O desafio de Carmen e Luiz
Desde que se casaram, há quatro anos, o corretor de imóveis Luiz Antonio Ferreira e a arquiteta Carmen Lucia Cavalcanti, residentes em Recife, jamais discutiram por causa de um longo expediente na empresa ou de uma exigência a mais do chefe. Isso é coisa rara nesses tempos em que a rotina estressante do trabalho costuma abalar até os casamentos mais estáveis. Luiz, 38 anos, e Carmen, 29 , são profissionais autônomos e não precisam prestar contas a chefes ou a corporações. Eles fazem seu próprio horário e escolhem sua clientela. Dividem um mesmo escritório no centro de Recife. No ano passado, faturaram 75 000 reais, o equivalente a uma renda mensal de 6 250 reais. Nada mal, nada mal mesmo, para um jovem casal da classe média. Se é assim, por que então Luiz e Carmen não estão levando uma vida folgada?
Sobreviver como autônomo, longe do guarda-chuva de benefícios de uma empresa e sem a segurança de uma renda fixa, sempre foi um desafio recheado de muitos riscos. Na maioria das vezes, os prazeres da liberdade acabam anulados por incertezas e pelas instabilidades da batalha autônoma. No caso de Luiz e Carmen, a irregularidade das receitas, que não têm data para entrar, e o crescimento das dívidas, com dias certos para serem quitadas, levaram o casal a um estágio complicado na gestão do orçamento doméstico.
Luiz Antonio e Carmen Lucia se conheceram há dez anos. Na época , Luiz, administrador de empresas formado pela Universidade de Olinda, era dono da Refrios, uma empresa de varejo de frios e peixes. Carmen estudava arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco. O namoro durou quase sete anos, mas o casamento acabou ocorrendo às pressas porque Maria Luiza, a única filha do casal, hoje com 3 anos, já estava a caminho. E foi também apressadamente que os dois tiveram que arrumar um lugar para morar. Optaram por um apartamento de 60 metros quadrados em Madalena, bairro de classe média em Recife. Para pagar a entrada do imóvel, em torno de 15 000 reais, eles usaram suas próprias economias. O saldo foi financiado em 20 anos pela CEF e, enquanto a prestação era de 350 reais, tudo corria muito bem. Carmen gosta de recordar esses tempos. "Precisavamos de apenas 2 000 reais por mês para cobrir nossas despesas", diz. Em três anos, a situação mudou radicalmente.
Os gastos mensais da família agora rondam 5 000 reais -- aritmeticamente, portanto, ainda está abaixo da renda do casal. A cada mês deveriam sobrar mais de 1 000 reais. Mas isso só acontece na aritmética. Na vida real, a história é outra. Por serem autônomos, Luiz e Carmen alternam meses de renda superior às suas despesas com outros em que a receita chega próxima do zero - o que é um desafio cada vez mais difícil à sua capacidade de planejamento e administração. Por enquanto, o resultado tem sido o desequilibrio das contas domésticas. Há seis meses, por exemplo, eles não pagam a prestação do apartamento e estão metidos numa queda de braço com a Caixa Econômica para a redução de seu valor. Já desembolsaram mais de 30 000 reais com a moradia, e como se não bastasse o pulo da prestação, o saldo devedor cresceu para 50 000 reais. Algo assustador quando se considera que ainda faltam 15 anos para o fim do financiamento.
Na verdade, não há despesas supérfluas ou excêntricas na lista de gastos de Luiz e Carmen. Em alguns itens, elas estão abaixo das de outras famílias de mesmo padrão. "Nós só não economizamos com a educação da Maria Luiza", diz Carmen. A menina frequenta o maternal de uma das melhores escolas de Recife, a Recanto Infantil, o que custa aos pais 259 reais por mês. Outra coisa de que não abrem mão são os cuidados com a saúde. Um seguro da Sul América, que custa 220 reais mensais, garante à família a cobertura de médicos, exames e hospitais, inclusive a utilização sem limites de UTI. Há dois carros na garagem - um gol MI 98 e um Uno EP 96. Ambos consomem mensalmente cerca de 700 reais, com manutenção, combustível, IPVA e leasing. E mais 250 reais por mês com as contas dos dois telefones celulares. O casal tenta economizar em lazer, riscando de suas despesas as viagens e reduzindo a frequência em bares e restaurantes. A questão é que essas pequenas economias não conseguem evitar o sufoco. Não raro, as contas só fecham depois que a dupla recorre ao que Luiz Antonio chama de "o nosso outro salário": o cheque especial, a juros de 9,4% ao mês.
