N
o
meio da tarde a lancha desliza sobre o oceano em direção
à terra firme,
subindo
e
descendo com as ondas num movimento que é pura emoção. A
brisa forte não permite que se sinta o calor de 32 graus
bronzeando a pele. As manobras do timoneiro, inclinando
a embarcação para driblar as marolas, aumentam o frio
na barriga e liberam o grito de mulheres e crianças.
Aaaaaaaaaai! Uuuuuuuuuui! É o que mais se ouve durante os
15 minutos da viagem. Nesse breve tempo, uma overdose de
adrenalina dispara em alguns rostos expressões divertidas
de surpresa e temor. Em outros, gargalhadas, muitas
gargalhadas. Quando, enfim, o motor do barco é desligado e
os passageiros começam a se livrar dos coletes salva-vidas,
eis que, da proa, uma voz tímida ensaia uma proposta de bis.
- Paiê,
vamos voltar pro aquário – diz Pedro, um
paulistinha de 5 anos de idade que pela primeira vez aportou
no litoral do Rio Grande do Norte junto com os pais, o
executivo Luiz Fernando Figueiredo e Raquel, e as irmãs
Marília e Letícia, de 11 e 8 anos.
Garoto
esperto esse Pedro, que pensa como gente grande. Na lancha
estão 12 pessoas e, exceto o timoneiro, que desde a manhã
já repetira a proeza umas dez vezes, todas adorariam
refazer o percurso de sete quilômetros até o paraíso que
ninguém consegue esquecer. Aquário, aliás, é como todos
no grupo - do pequeno Pedro ao aposentado Denizard
Gonçalves de Andrade, um médico capixaba de 61 anos -, se
referem agora à imensa piscina natural, em meio ao
Atlântico, onde por quatro horas eles se misturaram a
peixes, outros animais marinhos e a uma vasta flora
aquática num cenário incrível de cores e sensações: os
parrachos de Maracajaú.
Se Natal é
um de seus destinos neste verão, aproveite o privilégio.
Só 10% dos turistas que chegam ao litoral potiguar costumam
visitar Maracajaú. Seduzida pela beleza de dunas enfeitadas
de lagoas e dromedários e pelas praias famosas ao sul da
capital, a maioria deixa de percorrer o belíssimo litoral
norte, com suas praias de recorte sinuoso, quase intocadas,
rios, florestas de coqueiros e... as piscinas oceânicas dos
parrachos.
Parrachos é
como os potiguares chamam os recifes de corais, formações
rochosas que, na verdade, são colônias de animais marinhos
geradas ao longo de milhões de anos nas águas mornas do
Atlântico. Eles estão presentes em vários trechos do
litoral nordestino, mas em nenhuma parte com tanta
exuberância quanto em Maracajaú, a 65 quilômetros de
Natal. Nessa região, os corais se espalham por 13
quilômetros quadrados de águas verdes cristalinas,
formando sobre um enorme banco de areia piscinas cuja
profundidade varia de 2 a 5 metros na maré baixa. É um
lugar ideal para a prática de mergulho por amadores, gente
como eu e você, que treme ante a iminência de meter a cara
no desconhecido e logo depois de se diverte com a aventura.
Sobretudo, é um santuário ecológico onde se pode unir o
prazer de um banho tranqüilo, sem o perigo da correnteza e
o incômodo da arrebentação, à observação de um
espetáculo singular: o movimento de cardumes coloridos,
lagostas e polvos, serpenteando entre plantas exóticas que
crescem sobre os corais.
"Nem no
Caribe experimentei emoção igual", diz Luiz, o pai de
Pedro, que anos atrás mergulhou nas águas profundas das
ilhas Trinidad e Cayman. A sensação de nadar entre peixes
pequenos e médios – raramente alguém tromba com um
inofensivo bagre, de 1 metro de comprimento -, tocá-los e
alimentá-los sem receio é quase indescritível. Tanto faz
descer ao fundo equipado com cilindro de ar e colete ou
contentar-se com o mergulho de superfície, para o qual
bastam pés-de-pato, óculos especial e snorkel, aquele
tubinho que permite a respiração enquanto se está
submerso. O que se vê é uma cena de rara beleza que torna
a comparação com áreas de mergulho celebradas em roteiros
internacionais, como Key West, na Flórida, e as ilhas
Seychelles, no oceano Índico, algo inevitável.
É verdade
que ainda deve demorar para que Maracajaú, uma vila humilde
de pescadores, venha a oferecer aos visitantes a estrutura
sofisticada desses pontos famosos. Não há hotéis na vila
– apenas duas pousadas muito simples – e os turistas
costumam retornar a Natal no final da tarde, por falta do
que fazer à noite. No entanto, desde que o baiano César
Sales criou, há seis anos, a sua Maracajaú Diver, primeira
empresa a explorar o mergulho nos parrachos, outras
operadoras correram para a área e, aos poucos, as piscinas
oceânicas estão virando atração de gringos.
