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Ano VII / Nº 312

 

 

Texto publicado na revista Viagem e Turismo de janeiro de 2002

 

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Rio Grande do Norte

Festa nos parrachos

Um dia nas piscinas oceânicas de Maracajaú, um espetáculo natural 
que fica a sete quilômetros da costa potiguar
Por Jomar Morais / Fotos Luis Morais   

No meio da tarde a lancha desliza sobre o oceano em direção à terra firme, subindo e descendo com as ondas num movimento que é pura emoção. A brisa forte não permite que se sinta o calor de 32 graus bronzeando a pele. As manobras do timoneiro, inclinando a embarcação para driblar as marolas, aumentam o frio na barriga e liberam o grito de mulheres e crianças. Aaaaaaaaaai! Uuuuuuuuuui! É o que mais se ouve durante os 15 minutos da viagem. Nesse breve tempo, uma overdose de adrenalina dispara em alguns rostos expressões divertidas de surpresa e temor. Em outros, gargalhadas, muitas gargalhadas. Quando, enfim, o motor do barco é desligado e os passageiros começam a se livrar dos coletes salva-vidas, eis que, da proa, uma voz tímida ensaia uma proposta de bis.

- Paiê, vamos voltar pro aquário – diz Pedro, um paulistinha de 5 anos de idade que pela primeira vez aportou no litoral do Rio Grande do Norte junto com os pais, o executivo Luiz Fernando Figueiredo e Raquel, e as irmãs Marília e Letícia, de 11 e 8 anos.

Garoto esperto esse Pedro, que pensa como gente grande. Na lancha estão 12 pessoas e, exceto o timoneiro, que desde a manhã já repetira a proeza umas dez vezes, todas adorariam refazer o percurso de sete quilômetros até o paraíso que ninguém consegue esquecer. Aquário, aliás, é como todos no grupo - do pequeno Pedro ao aposentado Denizard Gonçalves de Andrade, um médico capixaba de 61 anos -, se referem agora à imensa piscina natural, em meio ao Atlântico, onde por quatro horas eles se misturaram a peixes, outros animais marinhos e a uma vasta flora aquática num cenário incrível de cores e sensações: os parrachos de Maracajaú.

Se Natal é um de seus destinos neste verão, aproveite o privilégio. Só 10% dos turistas que chegam ao litoral potiguar costumam visitar Maracajaú. Seduzida pela beleza de dunas enfeitadas de lagoas e dromedários e pelas praias famosas ao sul da capital, a maioria deixa de percorrer o belíssimo litoral norte, com suas praias de recorte sinuoso, quase intocadas, rios, florestas de coqueiros e... as piscinas oceânicas dos parrachos.

Parrachos é como os potiguares chamam os recifes de corais, formações rochosas que, na verdade, são colônias de animais marinhos geradas ao longo de milhões de anos nas águas mornas do Atlântico. Eles estão presentes em vários trechos do litoral nordestino, mas em nenhuma parte com tanta exuberância quanto em Maracajaú, a 65 quilômetros de Natal. Nessa região, os corais se espalham por 13 quilômetros quadrados de águas verdes cristalinas, formando sobre um enorme banco de areia piscinas cuja profundidade varia de 2 a 5 metros na maré baixa. É um lugar ideal para a prática de mergulho por amadores, gente como eu e você, que treme ante a iminência de meter a cara no desconhecido e logo depois de se diverte com a aventura. Sobretudo, é um santuário ecológico onde se pode unir o prazer de um banho tranqüilo, sem o perigo da correnteza e o incômodo da arrebentação, à observação de um espetáculo singular: o movimento de cardumes coloridos, lagostas e polvos, serpenteando entre plantas exóticas que crescem sobre os corais.

"Nem no Caribe experimentei emoção igual", diz Luiz, o pai de Pedro, que anos atrás mergulhou nas águas profundas das ilhas Trinidad e Cayman. A sensação de nadar entre peixes pequenos e médios – raramente alguém tromba com um inofensivo bagre, de 1 metro de comprimento -, tocá-los e alimentá-los sem receio é quase indescritível. Tanto faz descer ao fundo equipado com cilindro de ar e colete ou contentar-se com o mergulho de superfície, para o qual bastam pés-de-pato, óculos especial e snorkel, aquele tubinho que permite a respiração enquanto se está submerso. O que se vê é uma cena de rara beleza que torna a comparação com áreas de mergulho celebradas em roteiros internacionais, como Key West, na Flórida, e as ilhas Seychelles, no oceano Índico, algo inevitável.

É verdade que ainda deve demorar para que Maracajaú, uma vila humilde de pescadores, venha a oferecer aos visitantes a estrutura sofisticada desses pontos famosos. Não há hotéis na vila – apenas duas pousadas muito simples – e os turistas costumam retornar a Natal no final da tarde, por falta do que fazer à noite. No entanto, desde que o baiano César Sales criou, há seis anos, a sua Maracajaú Diver, primeira empresa a explorar o mergulho nos parrachos, outras operadoras correram para a área e, aos poucos, as piscinas oceânicas estão virando atração de gringos.