Os problemas de Carmen e Luiz começaram com a convergência de três fatos infelizes. Há dois anos, Luiz herdou uma dívida de 11 000 reais devido à falência de sua antiga empresa, a Refrios. Hoje, essa dívida está em 5 000 reais. Logo depois, sem a renda do comércio, a família deparou-se com outra grave dificuldade: o aumento acelerado da prestação do apartamento. Atrelado ao rendimento da caderneta de poupança, o valor da prestação dobrou já no primeiro ano. Em maio passado, chegou a 1 020 reais, três vezes mais do que no início. Por último, um novo prejuízo veio a acontecer, em parte devido a uma má decisão de Luiz. Para ajudar um amigo descapitalizado, ele aceitou participar de uma operação irregular com seu cartão de crédito. Os cheques dados em garantia pelo amigo eram todos sem fundos e para Luiz e Carmen sobrou mais uma dívida, de 10 000 reais (que hoje está em 5 000).
E agora, o que fazer? Luiz tornou-se corretor de imóveis. Carmen continuou com seu escritório de arquitetura. Mas a necessidade de cortar custos a levou para uma sala da pequena construtora Agam, de propriedade de seus pais, onde divide equipamentos e espaço com as corretagens de Luiz. O quadro realmente não é cor-de-rosa. Porém, o confronto entre gastos e receitas do casal deixa margem a algumas dúvidas. Pode-se indagar, por exemplo, por que uma dupla que faturou no ano passado 75 000 reais e teve despesas em torno de 60 000 reais por ano não conseguiu livrar-se de, pelo menos, parte de seu passivo. Um pouco mais de planejamento, com certeza, já teria reduzido a intensidade da crise. "Talvez por causa da irregularidade das receitas, não estamos conseguindo programar melhor a nossa vida", afirma Carmen. No último ano, apesar do desequilibrio das contas, o casal usou o superávit dos meses de boa renda para investir mais em conforto. Deixaram em segundo plano a questão das dívidas que agora os preocupa. É Carmen quem relaciona: foram usados 6 000 reais como entrada na aquisição de seu Gol 98 e mais 450 reais para equipar o carro com som e acessórios. Outros 3 300 reais foram empregados na troca dos móveis da sala do apartamento e na compra de computador, brinquedos e livros.
Na interpretação do casal, o centro dos seus problemas atuais é a situação de asfixia que acabou sendo gerada pela compra do apartamento. "Fomos imprudentes ao fechar o negócio", afirma Luiz."Não calculamos as prestações futuras nem lemos todas as cláusulas do contrato". O apartamento de Luiz e Carmen é simples e apertado. No mesmo prédio, eles poderiam alugar um outro semelhante por 450 reais, menos da metade do valor da prestação há seis meses. Não há sequer a alternativa da venda do imóvel. O casal já tentou essa saída, mas esbarrou na impossibilidade de convencer alguém a assumir um saldo devedor altíssimo. "Seria mais vantajoso perdermos tudo o que investimos, economizarmos o valor da prestação e formarmos uma nova poupança para adquirir outro imóvel, com financiamento direto do incorporador", afirma Carmen. "Nesse tipo de financiamento, as prestações podem até ser mais altas, mas a gente sabe que liquida a dívida em cinco anos."
O desequilibrio orçamentário obrigou o casal a diminuir a programação de lazer, mas não tirou de sua rotina os eventos sociais. "Vamos muito a casas de amigos, saímos à noite pelo menos três vezes por semana", diz Carmen. Tirando a cervejinha e o vinho do fim de semana, Luiz gosta mesmo é de ficar em casa. Sonha em desfrutar a aposentadoria, mas ainda não se planejou para isso. O casal não tem plano de previdência e sua única poupança é de 2 000 reais aplicados num plano de capitalização.