Dependendo do
dia, as lanchas que fazem o trajeto até os corais se
transformam em pequenas babéis, onde se misturam frases em
português, espanhol, inglês ou em algum idioma escandinavo
– a maioria expressando admiração. "Mergulhar aqui
é o melhor remédio para esquecer a crise no meu país",
brinca, após um passeio submarino de meia hora, o advogado
argentino Oscar Méndez, velho freguês das praias
catarinenses. Para quem cruzou o oceano, como a sueca Sarah
Schomaker, a emoção é ainda maior. "Eu vi uma cobra,
eu vi uma cobra!", grita Sarah, que em toda sua vida
jamais assistira ao desfile de uma enguia, tipo de peixe
serpentiforme, no fundo do mar.
Entre um
mergulho e outro, vale a pena apreciar a paisagem oceânica
de alguma das seis plataformas flutuantes espalhadas num
raio de 500 metros. Sobre essas estruturas, de 90 metros
quadrados, há cadeiras de plástico para quem quer pegar
uma cor e, à sombra, bares modestos que servem drinques,
sucos enlatados, refrigerantes e sanduíches naturais. É
ali também que os turistas recebem uma breve aula sobre
mergulho com snorkel e cilindro e, depois, caem na água
guiados por instrutores. Quem prefere evitar a "emoção"
da viagem na lancha, pode chegar aos parrachos instalado num
sereno catamarã, com capacidade para 120 pessoas. O barco
segue preguiçosamente – leva 40 minutos até o destino -,
mas lá dentro há cadeiras e se pode bebericar e comer,
enquanto se observa o painel natural em volta.
O mergulho
entre os corais, a propósito, é apenas o ápice de um dia
inteiro de descontração. Nas areias de Maracajaú,
saboreia-se peixes grelhados em pequenos restaurantes à
sombra de coqueiros e o tíquete da traslado, cujo preço
varia de 28 a 50 reais, dá direito ao café da manhã, com
frutas tropicais e sucos. Lanchas e catamarãs também levam
turistas para passear na baía de Maracajaú e em torno do
farol Tereza Panci, erguido a dois quilômetros da costa
sobre a pedra onde, na década de 1930, espatifou-se o navio
de mesmo nome. O programa termina no Ma-Noa Park, um parque
aquático inaugurado há um ano. Além de brinquedos
típicos, entre os quais um tobogã de 25 metros, o Ma-Noa
possui três piscinas e o restaurante mais sofisticado da
região, o Sinfonia do Camarão, onde se come frutos do mar
decentes e baratos.
O prazer do
passeio a Maracajú pode começar bem antes da chegada à
vila, caso o turista decida ir até lá de bugue, pela beira-mar.
A viagem dura 2 horas, o dobro do tempo gasto no asfalto,
mas o périplo por 15 praias emolduradas por coqueirais
compensa. O encontro do rio Maxaranguape com o mar, na baía
da Prainha, é uma cena impagável. O mesmo acontece com a
visão da baía de Maracajaú do alto da duna do cabo de
São Roque, o ponto do território brasileiro mais próximo
da África.
Recentemente,
o governo do estado criou a área de preservação ambiental
dos parrachos, o que implica em controle da atividade
turística na região. A palavra de ordem é preservar o
bonito cenário presenteado pela natureza - e isso é bom.
Significa a esperança de que, por muitos anos ainda,
milhares, milhões de Pedros poderão sonhar em bisar a
aventura no impressionante aquário do mar.
ANOTE AÍ
- A maioria das agências de
Natal oferece o passeio a Maracajaú. A Max Tour, tel.
(0_84) 212-2707, usa vans e cobra 75 reais por pessoa. A
Solis Turismo, tel. (0_84) 202-6000, opera com ônibus
ao preço de 50 reais. Bugues, para quatro pessoas,
custam 180 reais, mas o preço pode baixar se o turista
negociar diretamente com o bugueiro.
- As empresas que fazem o
traslado até os parrachos têm pacotes variados. A
Maracajaú Diver, tel. (0_84) 261-6200, e a Corais, tel.
(0_84) 261-6313, usam lanchas e incluem o café da
manhã no preço de 28 reais por pessoa. A Portal, tel.
(0_84) 3081-3010, cobra 38 reais, mas o traslado é num
catamarã que estica o passeio até à belíssima praia
de Punaú. Na Cidade Bela, tel. (0_84) 207-7074, o
pacote de 50 reais inclui almoço. Todas fornecem
material para mergulho de superfície. O mergulho com
cilindro é cobrado à parte e custa 35 reais por pessoa.
- O passaporte no Ma-Noa
Park, tel. (0_84) 223-9321, custa 15 reais. Em seu
restaurante Sinfonia do Camarão, o prato forte é
lagosta grelhada, flambada ao conhaque, com alcaparras,
champion e arroz. Custa 36 reais e dá para três
pessoas.