa “erg”, espécie de
cordilheira de morros. Luigi e Sarah, italianos
equipados com esquis, deslizam na massa movediça de
360 metros de altura. Lá embaixo está o acampamento
berbere – povo nômade que há milênios habita a
região –, e é em suas tendas rústicas que eu e
Fátima logo iremos desfrutar de
momentos inesquecíveis.
O
calor do Saara desaparece com o Sol. À noite é
gelada, próximo do zero grau Celsius, mas o céu
estrelado e a Lua sorrateira valem o desconforto. Na
tenda forrada com tapetes artesanais, à luz de velas,
somos brindados com um legítimo jantar nativo: o
tagine (cozido preparado em forma de argila), frutas e
chá. Uma delícia! Depois, a roda em torno da
fogueira, o papo descontraído e velhas canções árabes
que contam histórias de animais falantes e de amores
ardentes. Habib, habibit... meu amor, meu amorzinho. O
tempo passa e nem percebemos. Quando, por fim, o cansaço
nos dobra, os colchonetes sobre a areia macia servem a
um sono profundo e restaurador, até que a sinfonia
uivante de uma caravana de camelos nos desperta para o
dia seguinte. |

Alvorada
nas dunas de Chegaga: meditação
JM e Fátima: jantar típico na tenda berbere, no
Saara

Uma
pausa para o camelo
na Duna do Judeu

JM
com Karim (esq.) e Mohammed: expedição da Karim
Sahara Services pelo tel. (0__00212)
62 415570 ou karimsahara2001@caramail.com |
Gaivotas
de Essaouíra
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Do
deserto para o litoral! Essaouíra, cidade fortificada
junto ao Atlântico, é o nosso alvo. Um lugar
perfeito para o relax. Trata-se de um porto milenar,
hoje tombado pela Unesco, que na antiguidade serviu
aos fenícios e a partir do século XVIII foi dominado
por europeus, especialmente os portugueses, responsáveis
pelas fortificações. A medina de Essaouíra com suas
ruas retas e seus bulevares reflete essa influência.
A cidade é limpa, florida e conservada e por aqui
quase não há assédio de pedintes e biscateiros, uma
raridade no Marrocos. Mochileiros de toda parte enchem
de cores e alegria locais como o mercado do peixe e o
cáis, onde é possível contracenar com gaivotas
pacíficas no crepúsculo. Um programa imperdível
aqui é o passeio de barco à ilha do Mogador, na baía
de Essaouíra, para apreciar o espetáculo do
por-do-sol.
Na
contra-mão dos pacotes turísticos deixamos para o final a
visita a Casablanca, a grande cidade marroquina, de 5 milhões
de habitantes. Além de sua linda enseada, praticamente, não
há atrativos nessa metrópole que, nem de longe, exala o
romantismo do clássico Casablanca do cinema. Mas vale
a pena visitar a mesquita Hassan II, a segunda maior do mundo
(só perde para a de Meca), com capacidade para 25 000
fiéis. Na construção desse monumento, em que sobressaem a
beleza da arquitetura e dos mosaicos árabes, foram investidos
600 milhões de dólares na década passada. Talvez por isso,
a mesquita é a única que permite visitas guiadas (e pagas),
sem restrições a não-muçulmanos e a mulheres com a cabeça
descoberta. |

Por-do-Sol
na ilha do Mogador, Essaouíra
A grande mesquita Hassan II, em Casablanca: liberal
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