A sintonia do corretor e da arquiteta na gestão financeira da casa é quase perfeita. Carmen confirma que ambos têm os mesmos objetivos. Possuem contas conjuntas, no Banco do Brasil e no Bandeirantes, dividindo os talões de cheques e as atribuições para facilitar o controle das despesas. "Aqui, todo o dinheiro que entra é nosso e tudo o que se gasta também", afirma Carmen. Quase todos os projetos para o futuro são também comuns. O mais imediato,embora difícil de ser concretizado a curto prazo, é a compra de um apartamento maior.Independentemente do que for resolvido com a Caixa, eles pretendem mudar. "Nós queremos ter mais um filho", diz Carmen. "Precisamos de mais espaço",. Um dos sonhos de consumo da arquiteta é justamente ter na sua casa tudo o que costuma projetar para as casas de seus clientes: "Um estilo clean, prático, com design moderno, amplo e agradável." No apartamento atual, equipado com eletrodomésticos próprios de uma casa de classe média e dois aparelhos de ar-condicionado, o mobiliário quase não deixa espaço à circulação das pessoas. Luiz gostaria também de trocar seu sofrido Uno por um utilitário, para atender melhor seus clientes. Outro sonho é viajar pelo mundo. Até agora, o casal fez uma única viagem - a Nova York -, mas na condição de acompanhante da mãe de Luiz, que bancou as passagens. Carmen quer visitar uma irmã que mora na Austrália. Parece difícil, hoje - mas eles ainda são jovens e podem chegar lá.
O QUE FAZER
Para analisar os problemas financeiros de Carmen e Luiz, VOCÊ S.A. consultou Eduardo Bom Angelo, vice-presidente de previdência e investimentos da seguradora Cigna. Ouviu também Marco Túlio, gerente de mercado da Caixa Econômica Federal, em Recife, para saber o que eles devem fazer em relação ao seu financiamento imobiliário. Veja quais são as suas sugestões para que a vida da família pernambucana fique ainda melhor:
DEFINIR OBJETIVOS
Muitas famílias têm dificuldade em resolver seus problemas e realizar seus sonhos, pois não definem o que querem no curto, médio e longo prazos. "Carmen e Luiz precisam decidir com clareza o que querem para si e para Maria luiza", diz Bom Angelo. Um bom começo seria estabelecer seis objetivos de curto prazo. Ter alvos definidos ajuda a descobrir qual caminho deve ser percorrido para alcançá-los. Sem isso, qualquer medida que eles tomarem pode dar em resultado utópico no curto prazo, mas logo, logo o problema aparece de novo. E nada é definitivo. Eles devem revisar periodicamente os objetivos estabelecidos e mudar sempre que houver necessidade.
IMPLEMENTAR UM ORÇAMENTO DOMÉSTICO
Para atingir os objetivos estabelecidos, há necessidade de organização. Ter em mente quais são as suas despesas e as suas receitas, e qual a periodicidade delas. Eles sempre devem planejar olhando 12 meses à frente. Assim, poderão quantificar seus desejos e medir sua real capacidade de pagá-los. Não adianta apenas enumerar as contas passadas. Esse tipo de planejamento vai ajudar o casal a enxergar quais os meses bons e quais os ruins - uma informação fundamental para que saibam quando devem guardar para os períodos de vacas magras.
Para se organizar dessa forma, Carmen e Luiz podem fazer uma planilha no papel, usar alguma planilha eletrônica no computador ou comprar um dos softwares de gestão de finanças pessoais existentes no mercado. O money, da Microsoft e o Quicken, da Intuit, são os mais conhecidos. Eles certamente ajudarão a melhorar a visão que o casal tem da sua situação financeira. Tirar efetivo proveito deles, porém, requer disciplina, tempo e dedicação.
RESGATAR O PLANO DE CAPITALIZAÇÃO
O casal comete um erro muito comum no Brasil: deixa o dinheiro em aplicações financeiras que rendem juros muito menores do que os cobrados nas suas dívidas. Bom Angelo acha que Carmen e Luiz devem tirar a quantia que têm no plano de capitalização para cobrir o vermelho - mesmo que seja apenas parte dele. Devem dar prioridade para saldar a dívida que tem juros mais altos. No caso, precisam escolher entre a dívida da antiga empresa de Luiz, o cheque especial e o cartão de crédito. Ainda falando de juros: quando o casal fizer o planejamento proposto no item anterior, deve ver com atenção quanto está pagando de juros - deve decompor os extratos bacários e de cartão de crédito -, só assim vai perceber quanto dinheiro está jogando fora.