Dependendo do dia, as lanchas que fazem o trajeto até os corais se transformam em pequenas babéis, onde se misturam frases em português, espanhol, inglês ou em algum idioma escandinavo – a maioria expressando admiração. "Mergulhar aqui é o melhor remédio para esquecer a crise no meu país", brinca, após um passeio submarino de meia hora, o advogado argentino Oscar Méndez, velho freguês das praias catarinenses. Para quem cruzou o oceano, como a sueca Sarah Schomaker, a emoção é ainda maior. "Eu vi uma cobra, eu vi uma cobra!", grita Sarah, que em toda sua vida jamais assistira ao desfile de uma enguia, tipo de peixe serpentiforme, no fundo do mar.

Entre um mergulho e outro, vale a pena apreciar a paisagem oceânica de alguma das seis plataformas flutuantes espalhadas num raio de 500 metros. Sobre essas estruturas, de 90 metros quadrados, há cadeiras de plástico para quem quer pegar uma cor e, à sombra, bares modestos que servem drinques, sucos enlatados, refrigerantes e sanduíches naturais. É ali também que os turistas recebem uma breve aula sobre mergulho com snorkel e cilindro e, depois, caem na água guiados por instrutores. Quem prefere evitar a "emoção" da viagem na lancha, pode chegar aos parrachos instalado num sereno catamarã, com capacidade para 120 pessoas. O barco segue preguiçosamente – leva 40 minutos até o destino -, mas lá dentro há cadeiras e se pode bebericar e comer, enquanto se observa o painel natural em volta.

O mergulho entre os corais, a propósito, é apenas o ápice de um dia inteiro de descontração. Nas areias de Maracajaú, saboreia-se peixes grelhados em pequenos restaurantes à sombra de coqueiros e o tíquete da traslado, cujo preço varia de 28 a 50 reais, dá direito ao café da manhã, com frutas tropicais e sucos. Lanchas e catamarãs também levam turistas para passear na baía de Maracajaú e em torno do farol Tereza Panci, erguido a dois quilômetros da costa sobre a pedra onde, na década de 1930, espatifou-se o navio de mesmo nome. O programa termina no Ma-Noa Park, um parque aquático inaugurado há um ano. Além de brinquedos típicos, entre os quais um tobogã de 25 metros, o Ma-Noa possui três piscinas e o restaurante mais sofisticado da região, o Sinfonia do Camarão, onde se come frutos do mar decentes e baratos.

O prazer do passeio a Maracajú pode começar bem antes da chegada à vila, caso o turista decida ir até lá de bugue, pela beira-mar. A viagem dura 2 horas, o dobro do tempo gasto no asfalto, mas o périplo por 15 praias emolduradas por coqueirais compensa. O encontro do rio Maxaranguape com o mar, na baía da Prainha, é uma cena impagável. O mesmo acontece com a visão da baía de Maracajaú do alto da duna do cabo de São Roque, o ponto do território brasileiro mais próximo da África.

Recentemente, o governo do estado criou a área de preservação ambiental dos parrachos, o que implica em controle da atividade turística na região. A palavra de ordem é preservar o bonito cenário presenteado pela natureza - e isso é bom. Significa a esperança de que, por muitos anos ainda, milhares, milhões de Pedros poderão sonhar em bisar a aventura no impressionante aquário do mar.

ANOTE AÍ

  • A maioria das agências de Natal oferece o passeio a Maracajaú. A Max Tour, tel. (0_84) 212-2707, usa vans e cobra 75 reais por pessoa. A Solis Turismo, tel. (0_84) 202-6000, opera com ônibus ao preço de 50 reais. Bugues, para quatro pessoas, custam 180 reais, mas o preço pode baixar se o turista negociar diretamente com o bugueiro.
  • As empresas que fazem o traslado até os parrachos têm pacotes variados. A Maracajaú Diver, tel. (0_84) 261-6200, e a Corais, tel. (0_84) 261-6313, usam lanchas e incluem o café da manhã no preço de 28 reais por pessoa. A Portal, tel. (0_84) 3081-3010, cobra 38 reais, mas o traslado é num catamarã que estica o passeio até à belíssima praia de Punaú. Na Cidade Bela, tel. (0_84) 207-7074, o pacote de 50 reais inclui almoço. Todas fornecem material para mergulho de superfície. O mergulho com cilindro é cobrado à parte e custa 35 reais por pessoa.
  • O passaporte no Ma-Noa Park, tel. (0_84) 223-9321, custa 15 reais. Em seu restaurante Sinfonia do Camarão, o prato forte é lagosta grelhada, flambada ao conhaque, com alcaparras, champion e arroz. Custa 36 reais e dá para três pessoas.

Que achou da reportagem acima? Tem algo a dizer ao autor? 
Envie agora sua mensagem (cite o título da matéria) para o jornalista Jomar Morais:

jmorais@abril.com.br


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