RENEGOCIAR O FINANCIAMENTO COM A CEF
O casal deve voltar à CEF. O ideal é que procurem a agência em que fizeram o financiamento e peçam a revisão da forma de reajustes das prestações. "Se houver algum erro, a CEF faz correções", diz Marco Túlio, da CEF. Segundo Túlio, as outras medidas que o casal poderia tomar são: renegociar o que eles estão devendo (pois estão sem pagar as prestações desde maio deste ano). Devem também propor uma mudança na forma de calcular o saldo devedor para o Sistema de Amortização Crescente, o Sacre. Com esse sistema, o saldo devedor fica liquidado assim que a última prestação é paga. Se Luiz e Carmen começarem a fazer um planejamento de seu orçamento, eles terão como guardar dinheiro (em tese, suas sobras mensais são de mais de 1 000 reais). Mesmo aplicações bem conservadoras ajudam a acumular uma quantia que pode ser muito útil se eles quiserem abater alguma parte da dívida no futuro. Se, por exemplo, eles fizerem uma poupança de 100 reais por mês (são apenas 25 reais por semana), em cinco anos terão aproximadamente 7 000 reais (supondo juros de 0,5% ao mês). Muitos bancos comerciais já têm fundos de investimentos que aceitam pequenas aplicações e que rendem mais do que a caderneta de poupança. Os fundos de renda fixa de 60 dias, por exemplo, renderam 2,5% em outubro.
CONTROLAR DESPESAS EXTRAS
Luiz e Carmen devem ser muito criteriosos com as suas despesas para detectar o que realmente é essencial e o que é supérfluo. O ideal é que eles tentem colocar no papel suas receitas e despesas nos últimos três meses e ver o peso de cada uma no orçamento. Não é fácil definir pelo casal o que ele deve cortar ou não. Isso vai depender do valor que Carmen e Luiz dão para cada item do seu orçamento. Mas a ordem é cortar o que julgarem menos importante até saldarem todas as suas dívidas.
RACIONALIZAR A UTILIZAÇÃO DOS CARROS
O casal deve passar por um período de racionalização do uso dos carros e pensar em vender o Uno - que já está quitado. Eles trabalham no mesmo lugar e podem revezar as visitas a clientes. Talvez seja mais barato usar um taxi do que pagar todos os gastos e encargos de mais um carro. O desejo de trocar o Uno por um utilitário deve ser deixado de lado até a situação melhorar.
VENDER UM DOS TELEFONES CELULARES
Dois telefones celulares, numa situação dessas? Talvez seja demais. Carmen poderia substituir o seu por um pager. Pode parecer um pouco radical demais, mas o fato é que cada real de despesas que eles diminuírem hoje fará difernça no futuro. Não há mágica para resolver os problemas financeiros é preciso tirar um pouco do conforto no curto prazo.
CONTRATAR SEGUROS PARA PROFISSIONAISLIBERAIS
Como os dois são autônomos, há um risco muito grande de diminuição de renda caso fiquem doentes ou, por qualquer outro motivo, tenham que ficar sem trabalhar. Os dois devem contratar um seguro que garanta uma renda diária. Essa medida não é de economia - na verdade, representa um gasto a mais. Um gasto fundamental para a saúde financeira do casal numa eventualidade. Carmen e Luiz têm rendas mensais de 3 000 reais, o equivalente a 100 reais por dia. Um seguro que garanta essa renda diária custa 31 reais na AGF, 39 reais na Porto Seguro e 43 reais na AIG, para citar três exemplos.
AUMENTAR A COBERTURA DO SEGURO DE VIDA
O ideal seria que, além da cobertura por perda de renda, Luiz aumentasse a cobertura de seu seguro de vida. Hoje, sua apólice é de 100 000 reais. Pelas contas de Bom Angelo, esse valor deveria ser de pelo menos o dobro. O suficiente para garantir um certo conforto para Carmen e Maria Luiza por uns três anos (o valor ideal é de 225 000 reais, 6 250 reais por 36 meses). Um seguro de vida para uma pessoa de 38 anos com cobertura de 225 000 reais custa 115 reais na Marítima Seguros, 157 reais na Sul América e 190 reais no CCF Seguros, para citar três exemplos (esses seguros incluem uma cobertura de metade desse valor no caso de morte de Carmen).
FAZER PLANO DE APOSENTADORIA COMPLEMENTAR
Primeiro o casal deve se
concentrar para ajustar a sua situação atual. Quando ela
melhorar e se estabilizar - o que deveria acontecer daqui a dois
anos -, Luiz deve fazer um plano de previdência privada. Se
começar quando tiver 40 anos, pensando em se aposentar aos 65
anos com uma renda de 4 200 reais (as empresas costumam calcular
70% da renda atual), vai ter altos desembolsos mensais. Na AGF
pagaria 559 reais por mês e no Itaú, 725 reais, por exemplo.
Quanto mais o tempo passar, maior será o desembolso. Se ele
tivesse começado aos 35 anos, pagaria 345 reais na AGF e 503
reais no Itaú.